Três versículos de prólogo que quase ninguém lê, e que decidem o resto do livro
Escrevi o primeiro livro, ó Teófilo, relatando todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar até ao dia em que, depois de haver dado mandamentos por intermédio do Espírito Santo aos apóstolos que escolhera, foi elevado às alturas. A estes também, depois de ter padecido, se apresentou vivo, com muitas provas incontestáveis, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando das coisas concernentes ao reino de Deus.Atos 1.1–3
Os três primeiros versículos de Atos são o trecho mais pulado do livro, e são o trecho que decide como o resto do próprio livro se lê. Vale, de fato, gastar uma aula inteira neles. Comece pelo formato. Uma obra grega em vários volumes abria cada volume novo com um resumo do anterior, endereçado à mesma pessoa. É exatamente o que Lucas faz, e a prova está no começo do primeiro volume, que é o Evangelho de Lucas:
Visto que muitos houve que empreenderam uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram conforme nos transmitiram os que desde o princípio foram deles testemunhas oculares e ministros da palavra 3 igualmente a mim me pareceu bem, depois de acurada investigação de tudo desde sua origem, dar-te por escrito, excelentíssimo Teófilo, uma exposição em ordem para que tenhas plena certeza das verdades em que foste instruído.Lucas 1.1–4
Mesmo destinatário, mesmo autor, mesma obra. O Evangelho e os Atos são um livro só em dois tomos, e quem os lê separados perde metade do argumento. E repare no tratamento: excelentíssimo Teófilo1. No grego é κράτιστε, e Lucas usa essa mesma palavra outras três vezes no segundo volume, sempre dirigida a governadores romanos: na carta de Lísias a Félix, na saudação de Tértulo e na resposta de Paulo a Festo, que examinamos nos estudos de Atos 23, 24 e 26.
Isso diz alguma coisa sobre quem era Teófilo, e é preciso dizer também o que não diz. O tratamento indica posição oficial, e o versículo 4 indica que o homem já tinha sido instruído na fé. Quem ele era, que cargo ocupava e por que Lucas escreveu para ele, o texto não conta, e ninguém sabe. Há quem leia o nome como símbolo, porque Teófilo significa amigo de Deus; contra isso pesa o tratamento oficial, que ninguém daria a um símbolo. Fica assim, e é honesto deixar assim.
Lucas escreveu que Jesus apenas *começou*, e essa palavra muda o livro inteiro
Agora a primeira das três expressões que sustentam esta aula vemos no começo do livro de Atos. O autor diz que ao escrever o primeiro tomo descreveu o que Jesus começou a fazer e a ensinar. O grego traz ἤρξατο2, aoristo do verbo começar. Ou seja, Lucas não escreveu que o primeiro livro contava o que Jesus fez e ensinou. Escreveu que contava o que ele começou a fazer e a ensinar.
Se aquilo foi o começo, este livro, portanto, é a continuação. Não é a história da igreja substituindo Jesus na ausência dele; é a mesma obra prosseguindo por outro meio. Foi por isso que gerações de leitores propuseram para o livro títulos como os Atos do Espírito Santo ou os Atos de Jesus continuados: nenhum deles é o título antigo, mas todos tentam dizer o que o verbo do versículo 1 já disse.
Fazer antes de ensinar: a ordem das duas palavras não é acidental
Repare na sequência dos dois verbos que começa o livro de Atos: fazer e a ensinar. Exatamente nessa ordem.
Lucas conheceu Jesus pela pesquisa, ouvindo testemunhas oculares, e quando foi resumir o ministério inteiro em duas palavras, pôs a ação na frente. Não é que o ensino venha depois no tempo; é que ele vem depois na ordem da frase, e a frase é a síntese. Ele esta dizendo que o Evangelho, antes de ser um conjunto de doutrinas, é um modo de viver. Jesus fazia, e então explicava o que tinha feito. Lavou os pés e depois perguntou se tinham entendido. Comeu com publicanos e depois contou a parábola do filho que voltou. Curou no sábado e depois discutiu o sábado.
E vale dizer à igreja o que essa ordem cobra, porque nós a invertemos com facilidade infelizmente muitas vezes. É possível montar uma congregação inteira sobre o segundo verbo – fazer -: aulas, séries, apostilas, cursos, e nenhum dos alunos visitando ninguém. O prólogo de Atos não permite essa divisão. Aquele homem foi resumido por fazer e ensinar, e a igreja que continua a obra dele continua as duas coisas ou não continua nenhuma. Não adianta só ensinar, se primeiro não for feito. Esse era o padrão de Jesus.
As últimas ordens de Jesus vieram “por intermédio do Espírito Santo”
A segunda expressão está no versículo 2, e é a mais carregada de doutrina em todo o prólogo: diz o texto que os mandamentos foram dados por intermédio do Espírito Santo. O poder não estava em Jesus. O conhecimento não estava em Jesus. O poder estava no Espírito sobre ele. A doutrina estava vindo do Espírito pelo qual Jesus havia sido ungido. Jesus era, na terra, comum como qualquer homem. O grego é διὰ πνεύματος ἁγίου3, com a preposição que marca o meio pelo qual algo se dá. O sujeito é humano e obediente; o agente é Deus. Essa construção não é novidade nenhuma na Escritura. É a forma antiga de dizer que Deus fala pelo seu Espírito através dos homens que escolhe:
O Espírito do Senhor fala por mim; a sua palavra está na minha língua.2 Samuel 23.2
porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens [santos] falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo.2 Pedro 1.21
Isaías escreve o mesmo Jesus vai ler essa frase voz alta, na sinagoga de Nazaré, para se aplicar a si mesmo: o Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu – ele diz.
Do Espírito por Jesus, e de Jesus pelos apóstolos: a corrente que Lucas desenha
Vale ver o que o versículo 2 está fazendo na estrutura da obra, porque ele é uma emenda entre dois volumes e uma emenda entre duas etapas. O primeiro volume termina exatamente onde o segundo começa. É a mesma cena, contada duas vezes, veja:
A seguir, Jesus lhes disse: São estas as palavras que eu vos falei, estando ainda convosco: importava se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. Então, lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras; e lhes disse: Assim está escrito que o Cristo havia de padecer e ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia e que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações, começando de Jerusalém. Vós sois testemunhas destas coisas. Eis que envio sobre vós a promessa de meu Pai; permanecei, pois, na cidade, até que do alto sejais revestidos de poder.Lucas 24.44–49
Compare com Atos 1.4-8 e conte quantas coisas se repetem: a promessa do Pai, a ordem de permanecer na cidade, o poder que vem do alto, o testemunho e o começo por Jerusalém. São as mesmas instruções, ditas duas vezes, uma no fim de um livro e outra no começo do seguinte. Lucas costurou os dois volumes com a mesma linha.
E dá para listar as ordens daqueles quarenta dias, porque os dois textos juntos as entregam por inteiro. Primeira: esperar a promessa do Pai. Segunda: ser testemunhas até aos confins da terra. Terceira: pregar em seu nome arrependimento e remissão de pecados a todas as nações, começando de Jerusalém. É todo o programa da igreja em três linhas, e nenhuma delas fala de organização, de prédio ou de calendário.
Agora repare no que muda de lugar entre um volume e outro, que é o ponto desta seção. No Evangelho, o Espírito age através de Jesus: ele é cheio do Espírito, guiado pelo Espírito, ungido pelo Espírito, e as obras são de Deus por intermédio dele. Em Atos, o Espírito age através dos apóstolos e discípulos, eles são cheios do Espírito, guiados pelo Espírito, ungidos pelo Espírito, e as obras são de Deus por intermédio deles.
O versículo 2 é a dobradiça dessa troca, e por isso ele traz as duas coisas na mesma frase: ele deu mandamentos por intermédio do Espírito Santo aos apóstolos que escolhera. O agente que o movia é o mesmo que vai mover os que ele escolheu, e essa é a única razão pela qual a obra pode continuar depois que ele sobe.
Lucas já tinha respondido quatro vezes de onde vinha aquele poder
Quem lê o versículo 2 e estranha não leu o primeiro volume com atenção, porque o autor vinha dizendo a mesma coisa desde o capítulo 4 do Evangelho.
Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão e foi guiado pelo mesmo Espírito, no deserto,Lucas 4.1
Então, Jesus, no poder do Espírito, regressou para a Galileia, e a sua fama correu por toda a circunvizinhança.Lucas 4.14
O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos,Lucas 4.18
Naquela hora, exultou Jesus no Espírito Santo e exclamou: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado.Lucas 10.21
Cheio do Espírito. Guiado pelo Espírito. No poder do Espírito. O Espírito sobre ele. Exultando no Espírito. Cinco cenas, e em todas o mesmo agente por trás do que ele faz. E o retrato se completa na descrição que Pedro dá do ministério inteiro, anos depois, na casa de Cornélio:
Como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder, o qual andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele.Atos 10.38
Repare na última cláusula, porque ela é a explicação de tudo o que veio antes na frase: ele curou a todos os oprimidos porque Deus era com ele. Não é um poder próprio sendo exercido. É Deus estando com um homem. Ele foi ungido com o Espírito e por isso agia com poder.
E é assim que Pedro apresenta Jesus na primeira pregação cristã da história, em Pentecostes, diante de gente que tinha visto os milagres acontecerem:
Varões israelitas, atendei a estas palavras: Jesus, o Nazareno, varão aprovado por Deus diante de vós com milagres, prodígios e sinais, os quais o próprio Deus realizou por intermédio dele entre vós, como vós mesmos sabeis;Atos 2.22
A fórmula é a mesma do prólogo, e vale sublinhar quanto: os sinais foram realizados pelo próprio Deus, e foram realizados por intermédio dele. Pedro está pregando a testemunhas oculares, gente que poderia contradizê-lo na hora, e é assim que ele descreve o que aquelas pessoas viram. O próprio Jesus disse isso a respeito de si com todas as letras, e mais de uma vez.
Não crês que eu estou no Pai e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, faz as suas obras.João 14.10
Agora, eles reconhecem que todas as coisas que me tens dado provêm de ti;João 17.7
E, quando quis explicar de onde vinha a autoridade sobre os demônios, escolheu uma imagem que não deixa dúvida sobre a fonte: “se eu expulso os demônios pelo dedo de Deus, é chegado a vós o reino de Deus”.
Jesus soube o que eles pensavam, e Eliseu também soube
Os Evangelhos registram que Jesus sabia o que os outros pensavam, sabia onde estava Natanael antes de vê-lo, sabia da vida da mulher samaritana. E a leitura devocional automática chama isso equivocadamente de onisciência. Contudo, a Escritura já tinha registrado a mesma coisa a respeito de um profeta, séculos antes:
Porém ele lhe disse: Porventura, não fui contigo em espírito quando aquele homem voltou do seu carro, a encontrar-te? Era isto ocasião para tomares prata e para tomares vestes, olivais e vinhas, ovelhas e bois, servos e servas?2 Reis 5.26
Eliseu descreve uma cena a que não esteve presente, com detalhe de quem viu. Ninguém chamou isso de onisciência, e com razão: é revelação, e revelação é conhecimento que chega de fora. E o mesmo livro dá o outro lado, no capítulo anterior4. Diante da sunamita desesperada, o mesmo Eliseu diz que o Senhor lhe encobriu a causa e não lha manifestou. O profeta que sabia o que se passava a quilômetros não sabia o que estava chorando aos pés dele, e o texto explica por quê: aquilo não lhe foi mostrado.
É esse o formato do conhecimento profético. Sabe-se o que é dado; não se sabe o que não é dado. E existe uma frase de Jesus que se encaixa exatamente nesse formato:
Mas a respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão o Pai.Mateus 24.36
Vale expor as duas leituras por inteiro, porque as duas existem e as duas são defendidas por gente séria5. A leitura trinitária clássica – a qual não concordo – explica o versículo pela distinção de naturezas: ele ignorava segundo a natureza humana e sabia segundo a natureza divina. É solução antiga, coerente dentro do próprio sistema, e não deve ser tratada com desprezo.
Já a leitura que esta série segue não precisa dessa distinção, e é aí que ela ganha em simplicidade: o conhecimento dele é o conhecimento que o Espírito lhe dá, exatamente como em Eliseu. O que lhe foi revelado, ele sabe; o dia e a hora não lhe foram revelados, e ele diz isso sem constrangimento nenhum. Onde eu fico é na segunda, e o motivo é o próprio versículo: a frase o põe numa lista de quem não sabe, entre os anjos e o Pai, e a lista não teria sentido se ele soubesse por outra via ao mesmo tempo em que dizia não saber.
O homem cheio do Espírito: o que muda para quem lê os evangelhos assim
Junte as peças e o retrato que Lucas monta fica inteiro. Jesus não age por conta própria em lugar nenhum do primeiro volume. Ele é cheio do Espírito, guiado pelo Espírito, ungido pelo Espírito, e as obras são de Deus por intermédio dele. Ele é o ungido, que é o que a palavra Messias quer dizer.
E é preciso ver o que isso faz com o leitor das Escrituras, porque não é assunto de sala de aula. Se aquele homem fez o que fez por um poder que era só dele, então a vida dele é admirável e não é imitável, e a igreja fica reduzida a aplaudir de longe. Se ele fez o que fez como homem pleno do Espírito de Deus, então a promessa do versículo 8 é uma promessa de verdade, e não uma figura de linguagem.
Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra.Atos 3.8
Foi ele mesmo quem tirou a conclusão, e ela é grande demais para ser lida depressa:
Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço e outras maiores fará, porque eu vou para junto do Pai.João 14.12
Repare na razão que ele dá, porque não é a que se esperaria. As obras maiores não vêm de os discípulos serem melhores. Vêm de ele ir para junto do Pai, e o livro de Atos existe para contar o que aconteceu depois que ele foi.
Provas incontestáveis: a fé cristã não começou com um sentimento
O versículo 3 traz uma expressão técnica, e ela é a única ocorrência dessa palavra em todo o Novo Testamento: provas incontestáveis.
A estes também, depois de ter padecido, se apresentou vivo, com muitas provas incontestáveis, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando das coisas concernentes ao reino de Deus.João 1.3
No grego é τεκμήριον6, termo do vocabulário jurídico e médico: prova demonstrativa, indício que fecha a questão. É palavra de tribunal, não de púlpito. E Lucas, que abriu o primeiro volume falando em acurada investigação, escolheu-a de propósito. A ênfase de toda a pregação apostólica está aí, e ela é sempre a mesma: Jesus vive. Não existe dúvida nenhuma sobre isso. Não que a memória dele permaneceu, não que o exemplo dele inspirou, não que ele voltou de algum modo espiritual. Ele apareceu vivo, tangível, reconhecível, e comeu com eles.
A este Jesus Deus ressuscitou, do que todos nós somos testemunhas.Atos 2.32
O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos, e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da vida1 João 1.1
Ouvido, visto, contemplado, apalpado. João empilha quatro verbos de sentido físico numa frase só, e quem faz isso está respondendo a alguém que disse que não foi bem assim. Parece que ele esta trazendo fundamentos para um debate. E há também o testemunho de Paulo, escrito por volta de vinte e cinco anos depois dos fatos, que é o documento mais antigo que temos sobre a ressurreição:
Antes de tudo, vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. E apareceu a Cefas e, depois, aos doze. Depois, foi visto por mais de quinhentos irmãos de uma só vez, dos quais a maioria sobrevive até agora; porém alguns já dormem. Depois, foi visto por Tiago, mais tarde, por todos os apóstolos e, afinal, depois de todos, foi visto também por mim, como por um nascido fora de tempo.1 Coríntios 15.3–8
Guarde a cláusula do versículo 6, porque ela é a mais ousada da lista: a maioria sobrevive até agora. Paulo está escrevendo a uma igreja grega, sobre quinhentas testemunhas vivas, num tempo em que se podia atravessar o Mediterrâneo e ir conferir. Ninguém escreve isso sobre um episódio inventado.
E é bom que a igreja saiba disso, porque a acusação de que a fé cristã é sentimento sem base não vem de hoje. Eles não creram no vazio. Viram, tocaram e comeram com ele, e a primeira pregação foi feita na cidade onde estava o túmulo, seis semanas depois, diante de quem podia desmentir.
Quarenta dias entre a ressurreição e a nuvem, e sabemos onde ele os passou
O prazo do versículo 3 é dado com precisão: durante quarenta dias.
A estes também, depois de ter padecido, se apresentou vivo, com muitas provas incontestáveis, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando das coisas concernentes ao reino de DeusJoão 3.1
Quarenta é o número que a Escritura guarda para as travessias7. Quarenta dias de dilúvio. Quarenta anos de Israel no deserto. Quarenta dias de Moisés no Sinai. Quarenta dias de Elias a caminho de Horebe. Quarenta dias de jejum de Jesus antes de começar o ministério. Em todos, um estado termina e outro começa, e o meio é de prova e de preparo. Aqui a travessia é entre duas presenças. De um lado, a presença física daquele homem, que se pode ver, ouvir e tocar. Do outro, a presença do Espírito de Deus na igreja, que não se vê e que não vai embora. Os quarenta dias são a passagem de uma para a outra, e é por isso que a instrução daqueles dias é toda sobre o que vem depois.
Nesse tempo Jesus apresentou-se vivo, deu provas, ensinou sobre o reino, comeu com eles e deu ordens. Nenhum milagre novo é registrado. Nenhuma multidão. Nenhuma aparição pública a quem o condenou. Quarenta dias com os seus, formando quem ia continuar.
O assunto daqueles quarenta dias foi um só, e não era o que se espera
O que ele ensinou está dito com todas as letras: falando das coisas concernentes ao reino de Deus. Não foi organização de igreja. Não foi calendário profético. Não foi doutrina sobre si mesmo. Foi o reino, que é o assunto com que ele tinha começado a pregar na Galileia. E o reino de Deus, nos Evangelhos, não é sentimento nem experiência interior: é governo. É Deus reinando de fato sobre a vida humana, com um rei que ele constituiu, e o anúncio de que esse reino está aberto a quem entrar.
Guarde isso, porque o livro de Atos, vai fechar no mesmo assunto8. O último versículo de Atos mostra Paulo, preso numa casa alugada em Roma, pregando também sobre reino de Deus. O que abre e o que fecha a obra é a mesma coisa, e ver as duas pontas juntas muda a leitura de tudo o que está no meio. Um novo reino, como um rei reinando, sempre foi a pregação do começo ao fim.
Esperem na cidade onde o mataram
E, comendo com eles, determinou-lhes que não se ausentassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai, a qual, disse ele, de mim ouvistes. Porque João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias.Atos 1.4–5
A ordem é dupla, e a primeira metade dela é mais dura do que parece: que não se ausentassem de Jerusalém. Pense em onde aquela gente estava. Jerusalém é a cidade em que o mestre deles foi preso de noite, julgado de madrugada e executado em público seis semanas antes. É a cidade do Sinédrio que o condenou, e das autoridades que continuavam nos cargos. Todos eles eram galileus, e tinham casa a cento e tantos quilômetros dali. Mas a ordem foi ficar. Não pregar ainda, não fugir, não voltar para casa: ficar parado, na cidade mais perigosa do mundo para eles, esperando. Havia trabalho urgente a fazer, havia um mundo inteiro sem saber, e a ordem foi esperar. Uma obra que começa antes da hora não é obra adiantada; é obra sem o poder que a sustentaria, e a única coisa que aqueles homens tinham naquele momento era convicção, que não bastava.
“A promessa do Pai”: de quem ela é, e quem a derrama
Repare no nome que ele dá ao que estava por vir: a promessa do Pai. Não é a promessa dele. É do Pai, e ele diz em seguida que a comunicou: a qual, disse ele, de mim ouvistes. A mesma estrutura do versículo 2 aparece aqui outra vez. A coisa vem do Pai; ele é quem a anuncia e quem a entrega. E isso não é dedução: Pedro descreve o mecanismo inteiro em Pentecostes, no mesmo dia em que a promessa se cumpre.
Exaltado, pois, à destra de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vedes e ouvis.Atos 2.33
Leia a ordem dos verbos9, porque ela é a doutrina inteira em uma linha. Foi exaltado. Recebeu do Pai. Derramou. Ele é o canal por onde o Espírito chega à igreja, e o Pai é a fonte de onde o Espírito vem. É a mesma corrente que aparece em Éfeso, quando doze homens que só conheciam o batismo de João recebem o Espírito.
“Não muito depois destes dias”: a única data que ele deu
Porque João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias.Atos 1.5
O versículo 5 põe lado a lado dois batismos, e a comparação é do próprio João Batista: João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo. Aquela frase tinha sido dita à beira do Jordão, anos antes, por um homem que já estava morto quando isto foi falado. Jesus a está cobrando de volta como quem cobra uma dívida que vai vencer. O tempo chegou. E repare no único dado de prazo que ele dá em todo o capítulo: não muito depois destes dias. É tudo. Não disse quantos dias, não disse a data, não disse o dia da semana. Disse que era logo. Guarde essa imprecisão, porque ela vai voltar em dois versículos, e ali ela vai virar doutrina.
“Senhor, é agora que restauras o reino a Israel?”
Então, os que estavam reunidos lhe perguntaram: Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel?Atos 1.6
Esta pergunta costuma ser tratada com condescendência, como se fosse ignorância de gente que não tinha entendido nada. Vale examinar melhor, porque a resposta que ele dá não corrige o que ela supõe. Comece por reconhecer de onde vinha a pergunta. A restauração do reino a Israel não era fantasia de discípulo obtuso: era o conteúdo da esperança de todo judeu piedoso, e era pedida em oração, todos os dias.
Existe uma oração judaica chamada de oração das Dezoito Bênçãos10 em que se pede, em bênçãos sucessivas, que Deus toque a grande trombeta pela liberdade e reúna os exilados dos quatro cantos da terra, que restaure os juízes como no princípio, e que faça brotar depressa o renovo de Davi. Ela é recitada três vezes ao dia pelos judeus.
Agora repare no que Jesus faz com a pergunta, porque é o ponto da seção. Ele não diz que a pergunta é errada. Não diz que o reino é só espiritual, nem que Israel saiu do plano, nem que eles entenderam tudo ao contrário. Ele responde sobre o quando, e sobre mais nada. Portanto, quem usa este versículo para provar que o reino literal foi cancelado está lendo uma correção que não está escrita. E quem o usa para montar um calendário de restauração está ignorando a única coisa que ele de fato respondeu. O texto trata do tempo, e cala sobre o resto.
A pergunta que ele se recusou a responder, e a que respondeu no lugar dela
Respondeu-lhes: Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou pela sua exclusiva autoridade;Atos 1.7
São duas palavras diferentes no grego11, e vale separá-las. Tempos é χρόνος, a duração que se mede em calendário. Épocas é καιρός, o momento oportuno, a ocasião marcada. Ele fecha as duas portas de uma vez: nem quanto falta, nem quando é. E fecha dizendo de quem é a informação: o Pai a reservou pela sua exclusiva autoridade. A expressão é forte, e ela repõe, no último dia do ministério terreno, exatamente o que Mateus 24.36 tinha registrado antes: há coisa que só o Pai sabe. Vale notar que aquela gente estava pedindo a informação à pessoa certa e ouviu que ela não estava disponível. Não é que fosse cedo demais para contar. É que não competia a eles saber.
“Mas recebereis poder”: a troca que ele faz dentro da mesma frase
mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra.Atos 1.8
Repare no que acontece entre o versículo 7 e o 8, porque é uma troca, e ela é o coração desta aula. Eles pediram uma data. Ele deu um trabalho. A conjunção mas é a dobradiça. Não vos compete saber, mas recebereis poder. A informação que eles queriam foi negada, e no lugar dela veio outra coisa, que era o que eles precisavam e não tinham pedido. A palavra é δύναμις12 (dunamis), poder efetivo, capacidade de realizar. É a mesma que Lucas usou para dizer que Jesus voltou da tentação no poder do Espírito, e a mesma da promessa do fim do primeiro volume, de serem revestidos de poder do alto. O poder que sustentou o ministério de Jesus é o poder prometido a eles. E note o que esse poder é “para”, porque a frase o define e a definição é estreita: a finalidade é para que sejam “minhas testemunhas”. Não é para prosperar, não é para vencer inimigo, não é para impressionar ninguém. É para depor sobre o que se viu.
A palavra grega é μάρτυρες13 (martyres), e naquele momento significava exatamente o que significa no fórum: quem viu e conta o que viu. O deslocamento do termo para o sentido de mártir, quem morre pelo testemunho, veio depois, e não deve ser lido para dentro deste versículo. Mas vale registrar por que a palavra mudou: ela mudou porque a coisa mudou. As testemunhas foram sendo mortas, e a primeira delas aparece sete capítulos adiante, com as vestes dos que a apedrejavam aos pés de um rapaz chamado Saulo. E o fim do versículo é o índice do livro inteiro: Jerusalém, Judeia e Samaria, até aos confins da terra. A obra segue essa ordem sem tropeço: os capítulos 1 a 7 em Jerusalém, 8 a 12 na Judeia e Samaria, e do 13 em diante o mundo, até o último capítulo, com a palavra sendo pregada em Roma sem que nada a impeça.
Uma nuvem o encobriu: três dados num versículo só
Ditas estas palavras, foi Jesus elevado às alturas, à vista deles, e uma nuvem o encobriu dos seus olhos.Atos 1.9
Três dados no mesmo versículo, e cada um faz um trabalho.
O primeiro: ditas estas palavras. Ele subiu logo depois de dar a ordem. A última coisa que aqueles homens ouviram da boca dele foi a incumbência, e a cena seguinte é o céu se fechando. Não houve tempo para perguntar mais nada.
O segundo: à vista deles. Lucas insiste no olho, e insiste porque escreve para estabelecer um fato. Não foi de noite, não foi a um só, não foi contado por terceiros.
O terceiro: uma nuvem o encobriu. A nuvem14 é a forma habitual com que a Escritura registra a presença de Deus sem descrevê-la: no Sinai, na coluna do deserto, enchendo o tabernáculo e o templo, e no monte da transfiguração, de onde sai a voz. Aqui ela não é meteorologia. É o modo antigo de dizer que a cena entrou onde o olho não acompanha.
Elias subiu, Eliseu ficou olhando, e o espírito passou adiante
Há um só outro lugar em toda a Escritura em que um servo de Deus é levado às alturas diante de testemunha ocular, e vale ler a cena inteira, porque Lucas está escrevendo por cima dela.
Havendo eles passado, Elias disse a Eliseu: Pede-me o que queres que eu te faça, antes que seja tomado de ti. Disse Eliseu: Peço-te que me toque por herança porção dobrada do teu espírito. Tornou-lhe Elias: Dura coisa pediste. Todavia, se me vires quando for tomado de ti, assim se te fará; porém, se não me vires, não se fará. Indo eles andando e falando, eis que um carro de fogo, com cavalos de fogo, os separou um do outro; e Elias subiu ao céu num redemoinho. O que vendo Eliseu, clamou: Meu pai, meu pai, carros de Israel e seus cavaleiros! E nunca mais o viu; e, tomando as suas vestes, rasgou-as em duas partes.2 Reis 2.9–12
Agora ponha as duas cenas lado a lado15 e conte as correspondências. O mestre é tomado às alturas. O discípulo precisa ver para receber, e a condição é dita com todas as letras: se me vires quando for tomado de ti. O que passa adiante é o espírito que estava sobre o primeiro. E o que Eliseu pede não é modéstia: porção dobrada é a linguagem da herança do primogênito na lei de Moisés, que recebia porção dobrada entre os irmãos. Ele está pedindo para herdar como filho mais velho do profeta.
Depois leia como o episódio termina:
Vendo-o, pois, os discípulos dos profetas que estavam defronte, em Jericó, disseram: O espírito de Elias repousa sobre Eliseu. Vieram-lhe ao encontro e se prostraram diante dele em terra.2 Reis 2.15
É o mesmo enredo de Atos, escrito séculos antes e em escala menor. Um sobe, o outro fica olhando, o espírito passa, e quem estava de fora reconhece pelo que passou a acontecer. Entre o capítulo 1 e o capítulo 2 de Atos, essa é exatamente a sequência. E há um detalhe no fim daquele capítulo que fecha o paralelo de um jeito quase cômico. Os discípulos dos profetas propõem mandar cinquenta homens valentes procurar Elias pelos montes e pelos vales, achando que o Espírito do Senhor o teria largado em algum lugar. Eliseu manda não enviar. Eles insistiram até constrangê-lo, foram, procuraram três dias e não acharam nada, e voltaram para ouvir dele: não vos disse que não fôsseis?
Guarde isso para o versículo 11 desta aula, porque a pergunta que os dois homens de branco fazem aos galileus é sobre esse mesmo impulso.
Dois homens de branco, e a pergunta que eles fazem é uma repreensão
E, estando eles com os olhos fitos no céu, enquanto Jesus subia, eis que dois varões vestidos de branco se puseram ao lado deles e lhes disseram: Varões galileus, por que estais olhando para as alturas? Esse Jesus que dentre vós foi assunto ao céu virá do modo como o vistes subir.Atos 1.10–11
Repare primeiro que são dois16, e que Lucas faz isso de propósito. Dois homens no monte da transfiguração, Moisés e Elias. Dois varões com vestes resplandecentes no sepulcro vazio. Dois varões vestidos de branco aqui. A lei exigia duas testemunhas para estabelecer um fato, e Lucas escreve para quem sabia disso. Depois repare em como ele descreve a postura dos discípulos: com os olhos fitos no céu. Não é olhar de relance. É olhar parado, esticado, de quem não consegue baixar a cabeça. E então vem a pergunta: por que estais olhando para as alturas?
É preciso ler essa pergunta pelo tom certo. Ninguém está sendo censurado por ter olhado; qualquer um teria olhado. A pergunta é o modo de interromper, e o que ela interrompe é aquele impulso antigo de ir atrás de quem foi levado, o mesmo que pôs cinquenta homens valentes procurando Elias pelos montes por três dias. E note como eles são chamados: varões galileus. Não discípulos, não apóstolos, não santos. Galileus, que era como se dizia caipira naquele tempo, e é exatamente o que a multidão vai dizer daqueles homens sete versículos e alguns dias depois, quando eles começarem a falar em outras línguas: não são galileus todos esses que aí estão falando? O céu se abriu, dois seres celestiais desceram, e a palavra que usaram para chamar aquela gente foi a que os vizinhos usavam para debochar deles.
“Virá do modo como o vistes subir”: quanto essa frase amarra
A promessa é a última frase do trecho: virá do modo como o vistes subir. O grego é ὃν τρόπον17, do modo como, da mesma maneira que. A expressão qualifica o modo, e não a data nem o lugar. Então conte o que estava no modo, porque é o que a promessa cobre. Foi ele mesmo, em pessoa, e não um substituto nem um símbolo. Foi corporalmente, e não em espírito. Foi visivelmente, diante de olhos abertos. E foi com nuvem. E conte o que não estava, porque é o que a promessa não cobre. Não há data. Não há prazo. O versículo 11 não responde nada do que o versículo 7 já tinha recusado a responder, e é bom que a igreja repare nisso: a mesma conversa que proíbe calcular o tempo termina prometendo o retorno. As duas coisas foram ditas na mesma manhã, ao mesmo grupo, com quatro versículos de intervalo.
E o versículo seguinte registra o que aqueles homens fizeram com a pergunta: voltaram para Jerusalém. O monte Olival ficava da cidade tanto como a jornada de um sábado18, que era a medida do limite permitido no dia de descanso, dois mil côvados, coisa de novecentos metros. Baixaram os olhos e andaram menos de um quilômetro, de volta para a cidade onde lhes fora ordenado esperar.
Ele tinha avisado que ia subir, e ninguém entendeu na hora
Nada daquilo foi improviso, e o primeiro volume não é o único a registrar. No Evangelho de João, Jesus fala da própria subida como coisa combinada de antemão:
Vim do Pai e entrei no mundo; todavia, deixo o mundo e vou para o Pai.João 16.28
A frase tem quatro movimentos e desenha a trajetória inteira: veio do Pai, entrou no mundo, deixa o mundo, vai para o Pai. Saiu de junto de Deus e volta para junto de Deus.
A glória que ele tinha antes que houvesse mundo
O versículo 2 diz que ele foi elevado às alturas, e agora é preciso perguntar para onde. A resposta parece óbvia e não é, e é aqui que esta aula chega ao ponto que dá nome a ela. Comece pelo que a Escritura afirma sobre o antes. Jesus não começou a existir em Belém. O tratado sobre um só Deus, o Pai percorre esse terreno com vagar; aqui basta o que Atos 1 exige.
E, agora, glorifica-me, ó Pai, contigo mesmo, com a glória que eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo.João 17.5
Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam também comigo os que me deste, para que vejam a minha glória que me conferiste, porque me amaste antes da fundação do mundo.João 17.24
No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez.João 1.1–3
Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste.Colossenses 1.15–17
Ele existia antes do mundo. Estava junto de Deus. E a criação se fez por intermédio dele. Ele volta para junto do Pai, mas em posição diferente da que estava antes – superiora.
E a glória que ele recebeu depois, que não é a mesma
Que, por meio dele, tendes fé em Deus, o qual o ressuscitou dentre os mortos e lhe deu glória, de sorte que a vossa fé e esperança estejam em Deus.1 Pedro 1.21
Ponha os dois textos lado a lado e leia devagar19. Em João 17.5, a glória que ele tinha junto do Pai antes que houvesse mundo. Em 1 Pedro 1.21, Deus o ressuscitou e lhe deu glória. Ter glória junto de alguém e receber glória da parte de alguém não são a mesma coisa, e o Novo Testamento usa as duas expressões a respeito dele, em momentos diferentes e na ordem que importa. Antes, tinha. Depois da obediência e da ressurreição, recebeu outro tipo de glória.
É o argumento inteiro de Filipenses 2, e ele depende dessa ordem:
A si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai.Filipenses 2.8–11
Repare na dobradiça do versículo 9: pelo que. Por causa de quê? Por causa da obediência do versículo 8. A exaltação é consequência, e o texto a apresenta assim. Repare em quem age: Deus o exaltou e lhe deu o nome. Ele não se exaltou. Não reassumiu nada. Recebeu. E repare no destinatário final da coisa toda: para glória de Deus Pai. O joelho se dobra ao nome de Jesus, e o resultado disso é glória do Pai. O texto fecha o circuito onde ele começou.
Paulo diz a mesma coisa aos efésios:
O qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos e fazendo-o sentar à sua direita nos lugares celestiais, acima de todo principado, e potestade, e poder, e domínio, e de todo nome que se possa referir, não só no presente século, mas também no vindouro. E pôs todas as coisas debaixo dos pés, e para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja,Efésios 1.20–22
O verbo é pôs20, de ação realizada, e supõe um antes em que não estavam. E o versículo 21 diz que a posição é acima de todo nome que se possa referir não só no presente século, mas também no vindouro, o que só faz sentido como estado alcançado. Pedro prega isso em Jerusalém, sem rodeio, e usa dois verbos que a igreja de hoje evitaria:
Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo.Atos 2.36
31 Deus, porém, com a sua destra, o exaltou a Príncipe e Salvador, a fim de conceder a Israel o arrependimento e a remissão de pecados.Atos 5.31
Deus o fez. Deus o exaltou. Ele foi colocado em uma posição mais superiora do que tinha antes de encarnar-se. E o autor de Hebreus escreve com os mesmos verbos de aquisição21, dizendo que ele se tornou tão superior aos anjos quanto herdou mais excelente nome do que eles.
Junte tudo e a resposta à pergunta desta seção fica pronta. Ele voltou para junto do Pai, de onde tinha saído. Mas não voltou para a posição de onde tinha saído: voltou como aquele que atravessou a obediência até a morte de cruz, e recebeu, ali, um nome e um lugar que antes não ocupava. É por isso que a nuvem daquele dia não é só um fim. É uma posse.
“Assentou-se”: o verbo que nenhum sacerdote pôde usar
O Novo Testamento repete, de autor em autor, para onde ele foi, e sempre com a mesma imagem: à direita de Deus. Está em Romanos, em 1 Pedro, em Efésios e em Hebreus, quatro autores diferentes dizendo a mesma coisa.
E Hebreus acrescenta um detalhe que os outros não dão, e que só entende quem já entrou num santuário:
Ora, todo sacerdote se apresenta, dia após dia, a exercer o serviço sagrado e a oferecer muitas vezes os mesmos sacrifícios, que nunca jamais podem remover pecados; Jesus, porém, tendo oferecido, para sempre, um único sacrifício pelos pecados, assentou-se à destra de Deus, aguardando, daí em diante, até que os seus inimigos sejam postos por estrado dos seus pés.Hebreus 10.11–13
O contraste está na postura22. O sacerdote se apresenta, de pé, dia após dia. Jesus assentou-se. No tabernáculo e no templo não havia cadeira para o sacerdote, e a ausência do móvel era teologia: o trabalho nunca terminava, então não havia onde sentar. Sentar-se é declarar que terminou. E o mesmo autor já tinha dito, no primeiro capítulo, quem se assentou e depois de quê: depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas. A ordem outra vez importa. Primeiro a obra, depois a cadeira.
E há uma pergunta, no mesmo capítulo, que fecha o assunto de vez:
Ora, a qual dos anjos jamais disse: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por estrado dos teus pés?Hebreus 1.13
A pergunta é retórica e a resposta é nenhum. Nenhum anjo jamais recebeu esse convite. O lugar que aquele homem passou a ocupar não tinha sido oferecido a mais ninguém, em nenhum lugar da Escritura.
Sentado à direita, e o que ele faz ali é interceder
Saber onde ele está é metade da coisa. A outra metade é o que ele está fazendo ali, e o Novo Testamento responde23.
Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós.Romanos 8.34
Porque Cristo não entrou em santuário feito por mãos, figura do verdadeiro, porém no mesmo céu, para comparecer, agora, por nós, diante de Deus;Hebreus 9.24
A palavra de Hebreus é a mais precisa das duas: comparecer. É verbo de audiência, de apresentar-se em nome de outro diante de quem decide. E o advérbio que vem colado nela é que dá o peso: agora. Repare também no contexto de Romanos, porque a frase não é abstrata. A pergunta é quem os condenará?, e a resposta aponta para alguém que morreu, ressuscitou, está sentado à direita e intercede. É argumento de tribunal, e o argumento é que a parte contrária não tem a quem recorrer.
E é bom que a igreja saiba disso do jeito certo, porque a imagem popular está trocada. Aquele homem não está sentado esperando o fim do mundo de braços cruzados, nem está suplicando a um Pai relutante que perdoe. Ele está apresentando, diante de Deus, uma obra que já foi aceita, em nome de gente que já foi recebida. Um advogado que se senta ao lado do juiz não está pedindo favor: está informando que a causa está ganha.
O salmo que Davi cantou e Pedro leu em Pentecostes
Aquela frase sobre assentar-se à direita não é invenção de Hebreus. É citação, e o original tem mil anos a mais:
Disse o SENHOR ao meu senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos debaixo dos teus pés.Salmo 110.1
São dois termos distintos no hebraico24, e a tradução da Almeida Revista e Atualizada os grafa diferente para que se veja: o SENHOR em versalete é o Nome; meu senhor é outra palavra, que se usa para superiores humanos e que não é o Nome. Então Davi, que era o rei e não devia chamar ninguém de senhor, chama alguém de meu senhor e registra que Deus falou com esse alguém. E é exatamente disso que Pedro se aproveita, em Pentecostes, diante de milhares de pessoas que sabiam o salmo de cor:
Porque Davi não subiu aos céus, mas ele mesmo declara: Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por estrado dos teus pés. Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo.Atos 2.34–36
O argumento é limpo e é histórico: Davi não subiu aos céus. O túmulo dele estava em Jerusalém, e Pedro acabara de dizer isso. Logo, o salmo não fala de Davi, e o lugar à direita continuava vago quando ele o cantou. E repare no que Pedro usa como prova de que a vaga foi preenchida. Não é um argumento: é o barulho que estava acontecendo naquele instante. Ele acabou de dizer que o exaltado recebeu do Pai a promessa e derramou isto que vedes e ouvis. O sinal de que existe alguém sentado lá em cima é o que estava sendo derramado ali embaixo.
E não foi o único salmo que ele usou naquela manhã25. Antes desse, Pedro tinha lido o Salmo 16, em que Davi diz que a sua alma não seria deixada na morte nem o Santo veria corrupção, e tinha aplicado a ele o mesmo raciocínio: Davi morreu, foi sepultado, e o túmulo estava ali. Logo, não falava de si.
A igreja não administra a saudade de um fundador ausente
Vale recolher, no fim, o que estes onze versículos põem diante de uma igreja. A primeira coisa é que a obra não terminou. O verbo do versículo 1 diz que aquilo foi o começo, e nenhum capítulo posterior desmente. A igreja não é a organização que administra a saudade de um fundador ausente: é a continuação declarada de um trabalho que teve o seu primeiro volume escrito e continua no segundo.
A segunda é de onde vem o poder, e é a que mais liberta. Aquele homem não fez o que fez por um recurso privado dele. Fez cheio do Espírito, guiado pelo Espírito, ungido pelo Espírito, e porque Deus era com ele. É por isso que a promessa do versículo 8 pode ser feita a pescadores e continuar sendo feita a você: o poder nunca foi da pessoa. Sempre foi de Deus, e Deus continua ungindo quem se põe à disposição.
A terceira é a ordem dos dois verbos. Fazer e ensinar, nessa sequência. É legítimo perguntar, de vez em quando, se a nossa congregação seria resumida com os mesmos dois verbos ou só com o segundo.
A quarta é sobre o que não nos compete. Há informação que Deus reservou, e a curiosidade a respeito dela consome uma quantidade impressionante de energia cristã: livros, gráficos, datas, sustos, e um rastro de gente decepcionada quando o dia passa. O versículo 7 fecha essa porta, e o versículo 8 abre a que interessa. A troca que Jesus fez naquela manhã é a mesma que ele faz hoje: em vez da data, o serviço.
A quinta é sobre esperar. A primeira ordem depois da ressurreição não foi pregar: foi ficar parado numa cidade perigosa até receber o que faltava. Existe uma pressa na igreja que parece zelo e é impaciência, e ela produz obra sem poder, que é a coisa mais cansativa que existe.
E a sexta é a que dá título a esta aula. Ele voltou para o Pai, e não para o lugar de onde tinha saído. Voltou com um nome que lhe foi dado, um lugar que lhe foi entregue e uma cadeira em que nenhum sacerdote jamais se sentou, e tudo isso lhe veio depois da obediência, e por causa dela.
Guarde o que isso significa para quem está lendo. O caminho que Jesus percorreu não foi de glória para glória. Foi de glória, para a obediência, para a cruz, e daí para uma glória maior. É o único caminho que a Escritura descreve, e não há nela nenhum outro sendo oferecido a mais ninguém.
Os dois homens de branco perguntaram por que aqueles galileus estavam olhando para as alturas. Não foi para que baixassem os olhos e esquecessem. Foi para que baixassem os olhos e começassem, porque a última coisa que ele tinha dito, antes de a nuvem fechar, era o que fazer.
Notas
1. No grego, κράτιστε (krátiste), excelentíssimo, tratamento formal dirigido a quem ocupava posição oficial. Lucas usa a mesma palavra três vezes no segundo volume, sempre para governadores romanos: na carta de Lísias a Félix, na saudação de Tértulo e na resposta de Paulo a Festo. O nome Teófilo significa amigo de Deus, o que levou alguns a lê-lo como designação simbólica do leitor cristão; contra isso pesa o tratamento oficial, que ninguém daria a um símbolo.
2. No grego, ἤρξατο (ērxato), aoristo de ἄρχομαι, começar. Alguns comentadores tratam o verbo como redundância de estilo semítico, e é preciso registrar que a objeção existe. Mas Lucas escreve o melhor grego do Novo Testamento e escolheu essa palavra para abrir uma obra em dois volumes, o que torna difícil supor que ela não signifique nada.
3. No grego, διὰ πνεύματος ἁγίου (dià pneúmatos hagíou), por intermédio do Espírito Santo. A preposição διά com genitivo marca o meio pelo qual algo se dá. A construção pode ligar-se a dado mandamentos ou a que escolhera, e as duas leituras aparecem nos comentários; a ordem das palavras favorece a primeira, e é a que a ARA adota.
4. Em 2 Reis 4.27, diante da sunamita, Eliseu diz que o Senhor lhe encobriu a causa e não lha manifestou. O mesmo profeta que sabia o que se passava a distância não sabia o que estava diante dele, e o texto explica por quê: aquilo não lhe foi revelado. É o retrato exato do conhecimento profético, que é recebido e não possuído.
5. Mateus 24.36 diz que a respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão o Pai. A leitura clássica trinitária explica a frase pela distinção de naturezas, dizendo que ele ignorava segundo a humanidade e sabia segundo a divindade. A leitura que este estudo segue não precisa dessa distinção: o conhecimento dele é o conhecimento que o Espírito lhe dá, e o que não lhe foi dado ele não sabe.
6. No grego, τεκμήριον (tekmērion), palavra do vocabulário jurídico e médico grego: prova demonstrativa, indício que fecha a questão, em oposição a σημεῖον, sinal. Ocorre uma única vez no Novo Testamento, exatamente aqui.
7. Quarenta marca travessia na Escritura: os dias do dilúvio, os anos de Israel no deserto, os dias de Moisés no Sinai, os dias de Elias a caminho de Horebe e os dias de jejum de Jesus antes do ministério. Em todos, um estado termina e outro começa, e o intervalo é de prova e preparo.
8. O reino de Deus é o assunto dos quarenta dias no versículo 3 e é o assunto de Paulo em Roma no último versículo do livro. O que abre e o que fecha a obra é o mesmo, e ver isso muda a leitura do meio. O tratamento longo está no estudo de Atos 28.
9. Atos 2.33 é o versículo que organiza a questão: exaltado à destra de Deus, e tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vedes e ouvis. Recebe do Pai e derrama. Isso não contradiz João 16.7, onde ele diz que enviará o Consolador: explica em que sentido envia.
10. A oração das Dezoito Bênçãos, a Amidá, pede em bênçãos sucessivas que Deus toque a grande trombeta pela liberdade e reúna os exilados dos quatro cantos da terra, que restaure os juízes como no princípio, e que faça brotar depressa o renovo de Davi. É recitada três vezes ao dia. A forma fixa que temos é posterior ao ano 70, e a ressalva de datação vale por inteiro; o que ela preserva é o conteúdo da esperança, e esse é anterior a ela e está na boca dos discípulos no versículo 6.
11. No grego, χρόνους ἢ καιρούς (chrónous ē kairoús). O primeiro é o tempo que se mede em calendário; o segundo é o momento oportuno, a ocasião marcada. Jesus fecha as duas portas de uma vez: nem a duração nem a data.
12. No grego, δύναμις (dýnamis), poder efetivo, capacidade de realizar. É a mesma palavra que Lucas usa no Evangelho para dizer que Jesus voltou da tentação no poder do Espírito, e a mesma da promessa de Lucas 24.49, de serem revestidos de poder do alto.
13. No grego, μάρτυρες (mártyres), testemunhas, no sentido forense de quem viu e depõe. O deslocamento do termo para o sentido de mártir, quem morre pelo testemunho, é posterior ao Novo Testamento e não deve ser lido para dentro deste versículo. O que aconteceu é que a palavra mudou porque a coisa mudou: as testemunhas foram sendo mortas.
14. A nuvem é a forma habitual com que a Escritura registra a presença de Deus sem descrevê-la: no Sinai, na coluna do deserto, enchendo o tabernáculo e o templo, e no monte da transfiguração, de onde sai a voz. Aqui ela não é meteorologia. É o modo antigo de dizer que a cena entrou onde o olho não acompanha.
15. 2 Reis 2.9-15 é o único outro lugar do Antigo Testamento em que um servo de Deus é levado às alturas diante de testemunha ocular, e a estrutura é a mesma de Atos 1: o mestre é tomado, o discípulo vê, o espírito que estava sobre um passa a repousar sobre o outro, e a obra continua com mais alcance do que antes. Eliseu recebe porção dobrada e a Escritura lhe registra o dobro de milagres de Elias.
16. Lucas põe dois homens em três cenas decisivas: Moisés e Elias no monte da transfiguração, dois varões com vestes resplandecentes no sepulcro vazio, e dois varões vestidos de branco na ascensão. A lei exigia duas testemunhas para estabelecer um fato, e Lucas escreve para quem sabia disso.
17. No grego, ὃν τρόπον (hòn trópon), do modo como, da mesma maneira que. A expressão qualifica o modo, não a data nem o lugar. É o quanto a promessa garante, e é preciso não pedir a ela mais do que isso.
18. Atos 1.12 diz que o monte Olival distava de Jerusalém tanto como a jornada de um sábado. A medida é a do limite de sábado, dois mil côvados, coisa de novecentos metros, fixada a partir de Êxodo 16.29 e discutida no tratado Eruvin. Lucas escreve para quem contava distância assim, e é mais um lugar em que o segundo volume mostra que conhece o mundo de dentro.
19. A distinção é do próprio texto e organiza a aula inteira. Em João 17.5 ele fala da glória que tinha junto do Pai antes que houvesse mundo. Em 1 Pedro 1.21, Deus o ressuscitou e lhe deu glória. Ter glória junto de alguém e receber glória da parte de alguém são duas coisas, e o Novo Testamento usa as duas a respeito dele, em momentos diferentes.
20. Efésios 1.22 diz que Deus pôs todas as coisas debaixo dos pés dele. O verbo é de ação realizada, e supõe um antes em que não estavam. O versículo anterior é do mesmo teor: acima de todo nome que se possa referir, não só no presente século, mas também no vindouro.
21. Hebreus 1.4 diz que ele se tornou tão superior aos anjos quanto herdou mais excelente nome do que eles. Tornou-se e herdou são verbos de aquisição, e o autor de Hebreus os escolhe logo depois de dizer, no versículo 3, que ele se assentou à direita da Majestade.
22. Hebreus 10.11-13 constrói o contraste sobre a postura: todo sacerdote se apresenta, dia após dia, oferecendo os mesmos sacrifícios; Jesus, tendo oferecido um único, assentou-se. No tabernáculo e no templo não havia cadeira para o sacerdote, porque o trabalho nunca terminava. Sentar-se é declarar que terminou.
23. Romanos 8.34, 1 Pedro 3.22 e Hebreus 9.24 descrevem a mesma posição por três ângulos: quem está à direita de Deus intercede, tem anjos e potestades subordinados a si, e comparece por nós diante de Deus. O terceiro é o mais preciso: o verbo é de audiência, de apresentar-se em nome de outro.
24. O Salmo 110.1 traz dois termos distintos no hebraico: YHWH, o Nome, e adonî, meu senhor, que não é o Nome e se usa para superiores humanos. Davi, o rei, chama alguém de meu senhor, e é isso que Pedro explora em Pentecostes: Davi não estava falando de si mesmo, porque Davi não subiu aos céus.
25. Pedro cita o Salmo 16.8-11 em Atos 2.25-28 e tira dele o mesmo tipo de argumento que tira do Salmo 110: Davi disse que a alma não seria deixada na morte e que o Santo não veria corrupção, e Davi morreu e foi sepultado. Logo, não estava falando de si.