De volta a Éfeso: Paulo cumpre a promessa e encontra uma igreja pela metade
Atos 18 terminou com o apóstolo manifestando um desejo. Ao passar rapidamente por Éfeso, no fim da segunda viagem, ele fora convidado a ficar, e recusara, dizendo “outra vez voltarei a vós, se Deus quiser”. Deixou ali, plantados, Priscila e Áquila, o casal de tecelões de tendas que Deus lhe dera em Corinto. E foi esse casal que, na sua ausência, encontrou na sinagoga um pregador brilhante e incompleto, Apolo, eloquente, fervoroso, poderoso nas Escrituras, mas que “conhecia somente o batismo de João”. Com humildade dos dois lados, os artesãos o levaram para casa e lhe declararam “mais precisamente o caminho de Deus”, encaixando a peça que faltava. Apolo, completo, seguiu para Corinto (18:27, 19:1), e Paulo agora retorna a Éfeso (19:1): cumprindo o “voltarei, se Deus quiser”. E logo à entrada, encontra o mesmo problema que Apolo tivera: gente que parou no batismo de João e ainda não conhecia o resto da história.
E que cidade era Éfeso? Será o palco de quase três anos da vida de Paulo, a mais longa permanência da sua carreira, mais longa até mesmo que Corinto. Éfeso era a metrópole da província romana da Ásia, um dos maiores portos do Mediterrâneo oriental, cidade riquíssima, cosmopolita, cruzamento de rotas comerciais. Mas era famosa, sobretudo, por duas coisas que vão dominar este capítulo. Primeiro, pela magia: Éfeso era um dos grandes centros de ocultismo do mundo antigo, cheia de feiticeiros, exorcistas e vendedores de fórmulas mágicas, os célebres “escritos efésios”, amuletos e encantamentos, eram vendidos por toda parte. Segundo, pelo templo de Ártemis, Diana, para os romanos, uma das sete maravilhas do mundo antigo, um santuário colossal que atraía peregrinos de todo o império e sustentava uma economia inteira de ourives e comerciantes de imagens. Magia e idolatria, ocultismo e um templo maravilhoso: é contra esse pano de fundo que o evangelho vai avançar em Éfeso, e é por causa dessas duas forças que ele vai provocar, no fim, um tumulto que enche a cidade.
E aqui vale desfazer uma confusão comum. Se Éfeso ficava na Ásia, por que Corinto e Tessalônica eram na Europa? Não era tudo Grécia? Não. No primeiro século não existia um país chamado Grécia.1 O que havia era o mundo helenizado: todo o Mediterrâneo oriental falava grego e vivia à moda grega, da Macedônia à costa da Anatólia, passando pelo Egito e pela Síria. Éfeso era grega em língua, cultura e religião, mas não ficava no continente europeu. Roma, por sua vez, dividia aquele mundo em províncias, e é esse o mapa que Lucas e Paulo usam. “Ásia”, no Novo Testamento, não é o continente, é a província romana no oeste da atual Turquia, cuja capital era Éfeso, e onde ficavam também Esmirna, Pérgamo, Sardes e Laodiceia (Apocalipse 1.11). “Macedônia” era o norte da Grécia continental, com Tessalônica, Filipos e Bereia. “Acaia” era o sul, com Corinto e Atenas. Por isso a passagem para a Europa é marcada de propósito em Atos: impedido pelo Espírito de pregar na Ásia, e depois na Bitínia, Paulo recebe em Trôade, na costa asiática, a visão do homem macedônio que suplica “passa à Macedônia e ajuda-nos” (Atos 16.6–10), e atravessa o mar Egeu. Éfeso ficou para a viagem seguinte, esta, de volta ao lado asiático.
Doze discípulos que nunca tinham ouvido falar do Espírito Santo: como isso era possível?
Aconteceu que, estando Apolo em Corinto, Paulo, tendo passado pelas regiões mais altas, chegou a Éfeso e, achando ali alguns discípulos, perguntou-lhes: Recebestes, porventura, o Espírito Santo quando crestes? Ao que lhe responderam: Pelo contrário, nem mesmo ouvimos que existe o Espírito Santo.Atos 19.1–2
Duas coisas passam quase despercebidas antes de a conversa começar: por onde ele veio, “as regiões mais altas”,2 e quem já não estava com ele.3
Repare em quem Paulo encontra, porque a cena rima de propósito com a de Apolo, no fim do capítulo anterior. Ele acha “alguns discípulos”, uns doze homens, dirá o texto adiante. Eram discípulos de quê, exatamente? Eram homens ligados ao movimento de João Batista, que enviara ondas de expectativa por todo o mundo judaico, e que, como se verá, ainda estavam no batismo dele. E Paulo, com o faro de pastor, percebe que algo não está certo. Faz uma pergunta reveladora: “Recebestes vós já o Espírito Santo quando crestes?” E a resposta é de espantar: “Nós nem ainda ouvimos que haja Espírito Santo.”
Esses homens, sendo ligados ao movimento de João e às Escrituras de Israel, com certeza tinham ouvido falar do Espírito de Deus, ele está em Gênesis, nos Salmos, nos Profetas; o próprio João pregara que o Messias batizaria “com o Espírito Santo”. Então o que eles queriam dizer com “nem ainda ouvimos que haja Espírito Santo”? Não que ignorassem a existência do Espírito de Deus, mas que não tinham ouvido que o Espírito já fora derramado, que a promessa se cumprira, que o tempo do Espírito chegara com Pentecostes. Eles estavam, por assim dizer, congelados num momento anterior da história da salvação: sabiam do arrependimento pregado por João, sabiam do Messias que vinha, mas não sabiam que ele já viera, já morrera, já ressuscitara, já subira e já derramara o Espírito prometido. Estavam, quanto ao lugar que ocupavam na história da salvação, no fim do Antigo Testamento, sem terem atravessado para o Novo.
Apolo veio do mesmo ambiente, “conhecia somente o batismo de João” e, ainda assim, “ensinava com exatidão as coisas relativas a Jesus” (Atos 18.25); e a própria pergunta de Paulo, “quando crestes”, pressupõe que havia neles alguma fé. Lucas, aliás, os chama de discípulos. A diferença entre os dois casos aparece no desfecho, e é justamente ela que revela o problema: Apolo foi apenas instruído com mais precisão por Priscila e Áquila, e não foi rebatizado, enquanto estes doze foram batizados de novo, em nome do Senhor Jesus (Atos 19.5). O que lhes faltava, portanto, não era uma informação a mais sobre um assunto isolado, era a travessia para o cumprimento: o Cristo já morto e ressuscitado, e o Espírito já derramado.
Perguntou-lhes, então: Em que sois batizados? E eles disseram: No batismo de João. Mas Paulo disse: Certamente João batizou com o batismo do arrependimento, dizendo ao povo que cresse no que após ele havia de vir, isto é, em Jesus Cristo.Atos 19.3–4
Paulo vai à raiz e pergunta: “Em que sois batizados?” A resposta confirma o diagnóstico: “No batismo de João.” E então o apóstolo explica, com precisão, o que era e o que não era o batismo de João. Ele “batizou com o batismo do arrependimento”, era um batismo verdadeiro, ordenado por Deus, mas era preparatório, provisório, apontando para adiante. João não batizava dizendo “o Messias está aqui, creia nele”; batizava dizendo “o Messias vem, prepare-se, arrependa-se, e creia naquele que há de vir depois de mim”. O batismo de João era uma seta apontando para o horizonte. Mas aqueles doze homens tinham parado na seta, sem seguir a direção que ela indicava. Tinham o arrependimento, mas não a fé consumada em Jesus como o Cristo já vindo; tinham o preparo, mas não o cumprimento. João fizera o seu papel, apontar, e eles ficaram olhando para o dedo em vez de olhar para Aquele que o dedo apontava.
Por que Paulo os batizou de novo? O que faltava ao batismo de João
E os que ouviram foram batizados em nome do Senhor Jesus. E, impondo-lhes Paulo as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo; e falavam línguas e profetizavam. E estes eram, ao todo, uns doze homens.Atos 19.5–7
Ao ouvirem a explicação, aqueles homens dão o passo que faltava: “foram batizados em nome do Senhor Jesus”. Note a diferença, porque ela é o coração da cena. Antes eram batizados no batismo de João, no preparo, na expectativa. Agora são batizados em nome de Jesus, no cumprimento, na pessoa concreta do Messias que veio. É a mesma diferença entre esperar alguém na estação e finalmente abraçar quem chegou. O batismo de João apontava para Cristo; o batismo em nome de Jesus une a Cristo. Eles não repetem um rito por repetir; eles finalmente creem naquele para quem toda a preparação apontava, e selam essa fé no batismo que o confessa pelo nome.
E aqui é preciso enfrentar uma pergunta que este versículo levanta, e que muita gente já sentiu ao ler Atos. Jesus, ao enviar os discípulos, mandou batizar “em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mateus 28.19); mas em Atos, sem uma única exceção, o batismo aparece ligado a um nome só: “seja cada um de vós batizado em nome de Jesus Cristo” (Atos 2.38), os samaritanos “tinham sido batizados no nome do Senhor Jesus” (Atos 8.16), Cornélio e a sua casa são mandados batizar “em nome de Jesus Cristo” (Atos 10.48), e estes doze de Éfeso são batizados “em nome do Senhor Jesus” (Atos 19.5). Haveria então contradição, duas ordens diferentes, duas fórmulas rivais, uma dita por Jesus e outra praticada pelos apóstolos? Não. A solução está em entender o que a expressão “em nome de” significava para quem a ouvia.
“Em nome de”, εἰς τὸ ὄνομα (eis tò ónoma), não era, na linguagem do primeiro século, uma fórmula ritual a ser recitada, e sim uma expressão de pertença e de transferência: era o termo que se usava no comércio para dizer que um valor havia sido depositado “no nome”, isto é, na conta, de alguém, passando a ser dele. Batizar alguém “em nome de Jesus” é, portanto, declarar de quem essa pessoa passou a ser. E era exatamente essa a questão em Éfeso: quando Paulo pergunta “em que sois batizados?” e ouve “no batismo de João”, o problema não estava nas palavras que tinham sido pronunciadas sobre a água, mas no dono a quem estavam ligados; por isso a correção não foi trocar uma frase por outra, foi passá-los para o nome de Jesus. Paulo usa esse mesmo sentido ao repreender os coríntios divididos: “fostes, porventura, batizados em nome de Paulo?” (1 Coríntios 1.13), ou seja, será que vocês pertencem a mim? E é assim que ele define o que o batismo opera: “fostes batizados em Cristo Jesus”, sepultados com ele e ressuscitados para uma vida nova (Romanos 6.3-4).
Recolha, então, como as duas coisas se juntam sem atrito. Mateus 28.19 declara a realidade inteira dentro da qual o batizado é introduzido, e na mesma ordem que este capítulo vem ensinando: o Pai, que é a fonte; o Filho, por quem se chega; o Espírito, em quem se anda. E é isso que Paulo escreveria à própria igreja de Éfeso: “um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos” (Efésios 4.5-6). O paralelo é decisivo, porque exclui a ideia de dois batismos concorrentes: nunca houve um batismo “do Pai, do Filho e do Espírito” disputando com um batismo “de Jesus”. Atos, por sua vez, não está registrando liturgia, e sim sentido: Lucas jamais nos informa que palavras foram ditas sobre a água, ele nos diz a quem aquelas pessoas passaram a pertencer. E vale guardar a advertência que este mesmo capítulo trará poucos versículos adiante, na surra dos filhos de Ceva: quem transforma o nome de Jesus em fórmula não entendeu nada. Nem no batismo esse nome funciona como encantamento; ele diz de quem somos.
E então vem o dom: “impondo-lhes Paulo as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo; e falavam línguas e profetizavam”. Aqui é preciso ler com cuidado, dentro do que o próprio livro de Atos vem ensinando, para não construir uma doutrina sobre uma exceção. O que acontece com esses doze é o que já acontecera com os judeus em Pentecostes (Atos 2), com os samaritanos (Atos 8) e com os gentios na casa de Cornélio (Atos 10): grupos que marcam fronteiras na expansão do evangelho recebem o Espírito de modo visível, com sinais, para que ninguém duvide de que também eles foram plenamente incluídos no povo de Deus. Estes doze são como que os últimos “retardatários” da velha ordem de João sendo oficialmente trazidos para dentro da nova. O sinal visível, línguas e profecia, é o selo público de que o Espírito prometido, o mesmo de Pentecostes, agora é deles. Não é uma fórmula que se repita em cada conversão; é a assinatura de Deus sobre um momento de transição, mostrando que a era de João se fechou e a era do Espírito os alcançou também. E é a essa mesma cidade que Paulo escreveria, anos depois, explicando o que aquele selo significava: “tendo crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa, o qual é o penhor da nossa herança” (Efésios 1.13-14). O paralelo ilumina a cena: o que em Éfeso apareceu com línguas e profecia é, no fundo, o selo de propriedade de Deus sobre os que creem, e a garantia daquilo que ainda receberão.
O Pai é a fonte e o Filho é o canal: quem de fato derrama o Espírito Santo
Vale parar a narrativa e assentar o que este episódio, e o de Apolo, seu gêmeo, nos ensina sobre a passagem do preparo ao cumprimento, porque nela se ilumina uma verdade central da história da salvação: o modo como Deus foi conduzindo o seu povo por etapas, da promessa à realização, e o lugar que o Espírito ocupa nesse desenho.
Comece pelo batismo de João, para ver o que ele era. João foi o último e maior dos profetas da antiga ordem, “entre os nascidos de mulher, não surgiu outro maior” (Mateus 11.11), e a sua missão era preparar, não cumprir. Ele mesmo o disse com toda a clareza: “eu, na verdade, vos batizo com água, para arrependimento; mas aquele que vem após mim… vos batizará com o Espírito Santo e com fogo” (Mateus 3.11). Repare no contraste que o próprio João traça: o meu batismo é com água, para arrependimento; o dele será com o Espírito. João sabia que o seu papel era temporário, uma seta apontando para Outro. “Convém que ele cresça e que eu diminua” (João 3.30). O batismo de João era autêntico e ordenado por Deus, mas era o amanhecer, não o dia; a véspera, não a festa. Os doze de Éfeso, como Apolo, tinham parado no amanhecer, sem saber que o sol já se levantara.
E o que era esse “batismo com o Espírito” que João prometera e que aqueles homens ainda não conheciam? O Espírito Santo, nas Escrituras, é o próprio Deus em ação, a sua presença, o seu poder, a sua vida estendidos ao seu povo. Não é uma força impessoal, nem tampouco um terceiro deus ao lado do Pai: é o Espírito de Deus, como o sopro de um homem é o sopro dele mesmo. Desde Gênesis, o Espírito de Deus paira sobre as águas (Gênesis 1.2); nos profetas, Deus promete “derramarei o meu Espírito sobre toda a carne” (Joel 2.28); e Ezequiel ouve a promessa: “porei dentro de vós o meu Espírito” (Ezequiel 36.27). O que João anunciava, e o que Pentecostes cumpriu, era exatamente esse derramamento prometido: o tempo em que Deus poria a sua própria presença dentro do seu povo, de modo novo e pleno.
E é aqui que a nossa leitura recolhe o fio mais importante, o mesmo que vimos em Atenas, sobre quem derrama esse Espírito e de quem ele procede. Ouça Pedro em Pentecostes, explicando o que estava acontecendo: “tendo sido exaltado pela destra de Deus e recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vedes e ouvis” (Atos 2.33). Está tudo nessa frase. O Espírito é do Pai, a fonte é o Pai, sempre; é o Pai quem promete e de quem o Espírito procede. E Jesus, exaltado, recebe do Pai essa promessa e a derrama. O Filho não é a fonte do Espírito; é aquele que, glorificado, o recebe do Pai e o distribui aos seus. Por isso o mesmo Espírito é chamado ora “Espírito de Deus”, ora “Espírito de Cristo”, não porque haja dois espíritos, nem porque o Filho seja uma segunda fonte divina, mas porque o Espírito do Pai chega agora ao povo através do Filho exaltado. Os doze de Éfeso recebem, pela imposição das mãos de Paulo, esse mesmo Espírito único: a presença do Pai, derramada pelo Filho, sobre os que agora creem. E o próprio Paulo desenharia esse mesmo movimento na carta que envia a Éfeso: “por ele ambos temos acesso ao Pai, em um mesmo Espírito” (Efésios 2.18), e “um só Deus e Pai de todos” (Efésios 4.6). O paralelo esclarece a ordem que este episódio ensina: o Pai é a fonte de quem tudo parte e a quem se chega, o Filho é o acesso pelo qual se chega, e o Espírito é a presença em que se anda.
A tradição de Israel guardava viva essa esperança do derramamento do Espírito, e de um modo que ilumina a expectativa em que os doze estavam parados. Os rabinos ensinavam que, com a morte dos últimos profetas, Ageu, Zacarias e Malaquias, o ruach hakodesh, o Espírito Santo, se retirara de Israel; e havia uma esperança ardente de que, nos dias do Messias, ele seria restaurado e derramado sobre o povo. O Targum e o Midrash ligavam a era messiânica justamente a essa volta do Espírito profético. Havia, pois, no coração de Israel, uma expectativa de que o Espírito voltaria, e é essa a expectativa que João atiça e que Pentecostes cumpre. Os doze de Éfeso viviam do lado de cá dessa esperança, esperando o que já tinha chegado. E aqui a convergência é real: a fé de Israel e a fé apostólica concordam em que o derramamento do Espírito é a marca da era messiânica. A diferença, e vale marcá-la sem apagar o encontro, é que o evangelho anuncia que essa era já começou: o Espírito prometido já foi derramado, porque o Messias já veio, já foi exaltado, e já o derramou.
Três meses na sinagoga e dois anos numa sala alugada: como toda a Ásia ouviu a palavra
E, entrando na sinagoga, falou ousadamente por espaço de três meses, disputando e persuadindo acerca do reino de Deus.Atos 19.8
O método é o de sempre, fiel: Paulo entra na sinagoga e ali fica “por espaço de três meses”, “falando ousadamente”, “disputando e persuadindo”. Note que em Éfeso ele teve mais fôlego do que em quase toda parte, três meses inteiros na sinagoga, quando em Tessalônica foram apenas três sábados. Havia mais paciência, mais abertura. E veja o tema da sua pregação: “o reino de Deus”. É a mesma expressão com que Atos começou, quando o Jesus ressurreto falava aos apóstolos “das coisas concernentes ao reino de Deus” (Atos 1.3), e com que Atos terminará, quando Paulo, preso em Roma, estiver “pregando o reino de Deus” (Atos 28.31). O reino de Deus é o fio que costura o livro inteiro: o anúncio de que Deus reina, de que o seu Rei veio e virá, de que há um senhorio ao qual todos são chamados a se render. Paulo persuadia os judeus de Éfeso disto, e por três meses foi ouvido. E se quisermos saber como Paulo expunha esse reino em Éfeso, o melhor paralelo é a carta que ele escreveria a essa mesma igreja, onde o reino aparece como um domínio celestial já estabelecido: Deus ressuscitou a Cristo e o assentou “à sua direita nos lugares celestiais, acima de todo principado, e poder, e potestade, e domínio” (Efésios 1.20-21), pondo todas as coisas debaixo dos seus pés. Em nenhuma outra carta o reino espiritual é tão desenhado como nessa, e o paralelo mostra o que estava em jogo naqueles três meses de sinagoga: o reino de Deus não é um assunto religioso entre outros, é o anúncio de que já existe um trono acima de todos os poderes que Éfeso temia e cultuava.
Mas, como alguns deles se endurecessem e não cressem, falando mal do Caminho perante a multidão, retirou-se deles, e separou os discípulos, disputando todos os dias na escola de um certo Tirano.Atos 19.9
Mas chega o ponto de ruptura, como sempre chegava, e Lucas o descreve com três verbos precisos: “alguns se endureciam”, ἐσκληρύνοντο (esklērýnonto), a mesma raiz de “esclerose”, o coração que endurece como pedra, “não criam”, e passavam a “falar mal do Caminho perante a multidão”. Repare nesse nome que Lucas dá à fé cristã: “o Caminho”, ἡ ὁδός (hē hodós). Era como os primeiros cristãos chamavam a si mesmos, e é um nome cheio de sentido: não uma teoria a debater, mas um caminho a percorrer, um modo de viver, uma estrada que se anda atrás de Jesus, que dissera “eu sou o caminho”. E quando esse Caminho passou a ser difamado publicamente na sinagoga, Paulo tomou uma decisão: “retirou-se deles, e separou os discípulos”. Não brigou nem insistiu onde só havia endurecimento; separou os que criam e mudou de lugar. Levou a obra para “a escola de um certo Tirano”.
A “escola de Tirano” era, provavelmente, um auditório ou sala de conferências onde um mestre de retórica ou filosofia, chamado Tirano, dava as suas aulas. Não tinha templo, não tinha púlpito, não tinha horário nobre: tinha uma sala emprestada e a encheu de discípulos. Onde a porta oficial se fechou, ele improvisou uma sala de aula. E o resultado foi assombroso.
E durou isto por espaço de dois anos, de tal maneira que todos os que habitavam na Ásia, tanto judeus como gregos, ouviram a palavra do Senhor Jesus.Atos 19.10
Meça o alcance disto: “durou por espaço de dois anos”, e o fruto foi que “todos os que habitavam na Ásia… ouviram a palavra do Senhor Jesus”. Pare e veja a desproporção entre o meio e o resultado. Um homem numa sala de aula, numa cidade só, e o efeito foi que toda uma província romana ouviu o evangelho. Como? Éfeso era a capital e o coração comercial da Ásia; gente de toda a região passava por ela, ouvia Paulo, cria, e levava a palavra de volta para as suas cidades. Foi provavelmente nesses dois anos que nasceram as igrejas das cidades vizinhas, Colossos, Laodiceia, Hierápolis, e muito provavelmente as sete igrejas da Ásia a quem João escreveria no Apocalipse. Paulo talvez nunca tenha posto os pés em algumas dessas cidades; mas a palavra chegou lá, a partir da sua sala de aula em Éfeso, pela boca dos que ele ensinava. Uma sala tornou-se o centro irradiador do evangelho para uma província inteira.
E vale explicar com exatidão o que quer dizer essa frase, “todos os que habitavam na Ásia”, porque ela pode ser lida com uma pressa que o próprio Lucas não autoriza. No grego está πάντας τοὺς κατοικοῦντας τὴν Ἀσίαν (pántas toùs katoikoûntas tḕn Asían), literalmente “todos os que residiam na Ásia”, e o verbo κατοικέω (katoikéō) designa o morador fixo, o que tem casa ali, não o viajante de passagem. Mas o “todos” não significa que cada indivíduo da província, um por um, tenha ouvido um sermão de Paulo; significa que a palavra alcançou a Ásia inteira, penetrou em toda a extensão dela, sem deixar região de fora, de modo que quem morava ali passou a ter o evangelho ao seu alcance. É a diferença entre dizer “a notícia chegou a todo o país” e dizer “cada habitante do país leu a notícia”. Lucas está medindo alcance geográfico e disponibilidade pública, não contando cabeças.
E esse modo de falar é o das Escrituras inteiras, o que confirma a leitura. Marcos diz que “toda a província da Judeia e todos os habitantes de Jerusalém” saíam ao encontro de João Batista (Marcos 1.5), e ninguém entende com isso que não sobrou um único judeu em casa. Lucas escreve que saiu decreto de César para que “todo o mundo” fosse recenseado (Lucas 2.1), querendo dizer o mundo romano. E Paulo usa a mesma linguagem: o evangelho “está em todo o mundo” e foi “pregado a toda criatura que há debaixo do céu” (Colossenses 1.6,23), e a fé dos tessalonicenses “se divulgou em todos os lugares” (1 Tessalonicenses 1.8). O paralelo mostra que se trata de uma linguagem de amplitude, e não de estatística. Curiosamente, a confirmação mais forte vem da boca do inimigo, neste mesmo capítulo: Demétrio reclama que “não só em Éfeso, mas até quase em toda a Ásia” Paulo tinha convencido uma grande multidão (Atos 19.26). Aquele “quase”, dito por quem estava perdendo dinheiro com o fenômeno, prova que o alcance era real e imenso, e ao mesmo tempo que não se trata de exagero devoto.
E o mais notável é o modo como isso aconteceu, porque o texto deixa ver o mecanismo. Paulo não corria de cidade em cidade; ficava numa sala em Éfeso, e a província vinha até ele e voltava para casa. Quem multiplicava a palavra eram os discípulos formados naquela sala. Colossos é o caso documentado: a igreja de lá nasceu pela pregação de Epafras, “nosso amado conservo… fiel ministro de Cristo” (Colossenses 1.7), e Paulo dirá àqueles irmãos que eles nunca tinham visto o seu rosto (Colossenses 2.1); ainda assim, a carta que lhes escreve deve ser lida também em Laodiceia (Colossenses 4.16), e Hierápolis aparece ao lado (Colossenses 4.13). São justamente as cidades do vale do Lico, vizinhas de Éfeso, e algumas delas estarão depois entre as sete igrejas da Ásia (Apocalipse 1.11). O paralelo ilumina a frase de Lucas: “todos os que habitavam na Ásia” ouviram porque um homem ensinou com fidelidade um punhado de pessoas, e essas pessoas levaram a palavra a lugares onde o mestre jamais pisou.
O entroncamento por onde toda a província passava: a estratégia escondida na providência
Paulo não tinha estrutura, nem prestígio, nem plateia garantida; tinha uma sala. E dali o evangelho alcançou uma província inteira. Isso não é acaso; é o jeito de Deus.
Comece percebendo a estratégia escondida na providência. Deus levou Paulo justamente ao centro, a Éfeso, o cruzamento de rotas por onde passava toda a Ásia. Não a uma aldeia isolada, mas ao ponto de onde a palavra se espalharia sozinha pelas estradas do comércio. É o mesmo padrão que vimos em Tessalônica, cidade sobre a Via Egnátia, de onde “repercutiu a palavra do Senhor” por toda a região (1 Tessalonicenses 1.8). Deus conhece a geografia; planta a semente onde o vento a levará mais longe. Mas note que o meio pelo qual a semente correu não foi grandioso: foi um artesão cansado ensinando numa sala de aula. Deus juntou as duas coisas, um lugar estratégico e um instrumento humilde, e da combinação nasceu uma colheita que nenhum púlpito famoso teria produzido.
E este padrão, Deus fazendo muito com pouco, para que a glória seja dele e não do instrumento, está escrito por toda a Bíblia. Foi com um cajado na mão de um pastor foragido que Deus tirou Israel do Egito (Êxodo 4.2). Foi com trezentos homens, cântaros e tochas que Gideão desbaratou um exército (Juízes 7). Foi com cinco pedras lisas de um ribeiro que Davi derrubou o gigante (1 Samuel 17.40). Foi com cinco pães e dois peixinhos, nas mãos de um menino, que Jesus alimentou uma multidão (João 6.9). Deus tem predileção pelo pequeno, pelo desprezado, pelo insuficiente, porque, quando o resultado é grande demais para o meio, fica claro de quem é o poder. Paulo entenderia isso melhor do que ninguém, e o escreveria à igreja de Corinto: “Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes… para que nenhuma carne se glorie perante ele” (1 Coríntios 1.27-29). A sala de Tirano é um comentário vivo desse versículo.
Lenços que curavam numa cidade de feiticeiros: até onde Deus se abaixa para alcançar quem crê torto
E Deus fazia, pelas mãos de Paulo, maravilhas extraordinárias, de sorte que até os lenços e aventais do seu corpo se levavam aos enfermos, e as enfermidades fugiam deles, e os espíritos malignos saíam.Atos 19.11–12
Lucas escolhe uma expressão curiosa para o que acontecia em Éfeso: “Deus fazia maravilhas extraordinárias”, literalmente, no grego, “milagres não comuns”, δυνάμεις οὐ τὰς τυχούσας, milagres “fora do normal”, incomuns até para os padrões de Atos. E note, antes de tudo, quem é o sujeito da frase: “Deus fazia, pelas mãos de Paulo”. O poder não era de Paulo; era de Deus, apenas canalizado pelas mãos do apóstolo. Isto é importante para tudo o que vem a seguir, porque a cena seguinte mostrará o que acontece quando alguém tenta usar o poder sem ter a Deus por trás dele.
E que milagres eram esses? “Até os lenços e aventais do seu corpo se levavam aos enfermos, e as enfermidades fugiam deles.” Os “lenços” eram os panos que Paulo usava para enxugar o suor do rosto durante o trabalho; os “aventais” eram as tiras de couro que ele amarrava à cintura enquanto costurava tendas. Peças de trabalho, humildes, suadas. E Deus curava e libertava pessoas por meio delas. Pare e entenda o que está acontecendo aqui, porque é preciso ler com cuidado, ou se cai na superstição que o próprio texto está, na verdade, subvertendo. Não há mágica nos panos de Paulo, como se o tecido tivesse poder próprio. O que há é a condescendência de Deus: numa cidade mergulhada em magia, feitiçaria, amuletos e objetos de poder, Deus se abaixa até o nível daquela gente e fala numa linguagem que ela entende, demonstrando, por meios que os efésios associavam ao sobrenatural, que o seu poder era real, vivo e infinitamente superior a todos os encantamentos. Não era o pano; era Deus, usando o pano para alcançar corações viciados em objetos mágicos e apontá-los para a fonte verdadeira. O paralelo está na própria carta aos Efésios, em que Paulo ora para que aquela igreja conheça “a suprema grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos” (Efésios 1.19), o mesmo poder que ressuscitou Cristo e o pôs acima de todo principado. Numa cidade que media poder por amuletos, Deus mostrou pelos panos suados de um artesão que o seu poder é de outra ordem; e a carta diria depois, com palavras, o que os lenços já tinham dito por sinais.
De Neustã às relíquias: o dia em que o objeto que Deus usou virou objeto de culto
Vale parar a narrativa e aprofundar este ponto, porque poucos versículos da Escritura foram tão usados para justificar aquilo que o próprio texto não estabelece. É deste episódio, e do da orla do manto de Jesus, que se costuma extrair a base bíblica para a veneração de relíquias, os ossos, as vestes e os objetos de santos, tratados como portadores de poder. E a resposta não precisa vir de fora: a Escritura mesma fornece o critério, e o fornece com uma clareza que não deixa margem. A distinção que tudo decide é entre o meio e a fonte. Deus é livre para usar qualquer meio que queira; mas no instante em que o meio passa a receber a fé que pertence à fonte, ele deixou de ser instrumento e se tornou ídolo.
Comece notando que a Bíblia está cheia de meios materiais, e que eles nunca se repetem como técnica. A mulher do fluxo de sangue tocou a orla do manto de Jesus e foi curada, mas ouça o veredito do próprio Senhor sobre o que a curou: “filha, a tua fé te salvou” (Marcos 5.34), não “o meu manto te salvou”. Em outra ocasião muitos tocavam a orla da sua veste e saravam (Marcos 6.56); mas ele também curou um cego com lodo e saliva (João 9.6), outro surdo pondo os dedos nos ouvidos e cuspindo (Marcos 7.33), um leproso com o toque da mão (Marcos 1.41), e o servo do centurião a distância, sem meio nenhum, só com a palavra (Mateus 8.13). Naamã foi mandado banhar-se sete vezes no Jordão, e o rio não tinha poder algum: o que curou foi a obediência à palavra do profeta (2 Reis 5.10-14). Repare no padrão, porque ele é deliberado: Deus varia os meios justamente para que ninguém transforme o meio em método. Se houvesse poder no objeto, o objeto se repetiria sempre; como o poder está em Deus, o meio muda quando ele quer.
E agora venha aos textos que decidem a questão, porque a Escritura não apenas permite o meio, ela também o desautoriza quando o meio começa a ser tratado como fonte. Eliseu mandou Geazi adiante com o seu cajado, para pôr sobre o rosto do menino morto, e o cajado não fez nada: o profeta teve de vir em pessoa, orar e deitar-se sobre a criança (2 Reis 4.29-35). O objeto do homem de Deus, sozinho, foi impotente. Israel levou a arca do concerto para a batalha como quem leva um amuleto, certo de que a presença do móvel sagrado garantiria a vitória, e foi derrotado, e a arca foi capturada (1 Samuel 4.3-11); Deus não se deixa carregar como talismã, nem pelos seus. E o caso mais decisivo de todos: a serpente de bronze foi feita por ordem expressa de Deus, e quem a olhava vivia (Números 21.8-9). Séculos depois, o rei Ezequias “despedaçou a serpente de bronze que Moisés tinha feito, porque até àquele dia os filhos de Israel lhe queimavam incenso, e chamavam-lhe Neustã” (2 Reis 18.4), e a Escritura louva esse ato como parte da sua fidelidade. O objeto que Deus mesmo havia usado, e usado para salvar vidas, teve de ser reduzido a pedaços quando o povo começou a queimar-lhe incenso. O paralelo ilumina Éfeso de modo definitivo: se nem a serpente ordenada por Deus podia virar objeto de culto, muito menos um avental de couro do apóstolo.
E o Novo Testamento reforça essa guarda em cada oportunidade. Os apóstolos reagiam com horror a qualquer veneração que se voltasse para eles ou para o que era deles: “por que olhais para nós?”, protesta Pedro depois de curar o paralítico (Atos 3.12); ele levanta Cornélio do chão, “levanta-te, que eu também sou homem” (Atos 10.26); Paulo e Barnabé rasgam as vestes em Listra e gritam “também nós somos homens como vós” (Atos 14.14-15); e até um anjo recusa a adoração de João, “adora a Deus” (Apocalipse 22.8-9). Simão, o mágico, quis comprar o poder e ouviu de Pedro a maldição (Atos 8.18-20). Note ainda que, quando a Escritura ensina o que fazer com um enfermo na igreja, não aponta objeto algum: “chame os presbíteros da igreja, e orem sobre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor; e a oração da fé salvará o doente, e o Senhor o levantará” (Tiago 5.14-15), o agente nomeado é o Senhor, e o óleo é sinal, não remédio mágico. Quanto aos milagres extraordinários de Éfeso, Lucas os chama, ele mesmo, de “não comuns”, e o Novo Testamento explica a sua função: eram sinais que autenticavam a palavra pregada e o apostolado de quem a pregava (Hebreus 2.3-4; 2 Coríntios 12.12; Marcos 16.20). Eram credenciais de um momento, não a instituição de um culto permanente a objetos.
E veja, por fim, a ironia que Lucas construiu neste próprio capítulo, colocando três cenas lado a lado. Na primeira, Deus cura por panos suados, condescendendo com uma cidade viciada em amuletos. Na segunda, os convertidos queimam publicamente os seus objetos de poder, cinquenta mil moedas em livros de magia reduzidas a cinzas (Atos 19.19). Na terceira, um ourives incendeia a cidade para defender o comércio de objetos religiosos de prata (Atos 19.24-27). O mesmo capítulo que mostra Deus usando um pano mostra os crentes destruindo objetos e um comerciante lucrando com eles. O caminho de Éfeso, portanto, não vai do evangelho para as relíquias, vai das relíquias para a fogueira. Deus pode usar o meio que quiser, quando quiser; o que o homem não pode é institucionalizar o meio, cobrar por ele, ou entregar-lhe a confiança que só cabe a Deus, porque a adoração que o Pai busca é “em espírito e em verdade” (João 4.23-24). No dia em que o pano deixa de apontar para Deus e começa a receber a fé, ele já não é o pano de Paulo: é Neustã, e o lugar dele é o mesmo que Ezequias lhe deu.
Os sete filhos de Ceva: os exorcistas que apanharam do próprio demônio que queriam expulsar
E alguns judeus, exorcistas ambulantes, tentaram invocar o nome do Senhor Jesus sobre possessos de espíritos malignos, dizendo: Esconjuro-vos por Jesus, a quem Paulo prega. Os que faziam isto eram sete filhos de um judeu chamado Ceva, sumo sacerdote.Atos 19.13–14
E agora a cena vira. Havia em Éfeso “exorcistas judeus ambulantes”, gente que ganhava a vida vendendo esconjuros, andando de casa em casa a expulsar demônios por dinheiro, misturando o nome do Deus de Israel com fórmulas mágicas pagãs. Os judeus tinham fama, no mundo antigo, de conhecer nomes divinos poderosos, e esses charlatães exploravam essa fama. E, vendo o sucesso de Paulo, tiveram uma ideia: por que não acrescentar este nome novo, “Jesus”, ao seu repertório de encantamentos? Se funcionava para Paulo, funcionaria para eles. Então passaram a dizer: “Esconjuro-vos por Jesus a quem Paulo prega.” Repare na frase reveladora: “o Jesus a quem Paulo prega”, não “o meu Senhor Jesus”, não “aquele em quem creio”, mas “o Jesus daquele outro homem”. Eles tratavam o nome de Jesus como uma fórmula emprestada, um abracadabra de segunda mão, sem nenhuma relação com Aquele que o nome designa. E, para dar peso ao caso, Lucas anota quem eram: “sete filhos de Ceva, judeu, sumo sacerdote”, gente de família religiosa importante.
Mas o espírito maligno lhes respondeu: Conheço a Jesus e sei quem é Paulo; mas vós, quem sois?Atos 19.15
E vem uma das respostas mais assombrosas de toda a Escritura, dita pela boca de um demônio. O espírito maligno responde ao esconjuro com uma frase de três partes. Primeira: “Conheço a Jesus”, o verbo grego é γινώσκω (ginṓskō), conhecer por experiência, com respeito e temor; o demônio reconhece a autoridade de Jesus, treme diante dela. Segunda: “sei quem é Paulo”, aqui o verbo é ἐπίσταμαι (epístamai), estou ciente, sei quem ele é; até o servo de Jesus, que age em nome dele, o demônio reconhece. Mas a terceira parte é a lâmina: “mas vós, quem sois?” O demônio conhece Jesus e conhece Paulo, mas aqueles sete impostores, que usavam o nome sem ter nenhuma relação com o seu Dono, são para ele desconhecidos. Não têm autoridade nenhuma. São estranhos empunhando uma espada que não é sua. E vale ouvir aqui o que Paulo ensinaria por escrito a essa mesma cidade, porque em nenhuma carta o reino espiritual é tão exposto como em Efésios: “a nossa luta não é contra a carne e o sangue, mas contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século” (Efésios 6.12), e o cristão só se sustenta nessa luta revestido da armadura de Deus, não de fórmulas (Efésios 6.13-17). O paralelo explica a surra dos filhos de Ceva: eles entraram num combate real vestindo palavras emprestadas, e o inimigo, que enxerga a quem cada um pertence, reconheceu que ali não havia armadura nenhuma.
E o possesso do espírito maligno saltou sobre eles, subjugando a todos, e, de tal modo prevaleceu contra eles, que, desnudos e feridos, fugiram daquela casa.Atos 19.16
O desfecho é rápido, humilhante e cômico, e de propósito. O endemoninhado “saltou neles” e os dominou com uma força sobre-humana, de modo que os sete esconjuradores profissionais fugiram “nus e feridos”, com as roupas rasgadas e o corpo machucado, correndo daquela casa. Pare e saboreie a ironia da cena, porque ela é deliberada. Sete homens que se vendiam como senhores de demônios são espancados e postos para correr, seminus, por um único endemoninhado. A fórmula mágica não funcionou. O nome de Jesus, tomado de empréstimo por quem não conhecia a Jesus, não era um amuleto de poder, era, nas mãos deles, apenas uma palavra vazia que os deixou ainda mais expostos. O contraste com Paulo é gritante: os panos suados do apóstolo curavam, porque Deus estava com ele; o nome de Jesus na boca dos impostores os deixou nus, porque Jesus não os conhecia. A diferença não está na fórmula; está na relação.
O nome de Jesus na boca errada: invocar não é pertencer
Vale parar a narrativa e assentar o que a surra dos filhos de Ceva ensina, porque nela se ilumina uma verdade que separa a fé verdadeira de toda a magia e de toda a religião supersticiosa: a diferença entre usar o nome de Jesus como fórmula e pertencer a Jesus como Senhor. Aqueles sete homens pronunciaram o nome certo e foram espancados; Paulo tinha a relação certa e Deus curava por seus panos.
Comece entendendo o que é a magia, no fundo, porque o coração dela sobrevive muito além dos feiticeiros antigos. A magia é a tentativa de controlar o poder divino por meio de fórmulas, objetos ou técnicas, dizer as palavras certas, fazer os gestos certos, possuir o amuleto certo, e assim obrigar o sobrenatural a obedecer. É uma transação: eu forneço a fórmula, o poder me atende. E é exatamente isso o que os filhos de Ceva tentaram fazer com o nome de Jesus: transformá-lo num encantamento, numa senha que abrisse o cofre do poder sem que eles precisassem se render ao dono do cofre. E o demônio desmascarou a farsa: o nome de Jesus não é uma senha; é uma pessoa, e só tem autoridade na boca de quem lhe pertence.
E a Escritura sempre condenou essa manipulação, do princípio ao fim, porque ela é o oposto da fé. A Torá proibia com dureza toda feitiçaria: “Não se achará entre ti quem faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro; nem encantador, nem necromante, nem mágico, nem quem consulte os mortos; pois todo aquele que faz tal coisa é abominação ao SENHOR; e por estas abominações o SENHOR, teu Deus, os lança de diante de ti.” (Deuteronômio 18.10-12)4.
E o Novo Testamento mostra o choque frontal do evangelho com o ocultismo: Simão, o mágico, quis comprar o poder de dar o Espírito, e Pedro o repeliu com horror, “o teu dinheiro seja contigo para perdição, pois cuidaste que o dom de Deus se alcança por dinheiro” (Atos 8.20). A mesma lógica dos filhos de Ceva: tratar o poder de Deus como mercadoria ou fórmula, algo que se adquire ou se aciona por técnica, em vez de dom que se recebe pela graça, na relação. Deus nunca se deixa manipular. Ele se dá, a quem se rende, mas não se compra nem se conjura.
E é aqui que o contraste com a fé verdadeira brilha, porque a fé é o exato oposto da magia. A magia quer controlar Deus; a fé se submete a Deus. A magia diz “eu comando pela fórmula”; a fé diz “seja feita a tua vontade”. O poder que operava por Paulo não vinha de uma técnica que ele dominasse, mas de uma vida rendida àquele a quem ele pertencia, “já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gálatas 2.20). Por isso os panos suados de um homem entregue a Deus tinham poder, e o nome de Jesus na boca de sete homens não-rendidos não tinha nenhum. A diferença nunca esteve na fórmula pronunciada; sempre esteve em a quem se pertence. O demônio conhecia Jesus e conhecia Paulo, o servo de Jesus, mas não conhecia os impostores, porque eles não eram de Cristo. “O Senhor conhece os que são seus” (2 Timóteo 2.19), e o inferno também sabe distinguir os que pertencem a ele dos que apenas usam o nome.
É perfeitamente possível usar o nome de Jesus sem pertencer a Jesus, pronunciá-lo em orações, cantá-lo em hinos, invocá-lo em fórmulas, e ainda assim ser, aos olhos do céu e do inferno, um desconhecido. O nome não salva como amuleto; a relação salva. “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus”, disse Jesus, “mas aquele que faz a vontade de meu Pai”; e a muitos que invocaram o seu nome e até fizeram maravilhas ele dirá: “nunca vos conheci” (Mateus 7.21-23). A pergunta do demônio ecoa até nós, e é a pergunta que cada um deve responder diante de Deus: não “você sabe o nome?”, mas “você é dele?”. Os que pertencem a Cristo não empunham o seu nome como uma espada emprestada; vivem debaixo do seu senhorio, e por isso o seu nome, neles, tem poder: não porque o pronunciem, mas porque lhe pertencem.
Havia poder no nome: o que faltava era o direito de usá-lo
Vale dizer com toda a clareza que o poder não faltou ao nome. O demônio não respondeu “não conheço esse nome”; ele respondeu: “conheço Jesus, e sei quem é Paulo; mas vós, quem sois?” (Atos 19.15). A pergunta não incide sobre a eficácia do nome, e sim sobre a identidade de quem o pronuncia. Havia poder no nome, e de sobra; o que faltava aos sete era o direito de usá-lo. E a Escritura diz com precisão o que faltava.
Faltava-lhes, primeiro, pertencimento e envio. Nos Evangelhos a autoridade sobre os espíritos nunca é capturada, é conferida: Jesus “deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demônios” (Lucas 9.1), e a promessa “em meu nome expulsarão demônios” é dada “aos que crerem” (Marcos 16.17). Quem não foi enviado não cita uma comissão, cita apenas uma frase. Por isso o critério final não é o vocabulário, mas a posse: “o Senhor conhece os que são seus” (2 Timóteo 2.19).
Faltava-lhes fé, e o que tinham era fórmula. Pedro explica a cura do paralítico dizendo que se deu “pela fé em seu nome” (Atos 3.16), e não pela pronúncia do nome. É a mesma linha que separa Simão, o mágico, do apóstolo: Simão quis comprar o dom (Atos 8.19-20), tratando o poder de Deus como técnica adquirível. Os filhos de Ceva fizeram o mesmo com o nome de Jesus, guardando-o no repertório ao lado dos encantamentos que já usavam.
Faltava-lhes o Espírito Santo. Jesus localiza a fonte do exorcismo sem rodeios: “eu expulso os demônios pelo Espírito de Deus” (Mateus 12.28), e a autoridade prometida à igreja é explicitamente pneumática, “recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo” (Atos 1.8). O capítulo tinha aberto exatamente aí, com discípulos que não sabiam sequer da existência do Espírito (Atos 19.2), e agora mostra o extremo oposto: homens que invocam o nome do Filho sem o Espírito do Pai, e por isso ficam sem poder algum.
Os filhos de Ceva entraram na guerra invisível sem posição em Cristo e sem armadura alguma, e saíram dela nus e feridos (Atos 19.16), exatamente o que Efésios diz acontecer a quem enfrenta o reino das trevas por conta própria.
O medo que tomou Éfeso: os novos crentes confessam em público o que faziam às escondidas
Chegou este fato ao conhecimento de todos, assim judeus como gregos habitantes de Éfeso; veio temor sobre todos eles, e o nome do Senhor Jesus era engrandecido.Atos 19.17
A notícia correu por toda Éfeso, “tanto judeus como gregos”, e o resultado foi duplo: “caiu temor sobre todos”, e “o nome do Senhor Jesus era engrandecido”. Pare e note o contraste. De um lado, sete impostores usando o nome de Jesus como fórmula mágica, e o resultado foi a surra e a vergonha. De outro, Paulo, servo rendido, e o resultado eram curas e libertações. A própria Éfeso, capital da magia, aprendeu na prática que aquele nome não era mais um encantamento a acrescentar à coleção, era santo, poderoso, e não se deixava manipular. O temor que caiu sobre a cidade não era medo supersticioso; era o começo da reverência, o reconhecimento de que ali havia um poder real diante do qual não se brinca. E onde nasce esse temor, o nome de Jesus é “engrandecido”: posto no seu devido lugar, acima de todos os nomes que a magia efésia venerava.
Muitos dos que creram vieram confessando e denunciando publicamente as suas próprias obras.Atos 19.18
E então acontece algo notável entre os próprios crentes, e é preciso reparar bem, porque revela o que é conversão verdadeira. “Muitos dos que tinham crido”, gente já convertida, já dentro da igreja, “vinham, confessando e publicando os seus feitos”. Que feitos eram esses? Pelo contexto, práticas ocultas, feitiçarias, encantamentos, artes mágicas, que alguns ainda mantinham escondidas mesmo depois de crerem. Eram pessoas que tinham aceitado a Cristo, mas ainda guardavam, num canto da vida, os velhos amuletos, as velhas fórmulas, um pé no evangelho e outro na feitiçaria. E o avivamento que caiu sobre Éfeso trouxe à luz o que estava escondido: eles vieram confessar abertamente aquilo que ainda praticavam em segredo. A conversão, que começara na mente, agora descia às raízes e arrancava o que sobrara do velho mundo. Não bastava crer; era preciso romper, e romper à luz do dia, publicamente. Anos depois, Paulo escreveria a esses mesmos efésios a regra que eles estavam ali cumprindo: “não sejais participantes das obras infrutuosas das trevas, antes, reprovai-as” (Efésios 5.11), pois “todas as coisas que são reprovadas são manifestas pela luz” (Efésios 5.13). O paralelo ilumina a cena: o que a luz alcança, ela expõe, e o que é exposto perde o poder que tinha no escuro. Foi exatamente isso que aconteceu quando os crentes de Éfeso trouxeram para fora aquilo que ainda praticavam escondido.
Uma fogueira de cinquenta mil moedas de prata: os feiticeiros queimam os próprios livros
Também muitos dos que haviam praticado artes mágicas, reunindo os seus livros, os queimaram diante de todos. Calculados os seus preços, achou-se que montavam a cinquenta mil denários.Atos 19.19
E aqui vem o gesto que sela tudo, e é preciso demorar nele, porque poucas cenas na Bíblia mostram de forma tão concreta o que custa romper com o passado. Os que seguiam artes mágicas “trouxeram os seus livros”, os rolos de encantamentos, fórmulas e receitas ocultas, os célebres “escritos efésios”, itens caríssimos, pois eram raros e cobiçados, “e os queimaram na presença de todos”. Não os venderam para recuperar o investimento. Não os guardaram “por via das dúvidas”. Não os doaram a outro feiticeiro. Queimaram-nos, publicamente, transformando em cinzas o que valia uma fortuna. E Lucas, com a precisão do historiador, faz a conta: “achou-se que montava a cinquenta mil denários”. Cada “peça de denário” era o salário de um dia de trabalho. Cinquenta mil dias de salário subindo em fumaça numa só fogueira. O equivalente a muitos anos de trabalho de muitos homens, reduzido a cinzas numa praça. São quase 137 anos de trabalho sendo queimados.
Esse número é a prova material de um arrependimento real. É fácil dizer “eu creio”; é fácil confessar com a boca. Mas aqueles efésios traduziram o arrependimento em prejuízo, abriram mão de uma fortuna para não guardar nada do velho mundo em casa. E note que eles poderiam ter racionalizado de mil formas: “vou vender os livros e dar o dinheiro aos pobres”, parece até piedoso; “vou guardá-los só como lembrança”; “vou repassá-los, o mal já está feito mesmo”. Mas não. Entenderam que aquilo era abominação, e que o certo a fazer com a abominação não é lucrar com ela nem repassá-la adiante, mas destruí-la. Queimaram a ponte para trás, para nunca mais poderem voltar. O arrependimento deles não foi um sentimento; foi uma fogueira que se podia contar em dinheiro. Custou caro, e foi exatamente por custar caro que foi verdadeiro.
**20 Assim**, a palavra do Senhor crescia e prevalecia poderosamente.Atos 19.20
E veja o versículo que fecha esta seção, um daqueles resumos triunfais com que Lucas marca os avanços do evangelho: “Assim, a palavra do Senhor crescia poderosamente e prevalecia.” Note a ligação: foi depois da fogueira que a palavra cresceu com força. Não é que o avivamento tenha produzido apenas emoção; produziu ruptura concreta, custosa, visível, e foi sobre essa ruptura que a palavra “prevaleceu”. O verbo “prevalecia” traz a imagem de uma força que vence resistências, que se impõe, que avança contra a corrente. Numa cidade dominada pela magia, o evangelho não fez as pazes com o ocultismo nem o tolerou num canto; confrontou-o, e venceu, a ponto de os próprios ex-feiticeiros queimarem os seus livros. A palavra do Senhor não cresce onde é misturada com o velho mundo; cresce onde rompe com ele. Éfeso viu isso: quando os crentes queimaram as suas fórmulas, a palavra prevaleceu.
Judas também se arrependeu: a diferença entre o remorso e o arrependimento
O arrependimento verdadeiro, não um sentimento passageiro, nem uma decisão só da mente, mas uma ruptura real com o velho mundo, custe o que custar. Aqueles efésios não apenas creram; queimaram as pontes que os ligavam ao passado, para não poderem voltar. E essa é a marca que a Escritura sempre associou ao arrependimento genuíno.
Comece distinguindo o arrependimento verdadeiro do falso. O arrependimento que a Bíblia pede não é o mero remorso, a tristeza de ter sido pego, o pesar que logo passa e nada muda. Judas “se arrependeu” no sentido de sentir remorso, devolveu o dinheiro e se enforcou, mas nunca voltou para Cristo (Mateus 27.3-5). O arrependimento verdadeiro, μετάνοια (metánoia), é uma mudança de direção, um dar as costas ao que se era e voltar-se para Deus, e essa virada aparece na vida. João Batista já exigira isso dos que vinham ao seu batismo: “produzi frutos dignos de arrependimento” (Mateus 3.8), não basta dizer que se arrependeu; é preciso que a vida mude de rumo de modo visível. Os efésios produziram o fruto na forma mais concreta possível: uma fogueira de cinquenta mil moedas. O arrependimento que não custa nada, que não rompe nada, que não abre mão de nada, é suspeito. O verdadeiro sempre deixa alguma coisa para trás, e às vezes essa coisa vale uma fortuna.
E a Escritura está cheia de gestos assim, rupturas concretas com o passado, que selam a virada do coração. Quando Jacó voltou a Betel para se consagrar a Deus, mandou a sua casa “tirai os deuses estranhos que há no meio de vós”, e eles os entregaram, e ele os enterrou debaixo de um carvalho (Gênesis 35.2-4), livrar-se dos ídolos foi o gesto material da consagração. Quando Gideão foi chamado, a primeira ordem foi derrubar o altar de Baal do seu próprio pai e cortar o poste-ídolo ao lado (Juízes 6.25). Eliseu, ao ser chamado por Elias, matou os bois da sua lavoura e queimou os apetrechos de arar para cozinhá-los, destruindo o seu meio de vida antigo para não ter para onde voltar (1 Reis 19.21). E Zaqueu, ao receber a Jesus, provou a conversão abrindo a bolsa: “dou aos pobres metade dos meus bens; e, se nalguma coisa defraudei alguém, restituo quatro vezes mais” (Lucas 19.8). Em cada caso, o mesmo padrão: o arrependimento verdadeiro toca o bolso, os hábitos, os objetos, a vida concreta, e rompe. Não é uma emoção na alma; é uma fogueira no quintal. E é à igreja de Éfeso que Paulo daria a formulação mais clara desse duplo movimento: “despojai-vos do velho homem… e vos revistais do novo homem” (Efésios 4.22-24); e, para que ninguém pense que se trata de abstração, ele desce ao concreto: “aquele que furtava não furte mais, antes trabalhe” (Efésios 4.28). O paralelo mostra que despir e vestir são gestos, não sentimentos: aqueles efésios se despojaram do velho mundo pelo preço de cinquenta mil moedas de prata.
Paulo mira Jerusalém e Roma, e um fabricante de ídolos vê o lucro ameaçado
Cumpridas estas coisas, Paulo resolveu, no seu espírito, ir a Jerusalém, passando pela Macedônia e Acaia, considerando: Depois de haver estado ali, importa-me ver também Roma. Tendo enviado à Macedônia dois daqueles que lhe ministravam, Timóteo e Erasto, permaneceu algum tempo na Ásia.Atos 19.21–22
Antes do tumulto, Lucas nos deixa espiar o coração de Paulo: “importa-me ver também Roma.” Paulo, no auge do trabalho em Éfeso, já olha adiante, para Jerusalém primeiro, e depois para Roma, o coração do império. Lucas não diz aqui o motivo da subida a Jerusalém, mas as cartas escritas nesse mesmo período dizem: era a entrega da coleta das igrejas gentias para os irmãos pobres da Judeia, organizada justamente de Éfeso.
Quanto à coleta para os santos, fazei vós também como ordenei às igrejas da Galácia. No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte, em casa, conforme a sua prosperidade, e vá juntando, para que se não façam coletas quando eu for. E, quando tiver chegado, enviarei, com cartas, para levarem as vossas dádivas a Jerusalém, aqueles que aprovardes.1 Coríntios 16.1–4
E essa oferta foi recolhida nas duas províncias que aparecem no itinerário de Atos 19.21, “porque aprouve à Macedônia e à Acaia levantar uma coleta em benefício dos pobres dentre os santos que vivem em Jerusalém. Isto lhes pareceu bem, e mesmo lhes são devedores; porque, se os gentios têm sido participantes dos valores espirituais dos judeus, devem também servi-los com bens materiais.” (Romanos 15.25-26). Anos depois, diante de Félix, o próprio Paulo resumiria a viagem nestas palavras: “vim trazer esmolas à minha nação, e ofertas” (Atos 24.17). Assim, aquele “importa-me”, δεῖ (deî), “é necessário”, não é mera vontade de viajante; é a consciência de um chamado. E é uma seta que aponta para o fim de Atos: o livro terminará, de fato, com Paulo em Roma, pregando o reino de Deus. Deus já plantara no coração do apóstolo o destino que a sua providência iria cumprir, ainda que por um caminho que Paulo não imaginava, o de prisioneiro e não de viajante livre. Mas antes de Roma, antes de Jerusalém, Éfeso ainda lhe reservava uma última tempestade, e ela vinha de um lugar inesperado: não da sinagoga, mas do bolso dos comerciantes.
Macedônia e Acaia, Timóteo e Erasto: a equipe de vanguarda e a coleta
Lucas acrescenta o itinerário e os nomes: “passando pela Macedônia e Acaia” e “tendo enviado à Macedônia dois daqueles que lhe ministravam, Timóteo e Erasto” (Atos 19.21-22). Macedônia e Acaia não são regiões vagas: são as duas províncias romanas da Grécia continental. Macedônia é o norte, com Filipos, Tessalônica e Bereia; Acaia é o sul, com Corinto, sua capital administrativa, e Atenas. São precisamente as igrejas que Paulo havia plantado na segunda viagem (Atos 16.12; 17.1; 17.10; 18.1), de modo que o itinerário não é uma rota conveniente de viajante, e sim uma volta pastoral às suas próprias congregações no caminho de Jerusalém. E são as mesmas duas províncias que Romanos 15.26 nomeia como contribuintes da coleta, o que amarra o roteiro ao propósito: Paulo desceria recolhendo o que as igrejas gentias tinham separado.
O envio de dois homens à frente não é detalhe logístico, é método de trabalho, e as cartas o confirmam. De Éfeso Paulo escreve: “Por esta causa, vos mandei Timóteo, que é meu filho amado e fiel no Senhor, o qual vos lembrará os meus caminhos em Cristo Jesus, como, por toda parte, ensino em cada igreja.” (1 Coríntios 4.17), e adiante: “e, se Timóteo for, vede que esteja sem receio entre vós, porque trabalha na obra do Senhor, como também eu; ninguém, pois, o despreze. Mas encaminhai-o em paz, para que venha ter comigo, visto que o espero com os irmãos.” (1 Coríntios 16.10-11). O motivo aparece com toda a clareza na segunda carta: Paulo envia irmãos adiante para que estejam preparados para a oferta:
Ora, quanto à assistência a favor dos santos, é desnecessário escrever-vos, porque bem reconheço a vossa presteza, da qual me glorio junto aos macedônios, dizendo que a Acaia está preparada desde o ano passado; e o vosso zelo tem estimulado a muitíssimos. Contudo, enviei os irmãos, para que o nosso louvor a vosso respeito, neste particular, não se desminta, a fim de que, como venho dizendo, estivésseis preparados, para que, caso alguns macedônios forem comigo e vos encontrem desapercebidos, não fiquemos nós envergonhados (para não dizer, vós) quanto a esta confiança. Portanto, julguei conveniente recomendar aos irmãos que me precedessem entre vós e preparassem de antemão a vossa dádiva já anunciada, para que esteja pronta como expressão de generosidade e não de avareza.2 Coríntios 9.1–5
Timóteo aparece aqui sem apresentação, e Lucas em nenhum momento diz quando ele chegou a Éfeso. O que se sabe é o caminho: Timóteo se juntou a Paulo em Listra (Atos 16.1-3), ficou para trás na Macedônia com Silas (Atos 17.14), reencontrou o apóstolo em Corinto (Atos 18.5; 1 Tessalonicenses 3.6) e reaparece agora, em Éfeso, já integrado à equipe, como 1 Coríntios 4.17 e 16.10 comprovam. O silêncio de Lucas é próprio do seu método: ele narra o avanço da Palavra, não a agenda dos companheiros.
Erasto é o nome mais discreto e talvez o mais surpreendente do versículo. Ele aparece três vezes nas Escrituras, e as três combinam. Aqui, enviado à Macedônia (Atos 19.22). Depois, na saudação final de uma carta escrita justamente de Corinto: “Erasto, tesoureiro da cidade, vos saúda” (Romanos 16.23), o mesmo nome que aparece gravado numa calçada de Corinto, onde o grego traz oikonómos, administrador ou tesoureiro municipal, um cargo público de peso. E por último: “Erasto ficou em Corinto” (2 Timóteo 4.20), o que combina com um homem cuja base era aquela cidade. Se é o mesmo, e tudo indica que sim, temos um funcionário graduado da administração coríntia a serviço do evangelho, lembrete de que “nem muitos poderosos” (1 Coríntios 1.26) nunca quis dizer nenhum. Um jovem pastor e um administrador público, enviados juntos: a equipe de Paulo não era uniforme, e o Senhor usava o dom de cada um.
Por esse tempo, houve grande alvoroço acerca do Caminho. Pois um ourives, chamado Demétrio, que fazia, de prata, nichos de Diana e que dava muito lucro aos artífices, convocando-os juntamente com outros da mesma profissão, disse-lhes: Senhores, sabeis que deste ofício vem a nossa prosperidade.Atos 19.23–25
E agora Lucas descobre a raiz do conflito, e é preciso vê-la com clareza, porque ela desmascara o verdadeiro motivo por trás de uma indignação que se vestirá de religião. O agitador é Demétrio, um ourives, não um sacerdote, note bem, mas um comerciante. Ele fazia “nichos de prata de Diana”, pequenas réplicas do famoso templo de Ártemis, souvenirs religiosos que os peregrinos compravam aos milhares. Era um negócio próspero, que dava não pouco lucro aos artífices. E veja como Demétrio abre o seu discurso aos colegas de ofício, com uma franqueza que denuncia tudo: “Senhores, sabeis que deste ofício vem a nossa prosperidade.” Repare: a primeira palavra, o verdadeiro motivo, é o dinheiro. Antes de qualquer menção à deusa, à religião, à honra, o negócio, o lucro, vem a prosperidade. Demétrio começa confessando, sem perceber, que o problema não é teológico; é financeiro. O evangelho de Paulo, ao afastar as pessoas da idolatria, estava secando a fonte de renda dos fabricantes de ídolos. E aí é que a coisa aperta.
E estais vendo e ouvindo que não só em Éfeso, mas em quase toda a Ásia, este Paulo tem persuadido e desencaminhado muita gente, afirmando não serem deuses os que são feitos por mãos humanas. Não somente há o perigo de a nossa profissão cair em descrédito, como também o de o próprio templo da grande deusa, Diana, ser estimado em nada, e ser mesmo destruída a majestade daquela que toda a Ásia e o mundo adoram.Atos 19.26–27
Ouça como Demétrio constrói a sua argumentação, porque é uma obra-prima de manipulação, e a ordem dos argumentos revela a hierarquia real dos seus valores. Primeiro, ele reconhece o sucesso de Paulo, e sem querer presta-lhe um enorme testemunho: “não só em Éfeso, mas em quase toda a Ásia, este Paulo tem persuadido e desencaminhado muita gente”. Confirma, da boca do inimigo, o alcance imenso da pregação. E resume a mensagem de Paulo com exatidão teológica: “afirmando não serem deuses os que são feitos por mãos humanas”, que é precisamente o que Paulo pregara em Atenas, e o que os profetas de Israel sempre disseram. Depois, Demétrio apresenta dois perigos. Primeiro perigo: “de a nossa profissão cair em descrédito”, o negócio, o ganha-pão. Só depois, como que para dar verniz nobre à causa, vem o segundo: “de o próprio templo da grande deusa, Diana, ser estimado em nada, e ser mesmo destruída a majestade daquela que toda a Ásia e o mundo adoram”. Ele começa pelo bolso e termina pela deusa. A religião entra como cobertura da ganância. Demétrio sabia que “estou perdendo dinheiro” não levantaria uma multidão; mas “estão insultando a nossa deusa” levantaria. Então vestiu o interesse econômico com a fantasia da devoção religiosa. E funcionou.
Duas horas gritando “grande é a Diana dos efésios!”: a cidade inteira em tumulto
Ouvindo isto, encheram-se de furor e clamavam: Grande é a Diana dos efésios! Foi a cidade tomada de confusão, e todos, à uma, arremeteram para o teatro, arrebatando os macedônios Gaio e Aristarco, companheiros de Paulo.Atos 19.28–29
A manobra de Demétrio incendeia a plateia: “encheram-se de furor e clamavam: Grande é a Diana dos efésios!” E a fagulha vira incêndio, “foi a cidade tomada de confusão”. A turba, “unânime”, corre para o teatro, o grande anfiteatro de Éfeso, cujas ruínas ainda hoje se veem, com capacidade para uns vinte e cinco mil espectadores. E, não achando Paulo, arrastam consigo dois dos seus companheiros, Gaio e Aristarco. Note a natureza da multidão, que Lucas vai expor sem piedade nos versículos seguintes: é uma massa movida por paixão, não por razão; que grita sem saber direito o quê; pronta para a violência sem sequer entender a causa. É o retrato do populacho manipulado, e é sempre assim que a idolatria e o interesse, quando ameaçados, se defendem: não com argumentos, mas com o barulho da multidão.
Querendo este apresentar-se ao povo, não lhe permitiram os discípulos. Também asiarcas, que eram amigos de Paulo, mandaram rogar-lhe que não se arriscasse indo ao teatro.Atos 19.30–31
Veja aqui a coragem de Paulo e a sabedoria dos que o cercavam. O apóstolo, fiel ao seu destemor, “queria apresentar-se ao povo”, entrar no teatro, enfrentar a multidão enfurecida, pregar no olho do furacão. Era da sua natureza. Mas “não lho permitiram os discípulos”. E, mais notável ainda, “alguns dos principais da Ásia”, os asiarcas5, altos funcionários da província, homens de posição, “que eram seus amigos” lhe mandaram rogar que não fosse. Pare e note dois detalhes preciosos. Primeiro: a coragem de Paulo precisava, às vezes, ser contida pela prudência dos irmãos; ser corajoso não é ser temerário, e há horas em que a bravura sábia é recuar. Segundo, e surpreendente: Paulo tinha amigos entre as autoridades da província, gente importante que o estimava e o protegia. O evangelho já penetrara até nos altos escalões de Éfeso. Nem toda a cidade estava contra ele; havia, no topo, quem o defendesse. E foi a intervenção desses amigos, somada ao bom senso dos discípulos, que preservou a vida do apóstolo naquela hora.
Uns, pois, gritavam de uma forma; outros, de outra; porque a assembléia caíra em confusão. E, na sua maior parte, nem sabiam por que motivo estavam reunidos. Então, tiraram Alexandre dentre a multidão, impelindo-o os judeus para a frente. Este, acenando com a mão, queria falar ao povo. Quando, porém, reconheceram que ele era judeu, todos, a uma voz, gritaram por espaço de quase duas horas: Grande é a Diana dos efésios!Atos 19.32–34
E agora Lucas pinta o retrato definitivo daquela multidão, com uma frase que é pura ironia e pura verdade: “e, na sua maior parte, nem sabiam por que motivo estavam reunidos.” Pare e ria, e depois pense. Uma cidade inteira em polvorosa, um teatro lotado de gente gritando, e a maioria nem sabia por quê. Tinham corrido para o teatro porque todo mundo corria; gritavam porque todo mundo gritava. É o retrato mais fiel que existe da massa manipulada, barulhenta, furiosa, unânime, e completamente ignorante da causa que julga defender. E o ponto alto do absurdo: quando empurraram um tal Alexandre6 para tentar falar, e a multidão percebeu que ele era judeu, portanto, como os cristãos, um inimigo dos ídolos, simplesmente pararam de ouvir e começaram a gritar, “por espaço de quase duas horas”: “Grande é a Diana dos efésios!” Imagine a cena: vinte e cinco mil pessoas repetindo a mesma frase, sem parar, por duas horas. Não é argumento; é histeria. Não é razão; é barulho. A idolatria, quando não tem o que responder, apenas grita mais alto e por mais tempo. Duas horas de grito substituíram o pensamento que ninguém quis ter.
Ninguém grita “estou perdendo dinheiro”: a idolatria que se veste de causa nobre
Vale parar a narrativa e recolher o que o tumulto de Éfeso desmascara, porque nele se vê, com uma nitidez rara, uma das formas mais disfarçadas e mais poderosas de idolatria: aquela em que o verdadeiro deus adorado é o dinheiro, ainda que se cubra com o manto da religião. Demétrio começou o seu discurso confessando a verdade, “deste ofício temos a nossa prosperidade”, e só depois vestiu o interesse com o zelo pela deusa. A ordem das suas palavras é a ordem do seu coração, e ela expõe um padrão que se repete em toda geração.
Comece percebendo o mecanismo, porque ele é sempre o mesmo. O evangelho, ao afastar as pessoas dos ídolos, ameaçou uma fonte de renda. A reação não veio disfarçada de “estou perdendo dinheiro”, isso não moveria ninguém, mas de “a nossa deusa está sendo insultada”. O interesse econômico escondeu-se atrás da indignação religiosa. E é assim que a idolatria do dinheiro quase sempre opera: ela raramente se confessa; ela se traveste de outra coisa, de tradição, de honra, de fé, de patriotismo, de defesa dos valores. Demétrio não era um devoto de Diana ferido na alma; era um comerciante ferido no bolso, que soube usar a devoção alheia para defender o próprio lucro. E a cidade inteira foi manipulada por isso, gritando por duas horas o nome de uma deusa para defender, sem saber, a margem de lucro de um grupo de ourives.
O escrivão da cidade encerra o tumulto: quando Deus protege a igreja pela boca de um pagão
O escrivão da cidade, tendo apaziguado o povo, disse: Senhores, efésios: quem, porventura, não sabe que a cidade de Éfeso é a guardiã do templo da grande Diana e da imagem que caiu de Júpiter? Ora, não podendo isto ser contraditado, convém que vos mantenhais calmos e nada façais precipitadamente.Atos 19.35–36
E no meio daquele mar de vinte e cinco mil pessoas gritando por duas horas, surge a voz que acalma, e vem, note bem, de onde menos se esperaria: de um funcionário público pagão. O “escrivão da cidade”, o grammateús, o mais alto magistrado municipal de Éfeso, uma espécie de secretário-geral que fazia a ligação entre a cidade e as autoridades romanas, consegue apaziguar a multidão. Primeiro, acalma os ânimos lisonjeando o orgulho cívico: todos sabem que Éfeso é a “guardiã do templo da grande Diana e da imagem que caiu de Júpiter”, provavelmente um meteorito venerado como imagem da deusa caída do céu. Ou seja: “ninguém está ameaçando o nosso status, gente; a grandeza de Éfeso não corre perigo, então acalmem-se”. E acrescenta o conselho da prudência: “convém que vos aquieteis e nada façais temerariamente”, nada de precipitação, nada de violência irrefletida.
Porque estes homens que aqui trouxestes não são sacrílegos, nem blasfemam contra a nossa deusa. Portanto, se Demétrio e os artífices que o acompanham têm alguma queixa contra alguém, há audiências e procônsules; que se acusem uns aos outros. Mas, se alguma outra coisa pleiteais, será decidida em assembléia regular.Atos 19.37–39
E agora o escrivão diz coisas que, sem querer, defendem os cristãos e desmontam a acusação, e é preciso notar a justiça involuntária nas suas palavras. Ele declara publicamente que “estes homens”, Gaio e Aristarco, os companheiros de Paulo, “nem são sacrílegos nem blasfemam da vossa deusa”. Isto é notável: um magistrado pagão testemunha, diante da cidade inteira, que os cristãos não haviam roubado templos nem insultado Diana. Paulo pregava o Deus verdadeiro sem sair por aí profanando os santuários alheios nem xingando as divindades pagãs, ele expunha a verdade, e a verdade fazia o seu trabalho, sem necessidade de vandalismo nem de ofensa gratuita. E o escrivão aponta o caminho legal: se Demétrio tem queixa, “há audiências e há procônsules”, que use os tribunais, que processe formalmente, em vez de incitar tumultos. Há um jeito certo de resolver disputas, e não é pela gritaria da multidão. Sem saber, o funcionário de Éfeso estava fazendo exatamente o que Gálio fizera em Corinto: usando a ordem romana para proteger, na prática, os pregadores do evangelho.
Porque também corremos perigo de que, por hoje, sejamos acusados de sedição, não havendo motivo algum que possamos alegar para justificar este ajuntamento. E, havendo dito isto, dissolveu a assembléia.Atos 19.40–41
E o escrivão fecha com o argumento que mais pesava para ele: o medo de Roma. “Corremos perigo de que, por causa do alvoroço de hoje, sejamos chamados à culpa”, ou seja, se as autoridades romanas soubessem daquele tumulto sem causa legítima, Éfeso poderia perder privilégios, ser punida, ter a sua autonomia reduzida; e ele, o escrivão, seria o responsabilizado. Roma tolerava muita coisa, mas não tolerava desordem pública. Então, por puro instinto de autopreservação, o magistrado “despediu a assembleia”, dissolveu o ajuntamento e mandou todos para casa. E assim, sem que Paulo dissesse uma palavra, sem que os cristãos movessem um dedo, a tempestade se desfez. Note quem Deus usou para proteger a sua obra: não um anjo, não um milagre estrondoso, mas o bom senso de um burocrata pagão preocupado em não se encrencar com os seus superiores. O mesmo Deus que dissera a Paulo “ninguém lançará mão de ti para te fazer mal” cumpriu a promessa, mais uma vez, pela boca de um funcionário que nem cria nele. A providência não precisa de instrumentos religiosos; ela usa o que quer: até o medo que um secretário municipal tem do seu chefe em Roma.
E o paralelo fecha o círculo: aos efésios, Paulo escreveria que estamos nas mãos daquele “que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Efésios 1.11), e que o propósito eterno de Deus se faz conhecer até “aos principados e potestades nos lugares celestiais” (Efésios 3.10). O paralelo ilumina o desfecho: o que em Éfeso pareceu apenas um burocrata cauteloso era, no plano de cima, o conselho da vontade de Deus governando uma assembleia de vinte e cinco mil pessoas sem que uma só delas soubesse.
E assim se fecha o grande capítulo de Éfeso. Paulo chegou àquela cidade mergulhada em magia e idolatria e ali ficou quase três anos, mais do que em qualquer outro lugar. Viu doze discípulos incompletos serem trazidos à plenitude do evangelho; encheu uma província inteira com a palavra a partir de uma sala; viu o nome de Jesus provar-se poderoso contra os impostores e os feiticeiros; viu ex-ocultistas queimarem uma fortuna em livros de magia, e a palavra prevalecer sobre o ocultismo; e viu, enfim, a idolatria e o interesse econômico se unirem num tumulto que encheu o teatro, e Deus dissolver tudo pela voz de um magistrado pagão. Em Éfeso, o evangelho enfrentou de frente as duas grandes forças da cidade, a magia e a idolatria, e venceu as duas, não com espadas, mas com a palavra do Senhor que “crescia poderosamente e prevalecia”. E o apóstolo, com os olhos já postos em Jerusalém e em Roma, prepara-se para partir. Mas isso é a história do próximo capítulo.
Notas
1. Não havia uma unidade política chamada Grécia: Roma dividia aquele território nas províncias da Macedônia, ao norte, e da Acaia, ao sul. Existia, porém, o nome antigo da terra e do povo, Ἑλλάς (Hellas), a Hélade, e é essa a palavra que Lucas emprega em Atos 20.2, a única vez em todo o Novo Testamento: “veio à Grécia”, isto é, desceu ao território helênico do sul, na prática a província da Acaia, onde ficava Corinto. Quando precisa de exatidão administrativa, Lucas usa os nomes provinciais: “passando pela Macedônia e pela Acaia” (Atos 19.21), e Gálio aparece como “procônsul da Acaia” (Atos 18.12). O mesmo uso já aparece no Antigo Testamento, onde “Grécia” (hebraico Yavan) nomeia um povo e uma terra, nunca um estado unificado: Daniel 8.21; 10.20; Zacarias 9.13.
2. No original, τὰ ἀνωτερικὰ μέρη, “as partes altas”: expressão topográfica, não espiritual. Trata-se do planalto do interior da Ásia Menor, entre 900 e 1.200 metros de altitude, em contraste com Éfeso, ao nível do mar. Vindo de Antioquia da Síria (Atos 18.22-23), Paulo subiu pela Cilícia e pelas Portas Cilícias e reviu as igrejas de Derbe, Listra, Icônio e Antioquia da Pisídia, atravessando a Frígia pelo planalto antes de descer ao litoral. Evitou assim a rota comercial do vale do Lico, por Laodiceia, Hierápolis e Colossos, o que combina com Colossenses 2.1, onde afirma que aqueles irmãos não o conheciam pessoalmente. O percurso total, de Antioquia a Éfeso, gira em torno de 1.500 a 1.800 quilômetros pelos itinerários romanos, meses de caminhada com as paradas para confirmar os discípulos.
3. Silas e Timóteo, companheiros de Paulo na segunda viagem, não aparecem neste trecho. A última menção a Silas em Atos é 18.5, quando ele e Timóteo descem da Macedônia e se juntam a Paulo em Corinto; dali em diante Lucas silencia sobre ele, e a parceria com Paulo aparentemente se encerrou. Silas continuou no ministério, como mostram as saudações de 1 Tessalonicenses 1.1 e 2 Tessalonicenses 1.1, a referência de 2 Coríntios 1.19 e, muito depois, o seu papel ao lado de Pedro em 1 Pedro 5.12. Timóteo tem apenas um silêncio momentâneo: reaparece já dentro do período efésio, enviado de Éfeso à Macedônia com Erasto (Atos 19.22) e a Corinto (1 Coríntios 4.17; 16.10). Como era de Listra (Atos 16.1-3), cidade que fica na própria rota do interior, é provável que tenha se reunido a Paulo durante a travessia da Galácia e da Frígia. Depois disso permanece com ele até o fim (Atos 20.4).
4. Os oito ofícios proibidos, no hebraico: adivinhador (qosem), que tira sortes com flechas, varas ou entranhas (Ezequiel 21.21); prognosticador (me‘onen), que lê os céus e fixa dias favoráveis, raiz da astrologia (2 Reis 21.6); agoureiro (menachesh), que interpreta presságios em fatos comuns (Gênesis 44.5; Levítico 19.26); feiticeiro (mekhashef), operador de magia ativa, com poções, rituais e maldições (Êxodo 7.11; 22.18); encantador (chover chaver), literalmente “o que amarra nós”, que domina por fórmulas repetidas (Salmos 58.5); necromante (sho’el ov), que consulta espíritos por meio de médium (1 Samuel 28.7-8); mágico (yidde‘oni), o “sabido”, que se apresenta como portador de um espírito de conhecimento, quase sempre em par com o necromante (Levítico 19.31; 20.6); e quem consulta os mortos (doresh el-hametim), expressão que sela a lista. Os três eixos da proibição são saber o que Deus não revelou, forçar o poder sobrenatural e atravessar a fronteira da morte. E a proibição se explica pela promessa que vem logo em seguida: “o Senhor teu Deus te levantará um profeta do meio de ti” (Deuteronômio 18.15); compare-se Isaías 8.19-20, “acaso consultará os mortos pelos vivos?”. É esse mesmo repertório que arde na fogueira de Éfeso (Atos 19.19; cf. Atos 16.16; Gálatas 5.20; Apocalipse 21.8).
5. No grego, asiárchai. Não eram sacerdotes de Diana nem autoridades municipais de Éfeso, e sim a elite do koinón da Ásia, a assembleia provincial que reunia as cidades gregas sob Roma. O cargo estava ligado à presidência dos cultos oficiais, sobretudo o culto ao imperador, e ao patrocínio dos grandes jogos e festivais, custeados do próprio bolso, em troca de prestígio permanente; como vários homens o exerciam em cidades diferentes e os ex-ocupantes conservavam o título, Lucas fala com exatidão no plural. Vale notar a precisão terminológica do capítulo, que emprega asiárchai (v. 31), grammateús, o escrivão da cidade (v. 35), neokóros, guardiã do templo (v. 35), e anthýpatoi, procônsules (v. 38), cada palavra correspondendo ao cargo certo daquele momento. Que homens desse nível fossem “seus amigos” mostra que a pregação da sala de Tirano alcançara também a camada dirigente da província, na mesma linha de Sérgio Paulo, procônsul de Chipre (Atos 13.7), das mulheres ilustres de Tessalônica (Atos 17.4), de Erasto na administração de Corinto (Romanos 16.23) e dos “da casa de César” (Filipenses 4.22); “nem muitos poderosos” (1 Coríntios 1.26) nunca quis dizer nenhum. E é providência notável que sejam pagãos, provavelmente ligados ao culto imperial, a proteger o apóstolo, como o escrivão da cidade faria pouco depois (Atos 19.35-41), no mesmo padrão de Ciro, “meu ungido” (Isaías 45.1), e do princípio de Romanos 13.4.
6. Lucas diz apenas que era judeu e que a própria comunidade judaica o impeliu para a frente (Atos 19.33), o que revela o motivo: os judeus estavam em risco por associação, pois também pregavam que os ídolos não são deuses, e naquela multidão ninguém distinguiria judeu de cristão. Alexandre subiu, portanto, não para defender Paulo, mas para desvincular a sinagoga do movimento; bastou reconhecerem que era judeu para o grito da deusa retomar (v. 34). O nome era comuníssimo no mundo grego depois de Alexandre o Grande, e o Novo Testamento traz vários homônimos que não devem ser fundidos: Alexandre e Rufo, filhos de Simão Cireneu (Marcos 15.21); um Alexandre da família do sumo sacerdote em Jerusalém (Atos 4.6); o Alexandre entregue a Satanás com Himeneu (1 Timóteo 1.20); e “Alexandre, o latoeiro”, que fez muito mal a Paulo (2 Timóteo 4.14). Os dois últimos chamam a atenção porque as cartas a Timóteo estão ligadas a Éfeso (1 Timóteo 1.3) e o segundo era trabalhador em metal, o mesmo ofício dos que levantaram o tumulto; alguns comentaristas sugerem que se trate do mesmo homem, o que é plausível mas indemonstrável, e nada no texto o autoriza. A cena repete, por fim, a dinâmica de Corinto, onde Gálio não distinguiu cristãos de judeus e tratou tudo como “questões acerca da vossa lei” (Atos 18.15): aqui a sinagoga tenta cortar em público esse parentesco, e não consegue.