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Estudo 02 (Apocalipse 2.1–29) · Quando Cristo revela o pecado oculto nas igrejas

Apocalipse 2 explicado: as cartas de Cristo a Éfeso, Esmirna, Pérgamo e Tiatira, o que é o primeiro amor, quem eram os nicolaítas e quem era Jezabel. Segundo estudo da série sobre o Apocalipse: a igreja que perdeu o amor, a pobre que era rica, a que morava onde está o trono de Satanás e a que tolerava a falsa profetisa, com as promessas ao vencedor, da árvore da vida à estrela da manhã.

Por Prof. Philippe Ávila·Apocalipse 2.1–29·75 min de leitura·setembro de 2026
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Iluminura medieval em moldura trançada de listras laranja, cinza e preto, sobre fundo marrom: no centro, um homem idoso de barba branca e auréola, com manto azul sobre túnica branca, escreve com uma pena num livro aberto e olha para o alto; no canto superior direito, uma figura jovem de auréola e túnica clara sai de um arco do céu e aponta para ele; à esquerda, no alto, e à direita, embaixo, dois edifícios com telhados vermelhos representam as igrejas
Na Apocalipse de Bamberg, pintada por volta do ano 1000, esta página abre as cartas: do céu vem a ordem, João escreve, e as duas igrejas que recebem a mensagem, Éfeso e Esmirna, ficam cada uma no seu canto, como prédios de verdade. É o esqueleto de todas as cartas numa página só: quem fala está no alto, quem escreve está no meio, e o destinatário é uma igreja concreta, com endereço.
Na Apocalipse de Bamberg, pintada por volta do ano 1000, esta página abre as cartas: do céu vem a ordem, João escreve, e as duas igrejas que recebem a mensagem, Éfeso e Esmirna, ficam cada uma no seu canto, como prédios de verdade. É o esqueleto de todas as cartas numa página só: quem fala está no alto, quem escreve está no meio, e o destinatário é uma igreja concreta, com endereço.Escola de Reichenau, Apocalipse de Bamberg (c. 1000) · Domínio público · via Wikimedia Commons
Neste artigo

Sete cartas com o mesmo esqueleto: como ler cada mensagem de Cristo às igrejas

Quanto ao mistério das sete estrelas que viste na minha mão direita e aos sete candeeiros de ouro, as sete estrelas são os anjos das sete igrejas, e os sete candeeiros são as sete igrejas.Apocalipse 1.20

O capítulo 1 terminou com João no chão, uma mão direita sobre ele e uma ordem: escreve. E terminou interpretando dois símbolos: as estrelas são os anjos das igrejas, os candeeiros são as igrejas. O capítulo 2 começa exatamente daí. O Cristo que andava entre os candeeiros para diante de cada um e fala.

São sete cartas, quatro neste capítulo e três no seguinte, e todas têm o mesmo esqueleto. Primeiro, o endereço: Ao anjo da igreja em tal cidade escreve. Depois, a fórmula “Estas coisas diz”, seguida de um título de Cristo tirado da visão do capítulo 1. Depois, a mesma palavra em todas as cartas, “Conheço”. Depois, o elogio, a repreensão, ou os dois. Depois, a ordem de arrepender-se ou de permanecer, quase sempre com um aviso de vinda. Depois, o chamado a ouvir o que o Espírito diz às igrejas. E, por fim, uma promessa ao vencedor.

Os títulos de Cristo vêm do começo do livro, e as promessas, do fim dele. As cartas são a dobradiça do Apocalipse: olham para trás, para a visão de Cristo, e para a frente, para a cidade que desce do céu. Até a ordem dos elementos tem uma marca: nas três primeiras cartas, o chamado a ouvir vem antes da promessa; nas quatro últimas, depois dela1.

Esmirna e Filadélfia não recebem nenhuma repreensão. Laodiceia não recebe nenhum elogio. As outras quatro recebem as duas coisas. O Cristo que examina as igrejas não é um inspetor que só procura defeito, e também não é um amigo que só elogia. Ele diz o que vê.

As sete igrejas são sete eras da história? O plural do fim de cada carta responde

Existe uma leitura muito difundida que vê nas sete cartas sete períodos sucessivos da história da igreja. Éfeso seria a igreja dos apóstolos; Esmirna, a das perseguições até Constantino; Pérgamo, a igreja casada com o Estado; Tiatira, a Idade Média; Sardes, a Reforma; Filadélfia, as grandes missões; Laodiceia, a igreja morna do fim. A leitura nasceu entre os historicistas e se popularizou no século XX com Bíblias de estudo muito lidas no Brasil.

Ela tem a seu favor duas coisas. Algumas correspondências impressionam quem as vê pela primeira vez. E ela leva a sério que as cartas falam para além do primeiro século, o que é verdade.

Tem contra si o próprio texto. Nenhuma carta fala de época, período ou sequência. As sete igrejas existiam ao mesmo tempo, e a ordem delas, como se viu no capítulo 1, é a ordem de uma estrada. Cada carta diz à sua cidade venho a ti, o que não faz sentido se Pérgamo fosse um século e não uma congregação. E cada carta termina mandando ouvir o que o Espírito diz às igrejas, no plural: as sete liam as sete, ao mesmo tempo.

Mapa antigo em relevo colorido da Ásia Menor, entre o mar Negro no alto e o Mediterrâneo embaixo, com montanhas em tons de marrom e planícies em verde; no canto esquerdo, junto da costa do mar Egeu e das ilhas, estão os nomes das cidades de Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia; no canto inferior esquerdo, o título “Asia Minor, showing positions of the Seven Churches”
O mapa desmonta a leitura das sete eras melhor que qualquer argumento. Olhe o canto esquerdo, junto do mar Egeu: as sete cidades cabem numa volta de poucas semanas de estrada, de Éfeso subindo a Esmirna e Pérgamo e descendo por Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia. Eram vizinhas, existiam ao mesmo tempo, e o mesmo mensageiro podia levar o rolo de uma à outra.
O mapa desmonta a leitura das sete eras melhor que qualquer argumento. Olhe o canto esquerdo, junto do mar Egeu: as sete cidades cabem numa volta de poucas semanas de estrada, de Éfeso subindo a Esmirna e Pérgamo e descendo por Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia. Eram vizinhas, existiam ao mesmo tempo, e o mesmo mensageiro podia levar o rolo de uma à outra.George Adam Smith (1915) · Domínio público · via Wikimedia Commons

O texto não afirma sete eras; isso não está escrito. O que ele afirma é que cada carta foi mandada a uma igreja real e é para ser ouvida por todas. Esta série lê as cartas assim: sete igrejas concretas, cujos acertos e cujas doenças aparecem em qualquer século, inclusive neste, e muitas vezes na mesma congregação ao mesmo tempo.

“Estas coisas diz”: a fórmula dos profetas, e Cristo julgando primeiro a igreja

Cada carta abre com “Estas coisas diz”. Para um leitor da Bíblia grega, a expressão tinha som conhecido: era a fórmula com que os profetas começavam a palavra do Senhor, o “Assim diz o Senhor” das nossas Bíblias2. No Novo Testamento ela quase não aparece fora daqui.

E há um profeta que a usou exatamente como o Apocalipse usa: em série. Amós 1 e 2 são oito oráculos com o mesmo esqueleto, dirigidos um a um a oito povos: a fórmula, a acusação, a sentença.

Assim diz o Senhor: Por três transgressões de Judá e por quatro, não sustarei o castigo, porque rejeitaram a lei do Senhor e não guardaram os seus estatutos; antes, as suas próprias mentiras os enganaram, e após elas andaram seus pais. (…) Assim diz o Senhor: Por três transgressões de Israel e por quatro, não sustarei o castigo, porque os juízes vendem o justo por dinheiro e condenam o necessitado por causa de um par de sandálias.Amós 2.4, 6

Os primeiros seis oráculos atingem os vizinhos de Israel, e o povo que ouvia Amós devia concordar com cada um deles. Os dois últimos caem sobre Judá e Israel. O profeta começou pelos de fora e terminou nos de dentro. As sete cartas fazem algo mais direto ainda: são inteiramente para os de dentro. Antes de o Apocalipse julgar Roma, Babilônia e as nações, Cristo julga a igreja. E o próprio Amós deu a razão logo depois: “De todas as famílias da terra, somente a vós outros vos escolhi; portanto, eu vos punirei por todas as vossas iniquidades”3. Pedro diria o mesmo com outras palavras: “a ocasião de começar o juízo pela casa de Deus é chegada”4.

Quem fala com a fórmula dos profetas? Jesus fala como o profeta prometido a Moisés: “em cuja boca porei as minhas palavras, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar”5. Aliás, Jesus disse de si mesmo: “o Pai, que me enviou, esse me tem prescrito o que dizer e o que anunciar”6. E o Apocalipse começou dizendo que a revelação foi dada por Deus a Jesus Cristo. O texto afirma que Cristo fala com autoridade de profeta; a razão última dessa autoridade, cada leitura a deduz de outros textos.

“O que o Espírito diz às igrejas”: Cristo fala, e é o Espírito que diz

As sete cartas terminam com a mesma frase: Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas. A primeira metade é de Jesus, que a usava no fim das parábolas: “Quem tem ouvidos [para ouvir], ouça”7. Antes dele, Ezequiel recebeu a ordem de dizer ao povo: “Quem ouvir ouça, e quem deixar de ouvir deixe; porque são casa rebelde”8. A frase supõe que nem todos vão ouvir. Ouvir, aqui, é obedecer.

Repare no singular e no plural. Quem tem ouvidos é cada um. Às igrejas são todas. A carta foi dirigida à congregação inteira, mas a resposta é pessoal. Ninguém se esconde atrás da igreja em que está: numa Éfeso que perdeu o amor pode haver quem ame, e numa Tiatira que tolera Jezabel há “os demais”9, que não a seguiram.

E há a segunda metade. Cada carta começa com “Estas coisas diz Cristo” e termina com “o que o Espírito diz”: é a mesma palavra, e o que Cristo diz às igrejas é o que o Espírito diz a elas. O Novo Testamento fala assim em outros lugares. Paulo chama o mesmo Espírito de “Espírito de Deus” e de “Espírito de Cristo”10 na mesma frase, e Lucas conta, numa passagem só, que Paulo foi impedido “pelo Espírito Santo” de pregar na Ásia e que “o Espírito de Jesus não o permitiu”11 ir para a Bitínia.

O Espírito é a presença e a voz do próprio Deus, que o Cristo exaltado recebeu do Pai e por meio da qual fala às igrejas. Jesus está falando o que o poder de Deus também fala.

Quem é o vencedor das sete cartas? O que João chama de vencer

Cada carta termina com uma promessa ao vencedor. Vencer é palavra de João. Na última noite antes da cruz, Jesus disse aos discípulos: “No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo”12. E na primeira carta, João define quem vence:

porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé. Quem é o que vence o mundo, senão aquele que crê ser Jesus o Filho de Deus?1 João 5.4–5

O vencedor do Apocalipse não é o crente mais forte nem o mais bem-sucedido. É o que continua crendo, e continua até o fim. O próprio livro diz como se vence, no capítulo 12: “Eles, pois, o venceram por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do testemunho que deram e, mesmo em face da morte, não amaram a própria vida”13. E a vitória que serve de modelo é a de Cristo, e ela foi uma morte: no capítulo 5, o Leão da tribo de Judá que “venceu”14 aparece como um Cordeiro que tinha sido morto. Vencer, no Apocalipse, tem a forma da cruz.

As promessas ao vencedor são peças do fim do livro. A árvore da vida prometida a Éfeso está no capítulo 22. A segunda morte de que Esmirna escapa é definida no capítulo 20. O nome novo de Pérgamo volta no 3 e no 19. O governo das nações prometido a Tiatira reaparece no 20. A estrela da manhã é o próprio Jesus no 22. E o capítulo 21 junta tudo numa frase: “O vencedor herdará estas coisas, e eu lhe serei Deus, e ele me será filho”15.

Éfeso, a igreja mais bem ensinada da Ásia: ouviu Paulo, Timóteo e João

Éfeso era a maior cidade da província da Ásia e o seu porto principal, junto à foz do rio Caístro. Tinha o templo de Ártemis, uma das sete maravilhas do mundo antigo, e vivia em torno dele: peregrinos, ourives, banqueiros, sacerdotes. Quando Paulo pregou ali, o ourives Demétrio levantou a cidade com medo de ver destruída “a majestade daquela que toda a Ásia e o mundo adoram”16. E Tácito, contando uma disputa entre cidades da Ásia no senado romano, diz que Éfeso parecia ter a cidade inteira ocupada com o culto da deusa17.

Campo seco e plano com pedras espalhadas pelo chão; ao centro ergue-se uma única coluna alta e estriada, remontada, e à esquerda um empilhamento de blocos e capitéis; ao fundo, numa colina, as muralhas de uma fortaleza
Isto é o que restou do templo de Ártemis, uma das sete maravilhas do mundo antigo, em volta do qual Éfeso vivia: peregrinos, ourives, banqueiros. Foi no meio dessa cidade que nasceu a igreja mais bem ensinada da Ásia, a que recebe a primeira carta. O templo que parecia eterno virou uma coluna sozinha no mato; o que Cristo pergunta à igreja não é se ela sobreviveu, mas se ainda ama.
Isto é o que restou do templo de Ártemis, uma das sete maravilhas do mundo antigo, em volta do qual Éfeso vivia: peregrinos, ourives, banqueiros. Foi no meio dessa cidade que nasceu a igreja mais bem ensinada da Ásia, a que recebe a primeira carta. O templo que parecia eterno virou uma coluna sozinha no mato; o que Cristo pergunta à igreja não é se ela sobreviveu, mas se ainda ama.Roy Egloff · CC BY-SA 4.0 · via Wikimedia Commons

Nenhuma igreja da Ásia tinha história igual. Paulo ensinou ali por três anos, e Lucas diz que isso deu ensejo a que “todos os habitantes da Ásia ouvissem a palavra do Senhor”18. É provável que várias das sete igrejas tenham nascido nesse tempo. Aos presbíteros de Éfeso Paulo fez o discurso de despedida. Em Éfeso ficou Timóteo, para impedir que alguns ensinassem outra doutrina. Aos efésios foi a carta que leva o nome deles. E Irineu, que ouviu Policarpo na juventude, afirma que o próprio João viveu em Éfeso até os dias do imperador Trajano19.

Por isso a primeira carta pesa tanto. Vai para a igreja mais bem ensinada da Ásia, com uns quarenta anos de história, que tinha ouvido Paulo, Timóteo e João. E é ela que recebe, ao mesmo tempo, o elogio mais longo e a repreensão mais funda do capítulo. Herança nenhuma dispensa uma igreja de amar agora.

“Conserva as sete estrelas”: o verbo de segurar que atravessa o capítulo

Ao anjo da igreja em Éfeso escreve: Estas coisas diz aquele que conserva na mão direita as sete estrelas e que anda no meio dos sete candeeiros de ouro:Apocalipse 2.1

O título de Cristo em Éfeso vem da visão do capítulo 1, com dois verbos novos. No capítulo 1, ele tinha as sete estrelas na mão direita. Agora ele as conserva: o verbo grego é o de agarrar e não soltar, segurar com força20. E entre os candeeiros, onde João o tinha visto de pé, agora ele anda.

O verbo de segurar volta no capítulo, e desenha o que Cristo espera de cada igreja. De Pérgamo, ele diz que conservas o meu nome. A Tiatira, ele ordena: conservai o que tendes. E em Pérgamo há também os que sustentam a doutrina de Balaão, com o mesmo verbo. Toda igreja segura alguma coisa com força, e as cartas perguntam o quê. Mas a primeira coisa que Éfeso ouve é que ela mesma está segura, apertada na mão de quem fala.

O andar também fala. A promessa da aliança, no Levítico, era: “Andarei entre vós e serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo”21. O Cristo das cartas não governa as igrejas de longe, por relatório. Anda entre elas. Por isso cada carta pode começar com a mesma palavra, Conheço: ele não ouviu falar, ele viu.

Éfeso provou os falsos apóstolos: o aviso de Paulo em Mileto se cumpriu

Conheço as tuas obras, tanto o teu labor como a tua perseverança, e que não podes suportar homens maus, e que puseste à prova os que a si mesmos se declaram apóstolos e não são, e os achaste mentirosos; e tens perseverança, e suportaste provas por causa do meu nome, e não te deixaste esmorecer.Apocalipse 2.2–3

Cristo começa pelo que aprova, e a lista é longa: as tuas obras, o teu labor, a tua perseverança. Labor é o trabalho que cansa até o limite; perseverança é ficar debaixo do peso sem largá-lo. E o grego faz dois jogos de palavras que a tradução não mostra22. O verbo de não podes suportar homens maus é o mesmo de suportaste provas por causa do nome de Cristo: Éfeso carrega o peso da perseguição e se recusa a carregar o peso do erro. E o teu labor tem a raiz de esmorecer: trabalhou até cansar e não se cansou de trabalhar.

O elogio mais concreto é outro. Éfeso pôs à prova os que se declaram apóstolos e não são: pregadores itinerantes que chegavam de fora reclamando autoridade de enviados de Cristo. Paulo tinha enfrentado gente assim em Corinto e lhe deu nome: “falsos apóstolos, obreiros fraudulentos, transformando-se em apóstolos de Cristo”23. E tinha avisado os presbíteros de Éfeso, na praia de Mileto, que o perigo viria por dois lados:

Eu sei que, depois da minha partida, entre vós penetrarão lobos vorazes, que não pouparão o rebanho. E que, dentre vós mesmos, se levantarão homens falando coisas pervertidas para arrastar os discípulos atrás deles.Atos 20.29–30

Quarenta anos depois, Cristo confirma que Éfeso vigiou. Como ela provava os que chegavam, a carta não diz. A primeira carta de João, que a tradição liga às igrejas da Ásia, dá o critério: “provai os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora”24. E a segunda dá a consequência: “Se alguém vem ter convosco e não traz esta doutrina, não o recebais em casa”25. A Didaquê, manual cristão da mesma época, acrescenta regras práticas: o apóstolo que fica mais de dois dias, ou pede dinheiro, é falso profeta26. A vigilância virou tradição. Uns quinze anos depois do Apocalipse, Inácio de Antioquia escreveu aos efésios que entre eles nenhuma seita tinha morada, e que tinham tapado os ouvidos aos mestres que vinham de fora27.

O que é o primeiro amor que Éfeso abandonou? E deixar de amar é pecado?

Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor.Apocalipse 2.4

Depois de tanto elogio, uma frase só: abandonaste o teu primeiro amor. O verbo é o de largar, deixar para trás28. Não descreve um amor que esfriou sem ninguém notar; descreve um amor que foi deixado. E Éfeso sabia de que amor se tratava. A carta que Paulo lhe escreveu terminava assim: “A graça seja com todos os que amam sinceramente a nosso Senhor Jesus Cristo”. Onde a Almeida Revista e Atualizada diz “sinceramente”, o grego diz en aphtharsía, em incorruptibilidade: um amor que não se estraga29. Uns trinta e cinco anos depois, o amor de Éfeso tinha se estragado.

Que amor é esse? Há três respostas. A primeira é o amor por Cristo, o amor do começo, como o de uma noiva. Jeremias usou a imagem para o Israel do deserto: “Lembro-me de ti, da tua afeição quando eras jovem, e do teu amor quando noiva, e de como me seguias no deserto”30. E o Apocalipse termina com uma noiva. A segunda é o amor dos crentes uns pelos outros, que Paulo tinha elogiado em Éfeso: “o amor para com todos os santos”31. A terceira junta as duas, e é a de João: “aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê”32. O versículo seguinte favorece esta, porque manda voltar às primeiras obras. O amor que Éfeso deixou era um amor que se via.

Como uma igreja tão fiel perde o amor? No monte das Oliveiras, Jesus avisou: “E, por se multiplicar a iniquidade, o amor se esfriará de quase todos”33. Éfeso passou décadas cercada de lobos, falsos apóstolos e nicolaítas. Defendeu a verdade e venceu, e no caminho pode ter aprendido a olhar para todos como suspeitos. Foi em Éfeso, onde avisou que ficaria até o Pentecostes, que Paulo escreveu 1 Coríntios, e com ela a frase: “se não tiver amor, nada serei”34.

Deixar o primeiro amor era pecado? O texto responde sem rodeio. Cristo usa a linguagem da acusação, tenho contra ti, e no versículo seguinte manda arrepender-se, e só se chama ao arrependimento quem pecou. Não era cansaço natural, nem uma fase que toda igreja atravessa. Era desobedecer ao primeiro mandamento. Quando perguntaram a Jesus qual era o grande mandamento da Lei, ele respondeu: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento”, e disse que o segundo era semelhante: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”35. Se o maior mandamento é amar, deixar de amar é quebrar o maior mandamento. E Paulo diz que o amor é o resumo da Lei: “o cumprimento da lei é o amor”36.

É também um pecado de omissão, o mais fácil de não ver. Éfeso não fazia nada de errado que se pudesse apontar numa lista de heresias; deixava de fazer. Tiago dá nome a isso: “aquele que sabe que deve fazer o bem e não o faz nisso está pecando”37. O paralelo ilumina a carta: uma igreja pode estar limpa de erro e, ainda assim, em pecado, porque o pecado não é só o que se faz, mas o que se deixa de fazer.

João, que conhecia Éfeso por dentro, tratou o amor como mandamento, não como sentimento opcional: “Ora, o seu mandamento é este: que creiamos em o nome de seu Filho, Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros”38. E foi mais longe: “Nós sabemos que já passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos; aquele que não ama permanece na morte”39. Paulo tinha dado a mesma ordem na carta a Éfeso: “andai em amor, como também Cristo nos amou”40. O amor, portanto, não era um enfeite da vida cristã; era o modo de andar que os apóstolos tinham ensinado àquela igreja. Por isso o remédio que vem a seguir não é conselho, é ordem de arrependimento.

Lembra-te, arrepende-te e volta: o que significa Cristo tirar o candeeiro do lugar

Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras; e, se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas.Apocalipse 2.5

O remédio tem três verbos, e a ordem importa. Lembra-te vem primeiro, e no grego é contínuo: continua lembrando41. De onde caíste mede a distância: diante dos homens Éfeso estava de pé, e Cristo diz que ela tinha caído. Depois, arrepende-te, a mudança de mente e de rumo tomada de uma vez. Por fim, volta à prática das primeiras obras. O primeiro amor não volta por emoção. Volta quando se faz de novo o que se fazia enquanto ele existia.

A ameaça é moverei do seu lugar o teu candeeiro. O candeeiro é a igreja, como o capítulo 1 explicou, e tirá-lo do lugar é Éfeso deixar de ser igreja, ainda que continue com prédio, reunião e nome. A luz nunca foi dela. Em Zacarias, o candelabro de ouro arde com o azeite que Deus provê, e a palavra que explica a visão é: “Não por força nem por poder, mas pelo meu Espírito”42. Uma igreja pode continuar ortodoxa e se apagar.

E os efésios sabiam o que era um lugar mudar. Estrabão, geógrafo do tempo do imperador Augusto, conta que a cidade tinha mudado de sítio mais de uma vez: primeiro na encosta, depois ao redor do templo, e por fim onde estava, para onde o rei Lisímaco forçou a mudança entupindo os esgotos da cidade velha num dia de chuva forte. O porto, que fazia a riqueza de Éfeso, vivia sendo assoreado pelo rio43. Hoje Éfeso é um campo de ruínas longe do mar. A ameaça, porém, era condicional, caso não te arrependas, e a igreja de Éfeso viveu ainda muitos séculos: em 431 hospedou um dos concílios da igreja antiga.

Tirar o candeeiro significaria que os crentes de Éfeso perderiam a salvação? A ameaça não é dirigida a cada crente em particular, mas à igreja enquanto candeeiro, isto é, à congregação como luz posta naquela cidade. O candeeiro não é a vida eterna de cada um; é o testemunho. Jesus usou a mesma imagem no sermão do monte: “Vós sois a luz do mundo”, e “nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador”44. O paralelo esclarece o que está em jogo: a lâmpada existe para iluminar a casa, e o que Cristo ameaça é tirá-la do velador. Remover o candeeiro é Éfeso deixar de ser igreja ali, deixar de ser lugar da presença e do testemunho de Cristo. O texto não trata, nesta frase, de quem entre eles era ou não salvo.

Isso não torna a ameaça leve. Deixar de ser igreja é perder aquilo que a define: o próprio Cristo, que anda no meio dos candeeiros45. Uma congregação sem Jesus pode continuar com culto, liderança e doutrina correta, e ser apenas uma casa vazia. Ezequiel viu isso acontecer com o templo: a glória do Senhor saiu por etapas, primeiro da entrada da casa e depois da cidade, até parar sobre o monte ao oriente46. O templo continuou de pé, com sacerdotes e sacrifícios, mas o Senhor já não estava lá. Essa cena ilumina Éfeso: o prédio pode ficar depois que o Senhor se retira. E o próprio Jesus disse a Jerusalém: “Eis que a vossa casa vos ficará deserta”47.

Quanto a cada crente, o Novo Testamento sustenta duas verdades ao mesmo tempo, e as cartas do Apocalipse não anulam nenhuma delas. De um lado, a segurança de quem é de Cristo: “Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, eternamente, e ninguém as arrebatará da minha mão”48, e o capítulo 1 mostrou as estrelas seguras na mão direita do Senhor. De outro, a advertência real a quem professa a fé: “Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia”49; e Hebreus diz que somos participantes de Cristo “se, de fato, guardarmos firme, até ao fim, a confiança que, desde o princípio, tivemos”50. As advertências não são teatro. Por isso a promessa que fecha a carta é para o vencedor, e vencer, em João, é crer até o fim51: quem permanece mostra que é de Cristo.

Por fim, a ameaça tem uma cláusula que muda o tom de tudo: “caso não te arrependas”. Cristo não anuncia uma sentença; faz um chamado, e o faz porque ama. É ele mesmo quem diz a Laodiceia: “Eu repreendo e disciplino a quantos amo”52, e Hebreus lembra que “o Senhor corrige a quem ama”53. O Senhor que ameaça remover o candeeiro é o mesmo que ainda anda entre eles, e anda para acendê-lo de novo.

Quem eram os nicolaítas? E Deus quer que odiemos o que ele odeia?

Tens, contudo, a teu favor que odeias as obras dos nicolaítas, as quais eu também odeio.Apocalipse 2.6

Depois da repreensão, Cristo volta a elogiar, como quem não quer deixar a igreja só com a ferida. E o elogio surpreende: odeias as obras dos nicolaítas, as quais eu também odeio. A igreja que perdeu o amor não perdeu o ódio ao mal. Paulo pôs as duas coisas no mesmo versículo: “O amor seja sem hipocrisia. Detestai o mal, apegando-vos ao bem”54. Éfeso ficou com a segunda metade. E o objeto do ódio é preciso: as obras. Cristo não diz que odeia as pessoas.

Deus quer que odiemos o que ele odeia? As Escrituras dizem que sim, e dizem com precisão. O salmista fazia disso a marca de quem ama a Deus: “Vós que amais o Senhor, detestai o mal”55. E Provérbios define o próprio temor do Senhor por esse ódio: “O temor do Senhor consiste em aborrecer o mal; a soberba, a arrogância, o mau caminho e a boca perversa, eu os aborreço”56. Não é um ódio que nasce do temperamento, nem do gosto pela briga. É concordar com Deus. Por isso a frase de Cristo pesa tanto: as quais eu também odeio. O ódio de Éfeso tinha valor porque era o mesmo ódio de Cristo, voltado para o mesmo objeto.

E o que Deus odeia? Provérbios dá uma lista: “Seis coisas o Senhor aborrece, e a sétima a sua alma abomina: olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, coração que trama projetos iníquos, pés que se apressam a correr para o mal, testemunha falsa que profere mentiras e o que semeia contendas entre irmãos”57. Os profetas acrescentam o culto sem justiça. Em Amós, o Senhor diz ao povo que cantava e sacrificava enquanto oprimia o pobre: “Aborreço, desprezo as vossas festas”58; e em Isaías: “As vossas Festas da Lua Nova e as vossas solenidades, a minha alma as aborrece”59. Malaquias diz que o Senhor “odeia o repúdio”, a traição contra a mulher da mocidade60; Zacarias, a trama contra o próximo e o juramento falso: “a todas estas coisas eu aborreço, diz o Senhor”61. E Deuteronômio chama o culto aos ídolos de “tudo o que é abominável ao Senhor e que ele odeia”62. Este último texto ilumina a carta: as obras dos nicolaítas, idolatria e imoralidade, estão exatamente no centro do que a Lei já dizia que Deus odeia.

Mas o ódio que Deus pede tem direção e tem limite. Há textos duros, como o do salmo: “aborreces a todos os que praticam a iniquidade”63, que mostram que o pecado não é uma abstração separada de quem o pratica. E, no entanto, o mesmo Deus jura: “não tenho prazer na morte do perverso, mas em que o perverso se converta do seu caminho e viva”64. Por isso, quanto às pessoas, a ordem de Jesus aos seus é outra: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem”65. Judas junta as duas coisas numa só imagem: salvar alguns “arrebatando-os do fogo”, com compaixão, “detestando até a roupa contaminada pela carne”66. A roupa se odeia; a pessoa se tira do fogo.

E aqui a lista de Provérbios devolve a pergunta a Éfeso. Entre as sete coisas que Deus odeia está “o que semeia contendas entre irmãos”. Uma igreja que odeia o erro e deixa de amar os irmãos corre o risco de acabar na lista que pensava combater. Ódio ao mal sem amor vira dureza; amor sem ódio ao mal vira Tiatira, que tinha amor e tolerava Jezabel. Romanos 12.9 põe as duas metades juntas, o amor sem hipocrisia e o ódio ao mal. Éfeso precisava recuperar a primeira; Tiatira, a segunda.

Quem eram os nicolaítas? O nome só aparece aqui e na carta a Pérgamo, e é o próprio Apocalipse que dá a pista. Em Pérgamo, depois de falar da doutrina de Balaão, que leva a comer o sacrificado aos ídolos e à prostituição, Cristo diz que há também os que “da mesma forma sustentam a doutrina dos nicolaítas”67. Da mesma forma: os dois grupos faziam a mesma coisa.

Irineu, por volta de 180, diz que eles seguiam Nicolau, um dos sete escolhidos em Atos 6, o “prosélito de Antioquia”68, e que ensinavam ser indiferente adulterar e comer o sacrificado aos ídolos. Clemente de Alexandria, vinte anos depois, defende Nicolau: os que se diziam seus discípulos teriam torcido uma frase dele sobre dominar a carne69. Seja qual for a verdade, fica o aviso para quem serve: nem a escolha da igreja nem a imposição de mãos garantem o fim de um homem.

Em Pérgamo, Balaão ensina a “comerem coisas sacrificadas aos ídolos e praticarem a prostituição”70; em Tiatira, Jezabel seduz os servos de Cristo “a praticarem a prostituição e a comerem coisas sacrificadas aos ídolos”71. São os mesmos dois itens, em ordem invertida. Balaão, nicolaítas e Jezabel parecem três nomes para um único ensino, que circulava pelas igrejas da Ásia com rosto diferente em cada cidade. E são justamente as duas coisas que o concílio de Jerusalém pedira aos gentios que evitassem: “que vos abstenhais das coisas sacrificadas a ídolos, bem como do sangue, da carne de animais sufocados e das relações sexuais ilícitas”72. Os nicolaítas não inventaram um pecado novo; desfizeram um acordo antigo.

Por que um ensino assim pegaria? Porque resolvia um problema real. Nas cidades da Ásia, quase todo ofício tinha a sua associação, e cada associação tinha o seu deus padroeiro; as reuniões terminavam em banquete no templo, com carne oferecida ao deus e, não raro, com o que vinha depois do vinho. Tiatira, segundo as inscrições, tinha associações de tintureiros, curtidores, oleiros, ferreiros e negociantes de lã. Recusar o banquete era perder clientes, sócios e, às vezes, o próprio ofício. Os nicolaítas ofereciam a saída: o ídolo nada é, o cristão é livre, pode sentar-se à mesa. Paulo tinha respondido a esse raciocínio anos antes, em Corinto, onde o problema era o mesmo: “eu não quero que vos torneis associados aos demônios”73.

Por trás da prática havia uma teologia, e ela usava palavras cristãs. Judas descreve homens que se infiltraram nas igrejas e “transformam em libertinagem a graça de nosso Deus”74; Pedro fala dos que prometem “liberdade, quando eles mesmos são escravos da corrupção”75. Os dois textos iluminam Éfeso e Pérgamo porque descrevem o mesmo movimento: tomar a verdade da graça e tirar dela uma licença. Em Corinto já se ouvia o lema “Todas as coisas me são lícitas”76, e Paulo respondeu no mesmo fôlego: “mas nem todas convêm”77. À pergunta que o nicolaísmo fazia sem dizer, Paulo já tinha respondido em Romanos: “Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante? De modo nenhum!”78

A história que Clemente conta ajuda a entender como uma frase vira seita. Acusado de ciúme por causa da esposa, que era bonita, Nicolau a teria trazido diante dos apóstolos e dito que quem quisesse podia casar com ela; e costumava repetir que era preciso abusar da carne. O verbo grego serve tanto para tratar com dureza quanto para usar mal. Ele queria dizer a primeira coisa: não dar à carne o que ela pede. Os que vieram depois ouviram a segunda, e fizeram da frase um salvo-conduto para a imoralidade. Eusébio, no século IV, recolheu o relato e deu-lhe crédito.79 Se foi assim, o nicolaísmo nasceu de uma palavra ambígua lida pelo desejo. Pedro já avisara que nas cartas de Paulo há “certas coisas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis deturpam”80; o perigo não está só no que se ensina, mas no que o coração quer ouvir.

Resta a diferença entre as duas igrejas. Éfeso odeia as obras; Pérgamo tem entre os seus quem as sustenta, e por isso ouve: “Portanto, arrepende-te”81. A falta de Pérgamo não era praticar, era tolerar. Paulo tinha escrito aos efésios: “não sejais cúmplices nas obras infrutíferas das trevas; antes, porém, reprovai-as”82; a igreja guardou essa parte da carta. E Judas mostra como se odeia sem deixar de amar: “compadecei-vos de alguns que estão na dúvida; salvai-os, arrebatando-os do fogo; quanto a outros, sede também compassivos em temor, detestando até a roupa contaminada pela carne”83. É o equilíbrio do versículo 6: ódio às obras, compaixão pelas pessoas. Éfeso tinha o primeiro; faltava-lhe voltar ao segundo.

A árvore da vida no paraíso de Deus: onde está hoje o jardim de onde Adão saiu

Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao vencedor, dar-lhe-ei que se alimente da árvore da vida que se encontra no paraíso de Deus.Apocalipse 2.7

A promessa a Éfeso leva o leitor ao começo da Bíblia. No Éden havia “a árvore da vida no meio do jardim”84, e depois do pecado Deus pôs querubins e uma espada flamejante “para guardar o caminho da árvore da vida”85. Desde então o caminho estava fechado. Cristo promete ao vencedor que ele se alimente da árvore da vida. E o último capítulo do livro de Apocalipse mostra a promessa cumprida: a árvore está no meio da praça da cidade, dá fruto de mês em mês, e os que lavam as vestes recebem “o direito à árvore da vida”86.

A palavra paraíso é a que a Bíblia grega usava para o jardim do Éden87. Nossas Bíblias traduzem Gênesis do hebraico, onde se lê gan, “jardim”. Mas a Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento feita por judeus antes de Cristo e lida pela maioria dos primeiros cristãos, verteu gan por parádeisos, palavra de origem persa que designava um parque ou pomar cercado. Quem lia Gênesis em grego lia que Deus plantou “um paraíso no Éden” (Gênesis 2.8). Por isso Ezequiel, ao falar do “Éden, jardim de Deus” (Ezequiel 28.13), e Gênesis, ao comparar o vale do Jordão ao “jardim do Senhor” (Gênesis 13.10), trazem em grego a mesma palavra, quase a expressão de Cristo aqui: “paraíso de Deus”. No Novo Testamento ela aparece só três vezes (Lucas 23.43; 2 Coríntios 12.4; Apocalipse 2.7). Para Jesus e para Paulo, era também o lugar onde já estão os que morrem nele: “hoje estarás comigo no paraíso”88, disse ao ladrão, e Paulo foi “arrebatado ao paraíso”89. O vencedor volta ao jardim de onde Adão saiu. O Éden é o paraíso.

Mas onde está esse paraíso agora? A frase de Cristo tem um detalhe que passa despercebido: a árvore “se encontra” no paraíso de Deus. O verbo está no presente. Cristo não diz que a árvore será plantada um dia; diz que ela está lá, agora, e que o vencedor comerá dela. A Bíblia não diz que o Éden “subiu” ao céu. Gênesis diz apenas que o homem foi lançado fora e que o caminho foi guardado90. Paulo, contando a mesma experiência duas vezes, diz primeiro que foi “arrebatado até ao terceiro céu” e depois que foi “arrebatado ao paraíso”91. O paraíso de Deus, no Apocalipse, é a presença de Deus, e não um pedaço de terra entre o Tigre e o Eufrates.

Os judeus do tempo de João tinham chegado a uma ideia parecida. O Segundo Livro de Baruque, um apocalipse judaico escrito pouco depois da destruição do templo no ano 70 (e que não faz parte da Bíblia), põe na boca de Deus que a verdadeira Jerusalém foi preparada desde que ele decidiu fazer o paraíso, foi mostrada a Adão antes do pecado, e agora “está guardada junto de mim, como também o paraíso”92. O Quarto Livro de Esdras, da mesma época, promete aos justos: “para vós está aberto o paraíso, plantada a árvore da vida”93. A ideia não é que o jardim tenha sido arrancado da terra e levado para cima. É que aquilo que o jardim era, a vida junto de Deus, nunca deixou de existir junto de Deus. O homem perdeu o acesso; Deus não perdeu o jardim.

A própria Escritura já tinha ensinado esse modo de ver. Moisés construiu o tabernáculo “segundo o modelo” que lhe fora mostrado no monte94, e Hebreus explica que o santuário da terra era “figura e sombra das coisas celestes”95. A realidade está primeiro com Deus, e a terra recebe a cópia. O mesmo vale para a cidade. Paulo fala da “Jerusalém lá de cima”96, e Hebreus diz aos cristãos que eles já chegaram “à Jerusalém celestial”97. Abraão aguardava “a cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e edificador”98, e Deus “lhes preparou uma cidade”99. Preparou: a cidade já existe. Por isso, no fim do livro, João não vê a cidade sendo construída. Vê a cidade “que descia do céu, da parte de Deus”100. E a árvore da vida está nessa cidade101. Ela não precisa ser plantada no fim: ela desce com a cidade.

Então o novo céu e a nova terra ainda não existem? Como realidade visível, não: João os vê depois do juízo102, e Pedro diz que “esperamos novos céus e nova terra”103. Mas o texto não descreve uma segunda criação do nada. Deus diz: “Eis que faço novas todas as coisas”104, e não “faço outras coisas”. Paulo diz que a própria criação “será redimida do cativeiro da corrupção”105; Jesus chama aquele dia de “regeneração”106, e Pedro de “restauração de todas as coisas”107.

E a árvore: é a mesma do Éden ou uma nova? A Bíblia não responde, mas ela dá pistas. A primeira é Ezequiel. O profeta viu um rio saindo do templo e, nas duas margens, árvores cujo fruto não falta, que dão fruto novo todo mês e cujas folhas servem de remédio108. João repete Ezequiel quase palavra por palavra, mas passa das árvores para “a árvore da vida”, de um e de outro lado do rio109. A árvore do Éden se multiplicou na visão de Ezequiel e voltou a ser uma na de João. O que importa não é a identidade botânica, e sim o nome: árvore da vida, a vida que só Deus dá. No Éden ela estava como possibilidade; na cidade, como herança.

Para Éfeso, isso tem duas consequências. A primeira é para agora: o paraíso existe hoje, e quem morre em Cristo vai para lá, como o ladrão na cruz, como Paulo desejava, “partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor”110. A segunda é para depois: o fruto pleno só será comido quando a cidade descer e “a morte já não existir”111. A igreja que perdeu o primeiro amor não recebe como promessa algo estranho ao seu passado. Recebe o que Adão perdeu, e mais do que Adão tinha: Adão tinha a árvore num jardim, com um caminho que podia ser fechado; o vencedor a terá numa cidade onde “nunca mais haverá qualquer maldição”112.

Esmirna, a cidade que tinha morrido e voltado a viver

Entramos agora na segunda carta. A carta de Cristo para Esmirna. Essa cidade ficava ao norte de Éfeso, na mesma costa, e disputava com ela o primeiro lugar entre as cidades da Ásia. Tinha orgulho de duas coisas. A primeira era a fidelidade a Roma. Os seus embaixadores diziam ao senado romano que Esmirna tinha sido a primeira cidade a erguer um templo à deusa Roma, quase dois séculos antes de Cristo, e com esse argumento ela ganhou, no ano 26, o direito de construir o templo a Tibério. Cícero a chamou de cidade dos aliados mais fiéis e mais antigos de Roma113. A uma cidade que se gabava de ser fiel, Cristo vai dizer: Sê fiel até à morte.

A segunda era a própria história. Estrabão conta que a Esmirna antiga foi arrasada pelos lídios e que, por uns quatrocentos anos, os moradores viveram espalhados em aldeias. Depois a cidade foi refundada, e no tempo dele era “a mais bela de todas”114. Esmirna tinha morrido e voltado a viver. E Cristo se apresenta a ela como aquele que esteve morto e tornou a viver115.

Fileira longa de colunas altas de pedra cinzenta com capitéis coríntios, sobre bases brancas, erguida numa plataforma de degraus de pedra; à esquerda, blocos soltos e uma cobertura metálica de escavação; ao fundo, sob céu azul limpo, prédios modernos da cidade
A ágora romana de Esmirna, hoje no meio da cidade turca de Izmir. Éfeso, Pérgamo e Tiatira viraram sítio arqueológico ou cidade pequena; Esmirna nunca deixou de ser habitada e é hoje uma das maiores cidades da Turquia, com os prédios erguidos em volta das colunas antigas. A cidade que tinha morrido e voltado a viver recebeu carta de quem esteve morto e tornou a viver.
A ágora romana de Esmirna, hoje no meio da cidade turca de Izmir. Éfeso, Pérgamo e Tiatira viraram sítio arqueológico ou cidade pequena; Esmirna nunca deixou de ser habitada e é hoje uma das maiores cidades da Turquia, com os prédios erguidos em volta das colunas antigas. A cidade que tinha morrido e voltado a viver recebeu carta de quem esteve morto e tornou a viver.31774 · CC0 · via Wikimedia Commons
Ao anjo da igreja em Esmirna escreve: Estas coisas diz o primeiro e o último, que esteve morto e tornou a viver:Apocalipse 2.8

O título vem inteiro do capítulo 1, onde Jesus pôs o título de Isaías, o primeiro e o último, colado à própria morte: “estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos”116. Uma igreja que vai conhecer prisão e morte recebe carta de quem já passou pela morte e voltou. E até o nome da cidade fala, embora o texto não faça o jogo: esmirna, em grego, é a mirra, a resina dos sepultamentos, a mesma que Nicodemos levou para o corpo de Jesus.

Pobre, mas rico: o que Esmirna sofria e o que a carta chama de sinagoga de Satanás

Conheço a tua tribulação, a tua pobreza (mas tu és rico) e a blasfêmia dos que a si mesmos se declaram judeus e não são, sendo, antes, sinagoga de Satanás.Apocalipse 2.9

Conheço a tua tribulação. A palavra é a da pressão que esmaga, a mesma que Jesus usou no monte das Oliveiras: “Então, sereis atribulados, e vos matarão”117. E a tua pobreza. O grego tem duas palavras para pobre: a do trabalhador que vive com pouco e a de quem não tem nada e depende de esmola. A palavra desta carta é a segunda118. Na cidade mais bela da Ásia, a igreja era miserável.

Por que tão pobre? O texto não diz. É provável que fosse o preço da fé: quem ficava fora das festas das corporações de ofício e do culto ao imperador perdia clientes e proteção, às vezes os bens. Aos hebreus foi escrito: “aceitastes com alegria o espólio dos vossos bens”119.

E vem o parêntese: mas tu és rico. Em Laodiceia vai ser o contrário. A igreja de lá diz: “Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma”120, e Cristo responde que ela é pobre. A igreja rica era pobre, e a pobre era rica.

A frase mais dura da carta vem em seguida: a blasfêmia dos que a si mesmos se declaram judeus. Blasfêmia, aqui, é calúnia contra gente. Satanás quer dizer acusador, e o que Esmirna sofria era denúncia: um grupo da sinagoga local levava os cristãos às autoridades. Jesus tinha avisado que seria assim, e nomeou os dois lugares desta carta: “entregando-vos às sinagogas e aos cárceres”121. Uns sessenta anos depois do Apocalipse, quando Policarpo, bispo de Esmirna, foi morto no estádio da cidade, a carta da igreja conta que judeus de Esmirna gritaram contra ele com a multidão e ajudaram a juntar a lenha, “segundo o seu costume”122.

“Tribulação de dez dias”: a prova de Daniel longe da mesa do rei

Não temas as coisas que tens de sofrer. Eis que o diabo está para lançar em prisão alguns dentre vós, para serdes postos à prova, e tereis tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida.Apocalipse 2.10

Cristo não promete livrar Esmirna do sofrimento. Avisa antes: Não temas as coisas que tens de sofrer. Paulo fazia o mesmo com as igrejas novas. Aos tessalonicenses, lembrou: “quando ainda estávamos convosco, predissemos que íamos ser afligidos”123. E Pedro escreveu às igrejas da Ásia Menor: “não estranheis o fogo ardente que surge no meio de vós, destinado a provar-vos”124. Sofrimento anunciado não pega a igreja de surpresa.

Atrás dos acusadores humanos há outro: é o diabo que vai lançar em prisão alguns deles. Diabo quer dizer caluniador, e o nome combina com a calúnia do versículo anterior. A prisão, no mundo romano, não era a pena; era a espera do julgamento, e para um cristão o julgamento podia terminar em morte. Mas a mesma frase tem dois propósitos. O diabo prende para destruir. Deus permite, para que sejam postos à prova. Foi assim com Jó. Satanás só pôde tocar no que Deus havia permitido (Jó 1.12), mas quem levou os bois e os camelos e matou os servos foram os sabeus e os caldeus (Jó 1.15, 17). Quem olhasse de fora veria apenas bandidos do deserto; o prólogo do livro abre a cortina e mostra quem estava por trás. Em Esmirna é igual: quem prende são as autoridades, instigadas pelos acusadores, mas Cristo dá o nome de quem os move. Paulo explica por quê. Os que vivem sem Deus andam “segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência” (Efésios 2.2), e por isso “a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades” (Efésios 6.12). João diz o mesmo em outra carta: “o mundo inteiro jaz no Maligno” (1 João 5.19). Por isso a igreja não trata o carcereiro como o inimigo; ele é instrumento. E o próprio Apocalipse mostra, no capítulo 12, o dragão que, não podendo alcançar o Filho, vai “pelejar com os restantes da sua descendência” (Apocalipse 12.17).

E vem o número: tribulação de dez dias. Quem conhecia Daniel ouvia um eco. Na Babilônia, Daniel e os amigos recusaram a comida da mesa do rei e pediram ao encarregado: “Experimenta, peço-te, os teus servos dez dias”. Na Bíblia grega, o verbo da prova de Daniel é o mesmo de Esmirna, e o prazo também125. Eram jovens fiéis numa corte pagã, recusando a mesa do rei, provados por dez dias, e no fim estavam mais fortes que todos. Nas duas passagens, dez dias é uma prova curta, com prazo, e com fim marcado por Deus.

Há quem leia os dez dias como as dez perseguições do império, ou como os dez anos da última grande perseguição, a de Diocleciano. É a leitura das sete eras, e não está escrito. O que está escrito é que a tribulação tem medida, e que a medida é dada por quem esteve morto e tornou a viver. O diabo lança na prisão, mas não decide quanto tempo ela dura.

“Sê fiel até à morte”: a coroa da vida e os oitenta e seis anos de Policarpo

O fim do versículo 10 é a ordem mais lembrada da carta: Sê fiel até à morte. O até não é de tempo, como quem diz até o fim da vida. É de medida: fiel ainda que custe a vida. É a medida da obediência de Cristo, que se humilhou, “tornando-se obediente até à morte e morte de cruz”126. E a promessa é a coroa da vida. A coroa, aqui no grego, não é o diadema de um rei; é a coroa de folhas do vencedor dos jogos e do cidadão que a cidade queria honrar127. A coroa de Esmirna é a própria vida eterna.

Tiago usa as mesmas palavras, numa frase que parece um comentário a esta carta:

Bem-aventurado o homem que suporta, com perseverança, a provação; porque, depois de ter sido aprovado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor prometeu aos que o amam.Tiago 1.12

Provação e coroa da vida, nas duas passagens. E o Novo Testamento dá ao galardão dos fiéis outros nomes: a “coroa da justiça” que Paulo esperava receber “naquele Dia”128, a “imarcescível coroa da glória”129 prometida aos presbíteros, a coroa “incorruptível”130 de quem corre para Cristo.

Esmirna guardou a ordem. Policarpo, bispo da cidade, que na juventude tinha convivido com João, foi levado ao estádio em meados do século II. O procônsul mandou que jurasse pela sorte de César e injuriasse Cristo. Ele respondeu: “Há oitenta e seis anos eu o sirvo, e ele nunca me fez mal algum; como posso blasfemar contra o meu Rei, que me salvou?”. Foi posto na fogueira e morto ali. A carta em que a igreja de Esmirna contou a sua morte diz que ele foi “coroado com a coroa da imortalidade”131. A igreja que ouviu “Sê fiel até à morte” viu o próprio bispo cumprir a frase.

Afresco bizantino sobre fundo azul-escuro: um bispo idoso de barba grisalha e auréola dourada, com veste branca estampada de cruzes pretas, ergue as mãos em oração de pé no meio das chamas de uma fogueira de lenha; no alto, uma inscrição em grego e raios que descem do céu; à esquerda, embaixo, dois homens de auréola observam; à direita, dois outros, um deles de capacete, assistem
O martírio de Policarpo num afresco do mosteiro de Dionísio, no monte Atos. A inscrição, em grego, diz “martírio do santo hieromártir Policarpo de Esmirna”. O pintor seguiu o relato da igreja da cidade: as chamas o rodearam sem consumi-lo, e ele orava de mãos erguidas. Meio século depois da carta, o bispo de Esmirna cumpriu à letra a ordem “sê fiel até à morte”.
O martírio de Policarpo num afresco do mosteiro de Dionísio, no monte Atos. A inscrição, em grego, diz “martírio do santo hieromártir Policarpo de Esmirna”. O pintor seguiu o relato da igreja da cidade: as chamas o rodearam sem consumi-lo, e ele orava de mãos erguidas. Meio século depois da carta, o bispo de Esmirna cumpriu à letra a ordem “sê fiel até à morte”.Octave 444 · CC BY-SA 4.0 · via Wikimedia Commons

O que é a segunda morte? E por que ela não é o hades

Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: O vencedor de nenhum modo sofrerá dano da segunda morte.Apocalipse 2.11

A promessa a Esmirna é a mais curta das sete, e vem com a negação mais forte que o grego conhece: de nenhum modo132. A igreja que pode perder a vida na primeira morte não será tocada pela segunda. O próprio Apocalipse define o termo, no fim do livro: “Esta é a segunda morte, o lago de fogo”133. E o capítulo 20 diz dos que têm parte na primeira ressurreição que “sobre esses a segunda morte não tem autoridade”134.

Lidos juntos, os versículos 10 e 11 desdobram uma palavra de Jesus: “Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo”135. Uma ressalva é que é preciso cuidado com a palavra inferno, porque nossas Bíblias a usam para dois termos gregos diferentes. Hades é o lugar dos mortos agora, antes do juízo: é onde o rico da parábola estava em tormento enquanto seus cinco irmãos ainda viviam na terra (Lucas 16.23, 28). Geena, a palavra que Jesus usa aqui, é o destino depois da ressurreição, quando alma e corpo já estão reunidos, e corresponde ao lago de fogo. A segunda morte, portanto, não é o hades. O Apocalipse mostra a ordem: no juízo, o hades entrega os mortos que nele havia (Apocalipse 20.13), e depois “a morte e o hades foram lançados para dentro do lago de fogo. Esta é a segunda morte” (Apocalipse 20.14). Por isso ninguém ainda sofreu a segunda morte: ela vem depois do juízo, para quem não foi achado inscrito no livro da vida (Apocalipse 20.15). Jesus diz que esse fogo foi “preparado para o diabo e seus anjos” (Mateus 25.41), e o fim do livro repete a promessa a Esmirna com outras palavras: “O vencedor herdará estas coisas”, e aos que não vencem cabe “o lago que arde com fogo e enxofre, a saber, a segunda morte” (Apocalipse 21.7–8). O diabo pode lançar na prisão e até matar; a segunda morte, ele não pode dar a quem é de Cristo.

A expressão segunda morte não está no Antigo Testamento, mas os judeus a conheciam: os targuns, as traduções aramaicas lidas na sinagoga, a usam. Onde Moisés abençoa: “Viva Rúben e não morra”, o Targum de Onqueles traduz: “Viva Rúben para a vida eterna, e não morra a segunda morte”. E em Isaías 65.15, onde o hebraico diz que o Senhor matará os rebeldes e chamará os seus servos por outro nome, o Targum de Jônatas diz: “o Senhor Deus vos matará com a segunda morte, e a seus servos, os justos, chamará por outro nome”136.

Pérgamo, a cidade dos templos, e o endereço do trono de Satanás

Ao anjo da igreja em Pérgamo escreve: Estas coisas diz aquele que tem a espada afiada de dois gumes: Conheço o lugar em que habitas, onde está o trono de Satanás, e que conservas o meu nome e não negaste a minha fé, ainda nos dias de Antipas, minha testemunha, meu fiel, o qual foi morto entre vós, onde Satanás habita.Apocalipse 2.12–13

Pérgamo ficava no interior, ao norte de Esmirna, numa colina alta sobre o vale do rio Caíco. Tinha sido capital de um reino, deixado em testamento a Roma em 133 antes de Cristo, e continuava entre as cidades mais importantes da Ásia. O pergaminho leva o nome dela. E era uma cidade de templos.

Onde fica, então, o trono de Satanás? Os candidatos são muitos. No alto da acrópole ficava o grande altar de Zeus, hoje remontado num museu de Berlim. Havia o santuário de Asclépio, o deus que curava, chamado de salvador e representado por uma serpente, hoje símbolo da medicina, e o Apocalipse chama Satanás de “a antiga serpente”137. E havia o templo de Augusto e de Roma, que o próprio Augusto autorizou138. Pérgamo era também cidade de tribunal romano, onde o governador julgava com o direito de espada, o poder de condenar à morte. Talvez por isso Cristo se apresente a ela como quem tem a espada afiada de dois gumes.

Grande salão de museu com teto de vidro: ao fundo, uma construção de mármore branco com uma escadaria larga que sobe até uma colunata, ladeada por dois blocos avançados cobertos de relevos de figuras em luta; visitantes sentados nos degraus e caminhando pelo piso
O altar de Zeus de Pérgamo, desmontado da acrópole por arqueólogos alemães no século XIX e remontado no Museu de Pérgamo, em Berlim. A escadaria que sobe entre duas alas lembra uma cadeira gigante, e por isso muitos viram nele o trono de Satanás. O próprio Apocalipse aponta para outro lugar, como o texto mostra adiante: o trono é o poder do império que exigia adoração.
O altar de Zeus de Pérgamo, desmontado da acrópole por arqueólogos alemães no século XIX e remontado no Museu de Pérgamo, em Berlim. A escadaria que sobe entre duas alas lembra uma cadeira gigante, e por isso muitos viram nele o trono de Satanás. O próprio Apocalipse aponta para outro lugar, como o texto mostra adiante: o trono é o poder do império que exigia adoração.Lestat (Jan Mehlich) · CC BY-SA 3.0 · via Wikimedia Commons

O próprio livro dá a chave mais segura. No capítulo 13, o dragão entrega à besta “o seu poder, o seu trono e grande autoridade”139. O trono de Satanás, no Apocalipse, é o poder que ele empresta ao império que exige adoração. Em Pérgamo, esse poder tinha endereço, e foi ali que um cristão morreu por não negar o nome de Cristo.

Antipas, “minha testemunha, meu fiel”: o título de Cristo dado a um mártir

E, ainda assim, mesmo diante do trono de Satanás, Cristo diz que os de Pérgamo conservas o meu nome e não negaste a minha fé. Negar era o que se pedia. Uns vinte anos depois, Plínio, governador da Bitínia, vizinha da Ásia, descreveu ao imperador Trajano o teste que aplicava aos acusados: invocar os deuses, oferecer incenso e vinho à imagem do imperador e amaldiçoar Cristo, coisas que, dizia-se, os verdadeiros cristãos não podiam ser forçados a fazer140. Pérgamo passou por provas assim e não negou.

Conheço o lugar em que habitas, onde está o trono de Satanás, e que conservas o meu nome e não negaste a minha fé, ainda nos dias de Antipas, minha testemunha, meu fiel, o qual foi morto entre vós, onde Satanás habita.Apocalipse 2.13

E o Apocalipse disse que ali teve um mártir: “minha testemunha, meu fiel”. Sobre este Antipas não se sabe mais nada; a tradição que o faz bispo queimado dentro de um touro de bronze é tardia e não se pode conferir. Mas Cristo lhe dá o próprio título. No capítulo 1, Jesus é “a Fiel Testemunha”. Aqui, Antipas é testemunha e fiel de Cristo, e o grego tem a mesma construção nas duas passagens141. Testemunha, em grego, é mártys, e foi por causa de gente como Antipas que a palavra passou a querer dizer mártir: quem dá o testemunho com a vida.

A doutrina de Balaão: o profeta que não pôde amaldiçoar Israel e o ensinou a cair

Tenho, todavia, contra ti algumas coisas, pois que tens aí os que sustentam a doutrina de Balaão, o qual ensinava a Balaque a armar ciladas diante dos filhos de Israel para comerem coisas sacrificadas aos ídolos e praticarem a prostituição. Outrossim, também tu tens os que da mesma forma sustentam a doutrina dos nicolaítas.Apocalipse 2.14–15

Tenho, todavia, contra ti algumas coisas. A igreja que resistiu à perseguição de fora tolerava o pecado de dentro, e Cristo dá a esse pecado um nome do Antigo Testamento: a doutrina de Balaão.

Em Números 22 a 24, o rei Balaque, de Moabe, contrata o profeta Balaão para amaldiçoar Israel. Balaão tenta três vezes, e três vezes a maldição sai bênção; Moisés resumiria que o Senhor “trocou em bênção a maldição, porquanto o Senhor, teu Deus, te amava”142. Mas no capítulo 25 Israel cai assim mesmo. As mulheres de Moabe “convidaram o povo aos sacrifícios dos seus deuses; e o povo comeu e inclinou-se aos deuses delas”143, e com isso veio a prostituição. Só no capítulo 31 o leitor fica sabendo de onde veio a ideia: “por conselho de Balaão”144.

O historiador Flávio Josefo, que escrevia em Roma na mesma década do Apocalipse, conta o conselho com detalhes. Os hebreus não podiam ser destruídos por guerra nem por peste; mas, se as moças mais belas os seduzissem, eles abandonariam as suas leis, adorariam os deuses dos outros, e o próprio Deus se voltaria contra eles145. O Talmude guarda a mesma história146. Essa é a estratégia de Balaão: o que a maldição de fora não consegue, a sedução de dentro consegue. Em Pérgamo, a perseguição matou Antipas e não quebrou a igreja. A doutrina de Balaão podia quebrá-la sem matar ninguém. O grego de armar ciladas diz pôr o skándalon, a isca que dispara a armadilha: laço, tropeço147.

O Novo Testamento lembra Balaão mais duas vezes, e pelo mesmo motivo: ele “amou o prêmio da injustiça”148, e os falsos mestres, “movidos de ganância, se precipitaram no erro de Balaão”149. Os rabinos diziam o mesmo: o discípulo de Balaão tem olho mau, espírito altivo e alma insaciável. A doutrina de Balaão é o ensino que acomoda a igreja ao mundo.

E Cristo acrescenta: também tu tens os que da mesma forma sustentam a doutrina dos nicolaítas. O leitor já os encontrou na carta a Éfeso. Lá vimos que o nome só aparece nessas duas cartas, que Irineu os ligava a Nicolau, um dos sete de Atos 6, e que o ensino deles era o mesmo de Balaão e de Jezabel: comer o sacrificado aos ídolos e praticar a prostituição, em nome de uma liberdade cristã. O “da mesma forma” confirma: são dois nomes para um só caminho. A diferença está nas duas igrejas. De Éfeso, Cristo disse: “odeias as obras dos nicolaítas, as quais eu também odeio” (Apocalipse 2.6). De Pérgamo, diz apenas: tu tens. Éfeso tinha perdido o amor, mas não o ódio ao pecado; Pérgamo tinha a fidelidade de Antipas, mas convivia com o pecado. E repare o que mudou de uma carta para a outra: em Éfeso eram obras; em Pérgamo já é doutrina, algo que se ensina e se sustenta. O pecado que não é combatido acaba ganhando teologia. Paulo avisou a mesma igreja de Éfeso que isso aconteceria: “dentre vós mesmos, se levantarão homens falando coisas pervertidas para arrastar os discípulos atrás deles” (Atos 20.30).

Comer do sacrificado e prostituir-se: os dois itens de Atos 15 que Pérgamo esqueceu

Os dois pecados do ensino de Balaão e da doutrina dos Nicolaítas em Pérgamo são comerem coisas sacrificadas aos ídolos e praticarem a prostituição. Não foram escolhidos ao acaso. São dois dos quatro itens da carta que os apóstolos e os presbíteros de Jerusalém mandaram às igrejas dos gentios:

Pois pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor maior encargo além destas coisas essenciais: que vos abstenhais das coisas sacrificadas a ídolos, bem como do sangue, da carne de animais sufocados e das relações sexuais ilícitas; destas coisas fareis bem se vos guardardes. Saúde.Atos 15.28–29

Paulo e Silas levaram essa carta cidade por cidade, entregando “as decisões tomadas pelos apóstolos e presbíteros de Jerusalém”150. O Apocalipse volta a ela duas vezes: aqui, nos dois pecados, e em Tiatira, quando Cristo diz “outra carga não jogarei sobre vós”, com a mesma palavra grega do encargo de Atos 15.28151.

Paulo tratou o mesmo problema em Corinto. O ídolo, “de si mesmo, nada é no mundo”152. A carne vendida no mercado pode ser comida “sem nada perguntardes por motivo de consciência”153. Mas sentar-se à mesa do templo é outra coisa: “não podeis ser participantes da mesa do Senhor e da mesa dos demônios”154. Nas cidades da Ásia, quase toda a vida social passava por essas mesas: as festas das corporações de ofício, os banquetes cívicos, as festas do imperador. Quem não ia perdia negócio e amigos. É provável que os seguidores de Balaão usassem o próprio argumento de Paulo, o ídolo nada é, para justificar a presença na festa.

E a prostituição? Os banquetes nos templos terminavam muitas vezes em devassidão, e em Números 25 foi literal. A palavra grega é porneia, e ela não se limita ao adultério. O Novo Testamento distingue as duas coisas: adultério é moicheia; porneia é toda relação sexual fora do casamento. Jesus lista as duas lado a lado, “prostituição, adultérios” (Mateus 15.19), e Hebreus também: “Deus julgará os impuros e adúlteros” (Hebreus 13.4). É a mesma palavra que Atos 15.29 traduz por relações sexuais ilícitas. E Cristo não acusa Pérgamo só de ter pecadores; acusa a igreja de ter “aí os que sustentam a doutrina de Balaão” (Apocalipse 2.14). O pecado virou ensino tolerado. Corinto viveu a mesma coisa: havia porneia entre os irmãos, e Paulo repreende sobretudo a igreja, que não se incomodava: “E vós andais ensoberbecidos, e não chegastes a lamentar” (1 Coríntios 5.1–2). A medida de Paulo é outra: a prostituição “nem sequer se nomeie entre vós, como convém a santos” (Efésios 5.3). Uma igreja que hoje trata o sexo fora do casamento como coisa normal não inventou nada novo; repete Pérgamo.

“A espada da minha boca”: Balaão já tinha visto essa espada no caminho

Portanto, arrepende-te; e, se não, venho a ti sem demora e contra eles pelejarei com a espada da minha boca.Apocalipse 2.16

Portanto, arrepende-te é dito à igreja toda, e não só aos seguidores de Balaão: o pecado da igreja era tolerá-los. Mas a ameaça distingue. Venho a ti, e contra eles pelejarei: a vinda é para a igreja, e a guerra é contra os que ensinam o erro. A arma é a do título da carta, a espada da minha boca.

Balaão já tinha encontrado essa espada. Quando ia a caminho de Moabe, o Anjo do Senhor parou na estrada “com a sua espada desembainhada na mão”, e a jumenta o viu antes do profeta. O hebraico diz que o anjo se pôs no caminho como satã para Balaão, isto é, como adversário, e a Bíblia grega traduz com uma palavra da família de diabo155. Balaão escapou naquele dia, e morreu à espada mais tarde: “também Balaão, filho de Beor, mataram à espada”156. Em Pérgamo, a cidade onde Satanás habita, o adversário verdadeiro da doutrina de Balaão é Cristo, e ele vem armado.

Pintura a óleo: um homem idoso de turbante listrado e manto vermelho sobre túnica dourada está montado numa jumenta cinzenta caída de joelhos, de boca aberta; ele ergue um bastão para bater no animal e não vê o anjo louro, de asas abertas e espada erguida, que surge atrás dele; ao fundo, dois cavaleiros de turbante observam
Rembrandt pintou a cena de Números 22: o anjo no caminho com a espada erguida, a jumenta que o vê, o profeta que não vê e bate no animal. É a espada que Balaão encontrou antes de ensinar Israel a cair. Em Pérgamo, Cristo se apresenta como aquele que tem a espada afiada, e a arma que ele promete usar contra os seguidores de Balaão é a da boca: a palavra.
Rembrandt pintou a cena de Números 22: o anjo no caminho com a espada erguida, a jumenta que o vê, o profeta que não vê e bate no animal. É a espada que Balaão encontrou antes de ensinar Israel a cair. Em Pérgamo, Cristo se apresenta como aquele que tem a espada afiada, e a arma que ele promete usar contra os seguidores de Balaão é a da boca: a palavra.Rembrandt · Domínio público · via Wikimedia Commons

A espada da boca é a palavra. Isaías diz do Messias que ele “ferirá a terra com a vara de sua boca e com o sopro dos seus lábios matará o perverso”157, e o Servo do Senhor diz: “fez a minha boca como uma espada aguda”158. Hebreus chama a palavra de Deus de “mais cortante do que qualquer espada de dois gumes”159. E no capítulo 19 é com a espada que sai da boca do cavaleiro que os exércitos da besta caem. Contra o falso mestre, Cristo não precisa de outra arma: basta falar. Nenhum pecado ficará de pé diante das Escrituras Sagradas faladas pela boca do Messias.

O maná escondido: o vaso de ouro que sumiu com a arca e o pão que desceu do céu

Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao vencedor, dar-lhe-ei do maná escondido, bem como lhe darei uma pedrinha branca, e sobre essa pedrinha escrito um nome novo, o qual ninguém conhece, exceto aquele que o recebe.Apocalipse 2.17

A promessa a Pérgamo responde à tentação de Pérgamo. A quem recusar a mesa dos ídolos e da prostituição, Cristo promete outra comida: do maná escondido. O maná era o pão do deserto, e Moisés mandou guardar uma porção dele:

Disse também Moisés a Arão: Toma um vaso, mete nele um gômer cheio de maná e coloca-o diante do Senhor, para guardar-se às vossas gerações.Êxodo 16.33

A Bíblia grega diz que o vaso era de ouro, e Hebreus segue essa leitura quando descreve, dentro da arca, “uma urna de ouro contendo o maná”160. O maná guardado ficava escondido no lugar santíssimo, onde só o sumo sacerdote entrava, uma vez por ano. Depois ficou escondido de outro modo. Quando o templo de Salomão caiu, a arca desapareceu, e os judeus contavam que ela tinha sido escondida. O livro de 2 Macabeus diz que Jeremias a guardou numa caverna do monte de onde Moisés viu a terra, e que o lugar ficaria desconhecido até Deus reunir de novo o seu povo. O Talmude diz que o rei Josias escondeu a arca, e com ela o vaso do maná161.

No tempo de João, a esperança ia além. Um apocalipse judaico escrito por volta do ano 100, o de Baruque, diz que, quando o Messias começar a se revelar, o tesouro do maná descerá de novo do alto, e os justos comerão dele162. Jesus já tinha dado a chave: “não foi Moisés quem vos deu o pão do céu; o verdadeiro pão do céu é meu Pai quem vos dá”163, e “Eu sou o pão da vida”164. O maná escondido é a comida do reino, servida a quem não comeu à mesa dos ídolos. E o capítulo 19 chama de felizes os convidados dessa outra mesa: “Bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro”165.

O que é a pedrinha branca com um nome novo? O voto que absolvia e o nome que só o dono conhece

A segunda parte da promessa é a mais discutida do capítulo: uma pedrinha branca, e nela um nome novo. A palavra é a da pedrinha lisa de votar e de contar.

Nos tribunais, os jurados votavam com pedrinhas. Ovídio fala do costume antigo de condenar com as pretas e absolver com as brancas166. Numa cidade de tribunal romano, onde um cristão podia ser condenado por não negar a fé, a pedrinha branca seria a absolvição dada por Cristo. Pedrinhas também serviam de senha de entrada em banquetes, o que combinaria com o maná da mesma frase. E os rabinos contavam que, junto com o maná, caíam do céu pedras preciosas167. Cada leitura tem apoio, e nenhuma é afirmada pelo texto. Mas as duas são válidas.

O nome novo tem raiz mais firme, e ela está em Isaías. Sião ouve: “serás chamada por um nome novo, que a boca do Senhor designará”. E em Isaías 65 o Senhor diz que chamará os seus servos “por outro nome”, onde a Bíblia grega põe nome novo, dois versículos antes de anunciar “novos céus e nova terra”168.

Na Bíblia, o nome é a própria identidade, e quando Deus muda um nome, muda a pessoa: Abrão vira Abraão quando recebe a aliança (Gênesis 17.5), e Simão recebe o nome de Pedro antes mesmo de ser pedra (João 1.42). O nome novo é a nova criatura de que Paulo fala: “as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (2 Coríntios 5.17). O mundo também muda nomes, mas para outro fim. Na Babilônia, Daniel virou Beltessazar (Daniel 1.7): o império trocava o nome para trocar a identidade.

Em Pérgamo, o nome de cada um estava nas listas da cidade, das corporações e do culto ao imperador. Cristo faz o contrário e dá ao vencedor quem ele é de verdade: “chamei-te pelo teu nome, tu és meu” (Isaías 43.1). E por que ninguém o conhece, senão quem o recebe? Porque é nome de intimidade: não serve para se comparar com ninguém, como o pastor que “chama pelo nome as suas próprias ovelhas” (João 10.3). No mundo antigo, quem sabia o nome secreto de alguém tinha poder sobre ele, mas sobre esse novo nome nenhum tribunal, corporação ou demônio terá poder. Pérgamo vivia do que era público; Cristo promete o que está oculto e é verdadeiro, como a vida que “está oculta juntamente com Cristo, em Deus” (Colossenses 3.3).

Tiatira, a cidade das corporações: onde a mesa dos ídolos era questão de emprego

Tiatira era a menos importante das sete cidades, no caminho entre Pérgamo e Sardes, e recebe a carta mais longa. Não tinha a fama de Éfeso, de Esmirna ou de Pérgamo. Tinha comércio. As inscrições encontradas ali mencionam uma lista longa de corporações de ofício: trabalhadores da lã e do linho, alfaiates, tintureiros, curtidores, oleiros, padeiros, mercadores de escravos, ferreiros do bronze.

Fotografia noturna de uma fileira de colunas antigas de mármore, iluminadas por refletores alaranjados, algumas ligadas por arcos no alto; atrás delas, prédios de apartamentos e uma rua com luzes acesas
O que sobrou de Tiatira está no centro de Akhisar, uma cidade turca comum: um trecho de colunas e arcos cercado de prédios de apartamentos. Nenhuma das sete era menos lembrada, e foi a ela que Cristo mandou a carta mais longa do capítulo. Cidade de comércio e de corporações, onde recusar a mesa dos ídolos podia custar o emprego.
O que sobrou de Tiatira está no centro de Akhisar, uma cidade turca comum: um trecho de colunas e arcos cercado de prédios de apartamentos. Nenhuma das sete era menos lembrada, e foi a ela que Cristo mandou a carta mais longa do capítulo. Cidade de comércio e de corporações, onde recusar a mesa dos ídolos podia custar o emprego.Pragdon · CC0 · via Wikimedia Commons

O leitor da Bíblia já conhece alguém de lá. Em Filipos, a primeira pessoa que Atos registra como convertida na Europa é “Lídia, da cidade de Tiatira, vendedora de púrpura”169, comerciante do ramo dos tintureiros. Tiatira vivia do trabalho organizado, e as corporações não eram só associações de ofício: cada uma tinha o seu deus protetor, as suas festas e as suas refeições em honra dele. Um cristão que tingia lã ou fundia bronze em Tiatira tinha de decidir o que fazer quando a corporação se reunisse para comer, se se sentaria na mesa dos ídolos ou não. É provável que o problema da carta tenha nascido aí. Se foi assim, explica-se por que a tentação de Tiatira foi a mesma de Pérgamo, numa cidade sem trono de Satanás.

“O Filho de Deus”, com olhos de fogo: a única vez que o Apocalipse usa esse título

Ao anjo da igreja em Tiatira escreve: Estas coisas diz o Filho de Deus, que tem os olhos como chama de fogo e os pés semelhantes ao bronze polido:Apocalipse 2.18

Em todo o Apocalipse, só aqui Jesus é chamado o Filho de Deus. O título vem do Salmo 2: “Tu és meu Filho, eu, hoje, te gerei”. E a carta a Tiatira termina com o mesmo salmo, o cetro de ferro do versículo 9. O Salmo 2 abre e fecha a carta170. O Filho do salmo é o Rei ungido, a quem Deus dá as nações, e é nessa luz que Natanael junta os dois nomes: “tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel!”171.

Os outros dois traços vêm do capítulo 1, e de Daniel 10: os olhos como chama de fogo e os pés semelhantes ao bronze polido. Olhos de fogo veem o que está escondido, e a carta vai dizer isso com todas as letras: sonda mentes e corações. Pés de bronze pisam firme. E o bronze, nas Escrituras, anda perto do juízo. No altar de bronze o pecado era julgado no sacrifício (Êxodo 27.1–2); a serpente de bronze era o pecado julgado e levantado diante do povo (Números 21.8–9), e Jesus a aplicou a si mesmo (João 3.14); o céu de bronze era a maldição da desobediência (Deuteronômio 28.23); e à filha de Sião o Senhor promete: “farei de bronze as tuas unhas; e esmiuçarás a muitos povos” (Miqueias 4.13). E o bronze destes pés foi “refinado numa fornalha” (Apocalipse 1.15): passou pelo fogo e não se desfez. Em Tiatira a imagem tinha endereço. A cidade tinha a sua corporação de ferreiros do bronze, e os leitores conheciam a fornalha e o metal polido pelo ofício. E é a carta com o juízo mais concreto das sete: o leito de Jezabel, a morte dos seus filhos, “a cada um segundo as vossas obras” (Apocalipse 2.22–23), e no fim o vaso de oleiro despedaçado (Apocalipse 2.27). Pés de bronze pisam; o que é de barro se quebra.

Quem era Jezabel? Tiatira tinha o amor que Éfeso perdeu, e tolerava a falsa profetisa

Conheço as tuas obras, o teu amor, a tua fé, o teu serviço, a tua perseverança e as tuas últimas obras, mais numerosas do que as primeiras. Tenho, porém, contra ti o tolerares que essa mulher, Jezabel, que a si mesma se declara profetisa, não somente ensine, mas ainda seduza os meus servos a praticarem a prostituição e a comerem coisas sacrificadas aos ídolos.Apocalipse 2.19–20

Tiatira recebe o elogio que Éfeso não recebeu. Na lista, logo depois das obras, vem o teu amor, justamente o que Éfeso tinha abandonado. E Éfeso precisava voltar às primeiras obras, enquanto as de Tiatira cresciam: as tuas últimas obras, mais numerosas do que as primeiras.

Mas Tiatira tolerava uma mulher que ensinava e seduzia os servos de Cristo, e o nome que Cristo lhe dá é o de uma rainha. Acabe, rei de Israel, “tomou por mulher a Jezabel, filha de Etbaal, rei dos sidônios; e foi, e serviu a Baal”172. Jezabel matou os profetas do Senhor e sustentava centenas de profetas de Baal, “que comem da mesa de Jezabel”173. A Escritura diz que ela instigava Acabe e fala das “prostituições de tua mãe Jezabel e as suas muitas feitiçarias”174. Idolatria, mesa, prostituição, sedução: é a mesma lista da carta. A Jezabel de Tiatira devia ter outro nome. Cristo a chama pelo nome que ela merecia.

Ela a si mesma se declara profetisa. O problema não era uma mulher profetizar: Filipe, o evangelista, tinha “quatro filhas donzelas, que profetizavam”175. O problema era a profecia falsa, dita em nome de Deus para desviar. Jesus tinha avisado dos falsos profetas “disfarçados em ovelhas”176, e o verbo da carta, seduza, é o mesmo com que o Apocalipse vai descrever Satanás e o falso profeta177. Uma parte dos manuscritos, seguida pelo Texto Majoritário, lê “a tua mulher” onde a Almeida Revista e Atualizada diz essa mulher; se o anjo da igreja for o seu líder, Jezabel seria a esposa dele. A ARA segue os manuscritos sem o pronome178.

“Dei-lhe tempo para que se arrependesse”: a cama que vira leito de doença

Dei-lhe tempo para que se arrependesse; ela, todavia, não quer arrepender-se da sua prostituição. Eis que a prostro de cama, bem como em grande tribulação os que com ela adulteram, caso não se arrependam das obras que ela incita.Apocalipse 2.21–22

Antes do juízo houve paciência: Dei-lhe tempo para que se arrependesse. Paulo chama isso de “a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade”, que serve para conduzir “ao arrependimento”179, e Pedro diz que o Senhor “é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça”180. Mas a frase termina com a vontade dela: não quer arrepender-se. O tempo foi dado e recusado.

Então vem o castigo, e ele tem a forma do pecado: Eis que a prostro de cama. A cama do adultério vira leito de doença. Na Lei, o homem ferido numa briga que “não morrer, mas cair de cama”181 está doente, e é essa a imagem. A palavra grega é também a do divã em que se reclinava nos banquetes; se as festas das corporações estavam por trás do ensino dela, a cama do banquete virou cama de enferma182. E os que com ela adulteram vão para grande tribulação, ainda com uma porta aberta: caso não se arrependam. Até para os seguidores de Jezabel havia tempo.

“Sonda mentes e corações”: o que Jeremias dizia só do Senhor, na boca do Filho

Matarei os seus filhos, e todas as igrejas conhecerão que eu sou aquele que sonda mentes e corações, e vos darei a cada um segundo as vossas obras.Apocalipse 2.23

Matarei os seus filhos não fala de filhos de sangue. São os discípulos dela, como João chama de filhos os membros de uma igreja: “à senhora eleita e aos seus filhos”183. E a morte, no grego, é a palavra que o Apocalipse usa para a peste, a “mortandade” do cavaleiro do capítulo 6184. É duro. Mas o mesmo Cristo diz a Laodiceia para que serve a disciplina: “Eu repreendo e disciplino a quantos amo”185.

E o alcance vai além de Tiatira: todas as igrejas conhecerão. A carta foi lida nas sete, e a disciplina de uma serviu de lição às outras. O que elas iam conhecer é quem Cristo é: aquele que sonda mentes e corações. A frase é de Jeremias, onde é o próprio Senhor quem fala:

Eu, o Senhor, esquadrinho o coração, eu provo os pensamentos; e isto para dar a cada um segundo o seu proceder, segundo o fruto das suas ações.Jeremias 17.10

A ARA diz “mentes” e “pensamentos”; o hebraico e o grego dizem rins, que para os hebreus eram a sede do que se sente e não se mostra186. Os dois textos seguem a mesma ordem: sondar por dentro e dar a cada um segundo o que fez. E Salomão tinha dito a Deus: “tu, só tu, és conhecedor do coração de todos os filhos dos homens”187.

O Pai “a ninguém julga, mas ao Filho confiou todo julgamento”188, e Deus “há de julgar o mundo com justiça, por meio de um varão que destinou”189: quem recebeu o julgamento recebeu também o que ele exige, que é ver o coração. Por isso Jesus sabe todas essas coisas. Cristo sonda os corações. Ele tem esse conhecimento por dom do Pai.

E a última frase vale para a igreja inteira: julgarei a cada um segundo as vossas obras. É a regra de todo o Novo Testamento, e o Apocalipse a repete na última página: “eis que venho sem demora, e comigo está o galardão que tenho para retribuir a cada um segundo as suas obras”190. A salvação é pela graça; o galardão é segundo as obras, dado por quem conhece o coração que estava atrás de cada uma.

“As coisas profundas de Satanás”: o conhecimento que os fiéis de Tiatira não precisavam ter

Digo, todavia, a vós outros, os demais de Tiatira, a tantos quantos não têm essa doutrina e que não conheceram, como eles dizem, as coisas profundas de Satanás: Outra carga não jogarei sobre vós; tão somente conservai o que tendes, até que eu venha.Apocalipse 2.24–25

Nem todos em Tiatira seguiam Jezabel. Cristo fala aos que chama de os demais de Tiatira, os que não conheceram o que o grupo dela chamava de conhecimento: as coisas profundas de Satanás. O detalhe está em três palavras: “como eles dizem”. O grupo de Jezabel se via como a elite espiritual da igreja: livres, maduros, iniciados num saber acima da fé simples. Provavelmente chamavam aquilo de profundezas de Deus. Cristo pega o nome que eles davam e diz de quem era a profundeza. O argumento provável era que o cristão maduro podia entrar no terreno do diabo, sentar-se ao banquete do ídolo e provar a imoralidade sem se contaminar; só os “fracos na fé” precisavam ficar de fora. Eram muito mestres e muito enganados. E o engano convencia porque não parecia mal; parecia luz. Paulo já tinha avisado: “o próprio Satanás se transforma em anjo de luz” (2 Coríntios 11.14), e Jezabel se dizia profetisa. Jesus descreve o estado deles com uma frase só: “se a luz que em ti há são trevas, que grandes trevas serão!” (Mateus 6.23).

Não é uma oferta nova. A serpente já tinha prometido a Eva um conhecimento que só se alcançava desobedecendo: “se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal” (Gênesis 3.5). As coisas profundas de Satanás são a mesma promessa: conhecer pelo pecado. Paulo temia que a igreja fosse afastada “da simplicidade e pureza devidas a Cristo”, como a serpente enganou Eva (2 Coríntios 11.3), e deu o antídoto: “quero que sejais sábios para o bem e símplices para o mal” (Romanos 16.19). Não conhecer o mal por dentro não é ignorância; é saúde. A Bíblia não é contra a profundidade. Paulo exclama: “Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus!” (Romanos 11.33), e ora para que os efésios compreendam a largura, o comprimento, a altura e a profundidade do amor de Cristo (Efésios 3.18–19). Mas essa profundidade termina em adoração e obediência, não em licença. Esse é o teste: a profundeza de Deus produz humildade; a de Satanás, orgulho e liberdade para pecar. João o diz sem rodeios: “Aquele que diz: Eu o conheço, e não guarda os seus mandamentos é mentiroso” (1 João 2.4). Quem conhece muito e obedece pouco não chegou fundo; afundou.

Aos fiéis, Cristo não pede mais nada: outra carga não jogarei sobre vós, com a palavra do encargo que Jerusalém tinha limitado ao essencial. Pede que segurem: conservai o que tendes, até que eu venha. É o verbo de segurar com força que abriu o capítulo.

Com cetro de ferro: o Salmo 2 prometido ao vencedor, e o reino depois da volta de Cristo

Ao vencedor, que guardar até ao fim as minhas obras, eu lhe darei autoridade sobre as nações, e com cetro de ferro as regerá e as reduzirá a pedaços como se fossem objetos de barro;Apocalipse 2.26–27

A promessa é ao vencedor que guardar as minhas obras, as de Cristo, e não as que Jezabel incitava, e que as guardar até ao fim. É o que Jesus disse no monte das Oliveiras: “Aquele, porém, que perseverar até o fim, esse será salvo”191. O prêmio é governo, autoridade sobre as nações, e as palavras que seguem são do Salmo 2, o mesmo que abriu a carta:

Pede-me, e eu te darei as nações por herança e as extremidades da terra por tua possessão. Com vara de ferro as regerás e as despedaçarás como um vaso de oleiro.Salmos 2.8–9

No salmo, isso é dito ao Filho. No Apocalipse, a Cristo, que no capítulo 19 “as regerá com cetro de ferro”192, falando do tempo do reino milenar que falaremos em outro momento. Aqui, Cristo estende a promessa ao vencedor e dá a razão: assim como também eu recebi de meu Pai. O Filho recebeu as nações do Pai, como o salmo prometia, “Pede-me, e eu te darei as nações por herança”, e reparte com os seus o que recebeu. Os rabinos também liam o Salmo 2 como palavra de Deus ao Messias, filho de Davi193.

Quando o vencedor governará? O Novo Testamento repete a promessa, “se perseveramos, também com ele reinaremos”194, e Daniel viu o reino dado “ao povo dos santos do Altíssimo”195. O Apocalipse diz dos remidos que “reinarão sobre a terra”196 e mostra, no capítulo 20, os que não adoraram a besta reinando com Cristo mil anos. Esse será o reinado futuro, na terra, depois da volta de Cristo.

A estrela da manhã é Lúcifer? A profecia de Balaão que fecha a carta a Tiatira

assim como também eu recebi de meu Pai, dar-lhe-ei ainda a estrela da manhã. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.Apocalipse 2.28–29

A última promessa do capítulo é a estrela da manhã, e o livro diz quem ela é na última página: “Eu sou a Raiz e a Geração de Davi, a brilhante Estrela da manhã”197. O vencedor recebe o próprio Cristo. A estrela da manhã é a que brilha quando a noite ainda está escura e anuncia o dia; Pedro fala da palavra profética que brilha “até que o dia clareie e a estrela da alva nasça em vosso coração”198.

E aqui as peças do capítulo se juntam. Cetro e estrela, nos versículos 27 e 28, estão juntos numa profecia só, em Números:

Vê-lo-ei, mas não agora; contemplá-lo-ei, mas não de perto; uma estrela procederá de Jacó, de Israel subirá um cetro que ferirá as têmporas de Moabe e destruirá todos os filhos de Sete.Números 24.17

Quem disse isso foi Balaão. O profeta cuja doutrina Cristo condenou em Pérgamo foi obrigado a anunciar a estrela e o cetro que viriam de Jacó, e a carta a Tiatira dá as duas imagens ao vencedor. No hebraico, o cetro de Números e a vara do Salmo 2 são a mesma palavra, shévet. Os rabinos tinham nome para esse modo de ligar dois textos por uma palavra comum, gezerá shavá, e ele já era ensinado no tempo do rabino Hillel199.

Os judeus liam a profecia de Balaão como promessa do Messias. O Targum de Onqueles traduz: “quando se levantar um rei de Jacó, e de Israel for engrandecido o Messias”. A estrela da manhã do Apocalipse é a que esteve morta e voltou a viver. O profeta Isaías fala ainda de uma outra estrela da manhã que dizia “acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono”200, e caiu: Satanás.

No hebraico de Isaías, essa estrela é Helel ben Shachar, o brilhante, filho da aurora, e a Vulgata, a tradução latina de Jerônimo, traduziu por lucifer, portador de luz. O alvo direto do texto é o rei da Babilônia (Isaías 14.4), mas desde cedo se leu ali algo maior, como em Ezequiel, onde o rei de Tiro é descrito como querubim ungido que estava no Éden (Ezequiel 28.13–14), e Jesus diz: “Eu via Satanás caindo do céu como um relâmpago” (Lucas 10.18). O pecado dessa estrela é querer subir: “Subirei ao céu… serei semelhante ao Altíssimo” (Isaías 14.13–14), a mesma promessa que a serpente fez a Eva e que estava por trás das coisas profundas de Satanás. Estrela da manhã, porém, não é nome do diabo. É um título que ele quis tomar e que pertence a Cristo; a própria Vulgata usa lucifer para a estrela da alva que nasce no coração dos crentes (2 Pedro 1.19). A que quis subir caiu; a que desceu foi exaltada. Cristo “a si mesmo se esvaziou” e “humilhou-se”, e “por isso também Deus o exaltou sobremaneira” (Filipenses 2.7–9). E é essa estrela que é dada a quem vence. O vencedor recebe o próprio Cristo, recebe parte no que Cristo recebeu (“assim como também eu recebi de meu Pai”) e recebe o brilho que Daniel prometera: “os que forem sábios resplandecerão… como as estrelas, sempre e eternamente” (Daniel 12.3).

Mateus 24 em quatro cidades: o sermão do monte das Oliveiras já acontecia na Ásia

Lido de uma vez, o capítulo 2 soa como um sermão que os leitores de João conheciam. No monte das Oliveiras, Jesus avisou o que viria antes do fim:

Então, sereis atribulados, e vos matarão. Sereis odiados de todas as nações, por causa do meu nome. Nesse tempo, muitos hão de se escandalizar, trair e odiar uns aos outros; levantar-se-ão muitos falsos profetas e enganarão a muitos. E, por se multiplicar a iniquidade, o amor se esfriará de quase todos. Aquele, porém, que perseverar até o fim, esse será salvo.Mateus 24.9–13

Está tudo em Apocalipse 2. A tribulação e a morte por causa do nome de Cristo: Esmirna, com a prisão, e Pérgamo, com Antipas. Muitos se escandalizando: a armadilha que Balaão montou em Pérgamo, com a mesma palavra grega. Falsos profetas enganando a muitos: os falsos apóstolos de Éfeso e a profetisa de Tiatira, que seduzia os servos de Cristo, com o mesmo verbo. O amor se esfriando: Éfeso. E perseverar até o fim: a perseverança de Éfeso e de Tiatira, e o vencedor que guarda as obras de Cristo até ao fim201. Lucas acrescenta a promessa: “É na vossa perseverança que ganhareis a vossa alma”202.

Isso não quer dizer que o sermão das Oliveiras se esgotou no primeiro século. Ele termina com a vinda do Filho do Homem, e o Apocalipse também. Quer dizer que as dores anunciadas para o tempo antes do fim começaram cedo, e que as igrejas da Ásia já viviam dentro delas. O Apocalipse desdobra aquele sermão, e as cartas mostram como ele se parece dentro de uma igreja comum.

Verdade sem amor, amor sem verdade: Cristo não aceita nenhuma das metades

Quatro igrejas, quatro retratos, e em todos a mesma primeira palavra de Cristo: Conheço. Ele conhece o trabalho de Éfeso e o amor que ela deixou; a pobreza de Esmirna e a riqueza que ninguém via; a cidade onde Pérgamo morava e a tolerância que ela tinha; o amor de Tiatira e a mulher que ela deixava ensinar. Nada é elogiado sem ser visto, e nada é repreendido sem ser conhecido.

Satanás aparece em três das quatro cartas, com os rostos que o capítulo 12 vai nomear quando o dragão for expulso do céu, “o acusador de nossos irmãos”203 e “o sedutor de todo o mundo”204: em Esmirna, o diabo que calunia e prende; em Pérgamo, o trono; em Tiatira, as coisas profundas. As igrejas de Apocalipse 2 estão na mesma guerra do resto do livro, na escala de uma cidade, e vencem como o capítulo 12 diz que se vence: pelo sangue do Cordeiro, pela palavra do testemunho e por não amar a própria vida. Foi assim que venceram Antipas e Policarpo.

O capítulo começa e termina com a mesma falta, em lados opostos. Éfeso tinha verdade sem amor; Tiatira tinha amor sem verdade. A carta de Paulo aos efésios já pedia as duas numa frase: “seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo”205. A igreja que só guarda a verdade esfria, e a que só ama se deixa enganar. Cristo não aceita nenhuma das duas metades.

E há um verbo que atravessa o capítulo. Cada carta começa com “Estas coisas diz”: quem diz é Cristo. E em três cartas aparecem os que dizem a respeito de si mesmos: os que se declaram apóstolos, os que se declaram judeus, a mulher que se declara profetisa.

O que Cristo pede, no fim, não é heroísmo raro. A Esmirna, fidelidade até à morte. A Tiatira, só isto: conservai o que tendes. A todas, que ouçam. E a cada uma ele promete uma peça do fim do livro: a árvore da vida, a vida que a segunda morte não toca, o maná e o nome novo, o governo com Cristo e a própria estrela da manhã. Quem ouve Apocalipse 2 recebe, antes dos selos e das trombetas, o endereço da cidade para onde está indo.

Notas

1. Nas três primeiras cartas, a ordem é Quem tem ouvidos e depois a promessa (2.7; 2.11; 2.17). Nas quatro últimas, a promessa vem antes e o chamado a ouvir fecha a carta (2.26-29; 3.5-6; 3.12-13; 3.21-22).

2. A fórmula grega é τάδε λέγει, estas coisas diz. Na Septuaginta, τάδε λέγει κύριος traduz o Assim diz o Senhor dos profetas centenas de vezes, e é a abertura dos oráculos de Amós 1.6; 1.9; 2.4 e 2.6, entre outros. No Novo Testamento, a fórmula só aparece nas sete cartas e em Atos 21.11, na boca de Ágabo: τάδε λέγει τὸ Πνεῦμα τὸ Ἅγιον.

3. Amós 3.2.

4. 1 Pedro 4.17.

5. Deuteronômio 18.18.

6. João 12.49.

7. Marcos 4.9; também Mateus 11.15 e Lucas 8.8.

8. Ezequiel 3.27.

9. Apocalipse 2.24.

10. Romanos 8.9.

11. Atos 16.6-7.

12. João 16.33.

13. Apocalipse 12.11.

14. Apocalipse 5.5-6.

15. Apocalipse 21.7.

16. Atos 19.27.

17. Tácito, Anais IV.55: na disputa de onze cidades da Ásia, no ano 26, pelo templo de Tibério, Éfeso e Mileto ficaram de fora porque cada uma parecia ter a cidade inteira ocupada com o culto de um deus, Mileto com o de Apolo, Éfeso com o de Diana.

18. Atos 19.10.

19. Irineu, Contra as Heresias III.3.4, por volta de 180: “a igreja em Éfeso, fundada por Paulo, e onde João permaneceu até os tempos de Trajano, é testemunha verdadeira da tradição dos apóstolos”. Trajano reinou de 98 a 117.

20. Em 1.16, as estrelas estão na mão de quem as tem, ἔχων. Em 2.1, de quem as segura com força, κρατῶν, de κρατέω, agarrar, reter, não soltar. O verbo volta em 2.13, κρατεῖς τὸ ὄνομά μου; em 2.14 e 2.15, κρατοῦντας τὴν διδαχήν; e em 2.25, ὃ ἔχετε κρατήσατε. A ARA o traduz por conservar e por sustentar.

21. Levítico 26.12.

22. Em 2.2, οὐ δύνῃ βαστάσαι κακούς, não podes suportar os maus; em 2.3, ἐβάστασας διὰ τὸ ὄνομά μου, suportaste por causa do meu nome. Em 2.2, τὸν κόπον, o labor, a fadiga; em 2.3, οὐ κεκοπίακες, não te cansaste, de κοπιάω, da mesma raiz. O objeto provas, em 2.3, é acréscimo da ARA para completar a frase; o grego diz só suportaste.

23. 2 Coríntios 11.13.

24. 1 João 4.1.

25. 2 João 10.

26. Didaquê 11.3-6, manual cristão do fim do primeiro século ou do começo do segundo: “todo apóstolo que chega até vós seja recebido como o Senhor; mas não ficará mais que um dia, e, se houver necessidade, também o seguinte; se ficar três, é falso profeta. […] se pedir dinheiro, é falso profeta”.

27. Inácio de Antioquia, Carta aos Efésios 6.2 e 9.1, por volta de 110: “nenhuma seita tem morada entre vós”; e, sobre mestres vindos de fora, “não permitistes que semeassem entre vós, tapando os ouvidos”.

28. O verbo é ἀφῆκες, de ἀφίημι, deixar, largar, o dos discípulos que deixaram as redes (Mateus 4.20: ἀφέντες τὰ δίκτυα). É o mesmo verbo de 2.20, onde Tiatira tolera Jezabel: ἀφεῖς, literalmente deixas. Éfeso largou o que devia segurar; Tiatira deixa ficar o que devia tirar.

29. Efésios 6.24: ἡ χάρις μετὰ πάντων τῶν ἀγαπώντων τὸν Κύριον ἡμῶν Ἰησοῦν Χριστὸν ἐν ἀφθαρσίᾳ. Aphtharsía é a palavra de 1 Coríntios 15.42 e 15.53 para o corpo da ressurreição: ἐγείρεται ἐν ἀφθαρσίᾳ, ressuscita incorruptível.

30. Jeremias 2.2.

31. Efésios 1.15.

32. 1 João 4.20.

33. Mateus 24.12.

34. 1 Coríntios 13.2.

35. Mateus 22.37-39.

36. Romanos 13.10.

37. Tiago 4.17.

38. 1 João 3.23.

39. 1 João 3.14.

40. Efésios 5.2.

41. Os imperativos de 2.5: μνημόνευε, no presente, continua lembrando; μετανόησον e ποίησον, no aoristo, a decisão tomada de uma vez. E πέπτωκες, caíste, está no perfeito: uma queda cujo efeito continua.

42. Zacarias 4.6.

43. Estrabão, Geografia 14.1.21 e 14.1.24. Lisímaco deu à cidade nova o nome da esposa, Arsínoe, que não pegou. E o rei Átalo Filadelfo, querendo aprofundar o porto, estreitou-lhe a boca com um molhe; o lodo do Caístro, preso ali dentro, deixou o porto inteiro mais raso.

44. Mateus 5.14-15.

45. Apocalipse 2.1.

46. Ezequiel 10.18-19; 11.22-23.

47. Mateus 23.38.

48. João 10.28.

49. 1 Coríntios 10.12.

50. Hebreus 3.14.

51. 1 João 5.4-5.

52. Apocalipse 3.19.

53. Hebreus 12.6.

54. Romanos 12.9.

55. Salmo 97.10.

56. Provérbios 8.13.

57. Provérbios 6.16-19.

58. Amós 5.21.

59. Isaías 1.14.

60. Malaquias 2.14-16.

61. Zacarias 8.17.

62. Deuteronômio 12.31.

63. Salmo 5.5.

64. Ezequiel 33.11.

65. Mateus 5.44.

66. Judas 22-23.

67. Apocalipse 2.15.

68. Atos 6.5.

69. Irineu, Contra as Heresias I.26.3: os nicolaítas “são seguidores daquele Nicolau que foi um dos sete primeiros ordenados ao diaconato pelos apóstolos”. Clemente de Alexandria, Stromata II.20, por volta de 200: os que dizem seguir Nicolau pervertem uma frase dele, a de que é preciso maltratar a carne; ele ensinava a refrear os prazeres.

70. Apocalipse 2.14.

71. Apocalipse 2.20.

72. Atos 15.29.

73. 1 Coríntios 10.20.

74. Judas 4.

75. 2 Pedro 2.19.

76. 1 Coríntios 6.12; o lema aparece de novo em 1 Coríntios 10.23.

77. 1 Coríntios 6.12.

78. Romanos 6.1-2.

79. Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica III.29, citando Clemente de Alexandria, Stromata III.4. O verbo da frase de Nicolau é παραχρήσασθαι, que pode significar usar com rigor ou abusar.

80. 2 Pedro 3.16.

81. Apocalipse 2.16.

82. Efésios 5.11.

83. Judas 22-23.

84. Gênesis 2.9.

85. Gênesis 3.24.

86. Apocalipse 22.14.

87. Gênesis 2.8 na Septuaginta: ἐφύτευσεν κύριος ὁ θεὸς παράδεισον ἐν Ἐδέμ, e 2.9: τὸ ξύλον τῆς ζωῆς ἐν μέσῳ τῷ παραδείσῳ. Apocalipse 2.7: ἐκ τοῦ ξύλου τῆς ζωῆς, ὅ ἐστιν ἐν τῷ παραδείσῳ τοῦ θεοῦ. A palavra é de origem persa e queria dizer parque, jardim murado.

88. Lucas 23.43.

89. 2 Coríntios 12.4.

90. Gênesis 3.23-24.

91. 2 Coríntios 12.2-4.

92. 2 Baruque 4.2-6. Texto judaico extrabíblico, citado apenas como testemunho do que se esperava na época.

93. 4 Esdras 8.52 (chamado 2 Esdras nas Bíblias que trazem os apócrifos). Também extrabíblico.

94. Êxodo 25.40.

95. Hebreus 8.5.

96. Gálatas 4.26.

97. Hebreus 12.22.

98. Hebreus 11.10.

99. Hebreus 11.16.

100. Apocalipse 21.2.

101. Apocalipse 22.2.

102. Apocalipse 21.1.

103. 2 Pedro 3.13.

104. Apocalipse 21.5.

105. Romanos 8.21.

106. Mateus 19.28.

107. Atos 3.21.

108. Ezequiel 47.12.

109. Apocalipse 22.2.

110. Filipenses 1.23.

111. Apocalipse 21.4.

112. Apocalipse 22.3.

113. Tácito, Anais IV.56: Esmirna lembrou ao senado que tinha sido a primeira cidade a erguer um templo em honra de Roma, em 195 a.C., e foi a escolhida. Cícero, Filípicas XI.5, a chama de cidade fidissimorum antiquissimorumque sociorum, dos aliados mais fiéis e mais antigos.

114. Estrabão, Geografia 14.1.37: depois que os lídios arrasaram Esmirna, os moradores viveram em aldeias por cerca de quatrocentos anos; Antígono e depois Lisímaco os reuniram de novo numa cidade, “agora a mais bela de todas”.

115. O grego é ὃς ἐγένετο νεκρὸς καὶ ἔζησεν, que se tornou morto e viveu. O aoristo ἔζησεν, voltou a viver, é o verbo de 20.4, onde os que morreram pelo testemunho de Jesus viveram e reinaram com Cristo, e o de 13.14, onde a besta, ferida à espada, sobreviveu: até a volta à vida terá imitação.

116. Apocalipse 1.18.

117. Mateus 24.9.

118. O grego é πτωχεία, de πτωχός, o pobre que nada tem e se curva para pedir; o que trabalha e vive com pouco é πένης. Em 2 Coríntios 8.9, Cristo se fez pobre, ἐπτώχευσεν, para que nos tornássemos ricos pela sua πτωχείᾳ.

119. Hebreus 10.34.

120. Apocalipse 3.17.

121. Lucas 21.12.

122. Martírio de Policarpo 12.2 e 13.1, carta da igreja de Esmirna escrita logo depois da morte do bispo: “toda a multidão de gentios e de judeus que moravam em Esmirna” gritou contra ele; e, quando a multidão juntou lenha das oficinas e dos banhos, “os judeus mais que todos, segundo o seu costume”, ajudavam com empenho.

123. 1 Tessalonicenses 3.4.

124. 1 Pedro 4.12.

125. Daniel 1.12 em Teodocião: πείρασον δὴ τοὺς παῖδάς σου ἡμέρας δέκα; 1.14: ἐπείρασεν αὐτοὺς ἡμέρας δέκα. Na Grega Antiga, 1.12 diz ἐφ᾿ ἡμέρας δέκα. Apocalipse 2.10: ἵνα πειρασθῆτε, καὶ ἕξετε θλῖψιν ἡμερῶν δέκα.

126. Filipenses 2.8.

127. O grego é στέφανος, a coroa de louro, de oliveira ou de pinho dos jogos, e a coroa com que as cidades honravam os seus benfeitores. O diadema dos reis é διάδημα, a palavra de 12.3, 13.1 e 19.12. Tiago 1.12 tem a mesma expressão de Apocalipse 2.10: τὸν στέφανον τῆς ζωῆς.

128. 2 Timóteo 4.8.

129. 1 Pedro 5.4.

130. 1 Coríntios 9.25.

131. Martírio de Policarpo 9.2-3; 16.1; 17.1. O relato diz que o fogo o rodeou sem consumi-lo e que um carrasco o matou com um punhal. A data é discutida: a maioria a põe em 155 ou 156; outros, perto de 167.

132. O grego é οὐ μὴ ἀδικηθῇ, a dupla negação com o aoristo subjuntivo, a forma mais forte de negar um fato futuro: de modo nenhum será ferido.

133. Apocalipse 20.14.

134. Apocalipse 20.6.

135. Mateus 10.28.

136. Targum de Onqueles, Deuteronômio 33.6: יְחִי רְאוּבֵן לְחַיֵּי עָלְמָא וּמוֹתָא תִנְיָנָא לָא יְמוּת. Targum de Jônatas, Isaías 65.15: וִימִיתְכוֹן יְיָ אֱלֹהִים מוֹתָא תִנְיָנָא וּלְעַבְדוֹהִי צַדִיקַיָא יִקְרֵי שְׁמָא אוֹחֲרָנָא; a mesma expressão está em 65.6. Os dois targuns foram fixados por escrito entre os séculos II e V, com tradições mais antigas.

137. Apocalipse 12.9; também 20.2.

138. Tácito, Anais IV.37 e IV.55: Augusto não proibiu que se fundasse em Pérgamo um templo a si mesmo e à cidade de Roma, e no ano 26 Pérgamo ficou fora da disputa pelo templo de Tibério porque já tinha o de Augusto. O altar de Zeus, do século II a.C., foi escavado por arqueólogos alemães no século XIX e remontado em Berlim.

139. Apocalipse 13.2.

140. Plínio, o Jovem, Cartas X.96.5, por volta de 112: os acusados que negavam ser cristãos, depois de invocar os deuses, oferecer incenso e vinho à imagem do imperador e amaldiçoar Cristo, quorum nihil cogi posse dicuntur qui sunt re vera Christiani, eram soltos. A mesma carta menciona uma lista anônima de nomes afixada em público: a delação que Esmirna conhecia.

141. Em 1.5, ἀπὸ Ἰησοῦ Χριστοῦ, ὁ μάρτυς ὁ πιστός: o título vem no nominativo depois de uma preposição que pede genitivo. Em 2.13, ἐν ταῖς ἡμέραις Ἀντιπᾶς ὁ μάρτυς μου ὁ πιστός μου: de novo o nominativo onde se esperaria o genitivo. O Texto Recebido acrescenta ἐν αἷς, nas quais, e lê nos dias em que Antipas era a minha fiel testemunha.

142. Deuteronômio 23.5.

143. Números 25.2.

144. Números 31.16.

145. Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas IV.126-130, publicadas por volta de 93 ou 94: nenhuma destruição completa pode atingir os hebreus, nem por guerra, nem por peste, nem por fome; mas, se as moças mais belas de Moabe e de Midiã os atraíssem, os jovens abandonariam as suas leis e adorariam os deuses delas, “pois por esse meio Deus se irará contra eles”.

146. Talmude Babilônico, Sanhedrin 106a: Balaão aconselha pôr mulheres em tendas vendendo roupas de linho, oferecer vinho e depois o ídolo, porque o Deus de Israel odeia a devassidão. Mishná, Avot 5.19, compilada por volta de 200: o discípulo de Abraão tem olho bom, espírito humilde e alma moderada; o de Balaão, olho mau, espírito altivo e alma insaciável.

147. O grego é βαλεῖν σκάνδαλον ἐνώπιον τῶν υἱῶν Ἰσραήλ. Σκάνδαλον é a vareta com a isca que faz a armadilha disparar; daí laço, pedra de tropeço. O verbo da mesma família está em Mateus 24.10: σκανδαλισθήσονται πολλοί, muitos hão de se escandalizar.

148. 2 Pedro 2.15.

149. Judas 11.

150. Atos 16.4.

151. Atos 15.28: μηδὲν πλέον ἐπιτίθεσθαι ὑμῖν βάρος πλὴν τούτων τῶν ἐπάναγκες. Apocalipse 2.24: οὐ βάλλω ἐφ’ ὑμᾶς ἄλλο βάρος.

152. 1 Coríntios 8.4.

153. 1 Coríntios 10.25.

154. 1 Coríntios 10.21.

155. Números 22.22: וַיִּתְיַצֵּב מַלְאַךְ יְהוָה בַּדֶּרֶךְ לְשָׂטָן לוֹ, pôs-se no caminho como satã para ele; 22.32: יָצָאתִי לְשָׂטָן, saí como satã. Na Septuaginta, ἐνδιαβάλλειν αὐτόν e εἰς διαβολήν σου, da família de διάβολος. A espada do anjo, em 22.23, é ῥομφαία, a palavra de Apocalipse 1.16; 2.12 e 2.16.

156. Números 31.8.

157. Isaías 11.4.

158. Isaías 49.2.

159. Hebreus 4.12.

160. Êxodo 16.33 na Septuaginta: λαβὲ στάμνον χρυσοῦν ἕνα, toma um vaso de ouro; o hebraico diz só um vaso. Hebreus 9.4: στάμνος χρυσῆ ἔχουσα τὸ μάννα. Em Apocalipse 2.17, τοῦ μάννα τοῦ κεκρυμμένου: particípio perfeito, o que foi escondido e continua escondido.

161. 2 Macabeus 2.4-8, livro judaico do século II ou I a.C. Talmude Babilônico, Yoma 52b, numa tradição atribuída aos mestres antigos: quando a arca foi escondida, esconderam com ela o vaso do maná, o frasco do óleo da unção e a vara de Arão; e quem a escondeu foi Josias, rei de Judá.

162. 2 Baruque 29.3 e 29.8, apocalipse judaico de por volta do ano 100: quando o Messias começar a ser revelado, “o tesouro do maná descerá de novo do alto, e comerão dele naqueles anos”. Talmude Babilônico, Chagigah 12b: no céu chamado Shechakim, moinhos moem maná para os justos, com base no Salmo 78.23-24.

163. João 6.32.

164. João 6.35.

165. Apocalipse 19.9.

166. O grego é ψῆφον λευκήν. Ψῆφος é a pedrinha de votar, de calcular, de jogar; é a palavra de Atos 26.10, onde Paulo diz que dava o seu voto, κατήνεγκα ψῆφον, para a morte dos cristãos. Ovídio, Metamorfoses XV.41-42: mos erat antiquus niveis atrisque lapillis, his damnare reos, illis absolvere culpa, era costume antigo condenar os réus com pedrinhas pretas e absolvê-los com as brancas.

167. Talmude Babilônico, Yoma 75a: junto com o maná, desceram para Israel pérolas e pedras preciosas. Compilação posterior ao Apocalipse; a tradição pode ser mais antiga, e não há como saber se João a conhecia.

168. Isaías 62.2 na Septuaginta: καλέσει σε τὸ ὄνομά σου τὸ καινόν; 65.15: τοῖς δὲ δουλεύουσιν αὐτῷ κληθήσεται ὄνομα καινόν. Apocalipse 2.17: ὄνομα καινὸν γεγραμμένον, ὃ οὐδεὶς οἶδεν εἰ μὴ ὁ λαμβάνων; 19.12: ὄνομα γεγραμμένον ὃ οὐδεὶς οἶδεν εἰ μὴ αὐτός. “Novos céus e nova terra”: Isaías 65.17.

169. Atos 16.14.

170. O Salmo 2.7 na Septuaginta: υἱός μου εἶ σύ, ἐγὼ σήμερον γεγέννηκά σε. Apocalipse 2.18: ὁ Υἱὸς τοῦ Θεοῦ. Em 21.7, o livro volta à linguagem da filiação real de 2 Samuel 7.14: “eu lhe serei Deus, e ele me será filho”.

171. João 1.49.

172. 1 Reis 16.31.

173. 1 Reis 18.19.

174. 2 Reis 9.22.

175. Atos 21.9.

176. Mateus 7.15.

177. O verbo de 2.20 é πλανᾷ, desvia, engana. É o verbo de Satanás em 12.9, ὁ πλανῶν τὴν οἰκουμένην ὅλην, e o do falso profeta em 13.14, πλανᾷ τοὺς κατοικοῦντας ἐπὶ τῆς γῆς; em Mateus 24.11, os falsos profetas πλανήσουσιν πολλούς.

178. O Texto Majoritário bizantino lê τὴν γυναῖκά σου Ἰεζάβελ, a tua mulher Jezabel; o texto crítico e o Texto Recebido leem sem o pronome. A ARA segue o texto sem o pronome: essa mulher, Jezabel.

179. Romanos 2.4.

180. 2 Pedro 3.9.

181. Êxodo 21.18.

182. O grego é βάλλω αὐτὴν εἰς κλίνην. Κλίνη é o leito, também o de doente (Mateus 9.2: παραλυτικὸν ἐπὶ κλίνης βεβλημένον, um paralítico deitado num leito), e o divã das refeições reclinadas. E o verbo βάλλω atravessa o capítulo: o diabo vai lançar alguns de Esmirna na prisão (2.10); Balaão ensinou a lançar tropeço (2.14); Cristo lança Jezabel na cama (2.22) e não lança outra carga sobre os fiéis (2.24).

183. 2 João 1.

184. O grego é ἀποκτενῶ ἐν θανάτῳ, matarei com morte. Na Septuaginta, θάνατος traduz muitas vezes a peste, e em Apocalipse 6.8 o cavaleiro recebe poder para matar ἐν ῥομφαίᾳ καὶ ἐν λιμῷ καὶ ἐν θανάτῳ, à espada, pela fome, com a mortandade.

185. Apocalipse 3.19.

186. Apocalipse 2.23: ὁ ἐραυνῶν νεφροὺς καὶ καρδίας, καὶ δώσω ὑμῖν ἑκάστῳ κατὰ τὰ ἔργα ὑμῶν. Jeremias 17.10 na Septuaginta: ἐγὼ κύριος ἐτάζων καρδίας καὶ δοκιμάζων νεφροὺς τοῦ δοῦναι ἑκάστῳ κατὰ τὰς ὁδοὺς αὐτοῦ. O hebraico tem כְּלָיוֹת, rins, que a ARA traduz por pensamentos em Jeremias e por mente no Salmo 7.9.

187. 1 Reis 8.39.

188. João 5.22.

189. Atos 17.31.

190. Apocalipse 22.12.

191. Mateus 24.13.

192. Apocalipse 19.15.

193. Talmude Babilônico, Sukkah 52a: “os sábios ensinaram: ao Messias, filho de Davi, que há de se revelar logo, nos nossos dias, o Santo, bendito seja, diz: pede-me qualquer coisa, e eu te darei”, e cita o Salmo 2.7-8. Compilação dos séculos III a VI.

194. 2 Timóteo 2.12.

195. Daniel 7.27.

196. Apocalipse 5.10.

197. Apocalipse 22.16.

198. 2 Pedro 1.19.

199. Salmo 2.9: תְּרֹעֵם בְּשֵׁבֶט בַּרְזֶל; Números 24.17: דָּרַךְ כּוֹכָב מִיַּעֲקֹב וְקָם שֵׁבֶט מִיִּשְׂרָאֵל. A gezerá shavá está entre as sete regras de interpretação que, segundo a Tosefta, Sanhedrin 7, Hillel expôs diante dos anciãos de Betera, na geração anterior a Jesus.

200. Isaías 14.13.

201. Mateus 24.9: παραδώσουσιν ὑμᾶς εἰς θλῖψιν… διὰ τὸ ὄνομά μου (Apocalipse 2.3, 9 e 10); 24.10: σκανδαλισθήσονται (2.14, σκάνδαλον); 24.11: ψευδοπροφῆται… πλανήσουσιν (2.20, πλανᾷ); 24.12: ψυγήσεται ἡ ἀγάπη (2.4); 24.13: ὁ δὲ ὑπομείνας εἰς τέλος (2.2, 3 e 19, ὑπομονή; 2.26, ἄχρι τέλους).

202. Lucas 21.19.

203. Apocalipse 12.10.

204. Apocalipse 12.9.

205. Efésios 4.15.

Citar este artigo: Prof. Philippe Ávila. “Estudo 02 (Apocalipse 2.1–29) · Quando Cristo revela o pecado oculto nas igrejas.” Bereano, set. 2026.© Prof. Philippe Ávila. Conteúdo protegido por direitos autorais. A reprodução é permitida apenas de forma parcial, sempre com citação do autor e da fonte (bereano.com).

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