Paulo preso numa casa alugada, e o livro acaba ali: por que Lucas não conta o fim
Para iniciarmos nosso estudo sobre o livro de Atos, comece por onde quase ninguém começa, que é pelo fim. Vá ao último capítulo de Atos e leia os dois últimos versículos. Paulo está em Roma, preso, morando numa casa alugada, e recebe quem quiser vir ouvi-lo. Prega o reino de Deus com toda a liberdade, sem que ninguém o impeça. E o livro acaba ali. Assim, sem mais nem menos.
Por dois anos, permaneceu Paulo na sua própria casa, que alugara, onde recebia todos que o procuravam, pregando o reino de Deus, e, com toda a intrepidez, sem impedimento algum, ensinava as coisas referentes ao Senhor Jesus Cristo.Atos 28.30–31
Repare no que não está escrito. Não se diz se Paulo foi julgado. Não se diz se foi solto ou condenado. Não se diz como morreu, e a tradição antiga da igreja é unânime em que ele morreu em Roma. Um autor que gastou quase todos os vinte e oito capítulos seguindo esse homem de cidade em cidade, que narrou naufrágio, açoite, tumulto e tribunal, simplesmente larga a história com o protagonista vivo e preso, e não volta mais.
Isso não é descuido de quem escreve. É a primeira pista que o livro nos dá sobre si mesmo, e ela vale por muitas. Se Lucas parou ali, é razoável supor que ali era o presente dele: ele escreveu enquanto o processo ainda corria, e não tinha desfecho para contar porque ainda não havia desfecho. Essa é a leitura mais simples, e ela empurra a data do livro para o começo dos anos sessenta depois de Cristo. Há quem discorde e proponha data mais tarde. Mas a pergunta que interessa aqui é outra, e é mais bonita.
Por que um livro sobre a igreja termina sem terminar? Porque a história não acabou. Atos não é a biografia de Paulo, e por isso não precisa da morte dele para fechar. É o relato de como o evangelho saiu de uma sala em Jerusalém e chegou à capital do mundo da época, Roma, e essa viagem continua.
Quem escreveu Atos? O livro não assina, mas entrega o autor na primeira linha
O livro de Atos dos Apóstolos não traz assinatura. Na verdade nenhum dos evangelhos traz. Os nomes que estão nas nossas bíblias vêm da tradição antiga, e no caso de Lucas a tradição é firme e muito velha. Mas antes dela há coisa melhor, que é o que o próprio texto entrega.
Abra o Evangelho de Lucas e leia o começo:
Visto que muitos houve que empreenderam uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram, conforme nos transmitiram os que desde o princípio foram deles testemunhas oculares e ministros da palavra, igualmente a mim me pareceu bem, depois de acurada investigação de tudo desde sua origem, dar-te por escrito, excelentíssimo Teófilo, uma exposição em ordem, para que tenhas plena certeza das verdades em que foste instruído.Lucas 1.1–4
Agora leia o começo de Atos:
Escrevi o primeiro livro, ó Teófilo, relatando todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar…Atos 1.1
Duas obras, o mesmo destinatário, e a segunda chamando a primeira de primeiro livro. Não é preciso muito mais para saber que a mesma mão escreveu as duas. E há o resto, que só confirma. O vocabulário é o mesmo, com aquele gosto por termos precisos que um médico teria. O método é o mesmo, o de quem investiga, ouve testemunha e põe em ordem. E há os trechos em que o autor, sem aviso, troca eles por nós1 e passa a narrar de dentro, como quem estava no barco. Ele não diz o próprio nome em lugar nenhum. Mas se coloca na cena.
Paulo, escrevendo de uma prisão, manda lembranças de um companheiro e o chama de Lucas, o médico amado (Cl 4.14). Em outra carta, já no fim, Paulo diz que só Lucas está com ele (2Tm 4.11). Junte as duas pontas: alguém que viajava com Paulo, que estava com ele até o fim, e que escreve como profissional treinado a observar. A tradição antiga deu nome ao que o texto já sugeria: Lucas.
E note o que o prólogo do livro2 promete, porque é uma promessa incomum para um livro religioso. Lucas não diz que teve uma revelação. Diz que pesquisou. Diz que houve testemunhas oculares, que outros já haviam tentado escrever, que ele investigou tudo desde a origem e que está pondo em ordem. O objetivo, ele mesmo declara, é que o leitor tenha plena certeza das coisas em que foi instruído. Você tem nas mãos um relato que se oferece para ser conferido.
Teófilo perde o “excelentíssimo” entre um livro e outro, e a mudança conta uma conversão
Teófilo é o nome do destinatário do Evangelho de Lucas e de Atos dos Apóstolos, um nome grego que junta duas palavras, θεός (theós), “deus”, e φίλος (phílos), “amigo”, e quer dizer amigo de Deus ou amado por Deus. Como o sentido é tão limpo, sempre houve quem dissesse que Teófilo não era pessoa nenhuma, e sim um modo de Lucas se dirigir a todo leitor que ama a Deus. É uma leitura bonita, mas eu não a adoto, e não o faço por dois motivos concretos.
Primeiro: o nome existia mesmo no mundo greco-romano, e havia gente chamada assim, do mesmo jeito que hoje há gente chamada Amadeu e isso não significa que estamos dizendo que essa pessoa “ama a Deus”. Segundo, e mais forte: Lucas trata Teófilo por excelentíssimo3, e esse era tratamento de autoridade, não de devoção. O próprio Lucas usa a mesma palavra mais adiante, e nos dois casos ela vai para um governador romano:
Cláudio Lísias, ao excelentíssimo governador Félix, saúde.Atos 23.26
Paulo, porém, respondeu: Não estou louco, ó excelentíssimo Festo! Pelo contrário, digo palavras de verdade e de bom senso.Atos 26.25
Félix e Festo eram procuradores da Judeia. Se Teófilo recebe o mesmo tratamento, é provável que fosse homem de posição: um oficial, um administrador, alguém de peso na sociedade do seu tempo. E aqui aparece o detalhe. No Evangelho ele é excelentíssimo Teófilo. Em Atos é apenas Teófilo. O título caiu.
Mas muitos leem nesse detalhe um sinal de que, entre um livro e outro, a relação mudou. O homem que recebeu o primeiro volume como autoridade a ser convencida recebe o segundo já como irmão na fé. O tratamento cerimonioso deu lugar ao nome nu, que entre irmãos basta. Se for isso, então os dois livros de Lucas contam também uma história que não está narrada em lugar nenhum: a de um homem que foi persuadido.
Havia ainda uma razão prática para o nome estar ali. No mundo antigo, publicar custava caro. Não havia editora nem livraria: um livro se copiava à mão, rolo por rolo, e quem bancava a cópia e a circulação era um patrono. Dedicar a obra a ele era, ao mesmo tempo, cortesia e registro. Teófilo pode muito bem ter sido quem pagou para que estes dois livros existissem e chegassem às mãos de outros. Se foi, boa parte do que você tem na Bíblia chegou até aqui porque um homem de posses achou que valia a pena.
Dez metros de papiro: o limite material que partiu a obra de Lucas em dois livros
Nós recebemos os dois livros separados, e há um motivo material para isso. Um rolo de papiro tinha tamanho máximo, algo em torno de dez metros, e uma obra longa precisava ser dividida em volumes. Lucas escreveu uma obra em duas partes, e cada parte ocupou o seu rolo. Depois, quando os livros do Novo Testamento foram reunidos, o Evangelho foi para junto dos outros três evangelhos e Atos ficou sozinho do outro lado. A ordem em que lemos hoje é útil, mas separou o que nasceu junto.
Quando você junta de novo, aparecem coisas que sozinhas não se veem. A ascensão é a costura. Ela fecha o Evangelho e abre Atos: o mesmo episódio contado duas vezes, uma como ponto final e outra como ponto de partida. É o gesto de quem termina um volume repetindo a última cena no começo do seguinte, para o leitor reencontrar o fio.
E aparece um paralelo que atravessa os dois livros de ponta a ponta. No Evangelho, Jesus é ungido pelo Espírito, prega, cura, é rejeitado pelos seus, enfrenta as autoridades e sobe a Jerusalém para sofrer. Em Atos, a igreja é ungida pelo Espírito, prega, cura, é rejeitada, enfrenta as autoridades e caminha para o sofrimento. O segundo volume não conta uma história nova: conta a mesma história continuando em outro corpo, o da igreja.
É por isso que a primeira frase de Atos é tão importante, e nós vamos voltar a ela na aula seguinte. Lucas diz que no primeiro livro tratou de tudo o que Jesus começou a fazer e a ensinar. Começou. Se o Evangelho foi o começo, então Atos é a continuação, e o sujeito continua sendo o mesmo. Não é o livro dos atos dos apóstolos, apesar do título que a tradição lhe deu. É o livro do que Jesus continuou fazendo, agora pelo Espírito e por meio de gente comum.
Atos 1.8 é o índice do livro: Jerusalém, Judeia, Samaria e os confins da terra, nessa ordem
Todo livro bem construído diz cedo aonde vai. Atos diz no capítulo 1, no versículo 8, e diz pela boca de Jesus, nas últimas palavras antes de ele ser elevado. A promessa é de poder quando o Espírito Santo descer, e a tarefa é ser testemunha. E então vem a lista dos lugares, e a lista é o índice do livro: Jerusalém, depois toda a Judeia e Samaria, e daí até os confins da terra.
Guarde esses quatro degraus, porque o livro os cumpre na ordem. Os sete primeiros capítulos ficam em Jerusalém. Do capítulo 8 ao 12 a palavra se espalha pela Judeia e Samaria, e é ali que entram o eunuco etíope, a conversão de Saulo e a casa de Cornélio. Do capítulo 13 em diante começam as viagens, e o evangelho vai para a Ásia Menor, para a Grécia e por fim para Roma, ou seja, se iniciam os confins da terra. Quando o livro termina, Paulo está pregando na capital do império, e os confins da terra já não são uma promessa distante.
Atos não é manual de regras nem livro de heróis: o que ele cobra de quem senta para estudá-lo
Antes de abrir o primeiro capítulo, vale dizer em voz alta o que este livro é e o que ele não é, porque a expectativa errada estraga a leitura.
Atos não é um manual de regras da igreja. Ele narra o que aconteceu, e nem tudo o que aconteceu é ordem para nós. Há descrição e há prescrição, e confundir as duas produziu muita confusão na história cristã. Quando o livro conta que os primeiros cristãos vendiam bens e repartiam, ele está contando o que aqueles homens fizeram, e não baixando uma norma. Vamos precisar dessa distinção mais de uma vez pelo caminho.
Atos também não é o livro dos heróis. Os personagens erram, brigam e têm medo. Pedro vacila, Paulo e Barnabé se separam por causa de um moço, o apóstolo dos gentios precisa ouvir de Deus, à noite, que não tenha medo. Lucas poderia ter limpado tudo isso e preservado a memória dos grandes. Não limpou. Guarde esse traço, porque é ele que torna o livro utilizável por gente comum.
E o que ele é? É o relato de uma promessa sendo cumprida: o Espírito prometido desce, e a partir dali um punhado de galileus assustados atravessa o império. O sujeito da ação, do começo ao fim, é Deus. São os homens que pregam, viajam, apanham e escrevem cartas, mas quem abre portas, quem manda parar, quem envia e quem acrescenta é sempre ele.
Por isso a nossa leitura vai ser lenta. Vamos ler capítulo por capítulo, com o mapa ao lado, o dicionário aberto quando a palavra grega pesar, e o olho nos costumes daquele mundo. Vamos ouvir também como os judeus leram os mesmos textos, porque foram eles que os guardaram. E vamos parar, sempre que couber, para perguntar o que aquilo cobra de nós.
Uma última coisa, e é a razão de tudo. O livro termina sem final porque o autor esperava que a história continuasse. Ela continuou. Passou por perseguição, por concílios, por traduções, por gente anônima que copiou rolos à mão, e chegou até esta sala, em português, no seu colo. Você está lendo o capítulo 29, o hoje, porque a história da igreja não acabou.
Notas
1. Os quatro trechos em que o autor passa a escrever na primeira pessoa do plural, o chamado nós de Atos, são 16.10-17, 20.5-15, 21.1-18 e 27.1 a 28.16. Repare onde eles começam e terminam: em Trôade, quando Paulo cruza para a Macedônia; na volta pela mesma região; na subida a Jerusalém; e na viagem a Roma, naufrágio incluído. Foi desse mesmo traço que Irineu, ainda no século II, tirou o argumento de que Lucas “era inseparável de Paulo”, enfileirando as passagens em Contra as Heresias III.14.1.
2. Prólogo é a abertura formal de uma obra antiga, em que o autor dizia a quem escrevia, com que material trabalhara e para que servia o livro. Era convenção literária, não enfeite: o leitor grego esperava encontrá-la, e sabia lê-la.
3. κράτιστος (krátistos), traduzido por excelentíssimo, era tratamento de autoridade, não elogio genérico. O próprio Lucas o usa mais adiante em cartas e discursos dirigidos a governadores romanos, como se lê nos dois exemplos citados logo abaixo.