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Estudo 01 (Apocalipse 1.1–20) · Jesus tem as chaves do inferno? Como interpretar o livro do Apocalipse?

Como interpretar o Apocalipse, a partir do capítulo 1: quem escreveu o livro, o “dia do Senhor”, os sete Espíritos e as chaves da morte e do inferno. Primeiro estudo da série sobre o Apocalipse: como o livro pede para ser lido, por que ele fecha o que Gênesis abriu, a visão do Filho do Homem em Patmos traço por traço, e a regra de leitura que o próprio capítulo entrega.

Por Prof. Philippe Ávila·Apocalipse 1.1–20·80 min de leitura·setembro de 2026
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Xilogravura em preto e branco: um homem de barba longa, com raios em volta da cabeça, está sentado sobre um arco no meio das nuvens; ergue a mão direita segurando sete estrelas, uma espada sai da sua boca e há um livro aberto no seu colo; aos pés dele, um homem de manto se ajoelha de mãos postas, e sete candelabros altos com velas acesas os cercam, três de cada lado e um à frente
Albrecht Dürer gravou esta cena em 1498, na série sobre o Apocalipse, e seguiu o versículo 16 ao pé da letra: as sete estrelas na mão direita, a espada saindo da boca, o rosto irradiando luz e sete candeeiros em volta. João está aos pés dele, e é esse o capítulo inteiro numa imagem. Repare no que Dürer não fez: não pôs uma besta, uma data ou um cataclismo. O livro do fim abre com um rosto, e o próprio versículo 20 explica o que as estrelas e os candeeiros são.
Albrecht Dürer gravou esta cena em 1498, na série sobre o Apocalipse, e seguiu o versículo 16 ao pé da letra: as sete estrelas na mão direita, a espada saindo da boca, o rosto irradiando luz e sete candeeiros em volta. João está aos pés dele, e é esse o capítulo inteiro numa imagem. Repare no que Dürer não fez: não pôs uma besta, uma data ou um cataclismo. O livro do fim abre com um rosto, e o próprio versículo 20 explica o que as estrelas e os candeeiros são.Albrecht Dürer · The Metropolitan Museum of Art · CC0 · via Wikimedia Commons
Neste artigo

O Apocalipse é um livro de medo e de datas? A primeira frase diz como ele quer ser lido

Certamente, o Senhor Deus não fará coisa alguma, sem primeiro revelar o seu segredo aos seus servos, os profetas.Amós 3.7

Quem abre o Apocalipse pela primeira vez costuma ir direto ao que assusta: a besta, o número, os selos, as taças. O livro não começa por nada disso. Começa dizendo de onde veio, por quais mãos passou e como deve ser lido. A primeira frase do Apocalipse retoma, no grego, o versículo do profeta Amós que abre este estudo: Deus não faz coisa alguma sem revelar o seu segredo aos seus servos, os profetas. O verbo de Amós, na tradução grega que os primeiros cristãos liam, é o mesmo que dá nome ao livro: apocalipse, que em português quer dizer revelação.

O Apocalipse nunca cita o Antigo Testamento com fórmula de citação. Não há um só “como está escrito” nas suas páginas. E, no entanto, quase não há parágrafo que não esteja costurado com palavras de Moisés, dos Salmos e dos profetas. João escreve para gente que conhecia essas palavras de ouvido, e cada imagem que ele usa já chegava à igreja carregada de sentido.

Por isso a leitura tem uma ordem, e ela vai governar esta série inteira. As chaves de interpretação do Apocalipse estão, em primeiro lugar, no próprio livro. Ele interpreta os próprios símbolos, marca as próprias divisões, repete as próprias fórmulas, e quem lê com atenção vai achando regras dentro do texto. Em segundo lugar, estão na Bíblia como um todo: em Gênesis, nos Salmos, em Daniel, em Ezequiel, em Zacarias, em Amós, no sermão que Jesus fez no monte das Oliveiras e que Mateus 24, Marcos 13 e Lucas 21 registram, nas cartas de Paulo aos tessalonicenses, nas cartas de João. O Apocalipse é o último livro da Bíblia e foi escrito para quem conhecia os outros. Ler o Apocalipse é juntar as peças.

Este primeiro estudo expõe o capítulo 1 inteiro, que é a porta do livro, na ordem do texto: o que o livro diz de si mesmo nos três primeiros versículos; a saudação, com forma de carta de Paulo; a primeira profecia, no versículo 7, que junta Daniel e Zacarias como Jesus os juntou no monte das Oliveiras; o exílio em Patmos e a visão do Filho do Homem, traço por traço; e os dois últimos versículos, onde o próprio livro entrega a primeira chave de leitura.

As questões disputadas serão enfrentadas no seu lugar, com as leituras expostas pelo que têm de melhor: quem é o João que escreve, e em que ano. O que quer dizer “em breve” num livro que já tem dezenove séculos. Quem são os sete Espíritos diante do trono. Quem fala no versículo 8, e o que quer dizer, na boca de Jesus, o título “o primeiro e o último”. Se o dia do Senhor é o domingo. E quem são os anjos das sete igrejas. Onde o texto não decide, eu vou dizer que ele não decide.

Três coisas este estudo não é. Não é um calendário: nenhuma data vai ser calculada aqui, e o próprio Jesus disse que “a respeito daquele dia ou da hora ninguém sabe”1. Não é um jornal decifrado: o Apocalipse não foi escrito em código para ser aberto com a manchete da semana, e toda geração que tentou isso se enganou. E não é um estudo para dar medo. O capítulo 1 termina com um homem caído no chão, uma mão direita pousada sobre ele e uma ordem de duas palavras: não temas2.

Gênesis abre, o Apocalipse fecha: o rio, a árvore da vida e a maldição que acaba

A segunda chave vem da Bíblia inteira, e é a mais ampla de todas. O Apocalipse termina fechando, uma por uma, as portas que Gênesis abriu. Compare:

Do solo fez o Senhor Deus brotar toda sorte de árvores agradáveis à vista e boas para alimento; e também a árvore da vida no meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal. E saía um rio do Éden para regar o jardim e dali se dividia, repartindo-se em quatro braços.Gênesis 2.9–10
Então, me mostrou o rio da água da vida, brilhante como cristal, que sai do trono de Deus e do Cordeiro. No meio da sua praça, de uma e outra margem do rio, está a árvore da vida, que produz doze frutos, dando o seu fruto de mês em mês, e as folhas da árvore são para a cura dos povos. Nunca mais haverá qualquer maldição. Nela, estará o trono de Deus e do Cordeiro. Os seus servos o servirão,Apocalipse 22.1–3

Ponha os dois textos lado a lado. Em Gênesis há um rio que sai do Éden; no Apocalipse, um rio que sai do trono. Em Gênesis, a árvore da vida fica no meio do jardim, e depois do pecado um querubim guarda o caminho até ela; no Apocalipse, a árvore está nas duas margens do rio, e a primeira promessa feita ao vencedor, ainda no capítulo 2, é comer dela. Em Gênesis, Deus diz a Adão: “maldita é a terra por tua causa”3. No Apocalipse: “Nunca mais haverá qualquer maldição”4.

A lista continua. Em Gênesis, a serpente fala no jardim; no Apocalipse, ela é chamada pelo nome, “a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás”5, e é presa e lançada fora. Em Gênesis, a morte entra no mundo; no Apocalipse, “a morte já não existirá”6. Em Gênesis, Deus cria a luz no primeiro dia e o sol no quarto; na cidade do Apocalipse não é preciso sol, “pois a glória de Deus a iluminou, e o Cordeiro é a sua lâmpada”7. E a Bíblia começa com “No princípio”8, e Deus diz no Apocalipse: “Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim”9.

Isso muda o modo de abrir o livro. O Apocalipse não é um apêndice assustador colado no fim da Bíblia. É o último capítulo da mesma história, e quem o lê sem Gênesis lê o fim de um livro sem ter lido o começo. E muda também o que se espera dele. O fim que o livro descreve não é o mundo acabando no vazio. É “novo céu e nova terra”10, com o trono de Deus no meio e a maldição desfeita. O Éden que se perdeu no terceiro capítulo da Bíblia volta no penúltimo.

Uma revelação que Deus deu a Jesus: o Filho recebeu do Pai o que, no ministério, não sabia

Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para mostrar aos seus servos as coisas que em breve devem acontecer e que ele, enviando por intermédio do seu anjo, notificou ao seu servo João,Apocalipse 1.1

A primeira palavra do livro, no grego, é apokálypsis: tirar o véu, descobrir o que estava coberto11. Dela vem o nome que a tradição deu ao livro inteiro. Em português, a palavra acabou virando sinônimo de catástrofe e de fim do mundo. Na Bíblia ela quer dizer outra coisa. Apocalipse é o contrário de esconder.

E de quem é essa revelação? O versículo responde com uma cadeia de mãos. Deus deu a revelação a Jesus Cristo. Jesus Cristo a enviou por meio do seu anjo. O anjo a fez conhecer ao seu servo João. João a escreveu para os servos de Deus, que são as igrejas. No fim do livro, a cadeia é confirmada da outra ponta: “Eu, Jesus, enviei o meu anjo para vos testificar estas coisas às igrejas”12.

A revelação vem de Jesus, e o próprio versículo diz que ele a recebeu para mostrar. Quando Pedro exorta os crentes da Ásia, pede que esperem “na graça que vos está sendo trazida na revelação de Jesus Cristo”13. A revelação de Jesus Cristo é a volta dele, o dia em que ele será descoberto diante de todos. O livro que começa com essas palavras é, entre outras coisas, o livro desse dia.

O Filho recebe do Pai a revelação do que há de acontecer. Isso se encaixa com duas frases que ele mesmo disse antes. Na véspera da cruz: “Mas a respeito daquele dia ou da hora ninguém sabe; nem os anjos no céu, nem o Filho, senão o Pai”14. E já ressuscitado, antes de subir: “Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou pela sua exclusiva autoridade”15. O que era do Pai, e estava reservado, agora é dado ao Filho exaltado para ser mostrado aos servos. O Filho, gerado do Pai e dele dependente, não conhecia a hora durante o seu ministério e recebeu a revelação depois de exaltado.

“Em breve” há dois mil anos? A troca que João fez numa frase de Daniel

A expressão “as coisas que em breve devem acontecer” não nasceu com João. Vem de Daniel. No capítulo 2, Nabucodonosor sonhou com uma estátua de quatro metais e com uma pedra cortada sem mão humana, que a despedaçou e cresceu até encher a terra. E Daniel, ao explicar o sonho, repetiu que Deus tinha feito saber ao rei “o que há de ser”16.

mas há um Deus no céu, o qual revela os mistérios, pois fez saber ao rei Nabucodonosor o que há de ser nos últimos dias. O teu sonho e as visões da tua cabeça, quando estavas no teu leito, são estas: Estando tu, ó rei, no teu leito, surgiram-te pensamentos a respeito do que há de ser depois disto. Aquele, pois, que revela mistérios te revelou o que há de ser.Daniel 2.28–29
como viste que do monte foi cortada uma pedra, sem auxílio de mãos, e ela esmiuçou o ferro, o bronze, o barro, a prata e o ouro. O Grande Deus fez saber ao rei o que há de ser futuramente. Certo é o sonho, e fiel, a sua interpretação.Daniel 2.45

Na tradução grega que os judeus da dispersão e os primeiros cristãos liam, essa expressão tem forma fixa: as coisas que devem acontecer. João a toma palavra por palavra17. E faz uma única troca. Onde Daniel dizia “nos últimos dias”, João diz em breve.

A troca diz muito. O que Daniel via no fim do horizonte, João diz que começou. Os últimos dias de Daniel deixaram de ser um ponto distante: são o tempo em que a igreja vive. É o que Hebreus diz na sua primeira frase, que Deus “nestes últimos dias, nos falou pelo Filho”18, e o que João escreve na primeira carta: “Filhinhos, já é a última hora”19.

Resta a pergunta que divide as quatro leituras: quanto tempo cabe dentro de “em breve”? O texto não mede o prazo. O que ele afirma é que o fim anunciado a Daniel começou, e que a revelação foi dada para mostrar, não para esconder.

E a pedra de Daniel 2 merece uma última palavra, porque o livro inteiro vai girar em torno dela. É uma pedra cortada “sem auxílio de mãos”20, que não se mistura com os metais, que os esmiúça e que cresce até ocupar tudo. O reino de Deus, em Daniel, não é construído pelos impérios nem negociado com eles. Ele vem de fora e toma o lugar deles. O Apocalipse vai contar essa mesma história com outras imagens, e no capítulo 11, quando soa a sétima trombeta, ela cabe numa frase: “O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos”21.

“Notificou” quer dizer “mostrou por sinais”: a primeira regra que o livro dá sobre si mesmo

O versículo 1 termina dizendo que Jesus, enviando por intermédio do seu anjo, notificou ao seu servo João. O verbo traduzido por notificou é da mesma família da palavra sinal. Quer dizer deu a conhecer por sinais22. E João usa esse verbo sempre do mesmo jeito: para uma palavra que aponta para alguma coisa de modo figurado.

O evangelho dele mostra o uso. Jesus tinha dito: “E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo”23. E o evangelista explica, com o mesmo verbo:

Isto dizia, significando de que gênero de morte estava para morrer.João 12.33

O “levantado da terra” não descrevia a cruz com todas as letras. Era uma imagem que apontava para ela, e quem a entendesse ao pé da letra entenderia errado. O Apocalipse começa, então, avisando o leitor: o que vem aí será dito por sinais. É a primeira regra que o livro dá sobre si mesmo. Não quer dizer que nada seja literal. A volta de Cristo é literal, o trono é real, a ressurreição acontece. Quer dizer que as imagens do livro são imagens, e que a pergunta certa diante de uma besta de sete cabeças não é como ela respira, mas o que ela significa. E o livro, como se verá no fim do capítulo, costuma responder essa pergunta ele mesmo.

O anjo intermediário também vem do Antigo Testamento, e de um profeta em particular. Zacarias vê cavalos, chifres, um candelabro, e a cada visão pergunta ao anjo o que aquilo quer dizer:

Então, perguntei: meu senhor, quem são estes? Respondeu-me o anjo que falava comigo: Eu te mostrarei quem são eles.Zacarias 1.9

O Apocalipse repete o mecanismo. Diante da mulher montada na besta, o anjo diz a João: “Dir-te-ei o mistério da mulher”24. E o anjo não é para ser adorado. Duas vezes João cai aos pés dele, e duas vezes ouve a mesma coisa: “Vê, não faças isso; eu sou conservo teu, dos teus irmãos, os profetas, e dos que guardam as palavras deste livro. Adora a Deus.”25 O mensageiro serve. A revelação não é dele.

Quem escreveu o Apocalipse? O apóstolo João, e a dúvida que nasceu em Alexandria

O autor diz o próprio nome quatro vezes: nos versículos 1, 4 e 9 deste capítulo e em 22.8. Nunca se apresenta como apóstolo. Chama-se servo, irmão, companheiro. E diz que o seu papel foi atestar o que viu. Qual João é esse? A pergunta tem resposta antiga, e tem contestação antiga, e as duas merecem ser ouvidas.

o qual atestou a palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo, quanto a tudo o que viu.Apocalipse 1.2

A resposta mais antiga é a do apóstolo, filho de Zebedeu. Justino, escrevendo em meados do século II, diz com todas as letras que o livro foi dado a “João, um dos apóstolos de Cristo”26. Irineu, uma geração depois, cita a visão deste capítulo como palavra de “João, o discípulo do Senhor”27, e Irineu tinha ouvido Policarpo, que tinha convivido com João28. Essa é a corrente mais antiga que existe.

A contestação de que poderia não ser João, o apóstolo, veio de Alexandria, por volta do ano 250. Dionísio, bispo da cidade, aceitava o livro como inspirado e o autor como João, mas duvidava de que fosse o apóstolo. O argumento dele era de estilo: o grego do evangelho e das cartas é correto e fluente, e o do Apocalipse é cheio de construções estranhas29. E Eusébio, no século IV, acrescentou um dado: Papias cita dois Joões, o apóstolo e um “presbítero João”, e em Éfeso havia dois túmulos com esse nome. Para Eusébio, o segundo pode ter sido o autor30.

Plataforma quadrada de lajes de mármore branco ao ar livre, com uma coluna em cada canto, duas com caneluras em espiral; no chão, na frente, uma placa de pedra com a inscrição “St. Jean in Mezari, The Tomb of St John”; ao fundo, degraus semicirculares de tijolo em ruínas e morros secos sob céu azul
O lugar que a tradição aponta como o túmulo de João, dentro das ruínas da basílica que o imperador Justiniano mandou erguer em Éfeso, hoje Selçuk, no século VI. A basílica foi construída sobre uma memória muito mais antiga, e é dela que fala Eusébio quando diz que em Éfeso havia dois túmulos com o nome de João. A pedra não resolve quem escreveu o Apocalipse; mostra que a igreja da Ásia guardou o nome de João como coisa sua.
O lugar que a tradição aponta como o túmulo de João, dentro das ruínas da basílica que o imperador Justiniano mandou erguer em Éfeso, hoje Selçuk, no século VI. A basílica foi construída sobre uma memória muito mais antiga, e é dela que fala Eusébio quando diz que em Éfeso havia dois túmulos com o nome de João. A pedra não resolve quem escreveu o Apocalipse; mostra que a igreja da Ásia guardou o nome de João como coisa sua.Autor não identificado (Wikipédia em inglês) · Domínio público · via Wikimedia Commons

Contudo, filio-me à posição de que se trata de João, o apóstolo, e explico. De fato, há sinais de parentesco entre o evangelho, as cartas e o Apocalipse que nenhum outro livro do Novo Testamento tem. Só esses três escritos chamam Jesus de “o Verbo”: o evangelho, a primeira carta de João e o Apocalipse, que diz que “o seu nome se chama o Verbo de Deus”31. Os três giram em torno de testemunhar o que se viu: “Aquele que isto viu testificou”32, diz o evangelho; “o que temos visto e ouvido anunciamos”33, diz a carta; quanto a tudo o que viu, diz o Apocalipse34. E Zacarias 12.10 só é citado duas vezes no Novo Testamento: em João 19.37 e em Apocalipse 1.7, e as duas vezes com a mesma palavra, traspassaram, que segue o hebraico e não a tradução grega que todos liam35.

Fico com a atribuição mais antiga. Mas registro que ninguém precisa decidir essa questão para ler o livro. O Apocalipse não se apoia no título de quem escreveu. Apoia-se no fato de ele ter visto.

Nero ou Domiciano: a data do livro decide se ele fala da queda de Jerusalém

A segunda pergunta de fundo é quando o livro foi escrito, e ela é muito relevante para entendê-lo. Há duas datas em disputa, e a diferença entre elas é de vinte e cinco anos e de um acontecimento: a destruição de Jerusalém no ano 70. Ou seja, se essa revelação aconteceu antes ou depois da destruição do templo.

A data mais atestada é o fim do reinado do imperador Domiciano, por volta do ano 95. Irineu a dá expressamente, dizendo que a visão foi vista “perto do fim do reinado de Domiciano”, e a tradição posterior repete que João foi desterrado em Patmos nessa perseguição e voltou a Éfeso depois da morte do imperador36.

A data mais antiga em debate seria por volta de 68, sob Nero ou logo depois dele. O argumento é de que no capítulo 11, João recebe ordem de medir o santuário de Deus, e há quem veja nisso o templo de Jerusalém ainda de pé. No capítulo 17, os sete reis são contados assim: “caíram cinco, um existe, e o outro ainda não chegou”37, e a conta, feita a partir dos primeiros imperadores, pode parar em Nero. Esses argumentos são sérios, e voltarão quando os capítulos 11 e 17 chegarem.

Relevo em mármore: um cortejo de homens carrega um candelabro de sete braços e outros objetos sobre varas, em procissão
O relevo do Arco de Tito, em Roma, com o candelabro do Templo carregado como espólio depois da tomada de Jerusalém, no ano 70. É esta pedra que divide as duas datas do Apocalipse. Se o livro foi escrito antes dela, pode estar anunciando o que o relevo mostra. Se foi escrito sob Domiciano, como diz Irineu, o candelabro já estava em Roma havia vinte e cinco anos quando João viu sete candeeiros de ouro.
O relevo do Arco de Tito, em Roma, com o candelabro do Templo carregado como espólio depois da tomada de Jerusalém, no ano 70. É esta pedra que divide as duas datas do Apocalipse. Se o livro foi escrito antes dela, pode estar anunciando o que o relevo mostra. Se foi escrito sob Domiciano, como diz Irineu, o candelabro já estava em Roma havia vinte e cinco anos quando João viu sete candeeiros de ouro.Steerpike, obra derivada de fotografia do Arco de Tito · Domínio público · via Wikimedia Commons

A data decide muito. Se o livro é anterior ao ano 70, existe um tipo de leitura que pode entender boa parte dele como profecia da queda de Jerusalém. Se é do tempo de Domiciano, a queda de Jerusalém já tinha acontecido quando João escreveu, e o livro não pode estar anunciando o que ficou para trás. Fico com a data de Domiciano, pela testemunha mais antiga e mais próxima, que é Irineu. Como veremos juntos, muitas profecias falam do tempo do fim e não se relacionam com a queda de Jerusalém.

Bem-aventurado o que lê em voz alta: o livro foi escrito para ser ouvido numa reunião

Bem-aventurados aqueles que leem e aqueles que ouvem as palavras da profecia e guardam as coisas nela escritas, pois o tempo está próximo.Apocalipse 1.3

Essa é a primeira de sete bem-aventuranças espalhadas pelo livro38, e ela é dita sobre um gesto que hoje quase ninguém nota: ler em voz alta. No grego, quem lê está no singular e quem ouve está no plural39. É a cena de uma igreja reunida, com um leitor de pé e a congregação escutando. O livro foi escrito para ser ouvido de uma vez, do começo ao fim, numa reunião.

Esse era o costume do povo de Deus desde muito antes. Quando Esdras abriu a Lei diante do povo, ele “leu no livro, diante da praça, que está fronteira à Porta das Águas, desde a alva até ao meio-dia”40, e os levitas “leram no livro, na Lei de Deus, claramente, dando explicações, de maneira que entendessem o que se lia”41. Jesus fez o mesmo na sinagoga de Nazaré: “levantou-se para ler”42, e lhe deram o livro de Isaías. E Paulo mandava que as suas cartas fossem lidas assim. Aos colossenses: “uma vez lida esta epístola perante vós, providenciai por que seja também lida na igreja dos laodicenses”43. Aos tessalonicenses, com juramento: “Conjuro-vos, pelo Senhor, que esta epístola seja lida a todos os irmãos”44. O Apocalipse chega às igrejas pelo mesmo caminho que as cartas de Paulo, e com a mesma exigência.

E a bem-aventurança não termina em ouvir. Termina em guardar as coisas nela escritas. Guardar, na linguagem de João, é obedecer. O livro fecha repetindo a mesma bem-aventurança com o mesmo verbo: “Bem-aventurado aquele que guarda as palavras da profecia deste livro”45. Isso diz muito sobre o gênero do Apocalipse. Ele não foi escrito para ser decifrado por especialistas e admirado pelos demais. Foi escrito para ser obedecido por uma igreja inteira. Quem termina de ouvi-lo com uma tabela de datas na mão e nenhuma mudança na vida perdeu a bem-aventurança que ele oferece na primeira página.

“O tempo está próximo” também era o grito dos enganadores: onde está a diferença

O versículo 3 fecha com uma razão: pois o tempo está próximo. E aqui é preciso juntar uma peça que quase ninguém junta, porque ela está nos evangelhos e muda o modo de ouvir a frase.

Respondeu ele: Vede que não sejais enganados; porque muitos virão em meu nome, dizendo: Sou eu! E também: Chegou a hora! Não os sigais.Lucas 21.8

No grego, o grito dos enganadores de Lucas 21 e a frase de João em Apocalipse 1.3 são a mesma frase, com as mesmas palavras de raiz46. Jesus avisou que viriam homens dizendo que o tempo estava perto, e mandou: “Não os sigais”47. E o Apocalipse diz exatamente isso, que o tempo está perto. A diferença não está nas palavras. Está no que vem depois delas.

Os enganadores usam a proximidade do fim para juntar gente em volta de si mesmos: “Sou eu!”. Jesus usou a mesma proximidade para outra coisa, desde o primeiro dia da pregação: “O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho”48. E os apóstolos fizeram todos igual. Paulo: “Vai alta a noite, e vem chegando o dia. Deixemos, pois, as obras das trevas”49. Tiago: “fortalecei o vosso coração, pois a vinda do Senhor está próxima”50. Pedro: “o fim de todas as coisas está próximo; sede, portanto, criteriosos e sóbrios a bem das vossas orações”51. Nenhum deles marcou data. Todos tiraram da proximidade uma conduta.

E Pedro enfrenta a objeção que qualquer leitor faz dezenove séculos depois: se era perto, por que demora? A resposta dele não é uma conta. É o caráter de Deus: “Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento”52. O tempo que parece atraso é paciência. Quando alguém usa a proximidade da volta de Cristo para vender um calendário ou um líder, está falando a língua de Lucas 21.8. Quando a usa para chamar ao arrependimento e à sobriedade, está falando a língua do Apocalipse.

Por que sete igrejas, se havia outras na Ásia? A carta de uma era lida por todas

João, às sete igrejas que se encontram na Ásia, graça e paz a vós outros, da parte daquele que é, que era e que há de vir, da parte dos sete Espíritos que se acham diante do seu tronoApocalipse 1.4

Em três versículos o livro se apresentou de três maneiras. No versículo 1, é revelação. No versículo 3, é profecia. E agora, no versículo 4, é carta: tem remetente, João, tem destinatário, sete igrejas que se encontram na Ásia, e tem a saudação que qualquer cristão do primeiro século reconhecia de longe, graça e paz. É a saudação de Paulo. Aos romanos: “graça a vós outros e paz, da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo”53. Aos gálatas, com as mesmas palavras54. Todas as cartas de Paulo abrem assim, e o Apocalipse também. Por isso o Apocalipse precisa ser lido como se leem as cartas: como texto enviado a igrejas reais, com problemas reais, que precisavam entendê-lo na primeira leitura. O que não fazia sentido nenhum para Éfeso, Esmirna ou Laodiceia dificilmente é a chave do livro.

E por que sete igrejas? Havia outras na província. Jesus escolhe sete, e o número não é acaso num livro que conta tudo em sete: sete Espíritos, sete candeeiros, sete estrelas, sete selos, sete trombetas, sete taças, sete bem-aventuranças. Sete é o número da inteireza. As sete igrejas são sete comunidades reais e são, ao mesmo tempo, a igreja inteira. O próprio livro confirma: cada uma das sete cartas termina com a mesma ordem, no plural, “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas”55. A carta de uma é lida por todas.

“Que há de vir”, e não “que será”: o nome da sarça com um futuro que chega

Disse Deus a Moisés: Eu Sou o Que Sou. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: Eu Sou me enviou a vós outros.Êxodo 3.14

A graça e a paz vêm, primeiro, “daquele que é, que era e que há de vir”. A frase é uma paráfrase do nome que Deus revelou a Moisés na sarça56. Seria natural esperar “que é, que era e que será”, mas João escreve que há de vir. O futuro de Deus, no Apocalipse, não é apenas continuar existindo: é chegar. E o livro inteiro trabalha com esse detalhe.

Os sete Espíritos diante do trono são sete seres? Zacarias e Isaías respondem

A primeira fonte da graça e paz é “da parte daquele que é, que era e que há de vir”, mas a segunda fonte da graça é a mais misteriosa do capítulo: os sete Espíritos que se acham diante do seu trono.

João, às sete igrejas que se encontram na Ásia, graça e paz a vós outros, da parte daquele que é, que era e que há de vir, da parte dos sete Espíritos que se acham diante do seu tronoApocalipse 1.4

O livro volta a esses sete Espíritos três vezes. Cristo é “aquele que tem os sete Espíritos de Deus”57. Diante do trono “ardem sete tochas de fogo, que são os sete Espíritos de Deus”58. E o Cordeiro tem “sete olhos, que são os sete Espíritos de Deus enviados por toda a terra”59. Para entender a expressão, é preciso ir a Zacarias.

e me perguntou: Que vês? Respondi: olho, e eis um candelabro todo de ouro e um vaso de azeite em cima com as suas sete lâmpadas e sete tubos, um para cada uma das lâmpadas que estão em cima do candelabro. (…) Prosseguiu ele e me disse: Esta é a palavra do Senhor a Zorobabel: Não por força nem por poder, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos. (…) Pois quem despreza o dia dos humildes começos, esse alegrar-se-á vendo o prumo na mão de Zorobabel. Aqueles sete olhos são os olhos do Senhor, que percorrem toda a terra.Zacarias 4.2, 6, 10

Um candelabro com sete lâmpadas, uma palavra sobre o Espírito do Senhor no meio da visão, e sete olhos que percorrem toda a terra. O Apocalipse 5.6 quase copia a última frase de Zacarias60. A imagem de Zacarias é a da presença de Deus que vê tudo e age por toda parte, e o sete é a plenitude dessa presença.

Por trás dessa imagem há um segundo texto, e ele está em Isaías. O profeta vê um rebento sair do tronco de Jessé e o Espírito do Senhor repousar sobre ele, de sete formas:

Do tronco de Jessé sairá um rebento, e das suas raízes, um renovo. Repousará sobre ele o Espírito do Senhor, o Espírito de sabedoria e de entendimento, o Espírito de conselho e de fortaleza, o Espírito de conhecimento e de temor do Senhor.Isaías 11.1–2

No hebraico não há sete espíritos. Há um só Espírito, o do Senhor, descrito por seis qualidades em três pares. Vitorino de Pettau, o primeiro comentarista latino do Apocalipse, por volta do ano 300, já lia os sete Espíritos de Apocalipse 1.4 com Isaías 11.2 nas mãos. A ligação, porém, não depende só da tradição. O próprio Zacarias já tinha posto os sete olhos sobre o Renovo: “eis que eu farei vir o meu servo, o Renovo. [...] sobre esta pedra única estão sete olhos” (Zacarias 3.8,9). E o Renovo de Zacarias é o mesmo rebento de Jessé de Isaías 11.1. No Apocalipse 5.5,6 as duas imagens se encontram na mesma cena: Cristo é “a Raiz de Davi”, título que vem de Isaías 11.1 e 11.10, e logo em seguida aparece como o Cordeiro que tem “sete olhos, que são os sete Espíritos de Deus”. A espada que sai da sua boca em Apocalipse 19.15 também repete Isaías 11.4, onde o Messias “ferirá a terra com a vara de sua boca”.

Isaías ainda confirma a ordem que este capítulo vem mostrando: o Espírito é de Deus e repousa sobre o Messias, que o recebe antes de enviá-lo. Deus diz do seu servo: “pus sobre ele o meu Espírito” (Isaías 42.1). Jesus abre o ministério em Nazaré lendo Isaías 61.1: “O Espírito do Senhor está sobre mim” (Lucas 4.18). E Pedro resume na casa de Cornélio: “Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder” (Atos 10.38). As sete qualidades de Isaías descrevem a plenitude do Espírito de Deus pousada sobre o Rei da casa de Davi, e não sete seres ao lado do trono.

Há três leituras antigas. A primeira vê nos sete Espíritos o Espírito Santo na sua plenitude, e é a leitura da maioria dos intérpretes. A segunda vê sete anjos principais, e tem a seu favor o próprio livro, que fala dos “sete anjos que se acham em pé diante de Deus”61. A terceira fica com a imagem de Zacarias: é a presença de Deus que alcança toda a terra, descrita em sete para dizer que é completa.

A leitura deste estudo em que creio é a de que o Espírito é a presença e o poder do próprio Deus, e o Apocalipse, com os sete olhos de Zacarias, descreve essa presença em toda a sua plenitude. E repare no capítulo 5: os sete Espíritos são de Deus, e o Cordeiro os tem e os envia. É o que Pedro disse no Pentecostes: Jesus, “tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vedes e ouvis”62. O Espírito é sempre de alguém, e Cristo o derrama como quem recebeu. Até aqui vai o texto.

Testemunha fiel, primogênito dos mortos, soberano dos reis: três títulos de um só salmo

e da parte de Jesus Cristo, a Fiel Testemunha, o Primogênito dos mortos e o Soberano dos reis da terra. Àquele que nos ama, e, pelo seu sangue, nos libertou dos nossos pecados,Apocalipse 1.5

A terceira fonte da graça é Jesus Cristo, e ele vem com três títulos. Os três saem de um único salmo, o 89, que canta a aliança de Deus com Davi.

Ele me invocará, dizendo: Tu és meu pai, meu Deus e a rocha da minha salvação. Fá-lo-ei, por isso, meu primogênito, o mais elevado entre os reis da terra. (…) Ele será estabelecido para sempre como a lua e fiel como a testemunha no espaço.Salmos 89.26–27, 37

Primogênito, o mais elevado entre os reis da terra, testemunha fiel: na Bíblia grega os três termos estão ali, quase na mesma forma em que João os escreve63.

A Fiel Testemunha é Jesus diante do mundo que o julgou. Paulo lembra a Timóteo que Cristo Jesus, “diante de Pôncio Pilatos, fez a boa confissão”64.

O Primogênito dos mortos não quer dizer o primeiro a ser criado. Quer dizer o primeiro a sair da morte para a vida que não morre mais. Paulo diz o mesmo com outras palavras: “o primogênito de entre os mortos”65 aos colossenses, e “as primícias dos que dormem”66 aos coríntios. E o Salmo 89 põe o título na boca de Deus: “Fá-lo-ei, por isso, meu primogênito”67. É posição dada, e dada depois da ressurreição.

O Soberano dos reis da terra é o título mais provocador para quem vivia sob Domiciano. No Salmo 2, “os reis da terra se levantam”68 contra o Senhor e o seu Ungido, e no Apocalipse os reis da terra estarão quase sempre do lado errado. Mas antes de qualquer um deles aparecer, o livro já disse quem manda neles. Daniel chegou a ouvir isso da boca de Nabucodonosor, que chamou o Deus de Daniel de “Senhor dos reis”69. No capítulo 17, o Cordeiro vence porque “é o Senhor dos senhores e o Rei dos reis”70.

“Nos libertou” ou “nos lavou”? A letra grega que separa a Atualizada da Corrigida

O versículo 5 vira doxologia no meio da frase: “Àquele que nos ama, e, pelo seu sangue, nos libertou dos nossos pecados”. E aqui mora uma das variantes textuais mais conhecidas do Novo Testamento. No grego, “libertou” e “lavou” se escrevem quase igual; a diferença é uma letra. Os manuscritos mais antigos dizem libertou, e a tradução Revista Almeida e Atualizada segue esses. A maioria dos manuscritos medievais diz lavou, e a tradução da Revista Almeida e Corrigida segue esses71.

As duas ideias estão no livro. A de lavar aparece no capítulo 7, na multidão que “lavaram suas vestiduras e as alvejaram no sangue do Cordeiro”72. A de libertar é a do êxodo, e o versículo seguinte confirma que é essa a moldura: os libertos viram reino e sacerdotes, como Israel ao sair do Egito. Seja qual for a letra original, a doutrina não muda.

O outro detalhe está no tempo do verbo. O texto que a Almeida Revista e Atualizada segue diz nos ama, no presente, e nos libertou, no passado. A libertação foi feita uma vez. O amor continua. Paulo junta os dois do mesmo jeito. Ao falar da cruz, usa o passado: o Filho de Deus, “que me amou e a si mesmo se entregou por mim”73. Ao falar da vida presente sob pressão, usa o amor que não passa:

Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? (…) Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou.Romanos 8.35, 37

As sete igrejas iam ler este livro debaixo de perseguição, e a primeira coisa que ouviram sobre Jesus depois dos títulos foi que ele as ama agora.

Jesus tem um Deus: “reino e sacerdotes para o seu Deus e Pai”

e nos constituiu reino, sacerdotes para o seu Deus e Pai, a ele a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém!Apocalipse 1.6
Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então, sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos; porque toda a terra é minha; vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa. São estas as palavras que falarás aos filhos de Israel.Êxodo 19.5–6

No Sinai, Deus prometeu a Israel que, se guardasse a aliança, seria “reino de sacerdotes e nação santa”74. João diz que Jesus fez isso acontecer pelo seu sangue, e com gente de sete cidades gregas da Ásia, judeus e gentios na mesma igreja. Pedro diz o mesmo aos crentes da mesma região: “Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus”75. E o Apocalipse vai repetir a frase duas vezes, acrescentando o futuro: no capítulo 5, “os constituíste reino e sacerdotes; e reinarão sobre a terra”76; no 20, “serão sacerdotes de Deus e de Cristo e reinarão com ele os mil anos”77. O reino já foi dado e ainda vai ser exercido78.

E o versículo diz para quem são esses sacerdotes: para o seu Deus e Pai. O Deus de quem? De Jesus. Jesus tem um Deus. Ele disse isso a Maria Madalena na manhã da ressurreição: “Subo para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus”79. Paulo escreve “o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo”80 e “o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo”81. E no capítulo 3 do Apocalipse, já glorificado, Jesus diz “meu Deus” quatro vezes num só versículo82.

A glória final fecha dirigida a Jesus: “a ele a glória e o domínio pelos séculos dos séculos”83. O Novo Testamento dá glória ao Filho sem constrangimento, e o próprio Apocalipse mostra a criação inteira dizendo: “Àquele que está sentado no trono e ao Cordeiro, seja o louvor, e a honra, e a glória, e o domínio”84. Paulo diz para onde essa glória corre: toda língua confessa que Jesus Cristo é Senhor “para glória de Deus Pai”85.

“Vem com as nuvens”: Jesus já tinha juntado Daniel e Zacarias no monte das Oliveiras

Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá, até quantos o traspassaram. E todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele. Certamente. Amém!Apocalipse 1.7

A primeira profecia do livro tem duas frases, e cada uma vem de um profeta. A primeira, vem com as nuvens, é Daniel 7. A segunda, todo olho o verá, até quantos o traspassaram, toma as palavras de Zacarias 12, mas as leva para outro momento.

Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha com as nuvens do céu um como o Filho do Homem, e dirigiu-se ao Ancião de Dias, e o fizeram chegar até ele. Foi-lhe dado domínio, e glória, e o reino, para que os povos, nações e homens de todas as línguas o servissem; o seu domínio é domínio eterno, que não passará, e o seu reino jamais será destruído.Daniel 7.13–14

O que torna o versículo decisivo para quem quer aprender a ler o Apocalipse é que João não foi o primeiro a juntar essas duas peças. Jesus já as tinha juntado, no sermão do monte das Oliveiras:

Então, aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem; todos os povos da terra se lamentarão e verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder e muita glória.Mateus 24.30

É o mesmo par de textos, só que em ordem inversa, e com as mesmas palavras gregas86. João está repetindo o ensino do Mestre. E Jesus usou Daniel 7 de novo diante do sumo sacerdote, na noite em que foi condenado: “vereis o Filho do Homem assentado à direita do Todo-Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu”87. Marcos e Lucas registram a mesma promessa88, e Lucas acrescenta a ordem que a acompanha: “erguei a vossa cabeça; porque a vossa redenção se aproxima”89.

As nuvens não são decoração. No Antigo Testamento, a nuvem é o sinal da presença de Deus, e no Sinai havia “uma espessa nuvem sobre o monte”90. Jesus subiu numa nuvem, e os anjos disseram aos discípulos que ele “virá do modo como o vistes subir”91. Paulo escreveu aos tessalonicenses que os vivos serão arrebatados com os mortos ressuscitados “entre nuvens, para o encontro do Senhor nos ares”92. O Apocalipse abre a sua primeira profecia no mesmo ponto: ele vem, e todo olho o verá.

Até Caifás o verá: “todo olho” inclui os que estão debaixo da terra

Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai.Filipenses 2.9–11

João é o único escritor do Novo Testamento que cita o versículo sobre os que o traspassaram, e cita duas vezes. A primeira, no evangelho, ao pé da cruz, depois da lança do soldado: “Eles verão aquele a quem traspassaram”93. A segunda, aqui. E nas duas vezes ele usa a palavra traspassar, que segue o hebraico, e não a palavra da tradução grega que todos liam, que dizia “insultaram”.

Em Apocalipse 1.7, o verbo que governa a frase é ver. “Todo olho o verá”, e João faz questão de nomear os primeiros da fila: “até quantos o traspassaram”. Todos o verão vindo, ainda que estejam no hades. Até mesmo o sumo sacerdote que o condenou ouviu isso da boca do próprio réu: “vereis o Filho do Homem assentado à direita do Todo-Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu”94. Caifás estará morto há muitos séculos naquele dia, e ainda assim verá.

Sim, nem os mortos ficam de fora. Jesus disse que “vem a hora em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão”95, uns para a ressurreição da vida, outros para a ressurreição do juízo. Daniel já tinha visto os que dormem no pó da terra se levantarem, “uns para a vida eterna, e outros para vergonha e horror eterno”96. E no fim do livro João vê a morte e o além entregarem os mortos que neles havia, para serem julgados diante do trono97. O Hades não esconde ninguém daquele que tem as suas chaves98.

E o versículo fecha com duas palavras de confirmação, uma grega e outra hebraica: Certamente. Amém! A igreja que falava grego e a que falava hebraico dizem sim à mesma vinda.

Quem diz “Eu sou o Alfa e o Ômega” no versículo 8: Deus ou Jesus?

Eu sou o Alfa e Ômega, diz o Senhor Deus, aquele que é, que era e que há de vir, o Todo-Poderoso.Apocalipse 1.8

Quem fala aqui? O versículo responde: diz o Senhor Deus, e o identifica com as mesmas palavras do versículo 4, “aquele que é, que era e que há de vir”. No versículo 4, esse era o primeiro da lista, distinto de Jesus Cristo, que veio depois. É Deus, o Pai, quem fala. E é uma das raras vezes em que ele fala diretamente no livro; a mais clara, depois desta, está no capítulo 21, com Deus sentado no trono: “Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim”99.

Alfa e Ômega são a primeira e a última letra do alfabeto grego. Quem é o alfa e o ômega é o começo e o fim de tudo, e tudo o que fica no meio. Deus assina a história do começo ao fim.

No último capítulo, o mesmo título aparece na boca de Jesus: “Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim”100. E isso levanta a pergunta que este estudo prometeu enfrentar. A leitura trinitária conclui que, se o título de Deus é dito pelo Filho, o Filho partilha a identidade do único Deus. A leitura deste estudo nota a ordem em que o livro apresenta as coisas. O título aparece primeiro na boca do Senhor Deus, em 1.8 e em 21.6, e só no fim na de Jesus, que no mesmo livro chama o Pai de “meu Deus”101 e diz: “assim como também eu recebi de meu Pai”102. Paulo afirma que Deus deu ao Filho “o nome que está acima de todo nome”103. Título dado é título partilhado sem que se confundam o que dá e o que recebe.

“Todo-Poderoso” nove vezes no Apocalipse, e nenhuma dita do Cordeiro

Eu sou o Alfa e Ômega, diz o Senhor Deus, aquele que é, que era e que há de vir, o Todo-Poderoso.Apocalipse 1.8

O último título do versículo 8 é o Todo-Poderoso. A palavra grega aparece nove vezes no Apocalipse e uma única vez no resto do Novo Testamento, quando Paulo cita os profetas aos coríntios: “diz o Senhor Todo-Poderoso”104. Na Bíblia grega, é a tradução habitual de Senhor dos Exércitos, o nome de Deus como comandante dos exércitos do céu. Zacarias o usa sem parar, e Amós fecha com ele os seus hinos.

Porque é ele quem forma os montes, e cria o vento, e declara ao homem qual é o seu pensamento; e faz da manhã trevas e pisa os altos da terra; Senhor, Deus dos Exércitos, é o seu nome.Amós 4.13

E aqui Amós reaparece. O versículo 8 começa com “diz o Senhor Deus” e termina com o Todo-Poderoso, e essa combinação, na Bíblia grega, é o fim exato de Amós 3.13 e o nome de Amós 4.13 e 5.8105. Para igrejas que ouviam Domiciano ser chamado de senhor e deus, a frase dizia quem comanda os exércitos de verdade.

No Apocalipse, o título Todo-Poderoso é sempre de Deus, e nunca é dito do Cordeiro. No capítulo 19, o cavaleiro chamado Verbo de Deus “pisa o lagar do vinho do furor da ira do Deus Todo-Poderoso”106. No capítulo 21, a cidade não tem santuário, “porque o seu santuário é o Senhor, o Deus Todo-Poderoso, e o Cordeiro”107. Os dois estão juntos e não se confundem.

O reino no meio da tribulação: três palavras que o grego amarra num artigo só

João não se apresenta como autoridade acima dos leitores. Apresenta-se como irmão vosso e companheiro. E diz em que é companheiro, com três palavras que, no grego, estão debaixo de um único artigo, como se fossem uma coisa só108: na tribulação, no reino e na perseverança.

Eu, João, irmão vosso e companheiro na tribulação, no reino e na perseverança, em Jesus, achei-me na ilha chamada Patmos, por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus.Apocalipse 1.9

A ordem espanta. O reino está entre a tribulação e a perseverança, e não depois delas. O cristão não espera o fim da tribulação para entrar no reino; ele já está no reino enquanto atravessa a tribulação, e é a perseverança que mantém as duas coisas juntas. Paulo ensinou exatamente isso às igrejas que acabara de fundar na Galácia: “através de muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus”109. E escreveu a Timóteo: “se perseveramos, também com ele reinaremos”110. Aos tessalonicenses, perseguidos, disse que a constância deles era “sinal evidente do reto juízo de Deus, para que sejais considerados dignos do reino de Deus, pelo qual, com efeito, estais sofrendo”111.

A palavra tribulação vai crescer no livro. Jesus a usou no sermão do monte das Oliveiras: “sereis atribulados, e vos matarão”112, e falou de uma “grande tribulação”113 no fim. O Apocalipse vai mostrar, no capítulo 7, uma multidão que “vêm da grande tribulação”114. Mas no capítulo 1 ela é a condição normal de quem segue a Jesus. Quem ensina que a fé verdadeira livra o crente de toda aflição não leu o versículo 9.

Patmos, uma ilha de pedra no mar Egeu: João não foi pregar lá, foi mandado

Patmos é uma ilha pequena e pedregosa do mar Egeu, diante da costa da Ásia, a sudoeste de Éfeso. João diz que estava lá “por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus”. A frase admite duas leituras: ele teria ido à ilha para pregar a palavra, ou teria sido mandado para lá por ter pregado.

Vista do alto de uma baía de água azul-escura cercada por casas brancas baixas, com morros secos e pedregosos ao fundo sob céu muito azul; galhos de árvore emolduram a foto no alto e à direita
Patmos, a ilha do mar Egeu diante da costa da Ásia, com o porto de Escala ao fundo. São pouco mais de trinta quilômetros quadrados de pedra e morro, a um dia de barco de Éfeso. Roma usava ilhas assim como destino de desterro, e é essa a leitura que o próprio livro confirma: João não estava ali de passagem, estava ali por causa do que pregava.
Patmos, a ilha do mar Egeu diante da costa da Ásia, com o porto de Escala ao fundo. São pouco mais de trinta quilômetros quadrados de pedra e morro, a um dia de barco de Éfeso. Roma usava ilhas assim como destino de desterro, e é essa a leitura que o próprio livro confirma: João não estava ali de passagem, estava ali por causa do que pregava.Gerd Eichmann · CC BY-SA 4.0 · via Wikimedia Commons

O próprio livro decide, e decide pelo uso que faz da mesma expressão. No quinto selo, João vê debaixo do altar “as almas daqueles que tinham sido mortos por causa da palavra de Deus e por causa do testemunho que sustentavam”115. No capítulo 20, vê “as almas dos decapitados por causa do testemunho de Jesus, bem como por causa da palavra de Deus”116. Nas duas vezes, a expressão descreve quem sofreu por causa da fé. João está em Patmos pela mesma razão pela qual os mártires estão debaixo do altar. Só que ele ainda está vivo. É o livro interpretando a si mesmo, e a tradição antiga confirma: Eusébio registra que João foi condenado a viver em Patmos “por causa do seu testemunho da palavra divina”, repetindo quase as palavras do versículo.

O “dia do Senhor” é o sábado ou o domingo? E se for o dia de trevas de Amós 5?

Achei-me em espírito, no dia do Senhor, e ouvi, por detrás de mim, grande voz, como de trombeta,Apocalipse 1.10

A expressão no dia do Senhor já foi lida de três maneiras.

A primeira é o sábado. Na Escritura, o sábado é o dia que Deus chama de seu: “o sétimo dia é o sábado do Senhor, teu Deus”117, e Isaías fala do “meu santo dia”118. O próprio Jesus disse que “o Filho do Homem é senhor também do sábado”119. Se o dia pertence ao Senhor, o sábado seria o candidato natural. A dificuldade é que o sábado já tinha nome. Em todo o Novo Testamento ele se chama sempre sábbaton, a forma grega do hebraico shabat, e o próprio João usa essa palavra no evangelho mais de dez vezes, ao contar as curas que Jesus fez nesse dia120. Aqui ele não a usa. Se quisesse dizer sábado, tinha a palavra à mão, e preferiu outra.

A segunda é o domingo. O grego usa aqui um adjetivo, kyriakḗ, “do Senhor”, e essa não é a forma com que os profetas falavam do Dia do Senhor121. Esse adjetivo só aparece mais uma vez no Novo Testamento, e é Paulo que o usa para a ceia: “não é a ceia do Senhor que comeis”122. A ceia do Senhor e o dia do Senhor: as duas coisas que pertenciam ao Senhor no culto da igreja. E os escritos cristãos mais próximos de João, do começo do século II, usam a mesma palavra para o primeiro dia da semana, o dia em que a igreja se reunia para partir o pão por causa da ressurreição123. Inácio, bispo de Antioquia, escrevendo por volta de 110 a igrejas da mesma Ásia, põe as duas coisas lado a lado: os que viviam na antiga ordem passaram a viver “não mais guardando o sábado, mas vivendo segundo o dia do Senhor”124. E o primeiro dia já era o dia da igreja antes disso: em Trôade, ela se reuniu “no primeiro dia da semana” para partir o pão125, e Paulo mandou separar a oferta para Jerusalém nesse mesmo dia126. Não sigo isso como norma sobre guardar domingo ou algo parecido, apenas um fato de que nesse dia a igreja estava se reunindo.

A terceira é o Dia do Senhor dos profetas, o dia do juízo. João teria sido levado, em espírito, para dentro desse dia, e o livro inteiro seria a visão dele. Entre os profetas escritores, Amós está entre os primeiros a usá-la, e usa com uma surpresa:

Ai de vós que desejais o Dia do Senhor! Para que desejais vós o Dia do Senhor? É dia de trevas e não de luz. (…) Não será, pois, o Dia do Senhor trevas e não luz? Não será completa escuridão, sem nenhuma claridade?Amós 5.18, 20

O povo desejava aquele dia, achando que seria o dia da vitória dele sobre os inimigos. Amós avisa que seria trevas para o próprio povo que o desejava sem se arrepender. Paulo retoma a imagem aos tessalonicenses: “o Dia do Senhor vem como ladrão de noite”127. E as sete cartas do Apocalipse vão dizer a mesma coisa a igrejas que se achavam prontas.

Fico com o domingo, pelo adjetivo, pelo nome que o sábado já tinha e pelas testemunhas do século seguinte, e registro que a outra leitura tem a seu favor o conteúdo do livro inteiro. As duas se tocam de um modo bonito: foi no dia da ressurreição, reunida ou não, que a igreja recebeu a visão do dia em que o ressuscitado vai voltar.

“Achei-me em espírito”: a fórmula que, quatro vezes, muda João de lugar

Achei-me em espírito, diz João. A expressão descreve um estado produzido pelo Espírito de Deus, em que o profeta vê e ouve o que não se vê nem se ouve de outro modo. É um status. É a linguagem de Ezequiel, que ouviu uma voz exatamente como João ouve aqui, por trás:

Fachada de construção caiada de branco, de paredes grossas e irregulares, sobre rocha nua, contra um céu azul intenso; sobre a porta de entrada escura há um mosaico dourado em arco com duas figuras de auréola, uma de pé, de barba, com o braço erguido na direção de uma gruta, e outra sentada dentro dela, escrevendo; acima do muro, uma cruz vermelha
A entrada da Gruta do Apocalipse, em Patmos, que a tradição aponta como o lugar da visão. O mosaico sobre a porta mostra a cena que a tradição conta: João ditando a revelação a um discípulo que escreve. Nada no texto bíblico diz em que ponto da ilha João estava, e a gruta é memória da igreja, não dado da Escritura. O que o texto diz é outra coisa: que a expressão “em espírito” vai tirar João daqui mais três vezes, para o céu, para um deserto e para um monte.
A entrada da Gruta do Apocalipse, em Patmos, que a tradição aponta como o lugar da visão. O mosaico sobre a porta mostra a cena que a tradição conta: João ditando a revelação a um discípulo que escreve. Nada no texto bíblico diz em que ponto da ilha João estava, e a gruta é memória da igreja, não dado da Escritura. O que o texto diz é outra coisa: que a expressão “em espírito” vai tirar João daqui mais três vezes, para o céu, para um deserto e para um monte.Vladimir Boskovic · Domínio público · via Wikimedia Commons
Levantou-me o Espírito, e ouvi por detrás de mim uma voz de grande estrondo, que, levantando-se do seu lugar, dizia: Bendita seja a glória do Senhor.Ezequiel 3.12

E a expressão tem uma função no livro que quase ninguém percebe. Ela aparece quatro vezes, e cada vez muda o lugar onde João está. No capítulo 1, está em Patmos, e vê Cristo entre os candeeiros. No capítulo 4, “Imediatamente, eu me achei em espírito”, e está no céu, diante do trono. No capítulo 17, o anjo o transporta “em espírito, a um deserto”, para ver a grande Babilônia. No capítulo 21, “em espírito, até a uma grande e elevada montanha”, para ver a nova Jerusalém128.

Uma voz como de trombeta: o som do Sinai, o shofar do rei e o som da volta

A voz que João ouve é como de trombeta. Na Bíblia, a trombeta é o som que anuncia Deus descendo. No Sinai, o povo tremeu com o “forte clangor de trombeta”129, e Deus falou. Na volta de Cristo, dizem os evangelhos e Paulo, ela soará de novo: Jesus “enviará os seus anjos, com grande clangor de trombeta”130, e o Senhor “descerá dos céus” quando for “ressoada a trombeta de Deus”131. Aos coríntios, Paulo diz que os mortos ressuscitarão “ao ressoar da última trombeta”132.

Chifre de carneiro polido, longo e curvo, com a boca larga e rugosa numa ponta e a outra ponta afinada e lisa, em tons de cinza, marfim e castanho, fotografado sobre fundo branco
Um shofar, o chifre de carneiro que Israel tocava nas festas e na guerra. É a “trombeta” do Sinai no hebraico de Êxodo 19, e é ele que a oração do ano novo judaico liga à realeza de Deus. Quando João ouve às costas uma voz “como de trombeta”, o som que o leitor judeu tinha no ouvido era este, e o que ele anunciava era um rei chegando.
Um shofar, o chifre de carneiro que Israel tocava nas festas e na guerra. É a “trombeta” do Sinai no hebraico de Êxodo 19, e é ele que a oração do ano novo judaico liga à realeza de Deus. Quando João ouve às costas uma voz “como de trombeta”, o som que o leitor judeu tinha no ouvido era este, e o que ele anunciava era um rei chegando.Zachi Evenor · CC BY 2.0 · via Wikimedia Commons
Ao amanhecer do terceiro dia, houve trovões, e relâmpagos, e uma espessa nuvem sobre o monte, e mui forte clangor de trombeta, de maneira que todo o povo que estava no arraial se estremeceu. (…) E o clangor da trombeta ia aumentando cada vez mais; Moisés falava, e Deus lhe respondia no trovão.Êxodo 19.16, 19

O Apocalipse ligará esta voz à próxima visão. No começo do capítulo 4, João diz que ouviu “a primeira voz que ouvi, como de trombeta ao falar comigo”133, e sobe ao céu. Depois virão as sete trombetas dos capítulos 8 a 11. E na memória judaica o toque do shofar esteve sempre ligado ao reinado de Deus: no ano novo, a oração junta a realeza de Deus, a lembrança que ele tem do seu povo e o som do shofar134. Quando João ouve uma trombeta às suas costas, o som que ele ouve é o de um rei que chega.

Éfeso, Esmirna, Pérgamo: a ordem das sete cidades é a ordem de uma estrada

dizendo: O que vês escreve em livro e manda às sete igrejas: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia.Apocalipse 1.11

A lista não está em ordem alfabética nem de importância. É a ordem de uma estrada. Quem desembarcasse em Éfeso com o livro e quisesse levá-lo às sete igrejas seguiria para o norte, até Esmirna e Pérgamo, desceria para o leste e o sul, por Tiatira e Sardes, e fecharia a volta em Filadélfia e Laodiceia. A lista é o itinerário do portador135.

Mapa antigo em relevo colorido da Ásia Menor, entre o mar Negro no alto e o Mediterrâneo embaixo, com montanhas em tons de marrom e planícies em verde; no canto esquerdo, junto da costa do mar Egeu e das ilhas, estão os nomes das cidades de Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia; no canto inferior esquerdo, o título “Asia Minor, showing positions of the Seven Churches”
A Ásia Menor no atlas de George Adam Smith, de 1915, com as sete igrejas marcadas. Olhe o canto esquerdo, junto do mar Egeu: Éfeso na costa, Esmirna ao norte, Pérgamo mais acima, e então a volta para o interior por Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia. É a ordem exata de Apocalipse 1.11, a de quem sai do porto com o rolo na mão e faz o circuito. Patmos, a ilha de onde a carta partiu, está logo ao largo de Mileto.
A Ásia Menor no atlas de George Adam Smith, de 1915, com as sete igrejas marcadas. Olhe o canto esquerdo, junto do mar Egeu: Éfeso na costa, Esmirna ao norte, Pérgamo mais acima, e então a volta para o interior por Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia. É a ordem exata de Apocalipse 1.11, a de quem sai do porto com o rolo na mão e faz o circuito. Patmos, a ilha de onde a carta partiu, está logo ao largo de Mileto.George Adam Smith (1915) · Domínio público · via Wikimedia Commons

Eram sete cidades concretas, com histórias concretas, e as cartas dos capítulos 2 e 3 vão usá-las. Éfeso, onde Paulo trabalhou “por três anos, noite e dia”136. Tiatira, cidade de Lídia, “vendedora de púrpura”137, a primeira convertida da Europa. Pérgamo, onde estava “o trono de Satanás”138. Sardes e Filadélfia, derrubadas pelo mesmo terremoto no ano 17. Laodiceia, que se reergueu de outro terremoto sem pedir ajuda a Roma, e a quem Cristo dirá que ela se julgava rica139. Cada uma será estudada no seu lugar. Aqui basta o essencial: o Apocalipse foi posto numa estrada romana, de mão em mão, para gente que conhecia de cor as ruas das próprias cidades.

João se vira para ver uma voz e vê candeeiros: a igreja sustenta uma luz que não produz

Voltei-me para ver quem falava comigo e, voltado, vi sete candeeiros de ouroApocalipse 1.12

No grego, João diz que se voltou para ver a voz140. Ele esperava ver quem falava. O que viu primeiro foi sete candeeiros de ouro. O candeeiro vem do tabernáculo, onde Deus mandou fazer um único candelabro de ouro com “sete lâmpadas, as quais se acenderão para alumiar defronte dele”141. Zacarias viu esse mesmo candelabro de sete lâmpadas. João vê outra coisa: não um candelabro de sete lâmpadas, mas sete candeeiros. O versículo 20 dirá o que são, e é a primeira interpretação que o livro dá: “os sete candeeiros são as sete igrejas”.

A imagem é cuidadosa. A igreja é o candeeiro, e não a luz. Ela sustenta uma luz que não produz. Jesus disse “Vós sois a luz do mundo”142 e, no mesmo fôlego, falou da candeia posta “no velador”143, que ilumina a casa. Paulo disse aos filipenses que eles resplandecem “como luzeiros no mundo”144. E o Apocalipse, logo na carta a Éfeso, vai dizer o que acontece com um candeeiro que deixa de cumprir a sua função: “moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas”145. A igreja existe para sustentar a luz. Pode perder o lugar, se esquecer disso.

Bloco de pedra talhado em quatro faces, com um candelabro de sete braços em relevo entre duas colunas
A pedra de Magdala, de uma sinagoga da Galileia do primeiro século, traz o candelabro do Templo esculpido por quem o conhecia: um só pé, sete braços, sete lâmpadas. É esse o objeto que João tinha na memória, e é por isso que a diferença da visão salta aos olhos. Ele não vê um candelabro de sete lâmpadas; vê sete candeeiros separados, um para cada igreja, e Cristo andando no meio deles.
A pedra de Magdala, de uma sinagoga da Galileia do primeiro século, traz o candelabro do Templo esculpido por quem o conhecia: um só pé, sete braços, sete lâmpadas. É esse o objeto que João tinha na memória, e é por isso que a diferença da visão salta aos olhos. Ele não vê um candelabro de sete lâmpadas; vê sete candeeiros separados, um para cada igreja, e Cristo andando no meio deles.Hanay · CC BY-SA 3.0 · via Wikimedia Commons

“Um semelhante a filho de homem”: o título de Daniel 7 andando no meio das igrejas

e, no meio dos candeeiros, um semelhante a filho de homem, com vestes talares e cingido, à altura do peito, com uma cinta de ouro.Apocalipse 1.13

No meio dos candeeiros, João vê um semelhante a filho de homem. É a expressão de Daniel 7.13, e no aramaico de Daniel ela também vem sem artigo: não um título pronto, mas alguém com aparência humana que recebe do Ancião de Dias o domínio, a glória e o reino. Nos evangelhos, era o modo preferido de Jesus falar de si mesmo. Fora deles, só dois homens o viram com esse nome depois da ressurreição: Estêvão, antes de morrer, que disse “Eis que vejo os céus abertos e o Filho do Homem, em pé à destra de Deus”146, e João, aqui e no capítulo 14147.

Dois fragmentos de papiro amarelado e esfiapado sobre fundo preto, um menor e estreito em cima à esquerda e um maior embaixo, com a superfície cheia de furos e rasgos; linhas de letras gregas maiúsculas, apagadas em vários trechos, correm pelos dois
O Papiro 98, guardado no Instituto Francês de Arqueologia Oriental, no Cairo, é o manuscrito mais antigo que se conhece deste trecho do Apocalipse. Os dois fragmentos trazem Apocalipse 1.13 a 2.1: começam justamente no semelhante a filho de homem no meio dos candeeiros e vão até a primeira linha da carta a Éfeso. As edições críticas o datam do século II, com ponto de interrogação: se a data se confirmar, a cópia está a poucas gerações de João.
O Papiro 98, guardado no Instituto Francês de Arqueologia Oriental, no Cairo, é o manuscrito mais antigo que se conhece deste trecho do Apocalipse. Os dois fragmentos trazem Apocalipse 1.13 a 2.1: começam justamente no semelhante a filho de homem no meio dos candeeiros e vão até a primeira linha da carta a Éfeso. As edições críticas o datam do século II, com ponto de interrogação: se a data se confirmar, a cópia está a poucas gerações de João.Copista desconhecido · Institut français d'archéologie orientale, Cairo · Domínio público · via Wikimedia Commons

E ele está no meio dos candeeiros. Não acima deles, não longe, não esperando no céu que as igrejas se organizem para subir até ele. No meio. A carta a Éfeso vai descrevê-lo como aquele “que anda no meio dos sete candeeiros de ouro”148. É a promessa do fim do evangelho de Mateus vista com os olhos: “eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século”149. O Cristo da glória não se ausentou da igreja. Anda entre as igrejas, e, como as cartas vão mostrar, anda olhando.

Vestes talares e cinta de ouro no peito: Cristo aparece vestido de sumo sacerdote

A partir daqui, cada traço da visão tem origem num texto do Antigo Testamento, e o primeiro é a roupa. Vestes talares traduz uma palavra grega que quer dizer a túnica comprida, que desce até os pés. Na Bíblia grega, ela é a veste do sumo sacerdote. É a roupa de Arão. É a roupa limpa que Josué, o sumo sacerdote, recebe em Zacarias 3, quando tiram dele as vestes sujas. E é a roupa do homem vestido de linho que, em Ezequiel 9, marca a testa dos que gemem pela impiedade da cidade150.

e, no meio dos candeeiros, um semelhante a filho de homem, com vestes talares e cingido, à altura do peito, com uma cinta de ouro.Apocalipse 1.13

A cinta de ouro vem de Daniel 10, do homem vestido de linho com ouro de Ufaz151. Mas João a põe à altura do peito, e o detalhe conta. Na Bíblia, cingir os lombos é preparar-se para agir. Um cinto alto, no peito, sugere outra coisa, e o próprio livro indica qual: no capítulo 15, os sete anjos que saem do santuário estão “cingidos ao peito com cintas de ouro”152. É roupa de quem serve no santuário, e a associação é dedução a partir desse paralelo.

levantei os olhos e olhei, e eis um homem vestido de linho, cujos ombros estavam cingidos de ouro puro de Ufaz; o seu corpo era como o berilo, o seu rosto, como um relâmpago, os seus olhos, como tochas de fogo, os seus braços e os seus pés brilhavam como bronze polido; e a voz das suas palavras era como o estrondo de muita gente.Daniel 10.5–6

Hebreus diz com todas as letras o que a roupa sugere: “Tendo, pois, a Jesus, o Filho de Deus, como grande sumo sacerdote que penetrou os céus, conservemos firmes a nossa confissão”153. E acrescenta que temos um sumo sacerdote “que se assentou à destra do trono da Majestade nos céus”154. Irineu, no fim do século II, já chamava esta cena de vinda “sacerdotal e gloriosa” do reino de Cristo. No meio das igrejas, antes de julgar qualquer uma, Cristo aparece vestido para interceder.

Cabelos brancos como a lã: os traços do Ancião de Dias passados ao Filho

A sua cabeça e cabelos eram brancos como alva lã, como neve; os olhos, como chama de fogo;Apocalipse 1.14
Continuei olhando, até que foram postos uns tronos, e o Ancião de Dias se assentou; sua veste era branca como a neve, e os cabelos da cabeça, como a pura lã; o seu trono eram chamas de fogo, e suas rodas eram fogo ardente.Daniel 7.9

Em Daniel 7, os cabelos brancos como a lã são do Ancião de Dias, que está no trono. O filho de homem vem até ele depois. Em Apocalipse 1, os cabelos brancos como alva lã, como neve são do filho de homem. Os traços de um passaram para o outro. O filho do homem vem até o Ancião de Dias e recebe dele: “Foi-lhe dado domínio, e glória, e o reino”155. E Jesus citou exatamente esse título para explicar por que julga: o Pai “lhe deu autoridade para julgar, porque é o Filho do Homem”156. Os cabelos brancos seriam a autoridade do Pai investida no Filho, como o manto do rei posto sobre o ombro do herdeiro.

Olhos de fogo e pés de bronze polido: o metal do altar onde o pecado era julgado

A sua cabeça e cabelos eram brancos como alva lã, como neve; os olhos, como chama de fogo; os pés, semelhantes ao bronze polido, como que refinado numa fornalha; a voz, como voz de muitas águas.Apocalipse 1.14–15

Os olhos como chama de fogo vêm do homem de Daniel 10, que tinha “os seus olhos, como tochas de fogo”157. No Apocalipse, eles têm uma função, e a carta a Tiatira a diz: “todas as igrejas conhecerão que eu sou aquele que sonda mentes e corações”158. São olhos que veem por dentro. Hebreus diz o mesmo com palavras de tribunal: “todas as coisas estão descobertas e patentes aos olhos daquele a quem temos de prestar contas”159. E Paulo diz aos tessalonicenses que o Senhor Jesus se manifestará do céu “em chama de fogo”160.

Os pés, semelhantes ao bronze polido, como que refinado numa fornalha, vêm do mesmo homem de Daniel 10, cujos pés “brilhavam como bronze polido”161. A palavra de João para esse bronze é rara, e só volta na carta a Tiatira162, que abre justamente com os dois traços juntos: “o Filho de Deus, que tem os olhos como chama de fogo e os pés semelhantes ao bronze polido”163. Olhos que veem tudo e pés que não se sujam no chão por onde passam. A igreja que ele visita não o contamina. É ele quem a examina.

E por que bronze? No tabernáculo, o ouro fica do lado de dentro, perto da presença; o bronze fica do lado de fora, no átrio. Ali está o altar do holocausto, que Moisés recebeu ordem de cobrir de bronze164, e a pia em que os sacerdotes se lavavam antes de servir165. É o metal do lugar onde o fogo consome o sacrifício. No deserto, foi de bronze a serpente que Moisés “pôs sobre uma haste”166, e Jesus leu nela a sua própria cruz: “assim importa que o Filho do Homem seja levantado”167. O bronze aparece, assim, ligado ao lugar em que o pecado é julgado e vencido.

O metal também fala de uma firmeza que não cede. Quando a aliança é quebrada, os céus se tornam “de bronze”168, fechados para a chuva; e, quando Deus fortalece o profeta, faz dele “muros de bronze” contra o próprio povo169. Miqueias junta o bronze e o ato de pisar: Deus dá à filha de Sião unhas “de bronze” para debulhar as nações170. Nos seres viventes de Ezequiel, a planta dos pés já “luzia como o brilho de bronze polido”171. Por isso os pés de Cristo dizem duas coisas de uma vez. São metal que passou pela fornalha e saiu sem escória, e andam no meio dos candeeiros sem se contaminar. E são pés que pisam em juízo: é com esse título que ele abre a sentença contra Jezabel em Tiatira172, e é ele quem, no fim, “pisa o lagar do vinho do furor da ira do Deus Todo-Poderoso”173. Nenhum texto define o bronze como símbolo; o sentido nasce dos lugares em que ele aparece.

Voz como de muitas águas: o som que Ezequiel ouviu quando a glória voltou ao templo

os pés, semelhantes ao bronze polido, como que refinado numa fornalha; a voz, como voz de muitas águas.Apocalipse 1.15
E eis que, do caminho do oriente, vinha a glória do Deus de Israel; a sua voz era como o ruído de muitas águas, e a terra resplandeceu por causa da sua glória.Ezequiel 43.2

Daniel 10 descrevia a voz do homem de linho como “o estrondo de muita gente”174. João não usa essa imagem. Vai buscar outra, em Ezequiel, e a escolha diz muito. Em Ezequiel 43, a glória do Deus de Israel, que tinha abandonado o templo antes da destruição de Jerusalém, volta pela porta do oriente, e o profeta ouve: “a sua voz era como o ruído de muitas águas”175. É a voz de Deus voltando para morar no meio do seu povo. João a ouve saindo da boca do filho de homem que anda no meio das igrejas.

Ezequiel já tinha usado a mesma imagem na primeira visão, para o som das asas dos querubins, “como o rugido de muitas águas, como a voz do Onipotente”176. E o Salmo 29 diz que “o Senhor está sobre as muitas águas”177. A imagem não é de volume, é de domínio: a voz que as águas não abafam, porque está acima delas. E aqui João se afasta de novo da tradução grega corrente, que em Ezequiel 43 não fala de águas178. Ele lê o profeta no hebraico, e vê o templo de Ezequiel se cumprir onde menos se esperaria: em sete igrejas de uma província pagã.

Sete estrelas na mão direita: o que Domiciano cunhou em moeda, João viu na mão de Cristo

Tinha na mão direita sete estrelas, e da boca saía-lhe uma afiada espada de dois gumes. O seu rosto brilhava como o sol na sua força.Apocalipse 1.16

Domiciano e a mulher perderam um filho pequeno. O imperador o declarou divino e mandou cunhar uma moeda com a imagem da criança sentada sobre o globo do mundo, com os braços estendidos e cercada de sete estrelas179. A família imperial dizia, em metal, que o céu lhe pertencia. Moedas assim circulavam pelo império: era propaganda que cabia no bolso.

As duas faces de uma moeda romana de prata. À esquerda, o busto de perfil de uma mulher com o cabelo em tranças presas atrás, cercado de letras latinas. À direita, uma criança pequena sentada sobre um globo, com os dois braços abertos, cercada de sete estrelas e de uma inscrição em latim
O denário de Domícia, cunhado por volta do ano 82: de um lado a imperatriz, do outro o filho que ela e Domiciano perderam, declarado divino, sentado sobre o globo do mundo entre sete estrelas. A inscrição chama a criança de “divino César”. Era esta moeda que corria na mão das igrejas da Ásia quando João escreveu que viu as sete estrelas em outra mão, e disse de quem eram.
O denário de Domícia, cunhado por volta do ano 82: de um lado a imperatriz, do outro o filho que ela e Domiciano perderam, declarado divino, sentado sobre o globo do mundo entre sete estrelas. A inscrição chama a criança de “divino César”. Era esta moeda que corria na mão das igrejas da Ásia quando João escreveu que viu as sete estrelas em outra mão, e disse de quem eram.Classical Numismatic Group (CNG) · CC BY-SA 2.5 · via Wikimedia Commons

João vê as sete estrelas em outra mão, na mão direita do filho de homem. E o versículo 20 dirá o que elas são: “as sete estrelas são os anjos das sete igrejas”. O que Roma reivindicava para a sua dinastia, o Apocalipse mostra seguro na mão de Cristo, e o que ele segura são as igrejas. A carta a Éfeso usa um verbo mais forte para isso: ele “conserva na mão direita as sete estrelas”, isto é, as retém com firmeza180. Jesus tinha dito das suas ovelhas: “ninguém as arrebatará da minha mão”181.

A espada sai da boca, não da mão: a batalha final do livro é vencida por uma palavra

Tinha na mão direita sete estrelas, e da boca saía-lhe uma afiada espada de dois gumes. O seu rosto brilhava como o sol na sua força.Apocalipse 1.16
fez a minha boca como uma espada aguda, na sombra da sua mão me escondeu; fez-me como uma flecha polida, e me guardou na sua aljava,Isaías 49.2

A espada não está na mão. Sai da boca182. A imagem é do servo em Isaías, que diz que Deus: “fez a minha boca como uma espada aguda”183. E do rei em Isaías 11, que “ferirá a terra com a vara de sua boca e com o sopro dos seus lábios matará o perverso”184. A arma é a palavra.

As cartas dizem o mesmo, e com a mesma imagem. Paulo aos tessalonicenses diz que o iníquo será aquele “a quem o Senhor Jesus matará com o sopro de sua boca”185. Aos efésios: “a espada do Espírito, que é a palavra de Deus”186. E Hebreus:

Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração.Hebreus 4.12

O Apocalipse vai usar essa espada duas vezes de modo decisivo. Na carta a Pérgamo, a cidade onde estava “o trono de Satanás”187, Cristo avisa: “contra eles pelejarei com a espada da minha boca”188. E no capítulo 19, quando o cavaleiro chamado Verbo de Deus vence os exércitos da besta, “Sai da sua boca uma espada afiada, para com ela ferir as nações”189. A batalha final do livro é ganha por uma palavra.

O rosto que brilhava como o sol: João já o tinha visto no monte da transfiguração

O último traço é o rosto: brilhava como o sol na sua força.

Tinha na mão direita sete estrelas, e da boca saía-lhe uma afiada espada de dois gumes. O seu rosto brilhava como o sol na sua força.Apocalipse 1.16

A expressão vem do fim do cântico de Débora, onde é dita dos que amam a Deus: “os que te amam brilham como o sol quando se levanta no seu esplendor”190. Mas João não precisava do livro de Juízes para reconhecer aquele rosto. Ele já o tinha visto brilhar.

Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro e aos irmãos Tiago e João e os levou, em particular, a um alto monte. E foi transfigurado diante deles; o seu rosto resplandecia como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz.Mateus 17.1–2

João estava no monte. Pedro também, e muitos anos depois escreveu sobre aquele dia como prova de que a vinda de Cristo não é fábula:

Porque não vos demos a conhecer o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo seguindo fábulas engenhosamente inventadas, mas nós mesmos fomos testemunhas oculares da sua majestade, pois ele recebeu, da parte de Deus Pai, honra e glória, quando pela Glória Excelsa lhe foi enviada a seguinte voz: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo. Ora, esta voz, vinda do céu, nós a ouvimos quando estávamos com ele no monte santo.2 Pedro 1.16–18

Pedro chama aquilo de “o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo”191. A transfiguração foi uma amostra da vinda, e em Patmos João vê a coisa inteira. Paulo fala da “glória de Deus, na face de Cristo”192. Jesus disse que “os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai”193. E a primeira carta de João promete o que o livro vai cumprir: “haveremos de vê-lo como ele é”194.

Afresco rachado pelo tempo: um homem de barba e cabelos longos, com auréola marcada por uma cruz vermelha, veste uma túnica branca que desce até os pés e abre os braços na horizontal; está de pé sobre uma rocha, dentro de uma grande auréola oval de luz clara, e na borda de baixo aparecem pedaços das auréolas de outras figuras
A Transfiguração que Fra Angelico pintou por volta de 1440 numa cela do convento de São Marcos, em Florença. Ele reduziu a cena ao que Mateus sublinha: as vestes “brancas como a luz” e o corpo inteiro envolvido de claridade. Foi este o rosto que João viu no monte, com Pedro e Tiago, décadas antes de Patmos. Quando o vê de novo, na visão do capítulo 1, cai como morto; e ouve outra vez, da mesma boca, a mesma ordem: não temas.
A Transfiguração que Fra Angelico pintou por volta de 1440 numa cela do convento de São Marcos, em Florença. Ele reduziu a cena ao que Mateus sublinha: as vestes “brancas como a luz” e o corpo inteiro envolvido de claridade. Foi este o rosto que João viu no monte, com Pedro e Tiago, décadas antes de Patmos. Quando o vê de novo, na visão do capítulo 1, cai como morto; e ouve outra vez, da mesma boca, a mesma ordem: não temas.Fra Angelico · foto de Francesco Bini · CC BY-SA 4.0 · via Wikimedia Commons

Caído como morto, e a primeira palavra de Cristo a João: “não temas”

Quando o vi, caí a seus pés como morto. Porém ele pôs sobre mim a mão direita, dizendo: Não temas; eu sou o primeiro e o últimoApocalipse 1.17

Caí a seus pés como morto. É a reação de todos os profetas que viram a glória de perto. Isaías: “ai de mim! Estou perdido!”195. Ezequiel: “caí com o rosto em terra”196. Daniel, duas vezes:

Contudo, ouvi a voz das suas palavras; e, ouvindo-a, caí sem sentidos, rosto em terra. Eis que certa mão me tocou, sacudiu-me e me pôs sobre os meus joelhos e as palmas das minhas mãos. Ele me disse: Daniel, homem muito amado, está atento às palavras que te vou dizer; levanta-te sobre os pés, porque eis que te sou enviado. Ao falar ele comigo esta palavra, eu me pus em pé, tremendo.Daniel 10.9–11

Mas João tinha vivido essa cena antes, e com a mesma pessoa. No monte da transfiguração, quando a voz falou da nuvem, os discípulos “caíram de bruços, tomados de grande medo”197. E então: “Aproximando-se deles, tocou-lhes Jesus, dizendo: Erguei-vos e não temais!”198. Décadas depois, João está de novo no chão, e recebe o mesmo gesto e a mesma ordem: ele pôs sobre mim a mão direita, dizendo: Não temas199.

Repare de que mão se trata. É a direita, a mesma que segura as sete estrelas. O Cristo não precisou soltar as igrejas para levantar João. A mão que sustenta a igreja inteira é a que se põe sobre um homem caído. E a ordem vem antes de tudo o que o livro vai mostrar. Antes dos selos, das trombetas, das taças, da besta e do dragão, o leitor recebe, pela boca de João, a primeira palavra que Cristo lhe diz face a face em todo Apocalipse: não temas.

“O primeiro e o último”: o título que Deus usava contra os ídolos, agora na boca do Filho

e aquele que vive; estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos e tenho as chaves da morte e do inferno.Apocalipse 1.18
Assim diz o Senhor, Rei de Israel, seu Redentor, o Senhor dos Exércitos: Eu sou o primeiro e eu sou o último, e além de mim não há Deus.Isaías 44.6

O primeiro e o último é, em Isaías, o título com que Deus desafia os ídolos, e nas três vezes em que aparece ele vem acompanhado de uma prova. Em 41.4, a prova é a história: é ele quem “desde o princípio tem chamado as gerações à existência”200. Em 44.6–8, é a profecia: nenhum ídolo anunciou antes o que havia de acontecer. Em 48.12–13, é a criação: “a minha mão fundou a terra”201. O título não é uma definição abstrata. É a afirmação de que Deus está antes da história e no fim dela, e por isso pode dizer: “desde o princípio anuncio o que há de acontecer”202. João o traduz direto do hebraico, porque a Bíblia grega, nos três lugares, evita dizer “o último”203. Agora o título está na boca do filho de homem, e esta é a pergunta mais séria do capítulo: em que sentido quem esteve morto pode dizer o que Deus diz em Isaías?

Mas antes de qualquer conclusão sobre essa leitura, há o que Isaías 48 já aponta: o título está ligado à criação. E o Novo Testamento coloca o Filho exatamente ali, no princípio, antes que houvesse qualquer coisa criada. João abre o seu evangelho assim:

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez.João 1.1–3

“No princípio” são as primeiras palavras de Gênesis204, e João as usa de propósito: quando Deus começou a criar, o Verbo já estava lá, e estava “com Deus”. A criação não foi feita sem ele, mas por meio dele. Paulo diz o mesmo aos colossenses, “ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste”205, e aos coríntios: há “um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas”, e “um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas”206. Hebreus abre dizendo que foi pelo Filho que Deus “também fez o universo”207. E o próprio Jesus fala de uma glória que teve junto do Pai “antes que houvesse mundo”208, e de uma existência anterior a Abraão: “antes que Abraão existisse, EU SOU”209. Esse é o primeiro sentido do título. Ele é o primeiro porque, quando nada ainda existia, ele já estava com Deus.

Hebreus vai mais longe. Toma o Salmo 102, um cântico ao Deus que fundou a terra e permanece quando ela envelhece, e diz que aquelas palavras foram ditas ao Filho:

Ainda: No princípio, Senhor, lançaste os fundamentos da terra, e os céus são obra das tuas mãos; eles perecerão; tu, porém, permaneces; sim, todos eles envelhecerão qual veste; também, qual manto, os enrolarás, e, como vestes, serão igualmente mudados; tu, porém, és o mesmo, e os teus anos jamais terão fim.Hebreus 1.10–12

É o primeiro e o último de Isaías dito com outras palavras. Ele estava no princípio, quando os fundamentos da terra foram lançados, e permanece quando os céus forem enrolados como um manto. O salmista cantava isso a Deus210. Hebreus o aplica ao Filho e, no fim da carta, resume: “Jesus Cristo, ontem e hoje, é o mesmo e o será para sempre”211.

Ele é o primeiro porque estava com Deus antes de tudo existir, e tudo foi feito por meio dele. É o último porque permanece quando os céus envelhecerem como uma veste, e porque a ele foi confiada a palavra final.

Jesus tem as chaves do inferno? A chave que os rabinos diziam que Deus não entrega a ninguém

e aquele que vive; estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos e tenho as chaves da morte e do inferno.Apocalipse 1.18
Porei sobre o seu ombro a chave da casa de Davi; ele abrirá, e ninguém fechará, fechará, e ninguém abrirá.Isaías 22.22

Chave, na Bíblia, é autoridade de abrir e fechar. Em Isaías 22, Deus tira o posto de um mordomo infiel e o dá a Eliaquim, e a chave da casa de Davi vai para o ombro dele212. O Apocalipse aplica essa chave a Jesus na carta a Filadélfia213. E Jesus tinha prometido a Pedro que as portas do inferno não prevaleceriam contra a igreja214. Aqui ele diz que tem as chaves dessas portas: as chaves da morte e do inferno. A palavra traduzida por inferno é o lugar dos mortos (ᾅδης hades), e não o lago de fogo215.

Pequena chave antiga de bronze esverdeado, com uma argola redonda numa ponta, uma haste curta e, na outra ponta, um dente dobrado em ângulo reto, fotografada sobre fundo branco
Uma chave romana de bronze, com argola para ser levada no dedo. Chave assim era sinal de quem mandava na casa: quem a tinha decidia quem entrava e quem saía. É essa a imagem de Isaías 22, a chave posta no ombro do mordomo, e é essa a imagem de Apocalipse 1.18, só que no plural. Cristo não tem uma chave; tem duas, uma para cada porta que os homens mais temem.
Uma chave romana de bronze, com argola para ser levada no dedo. Chave assim era sinal de quem mandava na casa: quem a tinha decidia quem entrava e quem saía. É essa a imagem de Isaías 22, a chave posta no ombro do mordomo, e é essa a imagem de Apocalipse 1.18, só que no plural. Cristo não tem uma chave; tem duas, uma para cada porta que os homens mais temem.The Metropolitan Museum of Art · CC0 · via Wikimedia Commons

Mas João não escreveu uma chave. Escreveu chaves, no plural, e deu a elas dois nomes: a morte e o inferno. Não são duas palavras para a mesma coisa. A morte (θάνατος thánatos) é o que acontece com a pessoa: o golpe que a arranca da terra dos viventes e leva o corpo ao pó. O inferno (ᾅδης hades), que no Antigo Testamento se chama Sheol, é para onde ela vai: a região dos mortos216, que as Escrituras descrevem como uma casa fechada, com portas. Deus pergunta a Jó se lhe foram reveladas “as portas da morte”217, e Ezequias, doente, diz: “hei de entrar nas portas do além”218. A morte é a porta por onde se sai da vida. O hades é a casa onde os mortos ficam guardados. São dois domínios distintos, e cada um tem a sua fechadura.

O próprio Apocalipse mantém os dois separados e mostra o que cada um faz. No quarto selo, o cavaleiro do cavalo amarelo se chama Morte, “e o Inferno o estava seguindo”219: a morte derruba, e o hades vem atrás recolhendo os que caíram. No juízo final, “a morte e o além entregaram os mortos que neles havia”220: cada um devolve o que guardava. E logo em seguida “a morte e o inferno foram lançados para dentro do lago de fogo”221. O par aparece no capítulo 1 e só se desfaz no capítulo 20. As chaves de 1.18 anunciam o que o capítulo 20 vai mostrar: quem tem as chaves é quem, no fim, obriga as duas a devolver os mortos e depois acaba com as duas.

Pedro, no dia de Pentecostes, mostra as duas coisas acontecendo com o próprio Jesus. Ele lê o Salmo 16, “não deixarás a minha alma na morte, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção”222, e explica que Davi falava da ressurreição de Cristo, que “nem foi deixado na morte, nem o seu corpo experimentou corrupção”223. São duas frases porque são dois domínios. A morte alcança o corpo: é ela que o leva à sepultura e à corrupção. O hades retém a pessoa: é ele que a guarda longe do mundo dos vivos. Jesus entrou nos dois. O corpo foi posto no túmulo, e a alma foi ao lugar dos mortos. Mas nenhum dos dois conseguiu segurá-lo: o corpo não se corrompeu, e a alma não foi deixada lá. Por isso ele junta, na mesma frase, “estive morto, mas eis que estou vivo” e “tenho as chaves”. Quem passou pelas duas portas e saiu é quem agora tem a chave de cada uma.

Por isso as duas chaves dizem coisas diferentes ao crente. A chave da morte quer dizer que ninguém atravessa aquela porta fora da hora que ele permite. A igreja de Esmirna ia ser lançada na prisão e passar por uma tribulação de “dez dias”224: o sofrimento tinha prazo, e o prazo estava na mão dele. A chave do inferno quer dizer que ninguém fica lá dentro além da palavra dele. A casa dos mortos não é uma prisão sem saída, porque o dono da chave já avisou que “vem a hora em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão”225. A primeira chave governa a entrada. A segunda governa a saída.

Deus já tinha prometido as duas coisas juntas pela boca de Oseias: “Eu os remirei do poder do inferno e os resgatarei da morte; onde estão, ó morte, as tuas pragas? Onde está, ó inferno, a tua destruição?”226 E Paulo diz que “o último inimigo a ser destruído é a morte”227. As chaves de Apocalipse 1.18 ficam no meio do caminho entre a promessa de Oseias e o lago de fogo de Apocalipse 20. Hoje as duas portas ainda existem, mas quem as abre e fecha é Cristo. No fim, nem elas vão existir mais.

Os sábios judeus diziam que havia três chaves que Deus nunca pôs na mão de um intermediário, e uma delas era a chave da ressurreição dos mortos228. No Apocalipse, essa chave está na mão do filho de homem. Isso nos lembra as palavras de Jesus: “assim como o Pai tem vida em si mesmo, também concedeu ao Filho ter vida em si mesmo”229, e “assim como o Pai ressuscita e vivifica os mortos, assim também o Filho vivifica aqueles a quem quer”230. O Pai entregou ao Filho justamente o que a tradição dizia que ele não entregaria a ninguém. A posição de Jesus não tem paralelo em ninguém mais, no céu ou na terra.

E para a igreja o versículo é consolo antes de ser doutrina. Hebreus diz que Cristo, “por sua morte”231, desligou o poder daquele que tinha o poder da morte, e livrou os que viviam escravos do pavor dela. Paulo desafia: “Onde está, ó morte, a tua vitória?”232. E a carta a Esmirna, igreja que ia sofrer prisão e morte, diz: “Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida”233. Quem vai passar pela porta da morte fica sabendo que a chave dela está na mão de quem já passou por lá e voltou.

Viste, são, hão de acontecer: o esboço do livro inteiro num versículo

Escreve, pois, as coisas que viste, e as que são, e as que hão de acontecer depois destas.Apocalipse 1.19

Este versículo é usado há muito tempo como o esboço do livro.

Um roteiro em três partes. As coisas que viste são a visão do capítulo 1. As que são são as sete igrejas dos capítulos 2 e 3. As que hão de acontecer depois destas são os capítulos 4 a 22. E o capítulo 4 abre com a mesma expressão: “Sobe para aqui, e te mostrarei o que deve acontecer depois destas coisas”234. É a leitura que este estudo segue para a ordem geral do livro.

O próprio livro explica os seus símbolos: estrelas são anjos, candeeiros são igrejas

Quanto ao mistério das sete estrelas que viste na minha mão direita e aos sete candeeiros de ouro, as sete estrelas são os anjos das sete igrejas, e os sete candeeiros são as sete igrejas.Apocalipse 1.20

A palavra mistério não quer dizer, na Bíblia, algo que não se pode entender. Quer dizer algo que estava escondido e agora foi mostrado. É, de novo, a linguagem de Daniel 2, onde Deus é “o revelador de mistérios”235. E é a linguagem de Paulo. Aos efésios, ele fala do “mistério de Cristo”, que “em outras gerações, não foi dado a conhecer”, e agora foi revelado: “os gentios são coerdeiros”236. Aos colossenses: “o mistério que estivera oculto dos séculos e das gerações; agora, todavia, se manifestou aos seus santos”237. Um mistério bíblico é um segredo que Deus resolveu contar.

E o versículo 20 faz o que o livro vai fazer muitas vezes: interpreta o próprio símbolo. As estrelas são os anjos das igrejas. Os candeeiros são as igrejas. O leitor não precisa adivinhar. E o livro repete o gesto ao longo do caminho. As sete tochas diante do trono “são os sete Espíritos de Deus”238. O incenso das taças “são as orações dos santos”239. O dragão é “a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás”240. As sete cabeças da besta “são sete montes” e “São também sete reis”241. As águas “são povos, multidões, nações e línguas”242. A mulher “é a grande cidade”243. O linho finíssimo da noiva “são os atos de justiça dos santos”244.

Aqui está a regra de leitura que o capítulo 1 deixa nas mãos da igreja, e ela tem três degraus. Onde o livro interpreta o próprio símbolo, a interpretação dele governa, e ninguém tem autoridade para trocá-la. Onde não interpreta, procura-se o texto do Antigo Testamento de onde o símbolo veio, porque quase sempre ele veio de algum lugar. Só depois disso, e com cautela, olha-se para a história. O jornal da semana nunca é o primeiro degrau. Juntar as peças é isso.

Quem são os anjos das sete igrejas? Seres do céu, pastores ou o retrato de cada igreja

Porque os lábios do sacerdote devem guardar o conhecimento, e da sua boca devem os homens procurar a instrução, porque ele é mensageiro do Senhor dos Exércitos.Malaquias 2.7

O versículo 20 interpreta as estrelas como os anjos das sete igrejas, e deixa uma pergunta que o próprio livro não responde de todo: quem são esses anjos? Há três leituras.

A primeira leitura vê anjos de verdade, seres celestes encarregados de cada igreja, como Daniel 10 fala de príncipes celestes ligados às nações. Tem a seu favor o livro inteiro, onde a palavra anjo sempre designa seres do céu, e a frase de Jesus sobre as crianças: “os seus anjos nos céus veem incessantemente a face de meu Pai celeste”245.

A segunda leitura vê mensageiros humanos, os líderes ou os portadores de cada carta, porque a palavra grega para anjo quer dizer simplesmente mensageiro, e o Antigo Testamento chama assim até o sacerdote, como mostra Malaquias246. Tem a seu favor um dado forte: as cartas repreendem o anjo pelos pecados da igreja, e é difícil imaginar Cristo acusando um ser celeste de ter abandonado o primeiro amor247. Essa é a posição à qual este estudo se filia.

A terceira leitura vê no anjo o retrato espiritual da própria igreja, o seu caráter personificado, porque cada carta começa falando ao anjo e termina falando “às igrejas”.

Daniel teve de selar, João recebeu ordem de não selar: o livro chega aberto

Perto do fim, o livro inverte a última ordem que Daniel recebeu. Daniel ouviu: sela, porque é para o tempo do fim. João ouve: não seles, porque o tempo está próximo248. O que para Daniel estava longe, para João está perto. O mesmo livro que Daniel teve de fechar, João recebe aberto.

Tu, porém, Daniel, encerra as palavras e sela o livro, até ao tempo do fim; muitos o esquadrinharão, e o saber se multiplicará. (…) Ele respondeu: Vai, Daniel, porque estas palavras estão encerradas e seladas até ao tempo do fim.Daniel 12.4, 9
Disse-me ainda: Não seles as palavras da profecia deste livro, porque o tempo está próximo.Apocalipse 22.10

Pedro escreveu sobre isso aos crentes da Ásia. Os profetas investigaram o que anunciavam, e “a eles foi revelado que, não para si mesmos, mas para vós outros, ministravam as coisas que, agora, vos foram anunciadas”249. A igreja vive no tempo que os profetas esperaram. E o Apocalipse fecha com a mesma moldura com que abriu: no capítulo 22, o anjo diz que “estas palavras são fiéis e verdadeiras”, e que Deus o enviou “para mostrar aos seus servos as coisas que em breve devem acontecer”250. É Daniel 2 de novo: “Certo é o sonho, e fiel, a sua interpretação”251. O livro começa e termina dentro de Daniel, e o que estava selado em Daniel está aberto para a igreja.

É por isso que o capítulo 1 termina entregando chaves. A próxima parte do livro são as cartas às sete igrejas, e o Cristo que vimos aqui, com os olhos de fogo, a espada na boca e as estrelas na mão, vai falar a cada uma delas pelo nome.

Um homem no chão e duas ordens: não temas, e escreve

O livro do fim começa por um rosto. Quem espera encontrar no Apocalipse primeiro a besta, o número e a data encontra primeiro Jesus Cristo, e o encontra no meio de igrejas comuns, numa província do império, cercado de pressão e de poucos recursos. Antes de mostrar qualquer juízo, o livro mostra quem vai julgar, e mostra que ele está perto.

Ele se apresenta com títulos que não deixam espaço ao medo. É a testemunha fiel, que confessou a verdade diante de Pilatos e manda a igreja fazer o mesmo diante dos césares do seu tempo. É o primogênito dos mortos, e a morte não é a última palavra para quem é dele. É o soberano dos reis da terra, e nenhum imperador que se faça chamar de senhor e deus tem a última palavra sobre a igreja. Ele nos ama agora, nos libertou uma vez, e fez de gente comum um reino de sacerdotes.

Ele anda entre os candeeiros com olhos que veem por dentro. Isso consola e examina ao mesmo tempo. A igreja não está abandonada, e também não está sem supervisão. Ela é candeeiro, e não luz: sustenta uma luz que não produz, e pode perder o lugar se esquecer para que existe. As cartas que vêm a seguir vão mostrar isso igreja por igreja.

E o livro chega pelo caminho mais humilde possível: alguém lê em voz alta, a igreja escuta, e a bem-aventurança é para quem guarda. O Apocalipse não é enigma para especialistas. É palavra para ser obedecida por uma congregação, e as suas chaves foram deixadas à vista, no próprio livro e no resto da Bíblia, para quem tiver paciência de juntar as peças.

O capítulo termina com João no chão. Uma mão direita pousa sobre ele, a mesma que segura as estrelas, e uma voz diz: não temas. Depois, a ordem: Escreve, pois. O livro que temos nas mãos é a prova de que ele obedeceu. A igreja que ouve o capítulo 1 recebe o mesmo par de palavras, na mesma ordem: primeiro, não temas; depois, faze o que te foi mandado. Quem tem as chaves da morte já esteve morto, e está vivo pelos séculos dos séculos.

Notas

1. Marcos 13.32.

2. Apocalipse 1.17.

3. Gênesis 3.17.

4. Apocalipse 22.3.

5. Apocalipse 12.9.

6. Apocalipse 21.4.

7. Apocalipse 21.23.

8. Gênesis 1.1.

9. Apocalipse 21.6.

10. Apocalipse 21.1.

11. O grego é Ἀποκάλυψις, de ἀποκαλύπτω, composto de apó, fora, e kalýptō, cobrir. A expressão exata de Apocalipse 1.1, Ἀποκάλυψις Ἰησοῦ Χριστοῦ, aparece nas cartas: Paulo diz que recebeu o evangelho δι’ ἀποκαλύψεως Ἰησοῦ Χριστοῦ (Gálatas 1.12), e Pedro fala duas vezes do que acontece ἐν ἀποκαλύψει Ἰησοῦ Χριστοῦ (1 Pedro 1.7, 13), isto é, no dia da volta.

12. Apocalipse 22.16.

13. 1 Pedro 1.13.

14. Marcos 13.32.

15. Atos 1.7.

16. Daniel 2.28,29,45.

17. Daniel 2 existe em duas traduções gregas antigas: a chamada Grega Antiga e a de Teodocião, que acabou substituindo a primeira nas Bíblias da igreja. Na Grega Antiga, 2.28 diz ἃ δεῖ γενέσθαι ἐπ᾿ ἐσχάτων τῶν ἡμερῶν, as coisas que devem acontecer nos últimos dias, e 2.45 diz ὁ θεὸς ὁ μέγας ἐσήμανε τῷ βασιλεῖ τὰ ἐσόμενα ἐπ᾿ ἐσχάτων τῶν ἡμερῶν. Em Teodocião, 2.29 e 2.45 dizem ἃ δεῖ γενέσθαι μετὰ ταῦτα, as coisas que devem acontecer depois destas. Apocalipse 1.1 diz ἃ δεῖ γενέσθαι ἐν τάχει. A observação de que João troca nos últimos dias por em breve é de G. K. Beale, em The Use of Daniel in Jewish Apocalyptic Literature and in the Revelation of St. John (1984).

18. Hebreus 1.2.

19. 1 João 2.18.

20. Daniel 2.34,45.

21. Apocalipse 11.15.

22. O verbo é σημαίνω, da família de σημεῖον, sinal. Aparece seis vezes no Novo Testamento, e quatro delas são de João: Jesus indicando por imagem o gênero de morte que teria (João 12.33 e 18.32), Jesus indicando a Pedro a morte com que glorificaria a Deus (João 21.19), e Apocalipse 1.1. Em Daniel 2.45, na Grega Antiga, é o mesmo verbo: ὁ θεὸς ὁ μέγας ἐσήμανε τῷ βασιλεῖ.

23. João 12.32.

24. Apocalipse 17.7.

25. Apocalipse 19.10; 22.9.

26. Justino Mártir, Diálogo com Trifão 81.4, por volta de 155 a 160: “havia entre nós um homem chamado João, um dos apóstolos de Cristo, que profetizou, numa revelação que lhe foi feita, que os que cressem no nosso Cristo passariam mil anos em Jerusalém”. É a atribuição mais antiga que chegou até nós, e vem de um autor que lia Apocalipse 20 como reinado futuro.

27. Irineu, Contra as Heresias IV.20.11, logo depois de citar Daniel 7.13-14: “João, o discípulo do Senhor, contemplando a vinda sacerdotal e gloriosa do seu reino, diz no Apocalipse: Voltei-me para ver a voz que falava comigo; e, voltado, vi sete candeeiros de ouro, e no meio dos candeeiros um semelhante a filho de homem”. Irineu não o chama de apóstolo; chama de discípulo do Senhor, título que usa para o autor do quarto evangelho.

28. Irineu, carta a Florino, preservada por Eusébio, História Eclesiástica V.20.6: ainda menino, ele ouviu Policarpo, bispo de Esmirna, contar “o seu convívio com João e com os outros que tinham visto o Senhor”.

29. Eusébio, História Eclesiástica VII.25.7 e 26, resumindo Dionísio de Alexandria, por volta de 250: “que quem escreveu estas coisas se chamava João, deve-se crer, pois ele o diz; mas quem ele era, não se vê”; e ainda: “o seu dialeto e a sua linguagem não são grego exato, mas ele usa idiotismos bárbaros e, em alguns lugares, solecismos”.

30. Eusébio, História Eclesiástica III.39.4-6. Papias lista o que diziam André, Pedro, Filipe, Tomé, Tiago, João e Mateus, e depois “o que dizem Aristião e o presbítero João, discípulos do Senhor”. Eusébio conclui que houve dois Joões na Ásia, com dois túmulos em Éfeso, e que “é provável que tenha sido o segundo, se alguém não quiser admitir que foi o primeiro, quem viu o Apocalipse”. No mesmo capítulo, III.39.12-13, ele chama Papias de homem “de entendimento muito limitado” por ensinar mil anos de reinado de Cristo sobre a terra.

31. João 1.1; 1 João 1.1; Apocalipse 19.13.

32. João 19.35.

33. 1 João 1.3.

34. Apocalipse 1.2.

35. Zacarias 12.10 na Septuaginta: ἐπιβλέψονται πρός με ἀνθ᾿ ὧν κατωρχήσαντο, olharão para mim porque insultaram. João 19.37 traz ὄψονται εἰς ὃν ἐξεκέντησαν, e Apocalipse 1.7, οἵτινες αὐτὸν ἐξεκέντησαν. Os dois textos joaninos seguem o hebraico, daqaru, traspassaram, contra o grego corrente.

36. Irineu, Contra as Heresias V.30.3, por volta de 180, falando da visão apocalíptica: “pois ela não foi vista há muito tempo, mas quase na nossa geração, perto do fim do reinado de Domiciano”. Eusébio, História Eclesiástica III.18.1, registra que naquela perseguição João “foi condenado a viver na ilha de Patmos por causa do seu testemunho da palavra divina”, e em III.20.11, que voltou do exílio e passou a morar em Éfeso depois da morte do imperador.

37. Apocalipse 17.10.

38. As sete bem-aventuranças do livro estão em 1.3; 14.13; 16.15; 19.9; 20.6; 22.7 e 22.14.

39. O grego tem o singular para quem lê e o plural para quem ouve: Μακάριος ὁ ἀναγινώσκων καὶ οἱ ἀκούοντες, bem-aventurado o que lê e os que ouvem. A ARA põe os dois no plural.

40. Neemias 8.3.

41. Neemias 8.8.

42. Lucas 4.16.

43. Colossenses 4.16.

44. 1 Tessalonicenses 5.27.

45. Apocalipse 22.7.

46. Lucas 21.8: πολλοὶ γὰρ ἐλεύσονται ἐπὶ τῷ ὀνόματί μου λέγοντες Ἐγώ εἰμι, καί Ὁ καιρὸς ἤγγικεν. A ARA traduz a segunda frase por Chegou a hora!. Apocalipse 1.3 tem ὁ γὰρ καιρὸς ἐγγύς, e 22.10 repete, ὁ καιρὸς γὰρ ἐγγύς ἐστιν. É o mesmo substantivo e a mesma raiz de perto.

47. Lucas 21.8.

48. Marcos 1.15.

49. Romanos 13.12.

50. Tiago 5.8.

51. 1 Pedro 4.7.

52. 2 Pedro 3.9.

53. Romanos 1.7.

54. Gálatas 1.3.

55. Apocalipse 2.7,11,17,29; 3.6,13,22.

56. Êxodo 3.14.

57. Apocalipse 3.1.

58. Apocalipse 4.5.

59. Apocalipse 5.6.

60. Zacarias 4.10 na Septuaginta: ἑπτὰ οὗτοι ὀφθαλμοὶ κυρίου εἰσὶν οἱ ἐπιβλέποντες ἐπὶ πᾶσαν τὴν γῆν. Apocalipse 5.6: ὀφθαλμοὺς ἑπτά, οἵ εἰσιν τὰ ἑπτὰ Πνεύματα τοῦ Θεοῦ ἀπεσταλμένοι εἰς πᾶσαν τὴν γῆν. O final das duas frases é o mesmo: sobre toda a terra, por toda a terra.

61. Apocalipse 8.2.

62. Atos 2.33.

63. No Salmo 88 da Septuaginta, que é o 89 das nossas Bíblias, o versículo 28 diz κἀγὼ πρωτότοκον θήσομαι αὐτόν, ὑψηλὸν παρὰ τοῖς βασιλεῦσιν τῆς γῆς, e eu o farei primogênito, o mais alto entre os reis da terra; e o 38 diz ὁ μάρτυς ἐν οὐρανῷ πιστός, a testemunha no céu é fiel. Apocalipse 1.5 diz ὁ μάρτυς ὁ πιστός, ὁ πρωτότοκος τῶν νεκρῶν καὶ ὁ ἄρχων τῶν βασιλέων τῆς γῆς.

64. 1 Timóteo 6.13.

65. Colossenses 1.18.

66. 1 Coríntios 15.20.

67. Salmo 89.27.

68. Salmo 2.2.

69. Daniel 2.47.

70. Apocalipse 17.14.

71. O texto crítico, que a ARA segue, tem τῷ ἀγαπῶντι ἡμᾶς καὶ λύσαντι ἡμᾶς, ao que nos ama e nos libertou. O Texto Majoritário bizantino tem ἀγαπῶντι e λούσαντι, ao que nos ama e nos lavou. O Textus Receptus, que a Corrigida segue, tem ἀγαπήσαντι e λούσαντι, ao que nos amou e nos lavou; a ACF traduz Àquele que nos amou, e em seu sangue nos lavou dos nossos pecados.

72. Apocalipse 7.14.

73. Gálatas 2.20.

74. Êxodo 19.6.

75. 1 Pedro 2.9.

76. Apocalipse 5.10.

77. Apocalipse 20.6.

78. O texto crítico e o Majoritário têm ἐποίησεν ἡμᾶς βασιλείαν, ἱερεῖς, fez-nos reino, sacerdotes. Só o Textus Receptus tem βασιλεῖς καὶ ἱερεῖς, reis e sacerdotes, que é a leitura da Corrigida.

79. João 20.17.

80. Efésios 1.17.

81. Efésios 1.3.

82. Apocalipse 3.12.

83. Apocalipse 1.6.

84. Apocalipse 5.13.

85. Filipenses 2.11.

86. Mateus 24.30: κόψονται πᾶσαι αἱ φυλαὶ τῆς γῆς καὶ ὄψονται τὸν Υἱὸν τοῦ ἀνθρώπου ἐρχόμενον ἐπὶ τῶν νεφελῶν τοῦ οὐρανοῦ. Apocalipse 1.7: κόψονται ἐπ’ αὐτὸν πᾶσαι αἱ φυλαὶ τῆς γῆς. As palavras são as mesmas; a ARA traduz todos os povos da terra em Mateus e todas as tribos da terra no Apocalipse. Há ainda um detalhe fino: Mateus diz sobre as nuvens, como a Grega Antiga de Daniel 7.13 (ἐπὶ τῶν νεφελῶν), e João diz com as nuvens, como Teodocião (μετὰ τῶν νεφελῶν).

87. Mateus 26.64.

88. Marcos 14.62; Lucas 22.69.

89. Lucas 21.28.

90. Êxodo 19.16.

91. Atos 1.11.

92. 1 Tessalonicenses 4.17.

93. João 19.37.

94. Mateus 26.64.

95. João 5.28,29.

96. Daniel 12.2.

97. Apocalipse 20.12,13.

98. Apocalipse 1.18.

99. Apocalipse 21.6.

100. Apocalipse 22.13.

101. Apocalipse 3.12.

102. Apocalipse 2.28.

103. Filipenses 2.9.

104. 2 Coríntios 6.18.

105. Amós 3.13 na Septuaginta termina com λέγει κύριος ὁ θεὸς ὁ παντοκράτωρ, diz o Senhor Deus, o Todo-Poderoso; e Amós 4.13 e 5.8 terminam com κύριος ὁ θεὸς ὁ παντοκράτωρ ὄνομα αὐτῷ. Apocalipse 1.8 tem λέγει Κύριος ὁ Θεός … ὁ Παντοκράτωρ. O título aparece no Apocalipse em 1.8; 4.8; 11.17; 15.3; 16.7; 16.14; 19.6; 19.15 e 21.22, e no resto do Novo Testamento só em 2 Coríntios 6.18.

106. Apocalipse 19.15.

107. Apocalipse 21.22.

108. No grego, um só artigo governa os três substantivos: ἐν τῇ θλίψει καὶ βασιλείᾳ καὶ ὑπομονῇ, na tribulação e reino e perseverança, como um único conjunto.

109. Atos 14.22.

110. 2 Timóteo 2.12.

111. 2 Tessalonicenses 1.5.

112. Mateus 24.9.

113. Mateus 24.21.

114. Apocalipse 7.14.

115. Apocalipse 6.9.

116. Apocalipse 20.4.

117. Êxodo 20.10.

118. Isaías 58.13.

119. Marcos 2.28.

120. João 5.9,10; 9.14,16; 19.31.

121. O grego é ἐν τῇ κυριακῇ ἡμέρᾳ, com o adjetivo κυριακός, do Senhor. O Antigo Testamento grego diz o Dia do Senhor com o genitivo, ἡμέρα κυρίου, como em Amós 5.18: τὴν ἡμέραν κυρίου. O adjetivo só aparece mais uma vez no Novo Testamento, em 1 Coríntios 11.20, κυριακὸν δεῖπνον, a ceia do Senhor.

122. 1 Coríntios 11.20.

123. Didaquê 14.1, do fim do século I ou começo do II: “no dia do Senhor, reuni-vos, parti o pão e dai graças, depois de confessar as vossas transgressões, para que o vosso sacrifício seja puro”. Inácio, Aos Magnésios 9.1, por volta de 110: os que viviam na antiga ordem chegaram a uma nova esperança, “não mais guardando o sábado, mas vivendo segundo o dia do Senhor, no qual também a nossa vida surgiu por meio dele e da sua morte”.

124. Inácio, Aos Magnésios 9.1.

125. Atos 20.7.

126. 1 Coríntios 16.1,2.

127. 1 Tessalonicenses 5.2.

128. A mesma fórmula, ἐγενόμην ἐν πνεύματι ou ἐν πνεύματι com verbo de transporte, marca 1.10; 4.2; 17.3 e 21.10. As duas últimas introduções são paralelas palavra por palavra: transportou-me o anjo, em espírito, a um deserto e me transportou, em espírito, até a uma grande e elevada montanha, uma para mostrar a meretriz e a outra para mostrar a noiva.

129. Êxodo 19.16.

130. Mateus 24.31.

131. 1 Tessalonicenses 4.16.

132. 1 Coríntios 15.52.

133. Apocalipse 4.1.

134. Mishná, Rosh Hashaná 4.5, com redação por volta do ano 200: a oração do ano novo reúne as bênçãos de Realezas, Recordações e Shofarot, e o shofar é tocado depois delas, com uma discussão entre Rabi Yohanan ben Nuri e Rabi Akiva sobre tocá-lo depois das Realezas.

135. A observação de que a lista segue a ordem de uma estrada circular é de William M. Ramsay, The Letters to the Seven Churches of Asia (1904). Sobre as cidades, Tácito, Anais 2.47, registra que no ano 17 “doze cidades famosas da Ásia caíram por um terremoto durante a noite”, que o desastre foi mais fatal para Sardes, e inclui Filadélfia entre as socorridas; e em Anais 14.27, no ano 60, que Laodiceia, derrubada por um terremoto, “sem nenhum auxílio da nossa parte, se reergueu pelos seus próprios recursos”.

136. Atos 20.31.

137. Atos 16.14.

138. Apocalipse 2.13.

139. Apocalipse 3.17.

140. O grego diz ἐπέστρεψα βλέπειν τὴν φωνὴν, voltei-me para ver a voz. Há uma expressão parecida no hebraico de Êxodo 20.18, onde o povo, diante do Sinai, literalmente vê as vozes; a ARA traduz presenciou os trovões. Irineu, no fim do século II, cita o versículo assim mesmo: voltei-me para ver a voz.

141. Êxodo 25.37.

142. Mateus 5.14.

143. Mateus 5.15.

144. Filipenses 2.15.

145. Apocalipse 2.5.

146. Atos 7.56.

147. Apocalipse 14.14.

148. Apocalipse 2.1.

149. Mateus 28.20.

150. O grego é ποδήρης, a túnica que desce até os pés. Na Septuaginta, é a palavra da veste do sumo sacerdote em Êxodo 28.4, τὸν ποδήρη; da roupa limpa dada ao sumo sacerdote Josué em Zacarias 3, ἐνδύσατε αὐτὸν ποδήρη; e da roupa do homem de Ezequiel 9.2 que marca a testa dos fiéis, ἐνδεδυκὼς ποδήρη.

151. Em Daniel 10.5, o hebraico diz motnayim, os lombos, e Teodocião também, ἡ ὀσφὺς αὐτοῦ περιεζωσμένη ἐν χρυσίῳ Ὀφαζ. A ARA traduz ombros.

152. Apocalipse 15.6.

153. Hebreus 4.14.

154. Hebreus 8.1.

155. Daniel 7.14.

156. João 5.27.

157. Daniel 10.6.

158. Apocalipse 2.23.

159. Hebreus 4.13.

160. 2 Tessalonicenses 1.7,8.

161. Daniel 10.6.

162. A palavra traduzida por bronze polido é χαλκολίβανον, que não aparece em nenhum texto grego anterior ao Apocalipse. Deve designar uma liga refinada de bronze, e o livro só a usa aqui e na carta a Tiatira, em 2.18.

163. Apocalipse 2.18.

164. Êxodo 27.1–6.

165. Êxodo 30.18; 38.8.

166. Números 21.8–9.

167. João 3.14.

168. Deuteronômio 28.23; ver também Levítico 26.19.

169. Jeremias 1.18.

170. Miqueias 4.13.

171. Ezequiel 1.7.

172. Apocalipse 2.18–23.

173. Apocalipse 19.15.

174. Daniel 10.6.

175. Ezequiel 43.2.

176. Ezequiel 1.24.

177. Salmo 29.3.

178. A Septuaginta de Ezequiel 43.2 não tem as muitas águas: diz φωνὴ τῆς παρεμβολῆς ὡς φωνὴ διπλασιαζόντων πολλῶν, a voz do acampamento como a voz de muitos que se multiplicam. João segue o hebraico, qol mayim rabbim, voz de muitas águas.

179. A moeda é um denário, com versão em ouro, cunhado por volta de 82 e 83 em nome de Domícia, mulher de Domiciano, com o filho do casal, morto ainda criança e declarado divino, sentado nu sobre o globo, com os braços estendidos e sete estrelas em volta (Roman Imperial Coinage II, Domiciano 209A e 213).

180. No grego de Apocalipse 2.1, ὁ κρατῶν τοὺς ἑπτὰ ἀστέρας ἐν τῇ δεξιᾷ αὐτοῦ: o verbo é κρατέω, segurar com força, reter.

181. João 10.28.

182. O grego é ῥομφαία δίστομος ὀξεῖα, uma espada longa, de lâmina larga, com dois gumes. A mesma palavra volta em 2.12, 2.16, 19.15 e 19.21.

183. Isaías 49.2.

184. Isaías 11.4.

185. 2 Tessalonicenses 2.8.

186. Efésios 6.17.

187. Apocalipse 2.13.

188. Apocalipse 2.16.

189. Apocalipse 19.15.

190. Juízes 5.31.

191. 2 Pedro 1.16.

192. 2 Coríntios 4.6.

193. Mateus 13.43.

194. 1 João 3.2.

195. Isaías 6.5.

196. Ezequiel 1.28.

197. Mateus 17.6.

198. Mateus 17.7.

199. O imperativo presente com negação, μὴ φοβοῦ, costuma ter no grego o sentido de interromper algo que já está acontecendo: para de ter medo.

200. Isaías 41.4.

201. Isaías 48.13.

202. Isaías 46.10.

203. Na Septuaginta, Isaías evita a palavra último nos três lugares: 41.4, ἐγὼ θεὸς πρῶτος καὶ εἰς τὰ ἐπερχόμενα ἐγώ εἰμι; 44.6, ἐγὼ πρῶτος καὶ ἐγὼ μετὰ ταῦτα; 48.12, ἐγώ εἰμι πρῶτος καὶ ἐγώ εἰμι εἰς τὸν αἰῶνα. João escreve ὁ πρῶτος καὶ ὁ ἔσχατος, que traduz o hebraico rishon e aharon.

204. Gênesis 1.1.

205. Colossenses 1.17.

206. 1 Coríntios 8.6.

207. Hebreus 1.2.

208. João 17.5.

209. João 8.58.

210. Salmos 102.25–27.

211. Hebreus 13.8.

212. Isaías 22.22.

213. Apocalipse 3.7.

214. Mateus 16.18.

215. A ARA traduz a mesma palavra grega, ᾅδης, por inferno em 1.18, 6.8 e 20.14, e por além em 20.13. É o lugar dos mortos, o sheol do Antigo Testamento, e não o lago de fogo, para onde a morte e o próprio Hades são lançados em 20.14.

216. As Escrituras não descrevem em detalhe como é o hades. Em Lucas 16.23 ele aparece como lugar de tormento para o rico, e há debate sobre a situação dos justos. O argumento de 1.18 não depende dessa geografia: basta que seja o lugar onde os mortos ficam retidos.

217. Jó 38.17.

218. Isaías 38.10.

219. Apocalipse 6.8.

220. Apocalipse 20.13.

221. Apocalipse 20.14.

222. Salmos 16.10; Atos 2.27. Onde a ARA traz morte, o hebraico do salmo tem sheol e o grego de Atos tem hades.

223. Atos 2.31.

224. Apocalipse 2.10.

225. João 5.28–29.

226. Oseias 13.14. É desse versículo que Paulo tira a pergunta de 1 Coríntios 15.55.

227. 1 Coríntios 15.26.

228. Talmude Babilônico, Taanit 2a, em nome de Rabi Yohanan, mestre do século III: “Três chaves estão na mão do Santo, bendito seja, e não foram entregues a um intermediário: a chave da chuva, a chave do parto e a chave da ressurreição dos mortos”.

229. João 5.26.

230. João 5.21.

231. Hebreus 2.14,15.

232. 1 Coríntios 15.55.

233. Apocalipse 2.10.

234. Apocalipse 4.1.

235. Daniel 2.47.

236. Efésios 3.4–6.

237. Colossenses 1.26.

238. Apocalipse 4.5.

239. Apocalipse 5.8.

240. Apocalipse 12.9.

241. Apocalipse 17.9,10.

242. Apocalipse 17.15.

243. Apocalipse 17.18.

244. Apocalipse 19.8.

245. Mateus 18.10.

246. Malaquias 2.7.

247. Apocalipse 2.4.

248. O verbo é o mesmo nos dois textos. Daniel 12.4 em Teodocião: σφράγισον τὸ βιβλίον ἕως καιροῦ συντελείας, sela o livro até o tempo do fim. Apocalipse 22.10: Μὴ σφραγίσῃς τοὺς λόγους τῆς προφητείας τοῦ βιβλίου τούτου· ὁ καιρὸς γὰρ ἐγγύς ἐστιν.

249. 1 Pedro 1.12.

250. Apocalipse 22.6.

251. Daniel 2.45.

Citar este artigo: Prof. Philippe Ávila. “Estudo 01 (Apocalipse 1.1–20) · Jesus tem as chaves do inferno? Como interpretar o livro do Apocalipse?.” Bereano, set. 2026.© Prof. Philippe Ávila. Conteúdo protegido por direitos autorais. A reprodução é permitida apenas de forma parcial, sempre com citação do autor e da fonte (bereano.com).

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