← Série Atos dos Apóstolos

Estudo 35 (Atos 20.1–38) · O pastor pode cobrar para pregar? E por que Paulo, que tinha esse direito, não cobrava?

O pastor pode cobrar para pregar? Atos 20 responde duas vezes: o Senhor ordenou que quem prega viva do evangelho, e Paulo não usou esse direito. Estudo 35 da série expositiva em Atos: bispo, presbítero e pastor como três nomes do mesmo ofício em onze versículos, Êutico caindo do terceiro andar e voltando a viver entre duas refeições, os sete homens que viajavam com a coleta para que ninguém ficasse sozinho com o dinheiro, e a frase de Jesus que evangelho nenhum guardou.

Por Prof. Philippe Ávila·Atos 20.1–38·55 min de leitura·setembro de 2026

Esta exposição baseia-se na pregação realizada em 13 de setembro de 2026, na Escola de Fundamentos da Igreja Evangélica Batista, na Rua José Maria, nº 53, em Campo Grande (MS), Brasil.

Compartilhar
Panorama de um grande teatro antigo na encosta: fileiras de bancos de pedra em semicírculo, dois arcos de entrada abobadados nas laterais, muros de arrimo em blocos quadrados e, no alto da arquibancada, os restos de uma fortificação posterior; blocos caídos na grama à frente
O teatro de Mileto, o maior edifício da cidade onde o navio esperou. Os presbíteros de Éfeso andaram quase cinquenta quilômetros para chegar até aqui, e o navio ficou parado três ou quatro dias por causa disso. Paulo estava com pressa de alcançar Jerusalém antes de Pentecostes, e gastou esse tempo assim mesmo.
O teatro de Mileto, o maior edifício da cidade onde o navio esperou. Os presbíteros de Éfeso andaram quase cinquenta quilômetros para chegar até aqui, e o navio ficou parado três ou quatro dias por causa disso. Paulo estava com pressa de alcançar Jerusalém antes de Pentecostes, e gastou esse tempo assim mesmo.Bernard Gagnon · CC BY-SA 3.0 · via Wikimedia Commons
Neste artigo

Depois do tumulto, Paulo sai de Éfeso, e ninguém narra a despedida

Cessado o tumulto, Paulo mandou chamar os discípulos, e, tendo-os confortado, despediu-se, e partiu para a Macedônia. Havendo atravessado aquelas terras, fortalecendo os discípulos com muitas exortações, dirigiu-se para a GréciaAtos 20.1–2

O capítulo anterior terminou com uma cidade inteira gritando duas horas seguidas dentro de um teatro, e o versículo que abre este começa exatamente onde aquele parou, com uma frase que Lucas escreve quase fria: cessado o tumulto, Paulo chamou os discípulos, os confortou, despediu-se1 e partiu. Pare no tamanho do que está sendo resumido nessas poucas palavras. Paulo passou aproximadamente três anos em Éfeso2, e foram os mais frutíferos da vida dele: a sala de aula de Tirano que alcançou toda a Ásia, uma fogueira de cinquenta mil moedas de prata queimando livros de magia, sete exorcistas humilhados, uma igreja formada e presbíteros levantados de dentro dela. E a saída cabe em meia linha. Não há choro narrado, não há discurso de despedida, não há homenagem. Ele chamou, confortou, abraçou e foi.

Rua antiga em declive, pavimentada de lajes irregulares e ladeada por colunas de mármore branco de alturas desiguais; ao fundo, a fachada de dois pisos de um edifício romano em pedra clara, e morros secos atrás
A rua dos Curetes, em Éfeso, a via que descia do alto da cidade para a biblioteca e o porto. Paulo andou por ela durante três anos, e é por ela que ele sai na meia linha com que este capítulo começa. Lucas conta a saída em quatro verbos; a cidade que ficou para trás é esta.
A rua dos Curetes, em Éfeso, a via que descia do alto da cidade para a biblioteca e o porto. Paulo andou por ela durante três anos, e é por ela que ele sai na meia linha com que este capítulo começa. Lucas conta a saída em quatro verbos; a cidade que ficou para trás é esta.shankar s. · CC BY 2.0 · via Wikimedia Commons

E indo, repare no verbo que descreve o trabalho dele na Macedônia3, porque é verbo de professor e não de viajante: ele atravessa aquelas terras fortalecendo os discípulos com muitas exortações. Filipos, Tessalônica, Bereia: as igrejas macedônias da segunda viagem missionária, agora com alguns anos de vida e com os problemas que só aparecem depois que a novidade passa. O trabalho de plantar já ficou para trás; o que ele faz agora é o de sustentar, que rende menos histórias e custa mais. É o mesmo cuidado que ele descreve em outra carta como uma pressão diária, a preocupação com todas as igrejas (2 Coríntios 11.28), e é o que ele pede a Timóteo que faça depois dele, pregar a palavra a tempo e fora de tempo (2 Timóteo 4.2). Boa parte do ministério cristão é isto: voltar a lugares onde já se esteve, dizer outra vez o que já se disse, e não achar que isso é pouco.

Trecho de estrada romana com o calçamento original de blocos de pedra gastos e encaixados, correndo entre dois muros baixos de pedra e vegetação seca, sob céu claro
Um trecho conservado da Via Egnácia, a estrada romana que cortava a Macedônia de leste a oeste. É por esta pedra que passa o verbo do versículo 2: atravessar aquelas terras fortalecendo os discípulos. Filipos, Tessalônica e Bereia ficavam sobre ela, e refazer esse caminho a pé é o que Paulo escolhe quando desiste do navio.
Um trecho conservado da Via Egnácia, a estrada romana que cortava a Macedônia de leste a oeste. É por esta pedra que passa o verbo do versículo 2: atravessar aquelas terras fortalecendo os discípulos. Filipos, Tessalônica e Bereia ficavam sobre ela, e refazer esse caminho a pé é o que Paulo escolhe quando desiste do navio.Philipp Pilhofer · CC BY-SA 3.0 · via Wikimedia Commons

O que Lucas não contou sobre a Ásia, e Paulo contou por escrito

Vale parar já neste primeiro versículo, porque acontece aqui uma coisa rara em Atos e que vale a pena aproveitar até o fim4: Paulo escreveu sobre estes mesmos meses, e as cartas dele sobreviveram.

Lucas encerra Éfeso em meia linha, sem uma palavra sobre o que aquilo custou. Paulo conta o resto, escrevendo pouco depois, já da Macedônia. E sabemos onde ele estava porque a própria carta descreve o trajeto: ele saiu de Éfeso, subiu até Trôade esperando notícias de Corinto pela boca de Tito, não o encontrou ali e confessa que não teve descanso no espírito (2 Coríntios 2.12 e 13); então atravessou o mar para a Macedônia, e foi ali, só ali, que Tito finalmente chegou e o alívio veio (2 Coríntios 7.5 a 7)5. Quer dizer que 2 Coríntios foi escrita dentro do versículo que estamos lendo, nesses mesmos meses em que Lucas diz apenas que ele atravessou aquelas terras fortalecendo os discípulos:

Porque não queremos, irmãos, que ignoreis a natureza da tribulação que nos sobreveio na Ásia, porquanto foi acima das nossas forças, a ponto de desesperarmos até da própria vida. Contudo, já em nós mesmos, tivemos a sentença de morte, para que não confiemos em nós, e sim no Deus que ressuscita os mortos; o qual nos livrou e livrará de tão grande morte; em quem temos esperado que ainda continuará a livrar-nos.2 Coríntios 1.8–10

Leia devagar o que ele admite ali, porque é coisa que dificilmente se diria hoje de um púlpito, e repare primeiro no lugar do aperto: foi na Ásia6. Acima das nossas forças. A ponto de desesperarmos até da própria vida. O apóstolo que escreveu metade do Novo Testamento diz, por escrito, a uma igreja que antes o estava criticando, que passou por uma coisa que o quebrou. E ele diz que aquilo serviu para que “não confiemos em nós”. Não é consolo genérico. É um homem dizendo que o fundo do poço tinha um propósito e que o propósito foi tirar dele a última confiança que ainda tinha em si mesmo.

Três meses na Grécia e uma conspiração no porto: por que Paulo desfaz a própria rota

onde se demorou três meses. Tendo havido uma conspiração por parte dos judeus contra ele, quando estava para embarcar rumo à Síria, determinou voltar pela Macedônia.Atos 20.3

Da Macedônia ele desce para a Grécia7 (região da Acaia, no sul) e ali fica três meses, e Lucas não conta uma linha do que aconteceu nesse tempo. É uma das maiores lacunas do livro inteiro. Se a cronologia que se costuma montar estiver certa, foi nesse inverno8, hospedado em Corinto (capital da Acaia), que Paulo escreveu a carta aos Romanos9, o texto mais denso que ele deixou e o que mais moldou a teologia cristã depois dele. Lucas resume em cinco palavras o trimestre mais produtivo da história da doutrina. E isso diz alguma coisa sobre o que este livro está contando. Atos não é a biografia intelectual de Paulo, nem o registro das obras dele: é o relato do avanço da palavra. O que interessa ao narrador não é o que Paulo produziu naqueles três meses, e sim que ele estava a caminho de Jerusalém quando a viagem foi atravessada.

A própria carta aos Romanos entrega a data e o lugar. Ele está de partida para Jerusalém com a coleta, recomenda Febe, de Cencreia, que era o porto de Corinto, e manda saudações de Gaio, o hospedeiro dele, e de Erasto, tesoureiro da cidade. E o plano que ele descreve é exatamente o roteiro deste capítulo:

Mas, agora, não tendo já campo de atividade nestas regiões e desejando há muito visitar-vos, penso em fazê-lo quando em viagem para a Espanha, pois espero que, de passagem, estarei convosco e que para lá seja por vós encaminhado, depois de haver primeiro desfrutado um pouco a vossa companhia. Mas, agora, estou de partida para Jerusalém, a serviço dos santos. Porque aprouve à Macedônia e à Acaia levantar uma coleta em benefício dos pobres dentre os santos que vivem em Jerusalém.Romanos 15.23–26

Pare no que isso significa. A maior carta doutrinária do Novo Testamento foi escrita dentro de um espaço em branco de Atos, por um homem que estava esperando um navio e organizando uma entrega de dinheiro.

Grande laje de calcário encaixada num piso antigo, com letras latinas maiúsculas profundamente entalhadas e antes preenchidas com bronze, hoje vazias; a superfície é rachada e desgastada
A inscrição de Erasto, ainda no chão, ao lado do teatro de Corinto: ele custeou o calçamento em troca do cargo de edil. Paulo manda saudações de “Erasto, tesoureiro da cidade” no fim de Romanos, carta escrita justamente nestes três meses de que Lucas não conta nada. A pedra é o único nome desta lista que ainda se pode pisar.
A inscrição de Erasto, ainda no chão, ao lado do teatro de Corinto: ele custeou o calçamento em troca do cargo de edil. Paulo manda saudações de “Erasto, tesoureiro da cidade” no fim de Romanos, carta escrita justamente nestes três meses de que Lucas não conta nada. A pedra é o único nome desta lista que ainda se pode pisar.Ktiv · CC BY-SA 4.0 · via Wikimedia Commons

E há um pedido no fim daquele capítulo que é quase insuportável de ler depois de se saber como a história terminou:

Rogo-vos, pois, irmãos, por nosso Senhor Jesus Cristo e também pelo amor do Espírito, que luteis juntamente comigo nas orações a Deus a meu favor, para que eu me veja livre dos rebeldes que vivem na Judeia, e que este meu serviço em Jerusalém seja bem-aceito pelos santos; a fim de que, ao visitar-vos, pela vontade de Deus, chegue à vossa presença com alegria e possa recrear-me convosco.Romanos 15.30–32

E é aí que entra o detalhe que muda tudo: houve uma conspiração dos judeus contra ele quando estava para embarcar rumo à Síria, e por causa dela10 ele determinou voltar pela Macedônia. A viagem seria de navio, e naquela época do ano os navios que iam para a Síria estavam cheios de peregrinos judeus subindo para a festa em Jerusalém. Um homem marcado, no meio do mar, cercado por gente que o queria morto, e sem para onde correr durante dias. Não era um risco vago: era o cenário perfeito para um assassinato que ninguém investigaria. Ele desiste do barco e refaz por terra um caminho que já havia andado, o que custa semanas a mais numa viagem que já estava com o prazo apertado por causa de Pentecostes.

Ruínas baixas de alvenaria dentro da água rasa e transparente de uma enseada, com blocos alinhados formando cômodos submersos; a praia de seixos à esquerda e o mar aberto ao fundo
Cencreia, o porto oriental de Corinto, hoje com parte das construções dentro da água. Era daqui que partia o navio para a Síria, e é daqui que Paulo desiste de embarcar ao saber da conspiração. É também a cidade de Febe, a diaconisa que Paulo recomenda na carta que estava escrevendo nesses mesmos meses.
Cencreia, o porto oriental de Corinto, hoje com parte das construções dentro da água. Era daqui que partia o navio para a Síria, e é daqui que Paulo desiste de embarcar ao saber da conspiração. É também a cidade de Febe, a diaconisa que Paulo recomenda na carta que estava escrevendo nesses mesmos meses.Carole Raddato · CC BY-SA 2.0 · via Wikimedia Commons

Vale medir o custo dessa decisão, porque ele é maior do que parece. Lucas não dá distâncias, mas a geografia dá: em linha reta, de Corinto a Filipos são cerca de 430 km, e pelo caminho real, por terra, algo entre 650 e 700 km, subindo pelo istmo, passando por Mégara, pela região de Tebas, pela Tessália e por Larissa, entrando na Macedônia por Bereia, seguindo para Tessalônica e daí pela Via Egnácia, via Anfípolis, até Filipos. A uma marcha de 25 a 30 km por dia, são três a quatro semanas de estrada, e mais do que isso na prática, porque ele viajava com sete homens, carregando dinheiro de igreja e parando nas comunidades do caminho. O navio que ele deixou de tomar em Cencreia, o porto de Corinto, cobriria cerca de 1.300 km de mar em torno de duas semanas com vento razoável, e o deixaria perto de Jerusalém. Ele trocou duas semanas de mar por mais de um mês de caminhada, e depois de Filipos ainda enfrentou cinco dias de travessia até Trôade (Atos 20.6), contra os dois dias que a mesma rota levara anos antes com vento favorável (Atos 16.11).

Mosaico de parede em tons de ocre e azul: um navio de casco bojudo com vela quadrada enfunada e leme lateral, navegando diante de uma torre alta de vários andares que representa um farol
Um cargueiro romano de vela quadrada, o tipo de navio que fazia a linha para a Síria. É a viagem que Paulo abriu mão de fazer: duas semanas de mar trocadas por mais de um mês de estrada, porque o barco cheio de peregrinos era o lugar onde um homem marcado não teria para onde correr.
Um cargueiro romano de vela quadrada, o tipo de navio que fazia a linha para a Síria. É a viagem que Paulo abriu mão de fazer: duas semanas de mar trocadas por mais de um mês de estrada, porque o barco cheio de peregrinos era o lugar onde um homem marcado não teria para onde correr.Chappsnet · CC BY-SA 4.0 · via Wikimedia Commons

Sete homens e uma bolsa de dinheiro: quem eram os que viajavam com Paulo

Acompanharam-no [até à Ásia] Sópatro, de Bereia, filho de Pirro, Aristarco e Secundo, de Tessalônica, Gaio, de Derbe, e Timóteo, bem como Tíquico e Trófimo, da Ásia.Atos 20.4

Lucas para a narrativa para dar uma lista de nomes, e listas de nomes costumam ser puladas na leitura. Esta não pode ser. Conte os homens e repare de onde cada um vem: Sópatro, de Bereia, filho de Pirro; Aristarco e Secundo, de Tessalônica; Gaio, de Derbe; Timóteo, de Listra; e Tíquico e Trófimo, da Ásia11. Macedônia, Galácia, Ásia. Cada região que contribuiu para a coleta mandou um homem junto com o dinheiro. Alguns desses nomes reaparecem depois em circunstâncias que ajudam a medir o vínculo: Aristarco será companheiro de Paulo no naufrágio e depois na prisão de Roma, chamado por ele de meu companheiro de prisão (Atos 27.2; Colossenses 4.10); Tíquico levará as cartas aos efésios e aos colossenses e é chamado de fiel ministro no Senhor (Efésios 6.21; Colossenses 4.7); Trófimo, o efésio, será justamente o homem que os judeus acusarão Paulo de ter levado ao templo, dando o pretexto para a prisão em Jerusalém (Atos 21.29). Nenhum deles é figurante.

Dinheiro de igreja passa por muitas mãos: o cuidado que Paulo teve e que quase ninguém copia

Aqueles sete homens estavam viajando com uma quantia grande de dinheiro, recolhida durante anos nas igrejas gentílicas da Macedônia, da Acaia e da Galácia, para socorrer os cristãos pobres de Jerusalém. Paulo fala dessa coleta em quatro cartas diferentes, e nelas dá as instruções práticas: que a separação seja semanal e proporcional, no primeiro dia da semana cada um ponha de parte, segundo a sua prosperidade (1 Coríntios 16.2); que a entrega seja feita por homens aprovados pelas próprias igrejas, com carta (1 Coríntios 16.3); e que a oferta seja de vontade, não com tristeza nem por necessidade, porque Deus ama a quem dá com alegria (2 Coríntios 9.7).

Escrevendo aos coríntios sobre esse mesmo dinheiro, Paulo diz que envia companheiros junto evitando que alguém nos censure com referência a esta abundância que administram, porque, e aqui está a frase, “procuramos fazer o que é honesto, não somente diante do Senhor, mas também diante dos homens” (2 Coríntios 8.20-21). Leia isso de novo. Não bastava a Paulo ser honesto diante de Deus, que vê tudo. Ele organizou a viagem para que fosse impossível levantar suspeita, e a organização consistiu em nunca ficar sozinho com o dinheiro. Sete testemunhas, uma de cada província doadora, viajando com ele até a entrega. Se o dinheiro sumisse, ou se alguém dissesse que sumiu, haveria de cada região um homem escolhido pelos próprios doadores para responder.

A tentação do ministério nunca foi apenas roubar; é dispensar-se da prestação de contas em nome da confiança. Quem sustenta que não deve satisfação a ninguém porque só responde a Deus está dizendo exatamente o contrário do que Paulo praticou. O apóstolo que teve visões do terceiro céu, que escreveu metade do Novo Testamento e que podia invocar autoridade apostólica em qualquer discussão, preferiu montar uma comitiva de fiscais voluntários a andar sozinho com a bolsa.

E vale ver a instrução escrita, porque ela existe e é anterior a esta viagem. Aos coríntios, Paulo tinha mandado o procedimento por escrito12:

No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte, em casa, conforme a sua prosperidade, e vá juntando, para que se não façam coletas quando eu for. E, quando tiver chegado, enviarei, com cartas, para levarem as vossas dádivas a Jerusalém, aqueles que aprovardes.1 Coríntios 16.2–3

Três cuidados numa frase só, e os três continuam valendo. O dinheiro é separado em casa, antes, e não arrancado no calor da reunião. Quem leva é escolhido pelos doadores, e não pelo pregador: aqueles que aprovardes. E vai carta junto, que é o documento.

E a segunda carta explica a razão de tudo isso com uma franqueza que envergonha:

evitando, assim, que alguém nos acuse em face desta generosa dádiva administrada por nós; pois o que nos preocupa é procedermos honestamente, não só perante o Senhor, como também diante dos homens.2 Coríntios 8.20–21

A frase que decide é a última: não só perante o Senhor, como também diante dos homens. Não bastava a Paulo ser honesto diante de quem vê tudo. Ele montou a viagem para que fosse impossível levantar suspeita, e a montagem consistiu em nunca ficar sozinho com o dinheiro.

O “nós” volta em Filipos: Lucas reaparece na história depois de anos calado

estes nos precederam, esperando-nos em Trôade. Depois dos dias dos pães asmos, navegamos de Filipos e, em cinco dias, fomos ter com eles naquele porto, onde passamos uma semana.Atos 20.5–6

Perceba que agora a narrativa muda para primeira pessoa novamente. Até o versículo 4, Lucas escreve eles; a partir do 5, escreve nós13, como tinha acontecido em Atos 16 na cidade de Filipos: estes nos precederam, esperando-nos em Trôade; e nós, depois dos dias dos pães asmos14, navegamos de Filipos. E repare exatamente onde o autor volta a aparecer: em Filipos, que é a cidade em que ele havia sumido da narrativa, lá no capítulo 16. Entre um ponto e outro passaram-se anos. A leitura mais simples é que ele ficou ali durante todo esse tempo, cuidando daquela igreja, enquanto Paulo corria a Grécia e a Ásia. Isso é dedução minha a partir do silêncio, e não está escrito em lugar nenhum. Mas é o tipo de silêncio que fala alto.

Praça antiga escavada, com bases de colunas alinhadas e blocos de mármore espalhados sobre a terra batida; ao fundo, um morro alto e árido com muralhas no topo
A ágora de Filipos, com a acrópole ao fundo. É aqui que o “nós” de Lucas some, no capítulo 16, e é aqui que ele reaparece, anos depois, neste capítulo. A leitura mais simples do silêncio é que ele passou esse tempo todo nesta cidade, cuidando desta igreja.
A ágora de Filipos, com a acrópole ao fundo. É aqui que o “nós” de Lucas some, no capítulo 16, e é aqui que ele reaparece, anos depois, neste capítulo. A leitura mais simples do silêncio é que ele passou esse tempo todo nesta cidade, cuidando desta igreja.Ian W. Scott · CC BY-SA 3.0 · via Wikimedia Commons

Vale desenhar o trajeto, porque o versículo é comprimido. Os sete companheiros seguiram à frente e ficaram aguardando em Trôade, enquanto Paulo permaneceu em Filipos, e a razão mais provável é a festa: ele quis guardar ali a Páscoa e a semana dos pães asmos com aquela igreja antes de embarcar. Terminada a semana, ele e Lucas navegam de Filipos, o que na prática significa embarcar em Neápolis, o porto a uns quinze quilômetros da cidade, e a travessia do Egeu leva cinco dias até Trôade, onde o grupo se reúne outra vez e ainda passa sete dias.

E, mesmo com o prazo para a chegada da festa de Pentecostes chegando, ele para uma semana inteira em Trôade, provavelmente esperando o próximo navio, e é dentro dessa semana que acontece a noite de Êutico que vamos falar logo adiante. Trôade, para quem nunca situou a cidade no mapa, é Alexandria de Trôade, porto da província da Ásia na costa noroeste da Anatólia, perto da entrada dos Dardanelos e das ruínas da antiga Troia: o ponto de embarque entre a Ásia e a Macedônia, e o mesmo lugar onde Paulo tivera a visão do homem macedônio que levou o evangelho para a Europa (Atos 16.8-11).

Aliás, dá para medir a folga que ele tinha até a data dessa festa em Jerusalém, porque a contagem de Pentecostes é fixa: cinquenta dias a partir do dia seguinte ao sábado da semana dos ázimos (Levítico 23.15-16). Tomando o fim dos pães asmos como marco, a saída de Filipos acontece com cerca de quarenta e três dias pela frente; a chegada a Trôade, cinco dias depois, deixa uns trinta e oito; e a partida de Trôade, ao cabo da semana ali, deixa pouco mais de trinta.

Ruínas romanas de tijolo e pedra em meio a arbustos e pinheiros: paredes altas com arcos abertos e restos de abóbadas, sem telhado, tomadas de vegetação
As termas de Alexandria de Trôade, o porto onde Paulo passou sete dias esperando navio. Foi dentro dessa semana parada que aconteceu a noite de Êutico. É também a cidade em que, anos antes, ele vira em sonho o homem macedônio pedindo socorro.
As termas de Alexandria de Trôade, o porto onde Paulo passou sete dias esperando navio. Foi dentro dessa semana parada que aconteceu a noite de Êutico. É também a cidade em que, anos antes, ele vira em sonho o homem macedônio pedindo socorro.Elelicht · CC BY-SA 3.0 · via Wikimedia Commons

O primeiro dia da semana e o partir do pão: a notícia mais antiga do culto cristão

No primeiro dia da semana, estando nós reunidos com o fim de partir o pão, Paulo, que devia seguir viagem no dia imediato, exortava-os e prolongou o discurso até à meia-noite.Atos 20.7

Estavam reunidos, e era o primeiro dia da semana (domingo), com a finalidade de partir o pão Paulo pregou até tarde. Não há aqui mandamento para isso, não descreve liturgia, não usa a palavra culto e não chama o dia de dia do Senhor. É descrição, e não prescrição, e a distinção importa nos dois sentidos: quem quiser tirar daqui uma norma está tirando mais do que Lucas pôs; quem quiser negar que a igreja primitiva já se reunia nesse dia está negando o que ele registrou. A forma com que a igreja depois chamaria o domingo, “dia do Senhor” com o adjetivo grego kyriakḗ, só aparece uma vez no Novo Testamento, em Apocalipse 1.10, e se ali ela quer dizer o domingo, o sábado ou o dia do juízo é pergunta que tem estudo próprio: o “dia do Senhor” é o sábado ou o domingo?.

A cena em si não tem nada de solene no sentido que damos hoje à palavra. É um grupo de gente num cenáculo, à noite, com lamparinas acesas, comendo de verdade e ouvindo alguém falar até a madrugada. E Lucas ainda põe no fim do versículo uma nota melancólica que a leitura corrida atropela: Paulo prolongou o discurso porque devia seguir viagem no dia imediato. Ele fala demais porque não vai voltar.

Muitas lâmpadas no cenáculo, e um rapaz sentado na janela

Havia muitas lâmpadas no cenáculo onde estávamos reunidos. Um jovem, chamado Êutico, que estava sentado numa janela, adormecendo profundamente durante o prolongado discurso de Paulo, vencido pelo sono, caiu do terceiro andar abaixo e foi levantado morto.Atos 20.8–9

Lucas era médico, e médicos reparam em detalhes que os outros acham irrelevantes. Ele anota que havia muitas lâmpadas15 neste cenáculo do terceiro andar de uma casa, e a informação parece gratuita até você pensar no que ela significa: lamparinas de óleo, num aposento fechado e cheio de gente, no calor do fim da primavera, consomem o ar e o aquecem. A nota existe para explicar, sem dizer, por que um rapaz adormeceu. E o rapaz tem nome, Êutico16, e tem lugar: estava sentado numa janela, que é onde se senta quem chegou por último, ou quem procura ar. Lucas descreve a queda em duas etapas, como quem viu: primeiro adormecendo profundamente durante o prolongado discurso, depois vencido pelo sono, e então a queda.

Três lamparinas de barro cor de areia sobre fundo escuro, cada uma do tamanho da palma da mão, com o corpo arredondado, um furo no alto para o óleo e um bico alongado à frente para o pavio
Lamparinas de óleo do primeiro século, o objeto exato que Lucas conta no versículo 8. Muitas delas, num aposento fechado de terceiro andar cheio de gente, consomem o ar e o aquecem. O médico anota o detalhe e não explica: é a razão de o rapaz ter dormido, dita sem uma palavra de repreensão.
Lamparinas de óleo do primeiro século, o objeto exato que Lucas conta no versículo 8. Muitas delas, num aposento fechado de terceiro andar cheio de gente, consomem o ar e o aquecem. O médico anota o detalhe e não explica: é a razão de o rapaz ter dormido, dita sem uma palavra de repreensão.Gary Todd · Michael C. Carlos Museum · CC0 · via Wikimedia Commons

O primeiro dia da semana ainda não era feriado em lugar nenhum do império romano. Aquela reunião aconteceu à noite justamente porque a maior parte dos presentes tinha trabalhado o dia inteiro. Um moço que passou o dia em serviço, ficou de pé até tarde num quarto abafado e cheio de gente, e dormiu. Lucas não o repreende em momento nenhum. Paulo, muito menos.

Convém antecipar a objeção, porque ela é comum: o domingo como dia de descanso oficial é coisa muito posterior. Só em 7 de março de 321 Constantino determinou que juízes, moradores das cidades e oficinas repousassem no “venerável dia do Sol”, e ainda assim com exceção expressa para o trabalho no campo. Isso é quase três séculos depois desta noite em Trôade. No primeiro século o calendário oficial romano nem sequer trabalhava com semanas de sete dias: contava-se por ciclos de oito dias ligados ao dia de feira, e a semana planetária, com o dia do Sol, circulava na astrologia popular sem regular expediente nem lei. O único descanso semanal reconhecido naquela região era o sábado judaico, tolerado como privilégio das comunidades judaicas. Ou seja, reunir-se no primeiro dia da semana não era aproveitar uma folga: era tirar da própria noite o tempo que o dia não dava, e a escolha do dia era teológica, por causa da ressurreição, não uma comodidade de calendário.

Cabeça colossal de mármore branco, de vários metros de altura, exposta num pátio: olhos muito grandes voltados para cima, nariz quebrado, cabelo em mechas curtas e regulares
A cabeça colossal de Constantino, em Roma. Foi ele quem, em 321, tornou o primeiro dia da semana um dia de repouso oficial, quase três séculos depois desta noite em Trôade. Até ali, reunir-se no domingo não era aproveitar folga nenhuma: era tirar da própria noite o tempo que o dia de trabalho não dava.
A cabeça colossal de Constantino, em Roma. Foi ele quem, em 321, tornou o primeiro dia da semana um dia de repouso oficial, quase três séculos depois desta noite em Trôade. Até ali, reunir-se no domingo não era aproveitar folga nenhuma: era tirar da própria noite o tempo que o dia de trabalho não dava.Autoria desconhecida · CC0 · via Wikimedia Commons

Êutico cai do terceiro andar, e a ressurreição cabe entre duas refeições

Descendo, porém, Paulo inclinou-se sobre ele e, abraçando-o, disse: Não vos perturbeis, que a vida nele está. Subindo de novo, partiu o pão, e comeu, e ainda lhes falou largamente até ao romper da alva. E, assim, partiu. Então, conduziram vivo o rapaz e sentiram-se grandemente confortados.Atos 20.10–12

A queda é do terceiro andar, e Lucas fecha a frase com uma palavra sem meio-termo: foi levantado morto17. Não “como morto”, não “sem sentidos”, não “desacordado”. E o que Paulo faz em seguida repete um gesto que aquela gente conhecia da própria Escritura: ele desce, inclina-se sobre o rapaz e o abraça.

Mas repare no que Paulo faz depois, porque é aí que este episódio se separa de quase tudo o que se prega hoje sobre milagres. Ele diz a frase mais tranquila possível para o momento, não vos perturbeis, que a vida nele está, e volta a subir para terminar a reunião. Não anuncia um milagre. Não convoca a atenção da sala. Não interrompe o culto para uma demonstração. Não pede testemunho. Ele sobe, parte o pão, come, e ainda lhes fala largamente até ao romper da alva. A ressurreição de um morto cabe entre duas refeições, e o programa da noite não muda por causa dela.

E Lucas guarda o desfecho para o último versículo, com uma sobriedade que comove: conduziram vivo o rapaz e sentiram-se grandemente confortados. É a única vez em toda esta viagem que alguém volta dos mortos, e o texto lhe dá uma linha e meia. O extraordinário, em Atos, quase nunca é o assunto: é o que acontece enquanto o assunto acontece. A igreja não se reuniu para ver um milagre. Reuniu-se para partir o pão e ouvir a palavra, e no meio disso um menino caiu e voltou.

Por que os milagres de Atos quase nunca são o assunto do capítulo em que aparecem

Lê-se Atos como catálogo de prodígios, e sai-se da leitura perguntando por que a igreja de hoje não vê aquilo. A pergunta é legítima. O que está errado é a premissa, porque o próprio livro não trata os milagres como o assunto.

Observe como Lucas os narra e o padrão salta aos olhos. A ressurreição de Dorcas, em Jope, ocupa quatro versículos, e o que Lucas destaca é a reação: muitos creram no Senhor (Atos 9.36-42). A cura do coxo de nascença, à porta do templo, é narrada para servir de ocasião a um sermão, e o sermão é três vezes mais longo que o milagre (Atos 3). O terremoto que abre a prisão de Filipos não liberta ninguém: os presos ficam onde estão, e o que interessa ao narrador é a conversa do carcereiro no meio da noite (Atos 16.26-31). E quando Paulo e Barnabé são tomados por deuses em Listra depois de uma cura, a reação deles é rasgar as vestes e gritar que também são homens (Atos 14.14-15). Em todos os casos, o sinal aponta para fora de si mesmo, e quem o realiza empurra a atenção para longe.

A explicação do porquê está fora de Atos, e é dada em duas cartas com uma clareza que dispensa comentário. Aos hebreus, a função dos sinais é declarada: a salvação foi confirmada pelos que ouviram o Senhor, testificando Deus juntamente com eles, por sinais, prodígios e vários milagres (Hebreus 2.3-4). Aos coríntios, Paulo os chama pelo nome técnico: os sinais do meu apostolado foram operados entre vós (2 Coríntios 12.12). Ou seja: eram credenciais. Autenticavam a mensagem nova e o mensageiro num tempo em que não havia Novo Testamento escrito para conferir. E Marcos fecha o próprio evangelho com a mesma lógica, dizendo que o Senhor cooperava confirmando a palavra por meio dos sinais que a acompanhavam (Marcos 16.20). O sinal nunca foi o conteúdo: foi o carimbo sobre o conteúdo.

E há um dado desconfortável que precisa entrar aqui, porque a Escritura o registra sem nenhum embaraço. O mesmo Paulo que ressuscitou Êutico deixou Trófimo doente em Mileto (2 Timóteo 4.20). Recomendou a Timóteo um pouco de vinho por causa do estômago e das suas frequentes enfermidades, em vez de curá-lo (1 Timóteo 5.23). Epafrodito adoeceu e esteve à morte, e Paulo atribui a recuperação à misericórdia de Deus, não a um ato seu (Filipenses 2.25-27). E ele mesmo pediu três vezes que lhe fosse tirado o espinho na carne, e ouviu que não (2 Coríntios 12.8-9). O homem por cujas mãos Deus fazia milagres não comuns em Éfeso convivia com doença própria e alheia sem resolvê-la. Isso não é contradição: é a diferença entre um servo que tem poder e um servo que dispõe do poder. O poder nunca foi dele. Era emprestado, para uma finalidade, e usado quando o dono quisesse.

Paulo passa ao largo de Éfeso: por que evitar justamente a cidade onde tem mais amigos

Nós, porém, prosseguindo, embarcamos e navegamos para Assôs, onde devíamos receber Paulo, porque assim nos fora determinado, devendo ele ir por terra. Quando se reuniu conosco em Assôs, recebemo-lo a bordo e fomos a Mitilene; dali, navegando, no dia seguinte, passamos defronte de Quios, no dia imediato, tocamos em Samos e, um dia depois, chegamos a Mileto. Porque Paulo já havia determinado não aportar em Éfeso, não querendo demorar-se na Ásia, porquanto se apressava com o intuito de passar o dia de Pentecostes em Jerusalém, caso lhe fosse possível.Atos 20.13–16

Vem então um trecho de navegação que parece apenas técnico e não é. Lucas nomeia os cinco portos um a um, Assôs, Mitilene, Quios, Samos, Mileto, com a precisão de quem estava no barco contando os dias, e registra um detalhe curioso: Paulo foi a pé até Assôs, enquanto os outros navegavam. São uns trinta quilômetros por terra, e o texto diz que assim lhe fora determinado, sem explicar por quem nem por quê.

Sete colunas dóricas de pedra escura, de alturas diferentes e sem o entablamento, de pé sobre um platô rochoso coberto de blocos caídos e mato baixo; ao fundo, o mar e montanhas na bruma
O templo de Atena, no alto de Assôs, olhando para o mar. Paulo cruzou este promontório a pé, uns trinta quilômetros, enquanto os companheiros contornavam de navio. O texto não diz por quê. Diz só que assim lhe fora determinado, e essa é a última caminhada solitária que o livro lhe dá antes da prisão.
O templo de Atena, no alto de Assôs, olhando para o mar. Paulo cruzou este promontório a pé, uns trinta quilômetros, enquanto os companheiros contornavam de navio. O texto não diz por quê. Diz só que assim lhe fora determinado, e essa é a última caminhada solitária que o livro lhe dá antes da prisão.Dosseman · CC BY-SA 4.0 · via Wikimedia Commons

O que está escrito, e é a escolha mais estranha do capítulo, é que Paulo determinou não aportar em Éfeso. Pare nisso. Éfeso era onde ele tinha três anos de história, a igreja mais forte da região, os amigos mais próximos e a casa mais certa. Era, em todo aquele mapa, o lugar onde ele seria melhor recebido. E é exatamente o que ele contorna. Lucas dá um motivo, a pressa de chegar a Jerusalém para Pentecostes, e o capítulo inteiro sugere o segundo: se ele entrasse em Éfeso, não sairia tão cedo. Aquela igreja o amava demais para deixá-lo partir depressa.

Mas repare no que ele faz em lugar disso, porque é a solução de quem não quer abrir mão nem do prazo nem das pessoas: de Mileto ele manda chamar os presbíteros de Éfeso. São quase cinquenta quilômetros de distância, mais o tempo do recado ir e a comitiva voltar: três ou quatro dias, no mínimo, com o navio esperando. Ele não foi até eles; fez com que viessem, e pagou por isso em tempo, que era justamente o que ele estava tentando poupar. O que ele tinha para dizer valia a viagem.

Presbíteros que ele chama de bispos: dois nomes para os mesmos homens, em onze versículos

Antes de ouvir o discurso, vale reparar num detalhe de vocabulário que resolve sozinho uma discussão de séculos, e que está inteiro dentro deste capítulo. No versículo 17, Lucas escreve que Paulo mandou chamar os presbíteros da igreja de Éfeso. No versículo 28, dentro do mesmo discurso, dirigindo-se a esses mesmos homens, Paulo diz que o Espírito Santo os constituiu bispos18. E na mesma frase manda que eles pastoreiem19 o rebanho. Três palavras, onze versículos, e o mesmo grupo de pessoas.

E as três vêm de mundos diferentes, o que torna a sobreposição ainda mais eloquente. Presbítero é palavra da sinagoga e do conselho de anciãos de Israel, e quer dizer o mais velho: descreve quem a pessoa é. Bispo é palavra do vocabulário administrativo grego, e quer dizer o que olha por cima, supervisor: descreve o que a pessoa faz. Pastor é palavra do campo, e descreve como ela faz. Não são três degraus de uma escada: são três ângulos do mesmo ofício.

Vale parar e aprofundar isto, porque sobre essa distinção de palavras se construíram estruturas eclesiásticas inteiras, e porque a Escritura resolve a questão sem precisar de ajuda. Se presbítero e bispo fossem cargos distintos, com o segundo acima do primeiro, o Novo Testamento não poderia usá-los para as mesmas pessoas na mesma frase. E é exatamente o que ele faz, e não apenas aqui. Veja a instrução de Paulo a Tito:

Por esta causa, te deixei em Creta, para que pusesses em ordem as coisas restantes, bem como, em cada cidade, constituísses presbíteros, conforme te prescrevi: alguém que seja irrepreensível, marido de uma só mulher, que tenha filhos crentes que não são acusados de dissolução, nem são insubordinados. Porque é indispensável que o bispo seja irrepreensível como despenseiro de Deus, não arrogante, não irascível, não dado ao vinho, nem violento, nem cobiçoso de torpe ganância;Tito 1.5–7

Paulo manda constituir presbíteros, dá a qualificação deles, e emenda a justificativa com um porque: é indispensável que o bispo seja irrepreensível. A conjunção liga as duas palavras à mesma pessoa. Se fossem ofícios diferentes, o argumento não fecharia. Ali, o bispo é o presbítero, e a segunda palavra explica por que a primeira exige aquilo.

E Pedro faz a mesma coisa, com as três palavras juntas num só fôlego:

Rogo, pois, aos presbíteros que há entre vós, eu, presbítero como eles, e testemunha dos sofrimentos de Cristo, e ainda coparticipante da glória que há de ser revelada: pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho.1 Pedro 5.1–3

Pedro escreve a presbíteros, manda que pastoreiem, e o verbo grego que descreve o modo como devem fazê-lo é o mesmo de onde vem a palavra bispo, exercendo a supervisão.

O que sobra de tudo isso é uma conclusão simples e uma advertência. A conclusão: no Novo Testamento, presbítero, bispo e pastor não são três cargos, são três nomes do mesmo encargo, e ele é exercido por um grupo, não por um homem. A advertência é a de Pedro, e ela é dura: nem como dominadores dos que vos foram confiados. A palavra que ele usa é a de quem assenhoreia, exerce domínio, manda como dono. Foi exatamente contra isso que Jesus preveniu os doze, dizendo que entre eles não seria assim como entre os governantes das nações (Marcos 10.42-45). Quando o ofício vira degrau, o Novo Testamento já respondeu, e respondeu antes de a pergunta existir.

Três anos servindo com lágrimas e provações: o balanço que Paulo faz de si mesmo

E, quando se encontraram com ele, disse-lhes: Vós bem sabeis como foi que me conduzi entre vós em todo o tempo, desde o primeiro dia em que entrei na Ásia, servindo ao Senhor com toda a humildade, lágrimas e provações que, pelas ciladas dos judeus, me sobrevieram, jamais deixando de vos anunciar coisa alguma proveitosa e de vo-la ensinar publicamente e também de casa em casa, testificando tanto a judeus como a gregos o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus [Cristo].Atos 20.18–21

O discurso de Mileto tem uma característica que o separa de tudo o mais em Atos, e é bom saber disso antes de entrar nele: é o único sermão de Paulo dirigido a cristãos que Lucas registra por inteiro. Todos os outros são para judeus na sinagoga, para pagãos na praça ou para autoridades em tribunal. Este é para líderes de igreja, e por isso ele fala como quem já não precisa provar nada, e pode dizer as coisas difíceis.

E ele começa por um balanço do próprio trabalho que é, ao mesmo tempo, o trecho mais desconfortável de ler e o mais instrutivo. Ele os lembra de como viveu entre eles desde o primeiro dia, servindo ao Senhor com toda a humildade, lágrimas e provações, e de que jamais deixou de anunciar coisa alguma proveitosa, ensinando publicamente e também de casa em casa. Repare nas lágrimas, porque elas aparecem três vezes neste discurso (versículos 19, 31 e 37), e porque elas são a última coisa que se espera do retrato que fazemos dele. O homem que escreveu Romanos, que enfrentou filósofos em Atenas e procônsules em tribunais, é descrito por ele mesmo como alguém que serviu chorando. E não é exceção na obra dele: aos coríntios escreveu que lhes escrevera com muitas lágrimas (2 Coríntios 2.4), e aos filipenses falou dos inimigos da cruz chorando (Filipenses 3.18). A dureza doutrinária de Paulo nunca foi dureza de coração, e quem imita só a primeira metade está imitando outra pessoa.

Repare também na dupla frente do ensino, porque ela é um método: publicamente e de casa em casa. A sala de Tirano e a mesa da cozinha. O ensino público sem o particular produz multidão sem discípulo; o particular sem o público produz panelinha. Paulo fez os dois durante três anos. E note, por fim, como ele resume o conteúdo de tudo o que pregou em duas expressões: arrependimento para com Deus e fé em nosso Senhor Jesus. Dois movimentos, e nada além: virar as costas para uma coisa e confiar em outra. Não há terceira exigência, não há lista de condições. E note a quem ele pregou isso, porque é a briga que atravessa o livro inteiro desde o capítulo 15: tanto a judeus como a gregos. A mesma mensagem, sem duas portas.

“Constrangido em meu espírito, vou para Jerusalém”: a obediência que anda para a prisão

E, agora, constrangido em meu espírito, vou para Jerusalém, não sabendo o que ali me acontecerá, senão que o Espírito Santo, de cidade em cidade, me assegura que me esperam cadeias e tribulações. Porém em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus.Atos 20.22–24

O discurso vira para o futuro, e o que Paulo diz aqui é das coisas mais duras e mais serenas do Novo Testamento. Ele vai para Jerusalém constrangido em seu espírito, sem saber o que ali lhe acontecerá, sabendo apenas que o Espírito Santo, de cidade em cidade, lhe assegura que o esperam cadeias e tribulações. Repare que são duas coisas diferentes. O que o empurra é o próprio espírito dele, por dentro: constrangido, amarrado por uma convicção que ele já não consegue largar. O que o avisa é o Espírito Santo, de fora, e não uma vez só, mas de cidade em cidade. Um o move; o outro lhe diz o preço. E as duas vozes não se contradizem: Deus não escondeu dele o que vinha, e não o dispensou do caminho.

Em Tiro, os discípulos, pelo Espírito, diziam a Paulo que não fosse a Jerusalém (Atos 21.4). Em Cesareia, o profeta Ágabo amarrou-se com o cinto de Paulo e anunciou a prisão, e todos os presentes, Lucas incluído, rogaram que ele não subisse (Atos 21.11-12). Ele foi assim mesmo, e respondeu com a frase que fecha a discussão: estou pronto não só para ser preso, mas até para morrer em Jerusalém (Atos 21.13). Como conciliar um Espírito que constrange a ir com irmãos que, pelo Espírito, dizem para não ir? A leitura que me parece mais fiel ao texto é que o Espírito revelava a todos a mesma coisa, o sofrimento que vinha, e que os irmãos acrescentavam a essa revelação a conclusão do próprio amor, que era não ir. Isso é dedução minha; o texto não explica. Mas note o que ele registra no fim: quando não conseguiram persuadi-lo, calaram-se e disseram “faça-se a vontade do Senhor” (Atos 21.14). A igreja que insistiu foi também a igreja que soube parar.

E então vem a frase que resume a vida daquele homem, e é preciso lê-la com cuidado, porque ela costuma ser mal citada. Em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus. Note que ele não diz que a vida não vale nada. Diz que não a considera preciosa para si mesmo. A vida dele tem valor, e o valor está no que ela serve. É a mesma contabilidade que ele faz aos filipenses, dizendo que o viver é Cristo e o morrer é lucro, e que estava pressionado dos dois lados (Filipenses 1.21-24), e a mesma que fecha a última carta, combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé (2 Timóteo 4.7). E há uma palavra ali que vale desdobrar: o ministério que eu recebi. Ele não escolheu a tarefa, e por isso não pode negociá-la. Quem recebe um encargo de outro presta contas a esse outro. É a mesma estrutura que atravessa este livro do primeiro capítulo ao último: tudo o que se tem foi dado.

Completar a carreira: a mesma palavra, oito anos depois

A palavra que ele usa ali é do estádio20: no grego, drómon, a corrida, o percurso medido que se tem de terminar. E ela reaparece, na última carta que temos dele, num tempo verbal que muda tudo. Em Mileto: contanto que complete a minha carreira. É futuro, é condicional, é um homem no meio do trajeto sem saber se chega. Na cela de Roma, uns oito anos depois: completei a carreira. É passado, e é um homem que chegou. Entre uma frase e outra couberam o motim do templo, a prisão em Jerusalém, os quarenta homens do juramento, dois anos em Cesareia, quatro tribunais, o apelo a César, catorze dias de tempestade, um naufrágio, três meses em Malta e dois anos numa casa alugada. Tudo isso está entre o contanto que e o completei.

Vista aérea de um estádio antigo: uma faixa comprida de terra batida entre dois taludes de grama, com as linhas de pedra da partida e da chegada visíveis nas duas extremidades, cercada de árvores
O estádio de Olímpia, com as pedras de partida e de chegada ainda no lugar. A palavra que Paulo usa em Mileto, drómon, é daqui: o percurso medido que se tem de terminar. Em Mileto ele diz “contanto que complete”; oito anos depois, da cela de Roma, escreve “completei”.
O estádio de Olímpia, com as pedras de partida e de chegada ainda no lugar. A palavra que Paulo usa em Mileto, drómon, é daqui: o percurso medido que se tem de terminar. Em Mileto ele diz “contanto que complete”; oito anos depois, da cela de Roma, escreve “completei”.dronepicr · CC BY 2.0 · via Wikimedia Commons

E há um trecho, escrito da primeira prisão, em que ele expõe o cálculo inteiro que fazia sobre a própria vida, e vale ler porque é o avesso do instinto de todo mundo:

Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro. Entretanto, se o viver na carne traz fruto para o meu trabalho, já não sei o que hei de escolher. Ora, de um e outro lado, estou constrangido, tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor. Mas, por vossa causa, é mais necessário permanecer na carne.Filipenses 1.21–24

Repare no critério com que ele decide, porque não é o conforto nem sequer o desejo. Ele diz que quer ir, que ir é incomparavelmente melhor, e conclui que fica. E a razão é uma só: por vossa causa. É a mesma lógica de Atos 20.24, e é ela que explica por que um homem que anunciava a própria prisão continuava andando na direção dela. Ele não estava indiferente à vida. Estava com a conta feita, e na conta dele o que valia era terminar o percurso, não sobreviver a ele.

“Jamais deixei de vos anunciar todo o desígnio de Deus”: a pregação sem partes escondidas

Agora, eu sei que todos vós, em cujo meio passei pregando o reino, não vereis mais o meu rosto. Portanto, eu vos protesto, no dia de hoje, que estou limpo do sangue de todos; porque jamais deixei de vos anunciar todo o desígnio de Deus.Atos 20.25–27

Paulo diz então que nenhum deles verá mais o seu rosto21, e é por causa dessa frase que este capítulo tem o peso que tem. Tudo o que vem antes e depois está sob essa sombra. E logo em seguida ele faz uma declaração de aparência jurídica: estou limpo do sangue de todos, porque jamais deixei de vos anunciar todo o desígnio de Deus. A imagem não é invenção dele: vem inteira de Ezequiel, e quem a ouviu sabia disso.

Mas, se o atalaia vir que vem a espada e não tocar a trombeta, e não for avisado o povo; se a espada vier e abater uma vida dentre eles, este foi abatido na sua iniquidade, mas o seu sangue demandarei do atalaia. A ti, pois, ó filho do homem, te constituí por atalaia sobre a casa de Israel; tu, pois, ouvirás a palavra da minha boca e lhe darás aviso da minha parte.Ezequiel 33.6–7

Repare no que a figura do atalaia estabelece e no que ela não estabelece. O vigia não responde pela decisão de quem ouviu: responde por ter tocado ou não a trombeta. A obrigação dele é o aviso, não o resultado. Isso alivia e condena ao mesmo tempo. Alivia, porque o pregador não é responsável pela conversão de ninguém, e o próprio Paulo diz que um planta, outro rega, mas Deus é quem dá o crescimento (1 Coríntios 3.6-7). Condena, porque o silêncio tem preço, e o texto de Ezequiel o cobra em sangue. Note ainda que a sequência do capítulo faz a contrapartida: se o atalaia avisa e o povo não escuta, o sangue fica com quem não escutou (Ezequiel 33.9). A trombeta tocada limpa o vigia; a trombeta calada, não.

Bloco de pedra retangular com uma inscrição hebraica em letras quadradas gravadas em duas linhas, a face desgastada e lascada numa das pontas
A pedra do lugar do toque da trombeta, encontrada na base do muro do templo de Jerusalém: dali o sacerdote anunciava o começo e o fim do sábado. É o objeto por trás da figura de Ezequiel que Paulo usa em Mileto. O atalaia não responde por quem ouviu: responde por ter tocado, ou não ter tocado.
A pedra do lugar do toque da trombeta, encontrada na base do muro do templo de Jerusalém: dali o sacerdote anunciava o começo e o fim do sábado. É o objeto por trás da figura de Ezequiel que Paulo usa em Mileto. O atalaia não responde por quem ouviu: responde por ter tocado, ou não ter tocado.Andrey Zeigarnik · CC BY-SA 2.0 · via Wikimedia Commons

E a expressão decisiva do versículo 27 é todo o desígnio de Deus. Ele não escolheu o que agradava, não omitiu o que ofendia, não guardou para depois o que era difícil. Pregou o conjunto. E é aqui que este versículo cobra alguma coisa de quem ensina hoje, porque a tentação do púlpito quase nunca é mentir: é selecionar. Dá para passar anos dizendo apenas verdades e ainda assim esconder metade do desígnio de Deus, escolhendo sempre os temas que não custam nada e evitando sempre os que custam ouvintes. Paulo já havia avisado a Timóteo que viria o tempo em que não suportariam a sã doutrina, e ajuntariam mestres conforme os seus próprios desejos, tendo comichão nos ouvidos (2 Timóteo 4.3). Repare em quem toma a iniciativa naquele versículo: são os ouvintes que ajuntam mestres à sua medida.

“A igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue”: o versículo mais disputado do capítulo

Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue.Atos 20.28

Atendei por vós e por todo o rebanho: o cuidado começa por quem cuida, e essa ordem não é acidental. O Espírito Santo vos constituiu bispos: não foi a igreja que os elegeu, nem Paulo que os nomeou; a atribuição é reivindicada pelo Espírito, e isso põe o ofício fora do alcance da vaidade de quem o exerce. Para pastoreardes a igreja: a tarefa é de rebanho, não de empresa.

Esse versículo é um dos que mais aparecem na discussão sobre quem é Jesus, e o tratado sobre o Pai e o Filho o enfrenta por inteiro. A Escritura tem um modo próprio de falar de obras que Deus realiza por meio de outro, e nesse modo de falar a obra é atribuída a Deus sem que o instrumento deixe de ser o instrumento. Deus comprou a igreja. O sangue derramado foi o de Jesus. E porque a compra é de Deus, feita por meio do Filho que ele mesmo entregou, o sangue pode ser chamado dele.

Veja no próprio Paulo, escrevendo aos romanos: Deus “não poupou o seu próprio Filho, antes o entregou por todos nós” (Romanos 8.32). Quem entrega é o Pai; quem morre é o Filho; e a obra é creditada ao Pai. Aos coríntios ele diz que “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo” (2 Coríntios 5.19): a reconciliação é de Deus, e Cristo é aquele em quem ela se faz. Aos colossenses, que o Pai reconciliou todas as coisas “havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz” (Colossenses 1.20): o sujeito da paz é o Pai, o sangue é do Filho. E João resume a mesma estrutura numa linha: o amor é do Pai, e o dado é o Filho (João 3.16).

O mesmo modo de falar atravessa para a igreja. Paulo diz aos coríntios que somos embaixadores em nome de Cristo, “como se Deus por nós vos exortasse” (2 Coríntios 5.20): a boca é nossa, e quem roga é Deus. Diz também que o consolo com que consolamos os aflitos é o consolo que recebemos do “Deus de toda consolação” (2 Coríntios 1.3-4): a mão que enxuga é a nossa, e a consolação é dele.

É esse o peso que Paulo põe sobre os ombros deles ao se despedir, e é esse que sobra para quem hoje pastoreia: cuidem bem, porque isto aqui custou caro, e não custou o dinheiro de vocês, mas custou preço de sangue.

Lobos que entram de fora e homens que se levantam de dentro

Eu sei que, depois da minha partida, entre vós penetrarão lobos vorazes, que não pouparão o rebanho. E que, dentre vós mesmos, se levantarão homens falando coisas pervertidas para arrastar os discípulos atrás deles. Portanto, vigiai, lembrando-vos de que, por três anos, noite e dia, não cessei de admoestar, com lágrimas, a cada um.Atos 20.29–31

O aviso vem em duas partes. Primeiro, entrarão lobos vorazes que não pouparão o rebanho. Isso já é grave, mas é o perigo que todo mundo espera: o inimigo que vem de fora, e do qual Jesus já havia falado usando a mesma figura, acautelai-vos dos falsos profetas, que se vos apresentam disfarçados em ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores (Mateus 7.15). Mas então Paulo diz: e que, dentre vós mesmos, se levantarão homens falando coisas pervertidas para arrastar os discípulos atrás deles. Dentre vós mesmos. Ele está falando com os presbíteros, olhando na cara deles, e dizendo que alguns dos que ali estão farão isso.

Repare no alvo do estrago, porque a precisão importa. Não é “para roubarem o dinheiro”, nem “para destruírem a igreja”. É para arrastar os discípulos atrás deles. O verbo é de puxar, desviar a direção de alguém. O dano do falso mestre não é primeiro a heresia: é a transferência de lealdade. Ele não leva as pessoas para longe da verdade e depois para perto de si; leva primeiro para perto de si, e o resto vem junto, porque quem já entregou a lealdade aceita depois qualquer conteúdo. É o retrato que Pedro descreve com dureza, mestres que introduzirão encobertamente heresias destruidoras e que farão disso comércio por avareza (2 Pedro 2.1-3).

E a resposta de Paulo aos dois perigos não é uma estrutura, nem uma comissão de doutrina, nem um credo mais apertado. É uma palavra só: vigiai. E ele a sustenta com o próprio exemplo, na terceira menção às lágrimas: por três anos, noite e dia, não cessei de admoestar, com lágrimas, a cada um. Cada um. Um por um, durante três anos, de noite e de dia. É o antídoto que ele oferece contra os lobos, e é desconcertante de tão simples: conhecer as ovelhas pelo nome e falar com elas. Nenhuma organização substitui isso, e foi por isso que ele ensinou de casa em casa, e não só na sala de Tirano. É a mesma palavra que Pedro usa ao mandar estar sóbrio e vigilante, e que Tiago transforma em ordem de não sair do lugar: resistir ao diabo nunca significou gritar com ele.

A profecia se cumpriu, e Paulo viveu o bastante para ver

Este aviso não ficou no plano da hipótese, e é possível acompanhar o cumprimento dele nas cartas, ano após ano. Os de fora ele já tinha descrito aos coríntios, e a descrição é das mais duras:

Porque os tais são falsos apóstolos, obreiros fraudulentos, transformando-se em apóstolos de Cristo. E não é de admirar, porque o próprio Satanás se transforma em anjo de luz. Não é muito, pois, que os seus próprios ministros se transformem em ministros de justiça; e o fim deles será conforme as suas obras.2 Coríntios 11.13–15

Guarde o verbo que se repete três vezes: transformando-se, se transforma, se transformem. O lobo do versículo 29 não chega uivando. Chega com credencial. E os de dentro, que era o pior dos dois perigos, ganharam nome próprio nas cartas a Timóteo, que era o homem deixado justamente em Éfeso22:

Além disso, a linguagem deles corrói como câncer; entre os quais se incluem Himeneu e Fileto. Estes se desviaram da verdade, asseverando que a ressurreição já se realizou, e estão pervertendo a fé a alguns.2 Timóteo 2.17–18

Repare na doutrina que eles ensinavam, porque ela é sofisticada e não grosseira: a ressurreição já se realizou. Não negaram a ressurreição; anteciparam-na. É exatamente o que Paulo anunciou em Mileto, gente falando coisas pervertidas para arrastar discípulos atrás de si, e não gente negando o evangelho de frente. E há uma frase, na última carta, que é a mais pesada de todas para quem acabou de ler este capítulo:

Estás ciente de que todos os da Ásia me abandonaram; dentre eles cito Fígelo e Hermógenes.2 Timóteo 1.15

Éfeso é a principal cidade da província da Ásia, e é dali que vinham os homens que choraram na praia de Mileto. A frase é generalizante e não convém esticá-la além do que diz. Mas ela diz o bastante: o homem que os avisou dos lobos escreveu, anos depois, que os da Ásia o tinham deixado. E é preciso ler o versículo seguinte, porque a Escritura não deixa a frase sozinha. Logo depois vem Onesíforo, que muitas vezes lhe deu ânimo, nunca se envergonhou das algemas dele, procurou-o em Roma até encontrar, e a quem Paulo lembra com esta frase: e tu sabes, melhor do que eu, quantos serviços me prestou ele em Éfeso.

E há um último elo nessa corrente, escrito quando Paulo já estava morto havia décadas. O Cristo ressurreto dita uma carta à igreja de Éfeso, e a primeira coisa que ele elogia é exatamente aquilo que Paulo mandou fazer em Mileto:

Conheço as tuas obras, tanto o teu labor como a tua perseverança, e que não podes suportar homens maus, e que puseste à prova os que a si mesmos se declaram apóstolos e não são, e os achaste mentirosos; e tens perseverança, e suportaste provas por causa do meu nome, e não te deixaste esmorecer. Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor. Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras; e, se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas.Apocalipse 2.2–5

Compare com o versículo 29 deste capítulo. Paulo avisou que entrariam lobos cruéis, e que dentre eles mesmos se levantariam homens falando coisas pervertidas. A carta de Apocalipse diz que a igreja pôs à prova os que se dizem apóstolos e não são, e os achou mentirosos. O aviso foi ouvido. Aquela gente que chorou na praia levou a advertência para casa, ensinou a igreja a examinar credencial, e uma geração depois o próprio Senhor certifica que o exame foi feito e deu resultado.

Mas o elogio vem com ressalva, e a ressalva é séria: abandonaste o teu primeiro amor. É possível acertar inteiramente no discernimento e perder o afeto pelo caminho. A igreja que aprendeu a farejar lobo aprendeu também, sem perceber, a desconfiar de tudo, e o Senhor a chama de caída, manda lembrar de onde caiu, arrepender-se e voltar às primeiras obras, sob pena de ter o candeeiro removido do lugar.

Fachada de dois andares de uma biblioteca romana em ruínas, com colunas emparelhadas sobre pedestais, frontões triangulares e curvos alternados no piso de cima e nichos vazios de estátuas entre as colunas
A biblioteca de Celso, em Éfeso. É a cidade que recebeu as três coisas deste capítulo: os presbíteros que ouviram o aviso em Mileto, a carta que Tíquico trouxe da prisão de Roma e, uma geração depois, a carta do próprio Cristo no Apocalipse. A igreja aprendeu a examinar credencial, como Paulo mandou, e perdeu o primeiro amor pelo caminho.
A biblioteca de Celso, em Éfeso. É a cidade que recebeu as três coisas deste capítulo: os presbíteros que ouviram o aviso em Mileto, a carta que Tíquico trouxe da prisão de Roma e, uma geração depois, a carta do próprio Cristo no Apocalipse. A igreja aprendeu a examinar credencial, como Paulo mandou, e perdeu o primeiro amor pelo caminho.Benh LIEU SONG · CC BY-SA 3.0 · via Wikimedia Commons

A resposta de Paulo ao problema inteiro está na carta que ele escreveu àquela mesma igreja, anos depois, da prisão, e que chegou lá pelas mãos de Tíquico, um dos sete nomes do versículo 4 deste capítulo:

E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro.Efésios 4.11–14

A defesa contra o vento de doutrina não é uma comissão nem um muro: são pastores e mestres, e o trabalho deles é descrito no versículo 12 sem ambiguidade nenhuma. Não é atender a igreja; é aparelhar a igreja para que ela mesma faça o serviço. Um rebanho que não foi ensinado é rebanho que vai atrás de qualquer voz, e foi disso que Paulo se despediu avisando em Mileto.

De que vive um pregador? O direito que Paulo tinha e escolheu não usar

Agora, pois, encomendo-vos ao Senhor e à palavra da sua graça, que tem poder para vos edificar e dar herança entre todos os que são santificados. De ninguém cobicei prata, nem ouro, nem vestes; vós mesmos sabeis que estas mãos serviram para o que me era necessário a mim e aos que estavam comigo. Tenho-vos mostrado em tudo que, trabalhando assim, é mister socorrer os necessitados e recordar as palavras do próprio Senhor Jesus: Mais bem-aventurado é dar que receber.Atos 20.32–35

Paulo encaminha o fim entregando aqueles homens a alguém, e a quem ele os entrega é a primeira lição do trecho: encomendo-vos ao Senhor e à palavra da sua graça. Não a uma instituição, não a um sucessor, não a si mesmo, não a um sistema de governo. Ao Senhor, e ao que ele disse. É a mesma dupla que ele deixará a Timóteo na última carta, a Escritura inspirada e útil para ensinar, repreender, corrigir e educar (2 Timóteo 3.16-17). A igreja de Éfeso não vai ficar sem Paulo e sem nada: vai ficar com Deus e com o texto.

Depois vem o trecho que soa quase defensivo, e vale parar aqui e aprofundar, porque poucos assuntos causam mais confusão na igreja hoje do que o sustento de quem prega. Paulo mostra as próprias mãos e diz que elas serviram para o que lhe era necessário e também aos que estavam com ele. Aquelas mãos faziam tendas em Corinto, na oficina de Áquila e Priscila (Atos 18.3), e provavelmente faziam tendas em Éfeso (o texto não nos é explícito), o que significa que a sala de Tirano funcionava depois do expediente dele. Ele não sustentava apenas a si: sustentava a equipe.

Ora, por que ele precisa dizer isso a homens que o conheciam havia três anos? Porque o mundo antigo estava cheio de mestres itinerantes que viviam de discípulos, e a suspeita era o preço natural da profissão. Paulo derruba a suspeita com o único argumento que ela não resiste, que é o calo. E o mesmo cuidado aparece em cada lugar onde ele plantou igreja:

Porque, vos recordais, irmãos, do nosso labor e fadiga; e de como, noite e dia labutando para não vivermos à custa de nenhum de vós, vos proclamamos o evangelho de Deus.1 Tessalonicenses 2.9

Mas aqui é preciso ter muito cuidado, porque é fácil torcer esse exemplo até ele dizer o contrário do que Paulo ensina. O mesmo apóstolo que trabalhou com as próprias mãos defende, com todas as letras, o direito do pregador de viver do evangelho, e o defende como ordenança do Senhor:

Se nós vos semeamos as coisas espirituais, será muito recolhermos de vós bens materiais? Se outros participam desse direito sobre vós, não o temos nós em maior medida? Entretanto, não usamos desse direito; antes, suportamos tudo, para não criarmos qualquer obstáculo ao evangelho de Cristo. Não sabeis vós que os que prestam serviços sagrados do próprio templo se alimentam? E quem serve ao altar do altar tira o seu sustento? Assim ordenou também o Senhor aos que pregam o evangelho que vivam do evangelho;1 Coríntios 9.11–14

Leia isso devagar. Primeira: o direito existe, e não é concessão da igreja, é ordenança do Senhor. Segunda: Paulo tinha esse direito em grau maior que os outros, e ele o afirma sem falsa modéstia. Terceira: ele não usou o direito, e não usou por um motivo declarado, que não foi humildade nem desprezo pelo dinheiro: foi para não criar obstáculo ao evangelho. Era uma decisão de estratégia missionária num ambiente específico, e não uma regra universal. Tanto é que ele recebeu ofertas com alegria de outras igrejas: os filipenses lhe mandaram sustento mais de uma vez, e ele chama aquilo de cheiro suave, sacrifício aceitável e agradável a Deus (Filipenses 4.15-18), e escreve aos coríntios que despojou outras igrejas, recebendo salário delas, para servir aos de Corinto (2 Coríntios 11.8).

Junte as duas pontas e a doutrina fica clara. Contra quem despreza o obreiro: quem prega tem direito de viver do evangelho, o Senhor ordenou assim, e a igreja que deixa o seu pastor na miséria está desobedecendo. Contra quem transforma o ministério em negócio: o direito existe para ser usado com temor, pode ser abdicado quando atrapalhar, e nunca é o motivo. As qualificações do presbítero em Tito e em Timóteo dizem duas vezes a mesma coisa, que ele não seja cobiçoso de torpe ganância (Tito 1.7; 1 Timóteo 3.3), e Pedro repete a advertência aos presbíteros, nem por sórdida ganância (1 Pedro 5.2). A Escritura defende o sustento do obreiro e vigia o coração dele com a mesma intensidade, e quem cita só metade está usando a Bíblia para o que ela não se presta.

“Mais bem-aventurado é dar que receber”: a frase de Jesus que evangelho nenhum registra

E o discurso fecha com uma citação, e aqui acontece uma coisa que vale parar para admirar. A frase que Paulo cita como palavra do próprio Senhor Jesus não está em nenhum dos quatro evangelhos. Nem em Mateus, nem em Marcos, nem em Lucas, nem em João. É a mais famosa das ágrafa23, as palavras de Jesus preservadas fora deles: mais bem-aventurado é dar que receber.

Pare no que isso implica, porque é maior do que parece. Havia palavras de Jesus circulando entre os discípulos que não entraram nos livros, e o próprio João diz isso ao fechar o seu evangelho, que muitas outras coisas Jesus fez, e, se cada uma delas fosse escrita, nem no mundo inteiro caberiam os livros (João 21.25). E note o modo como esta em particular nos chegou: Paulo a cita diante de homens que conviveram com ele três anos e que poderiam contradizê-lo na hora, e Lucas, que investigou tudo desde a origem, a registra. É o melhor selo de autenticidade que uma frase antiga pode receber.

E repare no lugar em que ela aparece, porque não é um lugar qualquer. Paulo acabou de falar de dinheiro, de mãos calejadas e de socorrer os necessitados, e é aí que ele coloca a palavra do Senhor. A frase não está num sermão sobre generosidade em abstrato: está no fim de uma prestação de contas. E ela inverte a régua com que aquele mundo, e o nosso, mede a bem-aventurança. Bem-aventurado, na boca de Jesus, nunca foi quem acumula. Foi o pobre de espírito, o que chora, o manso, o que tem fome de justiça, o misericordioso, o perseguido (Mateus 5.3-10). Esta ágrafa cabe perfeitamente naquela lista, e talvez seja por isso que ela soou autêntica a quem a ouviu de Paulo: já conheciam a voz.

De joelhos na praia, e o que mais doeu na despedida

Tendo dito estas coisas, ajoelhando-se, orou com todos eles. Então, houve grande pranto entre todos, e, abraçando afetuosamente a Paulo, o beijavam, entristecidos especialmente pela palavra que ele dissera: que não mais veriam o seu rosto. E acompanharam-no até ao navio.Atos 20.36–38

O discurso acaba e Lucas narra o resto sem uma palavra a mais do que o necessário. Paulo se põe de joelhos e ora com todos eles. Repare no lugar: uma praia, em Mileto, com um navio esperando. Não é templo, não é sinagoga, não é sequer uma casa. Um grupo de homens adultos ajoelhado na areia. E repare também na postura, porque o ajoelhar-se, embora natural para nós, não era a posição mais comum de oração naquele mundo, em que se orava de pé. Lucas registra os joelhos em momentos assim: Estêvão ajoelha-se antes de morrer (Atos 7.60), Pedro ajoelha-se antes de chamar Dorcas (Atos 9.40), e o próprio Jesus ajoelhou-se no Getsêmani (Lucas 22.41). É a postura de quem já não está pedindo, e sim entregando.

E então a cena que fecha o capítulo: houve grande pranto entre todos, e, abraçando afetuosamente a Paulo, o beijavam. Lucas usa o verbo do abraço que se dá agarrando o pescoço, o mesmo do pai que corre ao encontro do filho pródigo (Lucas 15.20), e a palavra do beijo de despedida, que era saudação comum entre irmãos naquele mundo e que as cartas mandam praticar (Romanos 16.16). E note quem está chorando: são os mesmos presbíteros a quem, minutos antes, ele havia dito que alguns deles se tornariam falsos mestres. Ele avisou, chorou e foi abraçado, e as três coisas couberam na mesma hora.

E Lucas termina com uma frase de uma delicadeza rara em todo o livro. Ele diz o que, de tudo, os deixava entristecidos especialmente: não a viagem perigosa, não as cadeias anunciadas, não os lobos prometidos, não a doutrina difícil. Era a palavra que ele dissera sobre não mais lhes verem o rosto. O que doeu não foi a teologia do discurso. Foi o rosto. Aquela gente ia sentir falta de um homem, e o Espírito Santo achou por bem que isso ficasse registrado na Escritura.

Notas

1. No grego, ἀσπασάμενος (aspasámenos), do verbo que serve tanto para saudar quanto para despedir-se. É a mesma palavra do abraço de chegada e do de partida, e Lucas a usa aqui para fechar três anos de convivência numa única linha.

2. Atos 20.31: “por três anos, noite e dia, não cessei de admoestar, com lágrimas, a cada um”. A conta fecha com o relato de Lucas em Atos 19: três meses na sinagoga (19.8), dois anos na escola de Tirano (19.10) e mais um tempo indeterminado na Ásia (19.22). Paulo arredonda o total em 20.31; cf. Atos 20.18, “desde o primeiro dia em que entrei na Ásia”.

3. A Macedônia era província romana na Europa, na península balcânica, correspondente hoje ao norte da Grécia e à Macedônia do Norte; Éfeso ficava na Ásia, capital de fato da província romana da Ásia, no litoral oeste da Anatólia. Sair de uma para a outra era mudar de continente: cerca de 250 km costeando a Ásia até Trôade e mais uns 200 km de travessia do mar Egeu até Neápolis, o porto de Filipos, dois dias de navegação com vento favorável (Atos 16.11) e cinco dias contra o vento (Atos 20.6). De Neápolis seguia-se pela Via Egnácia, a estrada romana que cortava a província de leste a oeste. Em linha reta, de Éfeso a Tessalônica são cerca de 500 km. As igrejas macedônicas eram três: Filipos (Atos 16.12–40), Tessalônica (Atos 17.1–9) e Bereia (Atos 17.10–14), as mesmas que Paulo chama de “as igrejas da Macedônia” em 2 Coríntios 8.1, ao elogiar a generosidade delas na coleta. Tessalônica era a capital da província e Filipos tinha o estatuto de colônia romana (Atos 16.12); Anfípolis e Apolônia aparecem apenas como cidades de passagem na Via Egnácia (Atos 17.1), e a fronteira ocidental daquela pregação é o Ilírico (Romanos 15.19). Três dos companheiros de viagem deste capítulo vinham dali: Sópatro, de Bereia, e Aristarco e Segundo, de Tessalônica (Atos 20.4).

4. Este capítulo tem uma particularidade que quase nenhum outro de Atos tem: o próprio protagonista escreveu sobre os mesmos meses, e as cartas dele sobreviveram. 1 e 2 Coríntios e Romanos cobrem, de dentro, o período que Lucas resume em três versículos. Ler os dois relatos juntos é o mais perto que se chega de ouvir a mesma história contada pelo historiador e pela testemunha.

5. Entre 1 e 2 Coríntios houve uma ida a Corinto que Atos não registra. Paulo diz em 2 Coríntios 12.14 e 13.1 que aquela seria a terceira vez que iria, e Atos narra só uma até então; e em 2 Coríntios 2.1 ele resolve não voltar a eles “com tristeza”, o que pressupõe uma visita anterior terminada mal, a chamada visita dolorosa. A sequência inteira, juntando Atos e as cartas, fica assim: fundação da igreja, com ano e meio na cidade (Atos 18.1–18); uma carta hoje perdida, anterior a 1 Coríntios (1 Coríntios 5.9, “já vos escrevi”); 1 Coríntios, escrita de Éfeso (1 Coríntios 16.8, “ficarei em Éfeso até o Pentecostes”); a visita dolorosa; a carta severa, escrita com muitas lágrimas e também perdida (2 Coríntios 2.3 e 4; 7.8), levada por Tito; 2 Coríntios, escrita da Macedônia, provavelmente de Filipos, por volta de 55 ou 56 d.C.; e por fim a terceira visita, que são os três meses na Grécia de Atos 20.2 e 3, quando ele escreve Romanos. Vale notar que 2 Coríntios 8 e 9 são justamente as instruções sobre a coleta, e é esse dinheiro que os sete homens de Atos 20.4 estão transportando.

6. “Na Ásia” é a província romana cuja cidade principal era Éfeso, e a expressão indica o lugar do aperto, não as igrejas envolvidas. A província, porém, tinha várias: as do vale do Lico, Colossos, Laodiceia e Hierápolis, nascidas do período efésio por meio de Epafras, a ponto de Paulo dizer que aqueles irmãos nunca viram o seu rosto (Colossenses 1.7; 2.1; 4.13–16); Trôade, com igreja reunida em Atos 20.6–12; Mileto, na mesma costa (Atos 20.15–17); e as sete de Apocalipse 2 e 3, Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia, todas asiáticas. Que Paulo pensava a província no plural, ele mesmo diz duas vezes: “as igrejas da Ásia vos saúdam”, escrito de Éfeso durante esses anos (1 Coríntios 16.19), e, anos depois, pelo lado triste, “todos os da Ásia me abandonaram” (2 Timóteo 1.15). Atos 19.10 explica o mecanismo: a sala de Tirano fez com que todos os habitantes da Ásia ouvissem a palavra, de modo que Éfeso era base de irradiação e não terminal. É possível, portanto, que a notícia do livramento tenha corrido por essa rede toda, e o versículo seguinte reforça isso ao pedir que muitos participem pela oração e pela gratidão (2 Coríntios 1.11). O que o texto não autoriza é nomear quais igrejas: Paulo escreve “na Ásia” e para aí.

7. Não havia uma unidade política chamada Grécia. Roma dividia aquele território nas províncias da Macedônia, ao norte, e da Acaia, ao sul, esta com capital em Corinto. Quando Lucas escreve Grécia aqui e Acaia noutros lugares, fala da mesma região por dois nomes, um popular e outro administrativo.

8. A datação é inferência, não afirmação de Lucas. Ela se apoia em três dados convergentes: Paulo está em Filipos “depois dos dias dos pães asmos” (Atos 20.6), isto é, imediatamente após a Páscoa, de modo que os três meses anteriores caem entre dezembro e fevereiro; ele corre para chegar a Jerusalém no dia de Pentecostes (Atos 20.16), cinquenta dias depois da Páscoa; e a navegação no Mediterrâneo ficava interrompida de meados de novembro até março, dado que Lucas conhece bem, pois em Atos 27.9-12 a navegação já era perigosa e a tripulação discute onde invernar. Reforça a leitura o fato de a conspiração surgir justamente “quando estava para embarcar rumo à Síria” (Atos 20.3), ou seja, no instante em que os navios voltaram a sair, e o próprio Paulo usar esse vocabulário de invernada em 1 Coríntios 16.6 e Tito 3.12.

9. A cronologia usual situa nesses três meses, em Corinto, a redação da carta aos Romanos. É dedução de datas, não afirmação do texto, mas explica por que aquela carta fala tanto da coleta para os santos de Jerusalém e do plano de ir a Jerusalém e depois a Roma, que é exatamente o plano deste capítulo. Paulo está de partida para Jerusalém com a coleta, recomenda Febe, de Cencreia, que era o porto de Corinto, e manda saudações de Gaio, seu hospedeiro, e de Erasto, tesoureiro da cidade. Os três nomes são de Corinto ou dos arredores dela

10. “Síria” não é um destino alternativo a Jerusalém, mas a direção da travessia: Jerusalém fica no interior e não tem porto, de modo que quem vinha da Grécia embarcava para a costa siro-palestina e subia por terra. Lucas usa a expressão exatamente nesse sentido: quando a travessia por mar finalmente acontece, “navegamos para a Síria e chegamos a Tiro” (Atos 21.3), e de Tiro a viagem segue por Ptolemaida e Cesareia até Jerusalém (Atos 21.7-8,15); o mesmo já se lera em Atos 18.18,22. Acrescente-se que a província romana da Síria englobava administrativamente a Judeia, governada por um procurador subordinado ao legado sírio.

11. A “Ásia” é a província romana no litoral oeste da Anatólia, hoje Turquia, cuja cidade principal era Éfeso, e que incluía também Mileto, Trôade, Esmirna, Pérgamo, Colossos, Laodiceia e Hierápolis. Repare que Lucas mistura os critérios na lista: identifica uns pela cidade (Sópatro, de Bereia; Gaio, de Derbe) e outros pela região (Aristarco e Segundo como tessalonicenses, Tíquico e Trófimo como asiáticos), porque o que a relação registra não é biografia, e sim a representação das regiões que contribuíram para a coleta. A cidade de Trófimo aparece um capítulo depois, e no pior momento possível: em Atos 21.29 ele é “Trófimo, o efésio”, e é essa identificação que desencadeia o tumulto no templo. Tíquico nunca recebe cidade em texto algum, mas as cartas o mostram sempre como portador de correspondência daquela mesma província (Colossenses 4.7; Efésios 6.21; 2 Timóteo 4.12; Tito 3.12).

12. A coleta para os santos de Jerusalém atravessa quatro cartas: 1 Coríntios 16.1-4, 2 Coríntios 8 e 9 inteiros, Romanos 15.25-28 e Gálatas 2.10. Nenhum outro projeto prático ocupa tanto espaço na correspondência de Paulo, e Lucas o resume numa lista de sete nomes.

13. Sobre os trechos em que a narrativa passa para a primeira pessoa do plural, ver a aula de introdução. Aqui o nós reaparece em Filipos, exatamente onde havia parado no capítulo 16, o que sugere que o autor ficara naquela cidade durante os anos intermediários.

14. Os dias dos pães asmos são a semana da Páscoa judaica, em que não se come pão fermentado. Lucas continua marcando o tempo pelo calendário de Israel, e volta a fazê-lo poucas linhas adiante ao mencionar Pentecostes. É o modo de escrever de quem tem em vista leitores que vivem dentro desse calendário.

15. A palavra é λαμπάδες (lampádes), lamparinas de óleo. Num aposento fechado e cheio, elas consomem o ar e o aquecem. Quem já passou uma noite num quarto assim entende o sono do rapaz sem precisar de explicação moral nenhuma.

16. O nome Êutico, Εὔτυχος, quer dizer afortunado, de boa sorte, e era comum entre escravos e libertos. O detalhe ajuda a imaginar quem estava naquela sala e por que um rapaz cansado de um dia inteiro de trabalho adormeceria durante a pregação.

17. Lucas escreve que Êutico foi levantado morto, νεκρός (nekrós), sem qualquer ressalva, e só depois vem a frase de Paulo sobre a vida estar nele. Há quem leia o conjunto como se o rapaz apenas parecesse morto. O médico que escreve não deixa essa porta muito aberta: ele usa a palavra dura, e a usa antes de contar o desfecho.

18. Presbítero, πρεσβύτερος, quer dizer literalmente o mais velho, e vem do conselho de anciãos de Israel e da sinagoga. Bispo, ἐπίσκοπος, quer dizer o que olha por cima, supervisor, e vem do vocabulário administrativo grego. As duas palavras nascem de mundos diferentes e, neste capítulo, designam os mesmos homens.

19. O verbo é ποιμαίνειν (poimaínein), pastorear, cuidar do rebanho, e dele vem o substantivo pastor. No Novo Testamento essa palavra aparece muito mais como verbo e como função do que como cargo: é coisa que se faz antes de ser título que se usa.

20. No grego de Atos 20.24, δρόμον (drómon), corrida, percurso, palavra do estádio. É a mesma que ele usa em 2 Timóteo 4.7 ao dizer que completou a carreira, e o verbo ali está no tempo de quem já terminou. Entre uma frase e outra vão uns oito anos.

21. A carta a Timóteo supõe Paulo dando instruções sobre Éfeso depois deste capítulo (1 Timóteo 1.3), o que muitos entendem como sinal de que ele foi solto em Roma e voltou à região. Se foi assim, ele reviu alguns daqueles rostos. O texto de Atos 20 não diz isso, e a reconstrução é de cronologia, não de afirmação bíblica.

22. Himeneu aparece duas vezes: em 1 Timóteo 1.20, entregue a Satanás junto com Alexandre, e em 2 Timóteo 2.17, ao lado de Fileto. São nomes de dentro, não de fora, e é exatamente a categoria que Atos 20.30 anuncia.

23. Chamam-se ágrafa as palavras atribuídas a Jesus que não constam de nenhum dos quatro evangelhos. Esta de Atos 20.35 é a mais famosa e a mais bem atestada, porque vem citada por Paulo diante de testemunhas que o poderiam contradizer.

Citar este artigo: Prof. Philippe Ávila. “Estudo 35 (Atos 20.1–38) · O pastor pode cobrar para pregar? E por que Paulo, que tinha esse direito, não cobrava?.” Bereano, set. 2026.© Prof. Philippe Ávila. Conteúdo protegido por direitos autorais. A reprodução é permitida apenas de forma parcial, sempre com citação do autor e da fonte (bereano.com).

Continue lendo

Ver o acervo →
Atos dos Apóstolos

Estudo 36 (Atos 21.1–40) · A mulher pode ser pastora? E Paulo desobedeceu ao aviso do Espírito Santo?

Atos 21 explicado: a mulher pode ser pastora, o que Paulo quis dizer com “as mulheres estejam caladas” e se ele desobedeceu ao aviso do Espírito. Estudo 36 da série em Atos: Tiro e Cesareia, as quatro filhas de Filipe que profetizavam, Ágabo e o cinto de Paulo, os milhares de judeus zelosos da lei, o voto de nazireado e o motim no templo que pôs o apóstolo em cadeias.

Atos 21 · 75 min
Atos dos Apóstolos

Estudo 34 (Atos 19.1–41) · Por que Paulo rebatizou doze discípulos? É bíblico?

Atos 19: em Éfeso o demônio conhecia a Jesus e a Paulo, mas não os sete que invocavam o nome, e a cidade queimou os livros de magia numa fogueira. Estudo 34 da série expositiva em Atos: os doze discípulos que não sabiam do Espírito Santo, o batismo de João, os dois anos na escola de Tirano e o tumulto do ourives Demétrio no teatro de Diana.

Atos 19 · 62 min
Atos dos Apóstolos

Estudo 31 (Atos 15.36–16.40) · Dois homens verdadeiramente de Deus podem brigar e se separar?

Atos 16: o chamado macedônio, a conversão de Lídia à beira do rio, a escrava com espírito de píton e o carcereiro de Filipos batizado de madrugada. Estudo 31 da série expositiva em Atos: a separação entre Paulo e Barnabé, a entrada de Timóteo, os cânticos à meia-noite e o terremoto, o dia em que o evangelho cruzou para a Europa. “Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e a tua casa.”

Atos 16 · 72 min

Deixe um comentário

Sua mensagem é enviada diretamente ao autor por e-mail – não é publicada no site. Veja como os dados são tratados na política de privacidade.