De Atenas a Corinto: o que Paulo foi encontrar na cidade de pior fama da Grécia
Antes de seguir com Paulo, volte comigo ao ponto onde o capítulo anterior nos deixou. Atos 17 terminou no Areópago, no coração de Atenas, a cidade mais culta do mundo, o templo das ideias. Ali Paulo pregou o mais límpido dos seus sermões sobre Deus: o Criador que não mora em templos, que dá a todos a respiração, em quem vivemos e nos movemos e existimos; e o homem que Deus ressuscitou e destinou para julgar o mundo. E a resposta de Atenas foi um retrato de três reações: uns zombaram, outros adiaram, “a respeito disso te ouviremos ainda outra vez”, e alguns poucos creram, entre eles Dionísio, um juiz do Areópago, e uma mulher chamada Dâmaris. A cidade da sabedoria ouviu o evangelho e, em sua maioria, deu de ombros. Nenhuma igreja foi plantada ali. Paulo deixa Atenas sem alarde, quase em silêncio, e desce sozinho para a cidade seguinte.
E que cidade era essa? Se Atenas era o cérebro da Grécia, Corinto era o seu corpo, e um corpo entregue aos apetites. Repare no contraste, porque ele molda tudo o que vem a seguir. Paulo sai da capital da filosofia e chega à capital do comércio e do vício. Cerca de 78 quilômetros a oeste de Atenas, Corinto era uma metrópole portuária, rica, cosmopolita, cheia de marinheiros, mercadores e viajantes de todo o império. Reconstruída por Roma um século antes, era jovem, próspera e sem as velhas tradições que refreavam outras cidades. E era famosa, tristemente famosa, pela imoralidade. No alto da cidade erguia-se o templo de Afrodite, a deusa do amor, com suas sacerdotisas de prostituição sagrada. O nome da cidade virara verbo: “corintizar” significava viver na devassidão. Era o lugar onde menos se esperaria que o evangelho pegasse raiz. E é justamente ali que Paulo vai ficar mais tempo do que em qualquer lugar até então, um ano e seis meses, e ali vai nascer uma das igrejas mais importantes e mais problemáticas de toda a sua história. Deus não tem medo de Corinto.
Um decreto do imperador expulsou um casal de Roma, e foi assim que Paulo achou seus maiores aliados
Depois disto, deixando Paulo Atenas, partiu para Corinto. Lá, encontrou certo judeu chamado Áquila, natural do Ponto, recentemente chegado da Itália, com Priscila, sua mulher, em vista de ter Cláudio decretado que todos os judeus se retirassem de Roma. Paulo aproximou-se deles. E, posto que eram do mesmo ofício, passou a morar com eles e ali trabalhava, pois a profissão deles era fazer tendas.Atos 18.1–3
Veja como Deus prepara o terreno antes de Paulo chegar, e como a sua providência costuma vir vestida de coincidência. Paulo chega a Corinto sozinho, sem os companheiros, numa cidade imensa e estranha, e “acha” um casal de judeus, Áquila e Priscila. A palavra parece casual, mas nada ali é acaso. Note por que eles estavam em Corinto: tinham sido expulsos de Roma. O imperador Cláudio, por volta do ano 49, ordenara que todos os judeus deixassem a capital, e o historiador romano Suetônio registra que a expulsão se deu por causa de tumultos instigados por um tal “Chrestus”, quase certamente uma referência distorcida a Cristo, sinal de que o evangelho já dividia a comunidade judaica de Roma. Ou seja: uma decisão política brutal, que desalojou um casal e o jogou a centenas de quilômetros de casa, foi exatamente o que os pôs no caminho de Paulo. O que para eles foi desenraizamento e perda, Deus usou como semeadura. A mão que os expulsou de Roma os plantou ao lado do apóstolo.
E repare no que une os três, porque aqui há uma lição bonita sobre o trabalho. Paulo passou a morar com eles e ali trabalhava, porque eram do mesmo ofício: todos faziam tendas, σκηνοποιοί (skēnopoioí), um trabalho manual duro, de cortar e costurar couro e tecido de pelo de cabra. Pare nisto: o maior teólogo da história do cristianismo era um artesão que trabalhava com as próprias mãos. Todo rabino judeu aprendia um ofício, pois a tradição ensinava que o estudo da Torá deveria andar junto com um trabalho, para não fazer da religião um meio de vida. E Paulo levava isso a sério. Em Corinto, ele não vivia de esmola; sustentava-se com o suor das mãos, montando tendas de dia para pregar de noite e nos sábados. Mais tarde ele lembraria aos coríntios que não quis lhes ser pesado, que trabalhou “com fadiga e canseira, muitas vezes em vigílias” e que trabalhou com as próprias mãos (2Co 11.27; 1Co 4.12). O evangelho que ele pregava de graça, ele o sustentava com calos nas mãos.
Se nós vos semeamos as coisas espirituais, será muito recolhermos de vós bens materiais? Se outros participam desse direito sobre vós, não o temos nós em maior medida? Entretanto, não usamos desse direito; antes, suportamos tudo, para não criarmos qualquer obstáculo ao evangelho de Cristo.1 Coríntios 9.11–12
“O vosso sangue seja sobre a vossa cabeça”: o dia em que Paulo virou as costas para a sinagoga
E todos os sábados discorria na sinagoga, persuadindo tanto judeus como gregos.Atos 18.4
O método é o de sempre, fiel como um relógio: todos os sábados ele discorria na sinagoga. Enquanto durava a semana, Paulo costurava tendas com Áquila; quando chegava o sábado, ele estava na sinagoga, discorrendo, διελέγετο (dielégeto), a mesma palavra de raciocínio e diálogo que vimos em Tessalônica e em Atenas, e persuadindo gregos e judeus. Note que a sinagoga de Corinto, como as outras, tinha os dois públicos: os judeus e os gregos tementes a Deus. E Paulo trabalhava os dois, sábado após sábado, argumentando a partir das Escrituras que Jesus é o Cristo. Mas era um trabalho solitário e cansativo, até que chega um reforço que muda o seu ânimo.
Quando Silas e Timóteo desceram da Macedônia, Paulo se entregou totalmente à palavra, testemunhando aos judeus que o Cristo é Jesus.Atos 18.5
Veja o que a chegada dos companheiros faz com Paulo. Silas e Timóteo, que haviam ficado para trás na Macedônia firmando as igrejas novas (At 17.15), finalmente descem para Corinto, e trazem duas coisas. Trazem notícias animadoras das igrejas, é o que se lê nas cartas aos tessalonicenses (1Ts 3.6), escritas justamente daqui, de Corinto. E trazem também uma ajuda financeira, provavelmente dos filipenses, aquela igreja nascida na casa de Lídia, que permitiu a Paulo abrandar o trabalho de tendas e dedicar-se mais inteiramente à pregação.
E sabeis também vós, ó filipenses, que, no início do evangelho, quando parti da Macedônia, nenhuma igreja se associou comigo no tocante a dar e receber, senão unicamente vós outros; porque até para Tessalônica mandastes não somente uma vez, mas duas, o bastante para as minhas necessidades. Não que eu procure o donativo, mas o que realmente me interessa é o fruto que aumente o vosso crédito.Filipenses 4.15–17
E o texto diz que Paulo, por conta disso, se entregou totalmente à palavra. Algumas versões trazem “ocupava-se inteiramente com a palavra”, “totalmente absorvido”. A presença dos irmãos e o alívio da necessidade libertaram Paulo para se entregar de corpo e alma ao anúncio do evangelho. Aprenda com isso: até o maior dos apóstolos era fortalecido pela companhia dos irmãos e aliviado pela ajuda deles. Ninguém carrega a obra sozinho sem sentir o peso; e a chegada dos que nos ajudam é, muitas vezes, o que nos reacende.
Opondo-se eles e blasfemando, sacudiu Paulo as vestes e disse-lhes: Sobre a vossa cabeça, o vosso sangue! Eu dele estou limpo e, desde agora, vou para os gentios.Atos 18.6
E então vem a ruptura, e ela é solene. À medida que Paulo se entrega à pregação, a oposição endurece: os judeus, em bloco, passam a resistir e a blasfemar, opondo-se e insultando o nome de Jesus. E Paulo faz um gesto carregado de significado: sacudiu as vestes. Era um ato profético, herdado do próprio costume judaico, sacudir a poeira das roupas para dizer: não tenho mais nada com isto, a responsabilidade não é mais minha. É parente do gesto que Jesus mandara os discípulos fazerem onde não fossem recebidos, sacudir o pó dos pés (Lc 9.5). E as palavras que Paulo pronuncia vêm diretamente do profeta Ezequiel: o vosso sangue seja sobre a vossa cabeça; eu estou limpo.
Pare e entenda o peso dessa frase, porque ela vem de uma página tremenda das Escrituras. Deus dissera a Ezequiel que ele era um atalaia, uma sentinela posta sobre a muralha para avisar o povo do perigo. E a regra era esta: se o atalaia avista a espada e não toca a trombeta para avisar, o povo morre, mas Deus pedirá o sangue do povo das mãos do atalaia. Mas se o atalaia avisa, e o povo não dá ouvidos, então o povo morre por sua própria culpa, e o atalaia livrou a sua alma (Ez 33.1-6). É exatamente isso que Paulo está dizendo. Ele soou a trombeta em Corinto, sábado após sábado; avisou, persuadiu, testificou. Ao rejeitarem, o sangue deles recai sobre a própria cabeça deles, não sobre a de Paulo. Não é raiva; é a declaração dolorosa de um sentinela que cumpriu o seu dever e viu o aviso ser desprezado. E a consequência prática: desde agora ele parte para os gentios. Não que abandonasse os judeus para sempre, na cidade seguinte ele voltaria à sinagoga, mas naquela cidade, naquele momento, ele vira a página e dirige a sua força para os gentios, que a recebiam com sede. Onde a porta se fecha com blasfêmia, Deus abre outra, mais larga.
Quem foram Priscila e Áquila? A parceria que reaparece em três cidades do império
Vale parar a narrativa e seguir de perto esse casal que Deus pôs no caminho de Paulo, porque a história de Áquila e Priscila é uma das mais bonitas do Novo Testamento sobre parceria no serviço a Deus, e sobre o lugar que o evangelho deu a homens e mulheres lado a lado na obra. Eles aparecem seis vezes nas páginas do Novo Testamento, e cada aparição os mostra no mesmo lugar: ao lado, sempre servindo, sempre juntos.
Comece pelo que já vimos: eram um casal comum, artesãos, fabricantes de tendas, desalojados de Roma por um decreto imperial. Nada neles chamava a atenção do mundo, nem riqueza, nem título, nem posição. E, no entanto, Deus fez desse casal simples um dos pilares da igreja primitiva. Repare no padrão da vida deles: onde quer que estivessem, abriam a casa. Em Corinto, hospedaram Paulo e trabalharam com ele. Em Éfeso, para onde o acompanharam, tinham uma igreja reunida em sua casa (1Co 16.19). De volta a Roma, anos depois, de novo uma igreja se reunia na casa deles (Rm 16.5). A casa daquele casal era, aonde fossem, um lar do evangelho, um ponto de encontro, um abrigo. Não pregavam de púlpitos famosos; abriam a porta e punham a mesa, e ao redor dessa mesa nascia igreja.
E note a coragem com que serviram, porque Paulo registra uma dívida impressionante. Escrevendo aos romanos, ele diz de Priscila e Áquila que eles expuseram a própria cabeça pela vida dele, e que não somente ele lhes é grato, mas também todas as igrejas dos gentios (Rm 16.3-4). Em algum momento, não sabemos quando nem onde, talvez nos tumultos de Éfeso, aquele casal arriscou a própria vida para salvar a de Paulo. Puseram o pescoço no cepo pelo apóstolo. Não eram apenas hospedeiros gentis; eram companheiros dispostos a morrer pela obra e pelos obreiros. E Paulo não esquece: registra a dívida por escrito, para que todas as igrejas soubessem o que aquele casal simples fizera.
Priscila e Áquila mostram um modelo de parceria em que marido e mulher servem juntos, cada um com o seu dom, sem competição, sem que um apague o outro. Paulo os chama de cooperadores seus em Cristo Jesus (Rm 16.3), no plural, os dois.
Recolha, então, o que esse casal deixa como exemplo. Você não precisa ser eloquente como Apolo, nem apóstolo como Paulo, para ser essencial na obra de Deus. Áquila e Priscila eram tecelões de tendas, e hospedaram apóstolos, arriscaram a vida, abriram igrejas em casa, ensinaram pregadores, e o Novo Testamento os nomeia seis vezes com honra. Muitas vezes a espinha dorsal da igreja não são os nomes que brilham nos púlpitos, mas os casais fiéis que abrem a casa, põem a mesa, sustentam os obreiros e ensinam em silêncio pela vida e pela hospitalidade. Deus não desperdiça uma expulsão de Roma nem um par de mãos calejadas: com uma coisa e outra, ele teceu uma parceria que atravessou o império e chegou até nós.
Uma casa parede com parede da sinagoga, e o chefe dela foi dos primeiros a crer
Saindo dali, entrou na casa de um homem chamado Tício Justo, que era temente a Deus; a casa era contígua à sinagoga.Atos 18.7
Repare no detalhe quase cômico, e cheio de ousadia, da nova base de pregação de Paulo. Rejeitado na sinagoga, ele se muda para a casa ao lado, e Lucas faz questão de dizer que a casa de Tício Justo estava contígua à sinagoga, encostada nela, parede com parede. Pense na cena: expulso da sinagoga, Paulo monta o quartel-general do evangelho literalmente colado ao muro dela. Não foi para longe lamber as feridas; ficou à porta, à vista de todos, de modo que quem entrasse ou saísse da sinagoga veria e ouviria o que acontecia na casa vizinha. Era uma pregação silenciosa pela pura proximidade. E Tício Justo era um temente a Deus, um gentio achegado ao judaísmo: exatamente o tipo de gente que a mensagem de Paulo alcançava com força. A porta que se fechou abriu-se de novo, e bem ao lado.
Mas Crispo, o principal da sinagoga, creu no Senhor, com toda a sua casa; também muitos dos coríntios, ouvindo, criam e eram batizados.Atos 18.8
E veja quem se converte, porque é um golpe no coração mesmo da oposição: Crispo, o principal da sinagoga. O ἀρχισυνάγωγος (archisynágōgos), o chefe da sinagoga, o homem mais importante daquela comunidade, o responsável pelo culto e pelo prédio, crê no Senhor Jesus, com toda a sua casa. Não foi um marginal qualquer; foi a maior autoridade religiosa local, e sua família inteira com ele. Imagine o abalo que isso causou. Paulo mais tarde lembraria que batizou Crispo com as próprias mãos, um dos poucos que ele mesmo batizou em Corinto (1Co 1.14). E não parou nele: muitos dos coríntios, ouvindo, criam e eram batizados. A colheita, que na sinagoga travara, transbordou na casa vizinha. Onde os líderes blasfemaram, o próprio líder máximo creu, e uma multidão atrás dele.
“Tenho muito povo nesta cidade”: Deus chama de seu um povo que ainda não creu
Teve Paulo durante a noite uma visão em que o Senhor lhe disse: Não temas; pelo contrário, fala e não te cales; porquanto eu estou contigo, e ninguém ousará fazer-te mal, pois tenho muito povo nesta cidade.Atos 18.9–10
Agora chegamos ao coração deste capítulo, uma das palavras mais consoladoras que Deus já dirigiu a um servo seu. E o primeiro dado é revelador: Paulo, o intrépido, estava com medo. Por que outra razão o Senhor lhe diria “não temas”? A ordem pressupõe o temor. Some tudo o que Paulo carregava: fora expulso de cidade após cidade, Filipos, Tessalônica, Bereia; fora ridicularizado em Atenas; agora enfrentava a hostilidade endurecida da sinagoga de Corinto, numa metrópole imensa e devassa, longe de casa. Ele era humano. O cansaço, a solidão, a memória das perseguições e talvez o pressentimento de novas: tudo isso pesava. É um consolo perceber que o gigante Paulo conhecia o medo. Os heróis da fé não eram homens sem temor; eram homens que ouviram “não temas” e continuaram.
E ouça o que o Senhor lhe diz, em três garantias que se encaixam. Primeira: fala e não te cales, uma ordem dupla, dita pelo positivo e pelo negativo para não deixar dúvida: continue pregando, não se recolha no silêncio do medo. Segunda, e é o fundamento de tudo: eu estou contigo, a mesma promessa que Deus fizera a Moisés, a Josué, a Jeremias, a Gideão. A presença de Deus é a resposta ao medo em toda a Escritura. Não “as circunstâncias vão melhorar”, mas “eu estou contigo”. Terceira: ninguém ousará fazer-te mal, uma promessa de proteção, não de ausência de conflito, mas de que o conflito não o destruiria antes da hora. E de fato, como veremos, quando os judeus o arrastaram ao tribunal, a acusação ruiu e Paulo saiu ileso. A promessa se cumpriu diante dos nossos olhos, no episódio seguinte.
Mas é a última frase que carrega o tesouro, e é preciso demorar nela: pois tenho muito povo nesta cidade. Pare e deixe cada palavra falar. Deus diz “tenho”, no presente, como coisa já possuída, “muito povo”, λαὸς πολύς, um povo numeroso, “nesta cidade”, em Corinto, a capital do vício, o lugar menos provável do mundo. Note o mistério e a beleza disto. Naquele momento, a maioria daquele “muito povo” ainda não cria. Eram coríntios pagãos, idólatras, mergulhados na imoralidade, que sequer tinham ouvido o evangelho. E, no entanto, Deus já os chama de meu povo, porque já os conhecia, já os escolhera, já sabia que, ao ouvirem a pregação de Paulo, creriam. O “muito povo” de Deus em Corinto existia na intenção de Deus antes de existir na realidade da história. E era por isso que Paulo não podia se calar: havia gente marcada para crer, esperando, sem saber, a voz que Deus mandara não silenciar. O medo mandava calar; a soberania de Deus mandava falar. E o motivo de falar era que a colheita já estava garantida no decreto de Deus.
O medo mandava calar, a promessa mandava falar: os dezoito meses que nasceram daí
Longe de ser um convite ao comodismo, essa verdade foi, para Paulo, exatamente o contrário: foi o que lhe deu coragem para não se calar. Entender bem esse laço, entre a soberania de Deus e o esforço do pregador, guarda o crente de dois abismos opostos.
Comece percebendo o que a promessa não significa. Deus não disse a Paulo: “tenho muito povo nesta cidade, portanto podes descansar, pois eles crerão de qualquer maneira”. Disse o oposto: “tenho muito povo… por isso, fala e não te cales”. A certeza da colheita não dispensou o trabalho do semeador; motivou-o. É que Deus ordena os fins e também os meios. Ele determinou que aquele povo creria, e determinou que creria ouvindo a pregação de Paulo. Tirar Paulo do meio, calá-lo pelo medo, seria remover o próprio meio pelo qual o fim se cumpriria. Por isso a soberania de Deus, longe de adormecer o obreiro, é o que o mantém de pé: ele prega sabendo que não prega em vão, que há gente marcada para crer, que o seu trabalho terá fruto porque Deus já o garantiu. Quem crê que tudo depende só da sua eloquência desanima ao primeiro fracasso; quem crê que Deus tem o seu povo prega na tempestade, porque a colheita não depende do seu talento, mas da palavra do Dono da seara.
E esse padrão, Deus que tem os seus de antemão e por isso envia quem os chame, atravessa toda a Escritura. O próprio Jesus dissera que tinha outras ovelhas, que não eram daquele aprisco, e que também as devia conduzir, e elas ouviriam a sua voz (Jo 10.16). Ovelhas que ainda não estavam no aprisco, mas que já eram dele, e que ouvirão, futuro certo, não incerto. E na oração da última noite ele rogou também por aqueles que haveriam de crer por intermédio da palavra dos discípulos (Jo 17.20). Jesus ora, de antemão, pelos que ainda nem tinham nascido, porque já eram do Pai e lhe seriam dados. A mesma lógica de Corinto: um povo que Deus já possui antes que a história o revele.
Recolha, então, o consolo que este episódio deixa para todo o que trabalha para Deus e se cansa. Você não sabe quem é o “muito povo” de Deus na sua cidade, na sua casa, no seu trabalho. Não sabe quem, entre os que hoje zombam ou ignoram, está marcado para crer amanhã ao ouvir a palavra. Corinto era o lugar menos provável, e ali Deus tinha muitos. Por isso “fala e não te cales”, não porque o resultado dependa da tua força, mas porque Deus quer usar a tua voz para chamar os que já são dele. A soberania de Deus não é a almofada do preguiçoso; é a espinha dorsal do corajoso. Foi ela que manteve Paulo em Corinto por um ano e meio, sem medo, plantando uma igreja no coração do vício.
E ali permaneceu um ano e seis meses, ensinando entre eles a palavra de Deus.Atos 18.11
E veja o fruto imediato daquela visão: Paulo ficou ali um ano e seis meses. Pare e meça o que isso significa na trajetória dele. Até aqui, Paulo fora um pregador de passagem, dias em Filipos, três sábados em Tessalônica, uma temporada breve em Atenas, sempre corrido de cidade em cidade pela perseguição. Agora, pela primeira vez desde Antioquia, ele se assenta: dezoito meses no mesmo lugar, ensinando entre eles a palavra de Deus. A promessa de que ninguém ousaria fazer-lhe mal traduziu-se em tempo, tempo para ensinar com profundidade, para firmar os novos crentes, para formar uma igreja que, apesar de todos os seus problemas futuros, receberia de Paulo duas das mais ricas cartas do Novo Testamento. O medo teria feito Paulo fugir de Corinto em poucas semanas. A palavra de Deus o fez ficar um ano e meio. E foi nesse chão comprado pela promessa que Deus recolheu o seu “muito povo”.
Levado a tribunal por pregar: o dia em que o juiz se recusou a julgar a fé de Paulo
Quando, porém, Gálio era procônsul da Acaia, levantaram-se os judeus, concordemente, contra Paulo e o levaram ao tribunal, dizendo: Este persuade os homens a adorar a Deus por modo contrário à lei.Atos 18.12–13
Agora a promessa de proteção é posta à prova diante dos nossos olhos. Os judeus, de comum acordo, num ataque coordenado, arrastam Paulo ao tribunal, o βῆμα (bḗma), o estrado elevado de onde o magistrado romano julgava, uma plataforma de pedra que ainda hoje se pode ver nas ruínas de Corinto. E o homem sentado ali não era um juiz qualquer: era Gálio, procônsul da Acaia. Guarde esse nome, porque ele é um dos pregos mais firmes com que se prende a cronologia de todo o Novo Testamento à história do mundo, e voltaremos a isso. Por ora, veja a acusação: este persuade os homens a adorar a Deus por modo contrário à lei. A acusação é astuciosamente vaga. De que “lei” falavam? Se era a lei judaica, o assunto não interessava a um tribunal romano, era briga interna de sinagoga. Se pretendiam que era a lei romana, precisavam provar que Paulo pregava uma religião ilícita, não autorizada pelo império. Toda a manobra dependia de convencer Gálio de que o cristianismo era coisa diferente do judaísmo, porque o judaísmo era religião permitida, protegida por Roma. Se Paulo pregasse apenas uma seita dentro do judaísmo, estava sob o guarda-chuva legal dos judeus; se pregasse uma religião nova, estava desprotegido. A jogada era esperta. Mas esbarrou num juiz que enxergou o truque.
Ia Paulo falar, quando Gálio declarou aos judeus: Se fosse, com efeito, alguma injustiça ou crime da maior gravidade, ó judeus, de razão seria atender-vos; mas, se é questão de palavra, de nomes e da vossa lei, tratai disso vós mesmos; eu não quero ser juiz dessas coisas!Atos 18.14–15
E aqui vem uma das cenas mais notáveis de todo o livro, e repare bem nela: Paulo nem chega a falar. Ele ia abrir a boca para se defender, e o próprio juiz o interrompe, não para condená-lo, mas para dispensar a acusação. Gálio faz uma distinção jurídica precisa. Se fosse alguma injustiça ou crime grave, um delito civil ou criminal de verdade, ele ouviria com paciência, pois era o seu ofício. Mas se a questão é de palavras, de nomes e da lei que entre eles há, ou seja, se é disputa teológica interna, sobre a interpretação da lei judaica e sobre se “Jesus” é ou não o “nome” do Messias, então tratem disso eles mesmos, porque ele não quer ser juiz dessas coisas. Gálio, com o faro de um romano culto, percebeu na hora que aquilo era briga religiosa interna do judaísmo, e não um caso de direito romano. E recusou-se a julgar. Sem saber, o procônsul de Roma acabava de proteger o cristianismo, tratando-o como assunto interno de uma religião permitida: exatamente o oposto do que os acusadores queriam. A promessa de Deus a Paulo cumpriu-se pela boca de um juiz pagão que se recusou a condenar.
E expulsou-os do tribunal. Então, todos agarraram Sóstenes, o principal da sinagoga, e o espancavam diante do tribunal; Gálio, todavia, não se incomodava com estas coisas.Atos 18.16–17
O desfecho é rápido e revelador. Gálio os expulsou do tribunal, recusou o caso e mandou-os embora. E então acontece uma cena estranha: todos agarraram Sóstenes, o principal da sinagoga, e o espancavam diante do tribunal. Quem bateu em Sóstenes? Provavelmente a multidão grega ali presente, que aproveitou o fracasso jurídico dos judeus para descontar neles uma hostilidade que já fervia, um surto de antissemitismo popular, aproveitando que o próprio juiz demonstrara desprezo pela causa deles. E note a ironia: Sóstenes era o principal da sinagoga, ou o sucessor de Crispo, que se convertera, ou outro líder, e apanha por causa da própria acusação que sua facção movera. Mais notável ainda: há um Sóstenes que aparece anos depois ao lado de Paulo, “o irmão Sóstenes”, coautor da saudação de Primeira aos Coríntios (1Co 1.1). Se for o mesmo homem, e muitos creem que sim, então aquele líder espancado diante do tribunal viria a se converter e a se tornar companheiro de Paulo. É bem possível. A surra diante do bḗma teria sido o começo do seu caminho para Cristo. E o fecho pinta Gálio inteiro: nada daquilo o incomodava, ele deu de ombros para a violência, indiferente às questões dos judeus. Um retrato do magistrado romano típico: justo o bastante para não condenar um inocente, indiferente o bastante para não se importar com o resto.
Uma pedra achada em Delfos: como o nome de Gálio fixa a data exata da história de Paulo
Vale interromper a narrativa e assentar duas coisas que este episódio, aparentemente menor, sustenta com peso enorme: primeiro, a ancoragem histórica do livro de Atos no mundo real e datável; segundo, o modo como Deus usa até o poder romano, indiferente, pagão, como escudo involuntário do evangelho. O tribunal de Gálio é curto na narrativa, mas largo no que ensina.
Comece pela história, porque aqui está um dos casos mais impressionantes de confirmação externa de todo o Novo Testamento. O nome “Gálio” não é lenda: era irmão de Sêneca, o célebre filósofo estoico e tutor do imperador Nero. E, em 1905, arqueólogos encontraram em Delfos, na Grécia, fragmentos de uma inscrição, uma carta do próprio imperador Cláudio, que menciona “Gálio, meu amigo e procônsul” da Acaia, e permite datar o seu mandato com notável precisão: por volta dos anos 51 a 52 da nossa era. Pare e veja o que isso significa. Como Lucas situa a estada de Paulo em Corinto exatamente no proconsulado de Gálio, temos aqui um ponto fixo no calendário: sabemos, com margem de meses, quando Paulo esteve em Corinto. E a partir desse prego cravado na história, os estudiosos conseguem calcular para trás e para frente toda a cronologia das viagens de Paulo. A “pedra de Gálio”, como ficou conhecida, é uma das âncoras que prendem a narrativa de Atos não ao mundo dos mitos, mas ao tempo verificável dos procônsules e imperadores de Roma.
Por que Paulo raspou a cabeça? O voto escondido no fim da segunda viagem
Mas Paulo, havendo permanecido ali ainda muitos dias, por fim, despedindo-se dos irmãos, navegou para a Síria, levando em sua companhia Priscila e Áquila, depois de ter raspado a cabeça em Cencréia, porque tomara voto.Atos 18.18
Paulo enfim deixa Corinto, depois de muitos dias, e navega rumo à Síria, à sua base em Antioquia, fechando o grande arco da segunda viagem missionária. E leva consigo Priscila e Áquila, o casal que Deus lhe dera na oficina de tendas; eles o acompanharão até Éfeso e ali ficarão, como veremos, para uma obra importante. Mas há um detalhe curioso que Lucas faz questão de registrar: antes de embarcar, em Cencreia, o porto oriental de Corinto, Paulo raspou a cabeça, porque tomara voto. Pare neste detalhe, porque ele diz mais do que parece sobre quem Paulo era.
Que voto era esse? Quase certamente um voto de nazireado, ou algo semelhante a ele, aquela consagração temporária descrita em Números 6, pela qual um israelita se separava para Deus por um período, abstendo-se de vinho e deixando o cabelo crescer; ao fim do voto, rapava a cabeça e oferecia o cabelo em sacrifício. Homens faziam tais votos em gratidão por um livramento, ou como súplica, ou como consagração especial num tempo de necessidade. É provável que Paulo o tivesse feito em Corinto, talvez ligado àquela promessa de que ninguém ousaria fazer-lhe mal, e agora o encerrasse. E veja o que isto nos ensina sobre ele. Paulo, o apóstolo da liberdade, o homem que escreveu com todas as letras que o gentio não precisa se submeter à Lei para ser salvo, continuava, ele mesmo, a viver como judeu piedoso, fazendo votos ao modo de Israel. Não havia nele contradição, e é importante entender por quê: a liberdade que Paulo pregava nunca foi proibição de guardar os costumes, mas libertação da ideia de que guardá-los salva. Ele era livre para fazer o voto, como era livre para não fazê-lo. Para os judeus fez-se como judeu, para ganhar os judeus (1Co 9.20). A graça não o tornou menos judeu; tornou-o livre: livre inclusive para honrar as tradições dos seus pais por amor e gratidão, sem lhes atribuir o poder de justificar.
E havia mais que raspar a cabeça: a Lei não permitia encerrar o nazireado em qualquer lugar. Números 6.13 manda que, cumpridos os dias da separação, o nazireu seja levado à porta da tenda da congregação, isto é, ao santuário, que no tempo de Paulo era o Templo em Jerusalém. Ali ele apresentava um cordeiro para holocausto, uma cordeira para oferta pelo pecado e um carneiro para oferta pacífica, com pães asmos, ofertas de cereal e libação (Nm 6.14-17); só então rapava a cabeça, e os cabelos eram queimados no fogo do sacrifício pacífico (Nm 6.18). Cumpridas as ofertas, o voto estava encerrado, e ele podia tornar a beber vinho (Nm 6.20). O corte, portanto, não era um gesto solto: fazia parte de um rito que terminava no altar.
Isso ilumina o roteiro de Paulo. Ele rapa a cabeça em Cencreia, mas não para ali: passa por Éfeso, segue para Cesareia e então sobe e saúda a igreja (At 18.22). Pela Mishná, a primeira compilação escrita da lei oral judaica, organizada por volta do ano 200, quem fizesse o voto fora da Terra de Israel cortava os cabelos e os levava consigo a Jerusalém, para serem queimados junto com os sacrifícios prescritos. É o mesmo padrão que reaparece em Atos 21.23-26, quando Paulo custeia as ofertas de quatro nazireus no Templo. Lucas registra, então, um detalhe pequeno que pressupõe uma longa obediência: o apóstolo da graça ainda subia ao santuário para cumprir, até o fim, aquilo que prometera a Deus.
“Voltarei, se Deus quiser”: a semente que ele deixou em Éfeso para germinar sem ele
Chegados a Éfeso, deixou-os ali; ele, porém, entrando na sinagoga, pregava aos judeus. Rogando-lhe eles que permanecesse ali mais algum tempo, não acedeu. Mas, despedindo-se, disse: Se Deus quiser, voltarei para vós outros. E, embarcando, partiu de Éfeso.Atos 18.19–21
A comitiva chega a Éfeso, a grande metrópole da Ásia, uma cidade que se tornará central na história seguinte, pois Paulo passará ali quase três anos na terceira viagem. Mas por ora é só uma escala. E veja o que Paulo faz: deixa Priscila e Áquila na cidade, plantando ali, sem alarde, o casal que preparará o terreno, e ele mesmo, fiel ao costume, entra na sinagoga e prega aos judeus. E aqui há um contraste que vale notar. Em Corinto, os judeus blasfemaram e resistiram; em Éfeso, ao contrário, eles pedem que Paulo fique mais tempo. Havia abertura, interesse, terreno fértil. E, no entanto, repare bem, Paulo não acede. Recusa o convite, justamente onde era bem-recebido.
Por que recusar uma porta aberta? Porque Paulo vivia sob uma direção maior do que a própria oportunidade. Parte da tradição manuscrita registra ainda o motivo da pressa: importava-lhe celebrar em Jerusalém a festa que se aproximava, provavelmente ligada ao encerramento do seu voto, que devia ser cumprido no templo. Essa cláusula, porém, não consta do texto base que seguimos aqui, e o mais prudente é não firmar argumento sobre ela; ainda assim, o versículo 22 dirá que Paulo subiu e saudou a igreja, de modo que a ida a Jerusalém permanece no relato mesmo sem a frase explicativa.1 Havia um compromisso, um chamado, um tempo de Deus a cumprir. Mas note sobretudo a frase com que ele se despede, porque ela é a alma da vida cristã madura: se Deus quiser, voltarei para vós outros. τοῦ θεοῦ θέλοντος, “querendo Deus”. Paulo não diz “voltarei” com a arrogância de quem manda no futuro; diz “voltarei se Deus quiser”. Ele fazia planos, e planos firmes, mas os submetia todos à vontade de Deus. Em vez disso, dizia Tiago, devíamos dizer: se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto ou aquilo (Tg 4.15). Havia interesse em Éfeso, mas Paulo não se prendeu ao próprio sucesso; deixou a semente, Priscila e Áquila, e partiu, confiando que Deus faria germinar. E faria: ele voltaria a Éfeso, querendo Deus, e ali se ergueria uma das maiores obras da sua vida.
Antioquia por poucos dias, e a estrada outra vez: o obreiro que não sabe ficar parado
Chegando a Cesaréia, desembarcou, subindo a Jerusalém; e, tendo saudado a igreja, desceu para Antioquia. Havendo passado ali algum tempo, saiu, atravessando sucessivamente a região da Galácia e Frígia, confirmando todos os discípulos.Atos 18.22–23
Estes dois versículos são uma dobradiça na história inteira de Atos, e vale ver o que passa por eles. No versículo 22, fecha-se a segunda viagem missionária: depois de novecentos quilômetros de navegação, Paulo desembarca em Cesareia, sobe cem quilômetros a Jerusalém para saudar a igreja-mãe e cumprir o seu voto, e desce quinhentos a Antioquia, a igreja que o enviara, de onde partira lá atrás, depois da contenda com Barnabé. O círculo se completa. Ele volta ao ponto de partida, presta contas, descansa algum tempo entre os irmãos que o haviam encomendado à graça de Deus. E poderia parar por aí. Muitos, depois de anos de estradas, prisões e perseguições, parariam.
Mas no versículo 23, sem pausa dramática, sem alarde, abre-se a terceira viagem: partiu, atravessando sucessivamente a região da Galácia e a Frígia, confirmando todos os discípulos. São as igrejas em Derbe, Listra, Icônio, Antioquia da Pisídia. Repare no coração de pastor que isto revela, e que já vimos lá no início, quando Paulo quis voltar e visitar os irmãos. Ele não sai correndo atrás de terreno novo; sai confirmando, ἐπιστηρίζων (epistērízōn), fortalecendo, firmando, os discípulos das igrejas que já plantara. Antes de conquistar o novo, ele rega o já semeado. Percorre de novo a Galácia e a Frígia, cidade por cidade, gente por gente, dando força aos que criam. É o mesmo Paulo do começo do capítulo anterior: um homem que planta e cuida, que evangeliza e consolida. E é assim, andando, confirmando, sem parar, que ele se encaminha de volta a Éfeso, onde a promessa “voltarei, se Deus quiser” se cumprirá, e onde nos espera, primeiro, uma das histórias mais bonitas sobre humildade e aprendizado de toda a Escritura: a de um pregador brilhante que precisou ser ensinado por um casal de tecelões de tendas.
Apolo de Alexandria: um pregador quase perfeito a quem faltava uma peça
E chegou a Éfeso certo judeu chamado Apolo, natural de Alexandria, homem eloquente e poderoso nas Escrituras. Este era instruído no caminho do Senhor e, fervoroso de espírito, falava e ensinava diligentemente as coisas do Senhor, conhecendo somente o batismo de João.Atos 18.24–25
Entra em cena uma das figuras mais notáveis do Novo Testamento, e Lucas o apresenta com uma lista de qualidades que faria inveja a qualquer pregador. Apolo, um judeu de Alexandria, a segunda maior cidade do império romano, célebre pela sua biblioteca e pela sua tradição de erudição judaica, a cidade do filósofo judeu Fílon de Alexandria. Nesta cidade as Escrituras eram lidas em grego, discutidas em diálogo com a filosofia grega e interpretadas com forte gosto pela alegoria. É esse o ar que Apolo respirou, e ele ajuda a entender por que Lucas o descreve como homem eloquente e poderoso nas Escrituras. E veja o retrato: homem eloquente, λόγιος (lógios), culto, articulado, bom de palavra; poderoso nas Escrituras, conhecia o Antigo Testamento com profundidade e força; instruído no caminho do Senhor; fervoroso de espírito, literalmente “fervendo no espírito”, cheio de ardor; e ensinava diligentemente, com exatidão, as coisas do Senhor Jesus. Some tudo: culto, bíblico, ardente, exato, eloquente. Um pregador quase perfeito. E, no entanto, o texto acrescenta uma pequena frase que muda tudo: conhecendo somente o batismo de João.
Pare nessa frase, porque nela está toda a tensão da história. Com todas as suas qualidades imensas, a Apolo faltava alguma coisa. Ele conhecia somente o batismo de João, ou seja, tinha recebido a mensagem de João Batista: o chamado ao arrependimento, a preparação para o Messias que vinha, a expectativa. Ele já conhecia Jesus e falava dele. Lucas diz que ele falava e ensinava diligentemente as coisas do Senhor, e o texto traz que ensinava com exatidão as coisas a respeito de Jesus, τὰ περὶ τοῦ Ἰησοῦ. Ou seja, Apolo não pregava um Messias anônimo e futuro: identificava Jesus de Nazaré como o Cristo anunciado por João e o ensinava com precisão, até onde ia o seu conhecimento. O que lhe faltava não era o nome de Jesus, era o que veio depois do batismo de João: a cruz compreendida em toda a sua força, a ressurreição, Pentecostes e o dom do Espírito Santo. Provavelmente saíra de Israel, ou de um círculo de discípulos de João, antes dos acontecimentos plenos, antes de Pentecostes, antes da compreensão completa da morte, da ressurreição e do dom do Espírito. Apolo estava no fim do Antigo Testamento e no limiar do Novo, mas ainda não atravessara a soleira. Pregava com exatidão o Jesus que conhecia, sem conhecer ainda tudo o que Jesus consumara. Era um homem do amanhecer, anunciando um sol que ele ainda não vira nascer por inteiro.
Dois fabricantes de tendas ensinam um orador eloquente: a humildade que corre dos dois lados
Ele começou a falar ousadamente na sinagoga; e, quando Priscila e Áquila o ouviram, o levaram consigo e lhe declararam mais precisamente o caminho de Deus.Atos 18.26
E agora acontece a cena que faz deste episódio um tesouro. Apolo começou a falar ousadamente na sinagoga, com coragem, com brilho. E ali estavam, na assembleia, Priscila e Áquila, os tecelões de tendas que Paulo deixara em Éfeso. Dois artesãos, gente comum, sem a erudição de Alexandria, sem a eloquência de Apolo. E eles percebem que àquele pregador magnífico falta a peça final. O que fazem? Não o expõem, não o corrigem em público, não o humilham diante da sinagoga. O levaram consigo, para casa, em particular, com discrição e amor, e lhe declararam mais precisamente o caminho de Deus. ἀκριβέστερον (akribésteron), “mais exatamente”, “com mais precisão”: completaram o que faltava, encaixaram a peça, mostraram-lhe o resto da história que ele ainda não conhecia: o Cristo que morreu, ressuscitou, subiu e derramou o Espírito.
Veja a humildade dos dois lados, porque é raro e belo. De um lado, Priscila e Áquila: tiveram a sabedoria de não envergonhar o pregador, e a coragem de não deixá-lo no erro. Corrigiram em amor, em casa, sem alarde. Não se calaram por acharem que “quem somos nós, dois artesãos, para ensinar um homem tão instruído?”; mas também não se exibiram, não transformaram a correção em espetáculo público de superioridade. Deus não olha para os títulos que o mundo distribui: usou dois tecelões de tendas para aperfeiçoar um doutor de Alexandria.
Mas o outro lado é igualmente admirável, e talvez mais raro ainda: a humildade de Apolo. Aqui estava um homem eloquente, poderoso nas Escrituras, aplaudido, fervoroso, e ele aceita ser ensinado por um casal de artesãos. Não se ofende. Não diz “vocês sabem com quem estão falando?”. Não deixa que o orgulho da própria erudição feche os seus ouvidos. Um homem menor teria se irritado; um homem vaidoso teria desprezado a correção vinda de gente “inferior”. Apolo, porém, com toda a sua grandeza, teve a grandeza maior de todas: a de reconhecer que ainda tinha o que aprender, e de aprendê-lo de quem quer que Deus pusesse à sua frente. Foi essa dupla humildade, a de quem ensina sem humilhar e a de quem aprende sem se ofender, que transformou um bom pregador num dos maiores instrumentos da igreja primitiva.
Querendo ele percorrer a Acaia, animaram-no os irmãos e escreveram aos discípulos para o receberem. Tendo chegado, auxiliou muito aqueles que, mediante a graça, haviam crido; porque, com grande poder, convencia publicamente os judeus, provando, por meio das Escrituras, que o Cristo é Jesus.Atos 18.27–28
E veja o fruto daquela humildade, agora que a peça foi encaixada. Completo no conhecimento do caminho de Deus, Apolo quer passar à Acaia, isto é, a Corinto, a igreja que Paulo acabara de plantar. E os irmãos de Éfeso, com o belo costume da igreja primitiva, escrevem uma carta de recomendação aos discípulos de lá, para que o recebam. Chegando, ele auxiliou muito aqueles que haviam crido, foi de grande proveito, regou o que Paulo plantara. E como? Com grande poder convencia publicamente os judeus, provando pelas Escrituras que o Cristo é Jesus. Repare: aquele mesmo talento que ele já tinha, a eloquência, o poder nas Escrituras, agora, completado pelo conhecimento pleno de Cristo, tornou-se uma arma poderosíssima. Antes ele já ensinava com exatidão a respeito de Jesus, mas até o limite do que recebera de João; agora, com o quadro completo da obra consumada, derruba as objeções dos judeus provando, texto por texto, que Jesus é o Cristo. O dom era o mesmo; faltava-lhe só a peça que dois tecelões de tendas lhe deram em casa, com amor. E Paulo mais tarde confirmaria o valor daquele obreiro: eu plantei, Apolo regou (1Co 3.6). O erudito de Alexandria, humilde o bastante para ser ensinado, tornou-se o regador da seara de Corinto, e assim se fecha o capítulo, com a semente da humildade dando a sua colheita.
Notas
1. A cláusula “importa-me celebrar em Jerusalém a festa que se aproxima” consta do texto majoritário e do Texto Recebido, e por isso aparece na Almeida Corrigida Fiel e na Revista e Corrigida. Falta, contudo, nos testemunhos alexandrinos mais antigos, entre eles o papiro P74 e os códices Sinaítico, Alexandrino e Vaticano; as edições críticas (Nestle-Aland, UBS) a omitem, e com elas a Almeida Revista e Atualizada, a Nova Almeida Atualizada, a NVI e a NVT. A avaliação predominante é a de acréscimo explicativo de copista, harmonizando a pressa de Paulo com a subida a Jerusalém do v. 22.