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Entendendo a guerra Israel x Irã: você sabia que Israel e Irã já foram aliados? O que aconteceu em 1979 que mudou isso? Compreenda tudo isso de uma vez

Por que Israel e Irã estão em guerra? O conflito tem 47 anos, e não milênios: a ruptura de 1979 tem data, causa e responsáveis com nome. A história completa em linguagem simples, de Ciro a 2026: árabes e persas, sunitas e xiitas, o golpe de 1953, Khomeini, o Hezbollah, os 440 quilos de urânio enriquecido, e os 152 versículos em que a Bíblia fala daquele território, incluindo a promessa sobre o Irã que quase ninguém prega.

Por Prof. Philippe Ávila·A Pérsia na Bíblia e o conflito entre Israel e Irã·48 min de leitura·agosto de 2026
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Relevo esculpido numa parede de rocha clara e rachada: à esquerda, um rei de barba e coroa alta ergue o braço e pisa sobre um homem caído; diante dele, nove homens de trajes e toucados diferentes estão em fila, com as mãos amarradas atrás do corpo e uma corda passando de pescoço em pescoço; acima da fila paira uma figura alada dentro de um disco; toda a superfície ao redor está coberta de escrita cuneiforme em painéis
A inscrição de Behistun, talhada por Dario I numa parede de rocha a oitenta metros do chão, uns quarenta anos depois do decreto de Ciro. É o mesmo Dario que aparece em Esdras 6 confirmando a reconstrução do templo, e os nove homens amarrados são os rebeldes que ele derrotou. O que interessa aqui está nos painéis de escrita: o texto foi gravado em três línguas, e a persa antiga é indo-europeia, prima do português. O alfabeto é emprestado da Mesopotâmia; a língua não é.
A inscrição de Behistun, talhada por Dario I numa parede de rocha a oitenta metros do chão, uns quarenta anos depois do decreto de Ciro. É o mesmo Dario que aparece em Esdras 6 confirmando a reconstrução do templo, e os nove homens amarrados são os rebeldes que ele derrotou. O que interessa aqui está nos painéis de escrita: o texto foi gravado em três línguas, e a persa antiga é indo-europeia, prima do português. O alfabeto é emprestado da Mesopotâmia; a língua não é.Autoria desconhecida · Domínio público · via Wikimedia Commons
Neste artigo

Na última quinta-feira, 20 de agosto de 2026, o liveblog do Times of Israel trazia quatro manchetes em poucas horas: o presidente americano anunciando sanções contra qualquer país que negocie com o Irã, os Emirados Árabes impondo embargo financeiro ao Teerã, o governo do Iêmen alertando que os houthis preparam a tomada do estreito de Bab el-Mandeb, e Israel bombardeando uma base aérea na Síria depois de avisar a Turquia.

Quem lê isso sem contexto entende uma coisa só: eles se odeiam. E aí vem a explicação preguiçosa que se repete em toda mesa de bar e em muito púlpito, a de que aquilo é ódio milenar entre povos que sempre brigaram. Mas será?

Você sabia que este conflito entre o atual Estado de Israel e o Irã tem apenas 47 anos, e não milênios. Aliás, antes dele, os dois países foram parceiros muito próximos por três décadas. A ruptura tem data, tem causa, tem nomes e tem responsáveis, e quase tudo isso é verificável em documento público. Vamos fazer o que os bereanos fariam, examinando cada afirmação, e no fim veremos o que a Escritura de fato diz sobre aquele território, que é bem diferente do que costumam dizer que ela diz. Escrevi tudo em linguagem simples, de propósito. Quem entende o assunto não precisa de palavra difícil para explicá-lo.

Quem é quem, antes de qualquer opinião

Israel e Irã não fazem fronteira · Há 1.500 quilômetros e três países entre um e outro

Israel e Irã são dois países do Oriente Médio, mas eles não fazem fronteira. Entre um e outro há mais de 1.500 quilômetros em linha reta e outros países no meio: Jordânia, Síria e Iraque. É aproximadamente a distância de São Paulo a Salvador. Também são muito diferentes de tamanho. Israel tem cerca de 22 mil quilômetros quadrados, quase exatamente o tamanho de Sergipe, o menor estado brasileiro, e apenas cerca de 10 milhões de habitantes. O Irã tem 1,6 milhão de quilômetros quadrados, umas 75 vezes mais, e cerca de 90 milhões de habitantes. E há uma terceira diferença, que é a menos conhecida e a mais importante: eles não são só dois países diferentes, são dois mundos diferentes. Israel é um Estado judeu. O Irã não é árabe, é persa.

Mapa sem letras, em cinza: à esquerda, um país minúsculo e alongado pintado de laranja, junto ao litoral; à direita, separado dele por vários países cinzentos, um país muito maior pintado de verde-escuro, entre dois mares
Israel em laranja, o Irã em verde, e entre os dois a Jordânia, a Síria e o Iraque, sem nenhuma fronteira comum. Vale medir com os olhos as duas coisas de que o texto acima falou: a distância, mais de 1.500 quilômetros em linha reta, e o tamanho, porque Israel cabe umas setenta e cinco vezes dentro do Irã.
Israel em laranja, o Irã em verde, e entre os dois a Jordânia, a Síria e o Iraque, sem nenhuma fronteira comum. Vale medir com os olhos as duas coisas de que o texto acima falou: a distância, mais de 1.500 quilômetros em linha reta, e o tamanho, porque Israel cabe umas setenta e cinco vezes dentro do Irã.Torsten · CC BY-SA 3.0 · via Wikimedia Commons

Árabe, persa, muçulmano · Três palavras que não querem dizer a mesma coisa

A confusão nasce de misturar duas coisas de naturezas diferentes. Muçulmano é religião. Árabe e persa são povos. Alguém pode ser muçulmano e não ser árabe, como é o caso dos iranianos. É a mesma diferença que há entre “cristão” e “brasileiro”. Cristão é o que você crê; brasileiro é de onde você vem. Dá para ser brasileiro e cristão, brasileiro e ateu, cristão e coreano. São perguntas independentes, com respostas independentes. Então não misture as coisas. Logo, um árabe pode não ser muçulmano, e um muçulmano pode não ser árabe. As duas coisas acontecem o tempo todo, em números enormes.

Árabes são os povos que falam árabe e compartilham dessa herança cultural. Eles se originaram na Península Arábica, formada hoje por sete países: Arábia Saudita, Iêmen, Omã, Emirados Árabes Unidos, Catar, Bahrein e Kuwait. Mas, com a expansão islâmica a partir do século VII, a língua e a cultura árabes se espalharam pelo Oriente Médio e pelo norte da África, de modo que hoje há vinte e dois países árabes, e o Egito sozinho tem mais falantes de árabe do que toda a península somada. Persa é o povo do planalto iraniano, cuja língua é o persa, que eles chamam de farsi. O árabe pertence à origem de língua semítica, a mesma do hebraico. O persa pertence à origem de língua indo-europeia, a mesma do português, do espanhol, do inglês, do grego e do latim. Traduzindo: o persa é primo do português, e o árabe não é. Dá para enxergar isso nas palavras mais básicas de todas.

PortuguêsPersaLatim
paipedarpater
mãemādarmater
irmãobarādarfrater
nomenāmnomen
doisdoduo

Não é coincidência nem empréstimo. São palavras que descem do mesmo antepassado, muito antes de existir islamismo. Quando os exércitos islâmicos conquistaram a Pérsia, entre 636 e 651, derrubando o Império Sassânida, os persas adotaram o alfabeto árabe para escrever a própria língua. Mas persas nunca esqueceram quem eram. Trocaram de religião, mas mantiveram a língua, o calendário e as festas. Um iraniano tem orgulho de descender de Ciro e de Dario, reis dos Medos-Persas, e isso o separa dos vizinhos árabes todos os dias.

Folha de manuscrito antigo, de papel amarelado e vincado: dentro de uma moldura, um rei sentado de pernas cruzadas sob um arco dourado e azul, cercado de cortesãos de túnicas coloridas e turbantes brancos volumosos, uns de pé, outros sentados no chão com bandejas; embaixo, quatro colunas estreitas de caligrafia em alfabeto árabe
Uma página do Livro dos Reis, o Shahnameh, copiada em Xiraz por volta de 1520. Aqui se vê, de uma vez, o que os parágrafos acima explicaram: as letras são árabes, e a língua não é. O poema conta a história dos reis persas antes do islã, e é lido em persa, do mesmo tronco de línguas do português. Trocar de alfabeto não é trocar de povo.
Uma página do Livro dos Reis, o Shahnameh, copiada em Xiraz por volta de 1520. Aqui se vê, de uma vez, o que os parágrafos acima explicaram: as letras são árabes, e a língua não é. O poema conta a história dos reis persas antes do islã, e é lido em persa, do mesmo tronco de línguas do português. Trocar de alfabeto não é trocar de povo.Autoria desconhecida · Shangri La, Honolulu · Domínio público · via Wikimedia Commons

Falta ainda derrubar a última parte da confusão. Os quatro países com mais muçulmanos no mundo são, nesta ordem: Indonésia, com cerca de 239 milhões, Paquistão, Índia e Bangladesh. Nenhum dos quatro é árabe. Nenhum fica no Oriente Médio. Nenhum fala árabe no dia a dia. Se alguém imagina o muçulmano típico como um homem de turbante no deserto da Arábia, está imaginando a minoria. O muçulmano típico é asiático. Portanto, entender essas premissas básicas é imprescindível para compreender o conflito.

Sunitas e xiitas · A divisão não começou por Deus, começou por quem manda

Aqui está o coração da questão, e você precisa entender essa história que é mais simples do que parece. O profeta Maomé morreu em 632 d.C. e deixou um problema enorme sem resposta: quem manda agora? Formaram-se então dois grupos. O primeiro grupo disse que se devia escolher, entre os companheiros dele, o mais capaz, e foi escolhido Abu Bakr, sogro de Maomé. Esse grupo se tornou os sunitas, palavra que vem de sunna, o caminho, o costume do Profeta. São, portanto, “os da tradição”. O segundo grupo disse que o comando pertencia à família dele, e a família era Ali, primo de Maomé e casado com Fátima, filha dele. Esse grupo virou os xiitas, palavra que vem de shiat Ali e significa literalmente “o partido de Ali”. Repare: a divisão não começou por causa de Deus, nem do Alcorão, nem de doutrina. Começou por causa de quem tem o direito de mandar. Foi disputa de sucessão, do tipo que acontece em inventário de família. Só que durou 1.400 anos, e nesse tempo virou duas culturas religiosas distintas. Ou seja, ambos são muçulmanos, mas de correntes diferentes internamente; algo um pouco similar, para que você entenda, à diferença entre católicos e protestantes, em que ambos são cristãos, mas cada grupo entende diferente como a doutrina deve ser lida.

Litografia colorida à mão, em tons claros de areia e ocre: um santuário com grande cúpula dourada ao centro, três minaretes altos de tijolo listrado com remates em forma de bulbo, pátios com arcadas e cúpulas menores em volta; embaixo, dezenas de pessoas pequenas em grupos, palmeiras e casas baixas
O santuário de Hussein em Carbala, numa prancha inglesa de 1850, quando ainda não havia fotografia por lá. É o túmulo do neto de Maomé massacrado em 680, e é o destino das procissões de Ashura, quando milhões de xiitas refazem o luto em público. Um brasileiro que nunca ouviu falar de Carbala não entende por que o Irã fala tanto em martírio; quem viu esta praça cheia, entende.
O santuário de Hussein em Carbala, numa prancha inglesa de 1850, quando ainda não havia fotografia por lá. É o túmulo do neto de Maomé massacrado em 680, e é o destino das procissões de Ashura, quando milhões de xiitas refazem o luto em público. Um brasileiro que nunca ouviu falar de Carbala não entende por que o Irã fala tanto em martírio; quem viu esta praça cheia, entende.Robert Clive (1827–1902) · Domínio público · via Wikimedia Commons

Mas na prática, o que muda entre ser sunita ou xiita? A diferença mais importante não está no Alcorão, que é o mesmo para os dois, e sim em quem tem autoridade para interpretá-lo. O sunismo, por exemplo, não tem clero. Imã, ali, é só quem dirige a oração, e pode ser qualquer homem instruído da comunidade. A autoridade está nos textos e no consenso acumulado dos sábios. Ninguém fala em nome de Deus, porque ninguém tem o cargo para isso. Já o xiismo construiu o oposto: uma hierarquia real, com os aiatolás no topo. Cada fiel escolhe um marja, expressão que significa modelo de imitação, e segue as orientações dele em questões de fé e de conduta. Guarde essa diferença, porque ela explica o Irã.

Em números, os xiitas são de dez a treze por cento dos muçulmanos. São maioria em apenas quatro países: Irã, Iraque, Azerbaijão e Bahrein, e formam a maior comunidade do Líbano. Todo o restante do mundo islâmico é majoritariamente sunita. Resumindo numa frase: o sunita pergunta o que a tradição estabeleceu; o xiita pergunta o que o guia legítimo, vivo e presente, determina.

Carbala, 680 · Setenta pessoas cercadas sem água, e a memória que formou o Irã

Em 680 d.C., apenas 48 anos depois da morte de Maomé, na cidade de Carbala, no atual Iraque, Hussein, filho de Ali (de onde se originam os xiitas, como falei acima) e neto de Maomé, marchou contra o califa da época com um punhado de familiares e seguidores. Importante esclarecer que califa vem do árabe khalifa, que quer dizer sucessor. Seria o sucessor de Maomé no comando da comunidade muçulmana. O califa governa, arrecada, comanda exércitos. Está mais para “imperador com legitimidade religiosa” do que para papa. O califa de 680 era Yazid. O pai dele, Muawiya, havia feito algo inédito: indicou o próprio filho como sucessor. O califado, que até então era decidido por escolha entre os companheiros do Profeta, virou monarquia hereditária de um golpe. Yazid tinha fama de homem mundano e indiferente à religião, e para muitos era a prova viva de que o cargo havia sido corrompido. Hussein então se recusou a jurar lealdade a ele. Estava em Meca quando começaram a chegar cartas dos habitantes de Cufa, cidade do sul do atual Iraque que havia sido a capital de seu pai Ali. Prometiam apoio armado e pediam que viesse liderar a revolta. Ele partiu com cerca de setenta pessoas, entre elas mulheres e crianças da própria família, o que diz tudo sobre o que esperava encontrar: recepção, não guerra. No caminho, Yazid esmagou o movimento em Cufa e mandou tropas para interceptá-lo. Hussein foi cercado, ficou dias sem água e foi massacrado com quase todos os que estavam com ele. Essa é a chamada Batalha de Carbala. Carbala é, portanto, para os xiitas, a memória fundadora: o justo assassinado pelo poderoso. Todo ano, na data chamada Ashura, milhões de xiitas fazem procissões de luto, choram em público, batem no peito, e em alguns lugares chegam a se ferir de propósito para participar do sofrimento dele. Entender isso é entender o Irã. A identidade xiita, dessa forma, foi construída em torno de três ideias: a injustiça sofrida, a minoria fiel contra a maioria poderosa, e o valor do martírio.

Pintura densa e dourada, cheia de figuras pequenas: ao centro, um homem de barba escura e turbante, com auréola de chamas, monta um cavalo branco e ergue a mão; à esquerda, tendas e mulheres cobertas de preto, algumas chorando; embaixo, corpos caídos e cavalos derrubados; à direita, cenas menores emolduradas, com prisioneiros e cavaleiros
A batalha de Carbala numa tela persa de casa de chá, pintada no século XIX para ser desenrolada em praça pública enquanto um contador narrava a história. Repare que não é um quadro de batalha comum: quase metade da superfície é ocupada por mulheres e crianças, e não por soldados. É assim que a memória xiita conta o episódio, como injustiça contra uma família, e não como derrota militar.
A batalha de Carbala numa tela persa de casa de chá, pintada no século XIX para ser desenrolada em praça pública enquanto um contador narrava a história. Repare que não é um quadro de batalha comum: quase metade da superfície é ocupada por mulheres e crianças, e não por soldados. É assim que a memória xiita conta o episódio, como injustiça contra uma família, e não como derrota militar.Abbas Al-Musavi · Brooklyn Museum · Domínio público · via Wikimedia Commons

O imã que sumiu em 874 · E a pergunta que o xiismo levou mil anos sem responder

Os xiitas do Irã pertencem a um ramo chamado duodecimano, ou seja, “dos doze”. Eles creem que houve doze líderes escolhidos por Deus, descendentes de Ali (o primo e genro de Maomé), chamados imãs. E o décimo segundo líder, chamado Mahdi, desapareceu ainda criança, no ano 874 d.C. Creem que ele não morreu: está oculto, vivo, e voltará no fim dos tempos para estabelecer a justiça. Agora veja o problema que isso cria. Se o líder verdadeiro está escondido e vai voltar, quem governa enquanto ele não volta? A resposta tradicional, por mais de mil anos, foi: ninguém do clero governa, a gente espera e orienta.

Uma ilha azul num oceano vermelho · Por que o Irã está em minoria duas vezes ao mesmo tempo

Os sunitas são entre 87% e 90% dos muçulmanos do mundo. Os xiitas são entre 10% e 13%. Os países de maioria xiita são poucos: Irã, Iraque, Azerbaijão e Bahrein, mais uma população muito grande no Líbano. O Irã é uma ilha azul num oceano vermelho. E some as duas coisas que vimos: o Irã é persa numa vizinhança árabe e xiita numa religião 90% sunita. Está em minoria duas vezes, ao mesmo tempo, e não se parece com ninguém em nenhuma das duas dimensões. Um país nessas condições não consegue liderar o Oriente Médio nem pelo povo, nem pela religião. Precisaria de outra coisa. E, em 1979, encontrou.

Há ainda uma diferença prática entre sunitas e xiitas que quase nunca se menciona e que vale ouro para entender a revolução iraniana. Os xiitas têm uma hierarquia religiosa organizada, com seminários, títulos e uma escada de autoridade que termina nos grandes aiatolás, e cada fiel escolhe um líder para seguir e lhe paga uma contribuição religiosa. Os sunitas não têm nada disso: não há ordenação, nem hierarquia central, nem escada de títulos. Daí decorre algo enorme. A revolução iraniana só foi possível porque o clero xiita já era uma instituição pronta, com chefes, prédios, dinheiro próprio e uma rede que chegava a cada bairro.

Como dois sócios viraram inimigos mortais

1950 · O Irã foi o segundo país muçulmano a reconhecer Israel, e virou o fornecedor de petróleo dele

Em 1950, o Irã foi o segundo país de maioria muçulmana a reconhecer Israel, logo depois da Turquia. E não foi gesto protocolar: foi parceria de verdade, que durou quase trinta anos. A lógica de David Ben-Gurion, primeiro-ministro fundador de Israel, chamava-se doutrina da periferia. Cercado de Estados árabes hostis, Israel foi procurar aliados no anel de fora, entre os vizinhos dos seus vizinhos, que não eram árabes e tinham as próprias razões para temer o nacionalismo árabe: Turquia, Etiópia, os curdos e, acima de todos, o Irã. O resultado foi cooperação profunda. Com o boicote árabe cortando o abastecimento, o Irã virou o principal fornecedor de petróleo de Israel, escoado pelo oleoduto Eilat-Ashkelon, operado em conjunto pelos dois. Houve troca de inteligência entre o Mossad e a polícia secreta iraniana, projetos militares conjuntos e representação diplomática permanente em Teerã, capital do Irã. Ou seja, a pergunta certa é o que aconteceu em 1979 que transformou dois sócios em inimigos mortais.

Xá · A palavra persa para rei está escondida no nome de Xerxes, o Assuero de Ester

Naquela época o Irã era uma monarquia. Em persa, rei se diz xá. A palavra vem do persa antigo, e há aqui um detalhe que interessa a quem lê a Escritura: a mesma raiz está no nome de Xerxes, o Assuero do livro de Ester, que em persa antigo é “aquele que governa sobre heróis”. Quando a Bíblia fala do rei da Pérsia, a palavra por trás é a avó de “xá”. O título completo dos antigos reis persas era xá dos xás, rei dos reis, fórmula que Ciro e Dario usavam.

Agora o ponto que quase ninguém sabe: a monarquia derrubada em 1979 e que iniciou a desavença com Israel não era uma monarquia antiga. O reinado da dinastia Pahlavi durou apenas 54 anos e teve dois reis. Reza Khan era oficial de uma brigada militar, tomou o poder num golpe em 1921 e se coroou xá em 1925. O filho, Mohammad Reza, reinou de 1941 a 1979. Este último xá era aliado dos Estados Unidos e queria modernizar o país depressa. É dessa época que se veem fotos antigas do Irã e quem vê se surpreende com a sua ocidentalização e liberdade de vestimentas e cultura, com mulheres usando biquíni e dirigindo em plena liberdade.

Cédula de dinheiro em tons de verde, rosa e lilás, com molduras de arabescos e flores; ao centro, o retrato gravado de um homem de meia-idade, cabelo penteado para trás, em farda militar com dragonas; nas laterais, o valor escrito em algarismos e em caracteres árabes
Dez mil riais de 1971, com Mohammad Reza Pahlavi de farda. Vale reparar em duas coisas. A primeira é a data: a cédula foi impressa oito anos antes de ele fugir do país doente de câncer, e nada nela sugere um trono que acabaria em oito anos. A segunda é o alfabeto: o valor está escrito em caracteres árabes, mas a língua é persa, exatamente a herança de que este texto falou acima.
Dez mil riais de 1971, com Mohammad Reza Pahlavi de farda. Vale reparar em duas coisas. A primeira é a data: a cédula foi impressa oito anos antes de ele fugir do país doente de câncer, e nada nela sugere um trono que acabaria em oito anos. A segunda é o alfabeto: o valor está escrito em caracteres árabes, mas a língua é persa, exatamente a herança de que este texto falou acima.Bank Markazi Iran · Domínio público · via Wikimedia Commons

1953 · A CIA derrubou o primeiro-ministro eleito do Irã, e admitiu isso sessenta anos depois

Em 1951, o Irã tinha um primeiro-ministro eleito chamado Mohammad Mossadegh. Ele fez algo enormemente popular: decidiu que o petróleo do Irã pertencia ao Irã, e não a uma empresa inglesa que lucrava com ele. Isso se chama nacionalizar. Londres ficou furiosa. E em 19 de agosto de 1953, os serviços secretos dos Estados Unidos e da Inglaterra derrubaram este ministro Mossadegh e devolveram o poder absoluto ao xá. A operação chamava-se TPAJAX e foi dirigida por Kermit Roosevelt Jr., neto do presidente americano Theodore Roosevelt. A própria CIA reconheceu oficialmente em 2013, com documentos abertos ao público.

Fotografia em preto e branco, um pouco desbotada: um homem idoso e magro, careca, de sobrancelhas grossas, está de pé atrás de uma mesa, com a mão direita apoiada no peito e o olhar voltado para a frente; à esquerda e à direita dele, dois oficiais fardados, de dragonas e medalhas, estão sentados, um deles escrevendo; um microfone de haste alta cruza a imagem
Mossadegh depõe no tribunal militar que o julgou depois do golpe de 1953. Repare em quem está sentado e em quem está de pé: o primeiro-ministro eleito responde em pé, de terno amassado, a dois oficiais do exército que o derrubaram. É esta cena, e não uma teoria sobre o Ocidente, que fica na memória política iraniana pelos 26 anos seguintes.
Mossadegh depõe no tribunal militar que o julgou depois do golpe de 1953. Repare em quem está sentado e em quem está de pé: o primeiro-ministro eleito responde em pé, de terno amassado, a dois oficiais do exército que o derrubaram. É esta cena, e não uma teoria sobre o Ocidente, que fica na memória política iraniana pelos 26 anos seguintes.Ebrahim Golestan · Domínio público · via Wikimedia Commons

Agora imagine o que isso significa para um iraniano comum. O país teve um governo escolhido pelo povo, e potências estrangeiras o trocaram por um monarca que lhes obedecia. A partir dali começou, para milhões de pessoas, o sentimento de que o então xá, Mohammad Reza, não era o rei do Irã: era o funcionário dos americanos. Essa mágoa não desapareceu. Ficou guardada por 26 anos, e depois explodiu.

Quem era Khomeini · Passou dos sessenta anos ensinando ética e escrevendo poesia

Ruhollah Khomeini nasceu em 1902 numa cidadezinha chamada Khomein, e o sobrenome dele é literalmente o nome da cidade. Era um religioso, um aiatolá, título dos líderes mais altos do xiismo, um líder espiritual. Até os 60 anos de idade ele não era figura política. Era professor de seminário, ensinava ética e filosofia islâmica e escrevia poesia. O que ele elaborou, e que é a chave de tudo, chama-se velayat-e faqih, a tutela do jurista islâmico. A tese é esta: quem deve governar um país não é rei nem parlamento eleito, mas o jurista religioso mais qualificado, com autoridade política plena. Ele desenvolveu isso em aulas dadas no exílio, em Najaf, por volta de 1970. Ele não disse o próprio nome, mas dava ênfase de que o líder religioso mais habilitado é quem seria o melhor governante.

Retrato colorido de um homem idoso, de barba branca cheia e sobrancelhas escuras e espessas, olhando de frente com expressão severa; usa um turbante preto enrolado e um manto castanho sobre uma túnica cinza
Khomeini de turbante preto. A cor não é escolha estética: no xiismo, o turbante preto identifica quem se declara descendente de Maomé, e por isso da mesma linhagem de Ali e de Hussein, o massacrado em Carbala. Quem ouvia os discursos dele já lia essa credencial antes da primeira palavra.
Khomeini de turbante preto. A cor não é escolha estética: no xiismo, o turbante preto identifica quem se declara descendente de Maomé, e por isso da mesma linhagem de Ali e de Hussein, o massacrado em Carbala. Quem ouvia os discursos dele já lia essa credencial antes da primeira palavra.Ali Kaveh · Domínio público · via Wikimedia Commons

E aqui é preciso dizer com todas as letras uma coisa que quase nunca aparece no noticiário: essa fundamentação de Khomeini é uma inovação minoritária mesmo dentro do próprio xiismo. Lembra da tradição que vimos, de que o clero orienta mas não governa até o Mahdi voltar1? Era essa a posição dominante. Grandes aiatolás da época discordaram de Khomeini. Khomeini não estava aplicando “o que o islã xiita ensina”. Estava propondo uma tese nova, contestada pelos seus pares, contudo venceu a disputa.

Como o xá caiu · Ele fechou todos os lugares onde se podia reclamar, menos a mesquita

Não foi golpe. Foi uma cadeia de erros do próprio xá Mohammad Reza. Em 1963, ele lançou a chamada Revolução Branca, com reforma agrária, voto feminino e secularização. Khomeini atacou essas medidas em público2. Houve revolta em junho, com centenas de mortos. Em 1964 veio o erro fatal. O parlamento aprovou a lei das capitulações, dando imunidade judicial a militares americanos e seus dependentes em solo iraniano: ou seja, se um americano cometesse um crime no Irã, a Justiça iraniana não poderia julgá-lo. Khomeini fez o discurso que o consagrou, dizendo que haviam rebaixado o povo iraniano abaixo de um cão americano. Foi preso e expulso do país. Passou catorze anos fora, na Turquia, depois no Iraque e por fim na França. Repare bem: a ascensão política de Khomeini nasce colada a uma queixa antiamericana concreta, e não a uma teoria abstrata sobre o Ocidente.

E agora a causa estrutural, que é a mais importante de todas e a que raramente se ensina. A SAVAK, a polícia do xá, esmagou toda a oposição secular: comunistas, nacionalistas, liberais, sindicatos, imprensa. Fechou tudo. Só não pôde fechar uma coisa, porque fechá-la seria escândalo religioso: a mesquita.

Pense com calma no que isso produz. Se você fecha todos os lugares onde as pessoas podem reclamar, menos um, para onde vão os descontentes? Para o único que sobrou. O xá não foi derrubado pelos religiosos apesar da repressão. Foi derrubado pelos religiosos por causa da repressão. Ele mesmo escolheu quem o substituiria, sem perceber que estava escolhendo.

O resto foi rápido. Os sermões de Khomeini entravam no país em fitas cassete copiadas de mão em mão, na primeira revolução feita com tecnologia de bolso, muito antes da internet. Em janeiro de 1978, um jornal oficial publicou um artigo insultuoso contra ele e começaram os protestos em Qom. Aí entrou em ação um mecanismo notável: o luto xiita se cumpre em quarenta dias, então cada rodada de mortos gerava uma manifestação quarenta dias depois, que gerava mais mortos, que geravam a manifestação seguinte. O calendário religioso virou motor de mobilização. Em setembro veio a Sexta-Feira Negra, com o exército atirando na praça Jaleh. No outono, os trabalhadores do petróleo entraram em greve e cortaram a receita do Estado. Em 16 de janeiro de 1979 o xá deixou o país, indo para os Estados Unidos, doente de câncer. Em 1º de fevereiro Khomeini desembarcou em Teerã diante de multidões. Em 11 de fevereiro o exército declarou-se neutro, e acabou.

Ele virou o novo xá? · Não: criou um cargo com mais poder do que o xá jamais teve

Não. E isso é ainda mais interessante do que se tivesse virado. A monarquia foi abolida. Em 30 e 31 de março de 1979 houve um referendo de pergunta única, sim ou não à República Islâmica, aprovado com 98,2%. Khomeini assumiu como Líder Supremo, o jurista-tutor da sua própria doutrina. Só que o cargo que ele criou tem mais poder do que o de xá jamais teve. O Líder Supremo comanda as forças armadas, nomeia o chefe do Judiciário, escolhe metade do Conselho dos Guardiães, indica os comandantes da Guarda Revolucionária e o chefe da mídia estatal. E o conselho que ele nomeia decide quem pode se candidatar a presidente. O povo vota, mas apenas nos nomes que ele deixou entrar na lista. É monarquia absoluta com fundamentação religiosa. E, depois de tomar o poder, Khomeini fez o que revoluções costumam fazer: devorou os próprios aliados. Liberais, nacionalistas e esquerdistas tinham lutado ao lado dele contra o xá; em dois anos estavam presos, exilados ou mortos.

Por que o Irã odeia os Estados Unidos e Israel? · Não veio do nada, e são quatro camadas

Não veio do nada.

Contra os Estados Unidos, a razão tem nome e data: 1953. Derrubaram um governo eleito por causa de petróleo e sustentaram por 26 anos um ditador que torturava opositores, além de conceder imunidade judicial aos próprios militares em solo iraniano. Nada disso justifica o que o regime fez depois, mas explica por que a acusação colou num povo inteiro, inclusive em gente que não era religiosa.

Contra Israel, são quatro camadas somadas. A primeira é que Israel era sócio do regime derrubado: aliado do xá, fornecedor de armas, parceiro da polícia secreta, comprador de petróleo. Para quem odiava o xá, Israel não era um país distante, era coproprietário da máquina que o torturava. A segunda é ideológica e anterior ao poder, e aqui é preciso entender exatamente o que Khomeini dizia. Desde 1963 ele não apenas criticava Israel: dizia que Israel era a causa. Puro antissemitismo. Em seus discursos, a reforma agrária que atingia as terras religiosas aparecia como projeto israelense executado pelo xá, com o objetivo de eliminar o clero, porque o clero seria o obstáculo. Israel não quer que neste país haja ulemás (eruditos formados no estudo do Alcorão), afirmava. A terceira é a mais fria, e é pura conta. Um Estado persa e xiita não lidera um Oriente Médio árabe e sunita por afinidade, porque não tem nenhuma. Precisava de uma bandeira que atravessasse as duas divisões, e a causa palestina era a única disponível. Por isso Khomeini criou o Dia de Jerusalém já em 1979 e entregou o prédio da embaixada israelense em Teerã à Organização para a Libertação da Palestina.

A guerra que chegou até hoje

1982 · O Irã descobriu que sai mais barato pagar quem briga do que brigar

Em 1982, Israel invadiu o Líbano. No sul do Líbano existiam muitos xiitas. Então o Irã fez algo que redesenharia o conflito: mandou cerca de 1.500 instrutores da Guarda Revolucionária para o vale do Beca, onde treinaram, armaram e organizaram uma milícia nova. Nasceu o Hezbollah. Ou seja, entenda o que foi inventado ali. O Irã não luta contra Israel. O Irã constrói, treina e paga quem luta. É como se, numa briga de escola, em vez de bater você mesmo, você pagasse alunos de outras turmas para brigarem por você. Isso traz duas vantagens cruéis: sai barato, porque quem apanha é sempre outro, e é quase impossível de encerrar, porque não existe uma pessoa só com quem fazer as pazes.

Mas por que o Irã se intrometeu, em vez de ficar neutro? Porque neutralidade não trazia nenhum ganho e custava caro. Havia uma população pronta: os xiitas do sul do Líbano eram a comunidade mais pobre e politicamente marginalizada do país, num sistema que repartia o poder entre maronitas e sunitas, e já vinham se organizando desde os anos 1970. Eram exatamente quem estava debaixo da ocupação. O Irã não criou um cliente do nada, encontrou uma base disponível e ressentida, xiita como ele. Havia também a doutrina: a Constituição de 1979 não define o Irã como um Estado comum cuidando dos próprios interesses, e o artigo 154 fala em apoiar a luta dos oprimidos em qualquer lugar do mundo. Khomeini tinha derrubado o xá acusando-o de submissão ao estrangeiro; assistir de braços cruzados à ocupação de xiitas por Israel seria admitir ser o mesmo tipo de Estado que dizia ter destruído.

E havia o cálculo frio, que é o mais decisivo. O Irã estava desde 1980 em guerra contra o Iraque, que havia invadido com apoio americano, europeu e das monarquias do Golfo. Estava cercado e sem aliados estatais. Construir uma força não estatal no Líbano era barato, negável e criava profundidade estratégica longe das próprias fronteiras. Ao mesmo tempo resolvia o problema da terceira camada: o Egito tinha assinado paz com Israel em 1979 e a Organização para a Libertação da Palestina fora expulsa de Beirute em 1982, de modo que havia uma vaga aberta de quem realmente enfrenta Israel, e o Irã a ocupou. No fim, por uma fração do preço de um exército, o Irã ganhou fronteira com Israel sem ter fronteira com Israel.

Com o tempo o Irã montou uma rede inteira assim, que eles chamam de Eixo da Resistência: Hezbollah no Líbano, Hamas em Gaza, houthis no Iêmen, milícias no Iraque e o governo da Síria como ponte terrestre.

E olhe o mapa dos aliados: Hezbollah é xiita, as milícias iraquianas são xiitas, os houthis vêm de um ramo do xiismo, e o governo de Assad saiu de um grupo aparentado. O mapa da influência iraniana é quase o mapa do xiismo. A exceção é o Hamas, que é sunita, e a exceção prova a regra: o Irã financia um grupo sunita porque a Palestina é exatamente a ponte que atravessa a divisão religiosa.

E a bomba atômica? · Os americanos começaram o programa nuclear iraniano em 1957

Comecemos pela ironia que ninguém conta: o programa nuclear iraniano foi começado pelos americanos, em 1957, com o xá, dentro do programa Átomos para a Paz. O Ocidente plantou o que hoje bombardeia.

Para entender por que isso é grave, é preciso saber o que significa enriquecer urânio. O urânio tirado da terra é uma mistura em que só uma parcela mínima serve. Enriquecer é separar essa parcela útil. Para uma usina de energia, basta chegar a uns 4%. Para uma bomba, é preciso chegar a uns 90%. Agora o número que está no centro da briga de hoje: o Irã acumulou 440,9 quilos de urânio enriquecido a 60%, e é o único país sem armas nucleares signatário do Tratado de Não Proliferação a ter chegado a esse grau. Sessenta por cento parece longe de noventa, mas não é. O trabalho pesado está nas primeiras etapas. Chegar a 60% é como subir 90% da montanha: o que falta é o trecho curto do fim. Com essa quantidade daria para produzir algo em torno de dez artefatos.

E por que Israel reage como reage? Volte aos números do começo. Israel tem o tamanho de Sergipe e quase toda a população concentrada em poucas cidades. Numa guerra atômica, o Irã perderia cidades e continuaria existindo como país. Israel, não. Um dos dois só pode perder uma vez. Não é preciso concordar com o que Israel faz para entender que ele calcula a partir daí.

Israel só se defendeu? · A resposta honesta é que os dois atacaram, em fases bem distintas

Resposta honesta: os dois atacaram, em momentos diferentes, e são três fases bem distintas.

De 1979 a cerca de 1990, Israel não atacou o Irã. Chegou a vender armas ao regime de Khomeini durante a guerra contra o Iraque, na operação que depois desembocaria no escândalo Irã-Contras3, porque naquele momento Saddam Hussein estava mais perto e era mais perigoso. A inimizade era discurso iraniano, e Israel calculava por interesse.

Nos anos 1990 veio a virada. Em poucos anos os inimigos históricos de Israel saíram do tabuleiro: o Egito já tinha feito paz em 1979, a União Soviética caiu em 1991 e com ela o patrocínio militar dos regimes árabes, e o Iraque foi derrotado na Guerra do Golfo e ficou sob sanções. Pela primeira vez em quarenta anos não havia uma frente árabe capaz de ameaçar Israel convencionalmente. Foi então que o governo do primeiro-ministro Yitzhak Rabin tomou duas decisões que dependiam uma da outra: fechar a frente próxima, negociando com os palestinos em Oslo, em 1993, e com a Jordânia, em 1994; e nomear a frente distante, designando o Irã como a ameaça estratégica da nova era. As duas andavam juntas porque, na doutrina israelense, é preciso saber quem é o inimigo principal para saber com quem se pode fazer acordo: com o Irã no lugar de ameaça central, os palestinos deixavam de ser problema estratégico e passavam a ser problema administrável. Havia ainda o argumento para Washington, de que se o perigo real era o Irã, então a paz palestina interessava aos americanos.

Do lado iraniano, o acordo entre Israel e Palestina em Oslo era ameaça direta: se os palestinos assinassem a paz, o Irã perderia a única bandeira capaz de atravessar a divisão persa-árabe e xiita-sunita, e com ela a liderança regional que vinha construindo desde 1979. Daí a lógica do que veio: atacar longe, de modo negável, sem expor-se a retaliação militar, mostrando que a guerra continuava. Ou seja, para o governo iraniano a guerra fazia todo sentido e precisava continuar dentro do conflito palestino. E para isso o conflito saiu do Oriente Médio. A embaixada de Israel em Buenos Aires foi atacada em 1992, com 29 mortos, e o centro comunitário judaico AMIA em 1994, com 85 mortos, ambos em plena vigência do processo de paz. A Argentina não foi escolha ao acaso: tinha a maior comunidade judaica da América Latina, presença consolidada do Hezbollah na Tríplice Fronteira e um Estado de capacidade investigativa frágil. Em abril de 2024, o mais alto tribunal penal argentino responsabilizou formalmente o Irã e o Hezbollah pelos dois atentados e os classificou como crime contra a humanidade. O Irã nega até hoje.

De 2010 em diante, Israel é parte muito ativa. O vírus Stuxnet, que destruiu centrífugas em Natanz. O assassinato de pelo menos cinco cientistas nucleares iranianos entre 2010 e 2020. O roubo, pelo Mossad em 2018, de meia tonelada de documentos do arquivo nuclear dentro de Teerã. Centenas de ataques a posições iranianas na Síria. E, sobretudo, em 1º de abril de 2024 Israel bombardeou o anexo consular iraniano em Damasco, capital da Síria, matando um general da Guarda Revolucionária. Foi esse ataque que provocou, treze dias depois, o primeiro ataque direto do Irã contra Israel em 45 anos.

A conclusão justa, portanto, tem duas metades. O Irã construiu toda a arquitetura da hostilidade e é o agressor ideológico desde 1979; e Israel, dos anos 1990 em diante, tornou-se defensor ativo.

De 2023 a 2026 · O ano em que o Irã perdeu o Hezbollah, a Síria e o próprio Líder Supremo

Depois do terrível ataque do Hamas em outubro de 2023, toda a rede iraniana entrou em ação ao mesmo tempo. E foi então que o Irã começou a perder tudo. Em abril de 2024 veio o primeiro ataque direto do território iraniano contra Israel, repetido em outubro. A regra não escrita de que os dois nunca se atacariam de frente acabou ali. O chefe do Hezbollah foi morto em setembro de 2024. O governo sírio de Assad caiu em dezembro de 2024, cortando a ponte terrestre por onde as armas iranianas chegavam ao Líbano. E de 13 a 24 de junho de 2025 houve a Guerra dos Doze Dias, com Israel atacando o alto comando iraniano e os Estados Unidos bombardeando as instalações nucleares de Fordow, Natanz e Isfahan em 22 de junho.

Então, em 28 de fevereiro de 2026, veio o maior ataque de todos. Na Operação Fúria Épica, americanos e israelenses realizaram cerca de 900 bombardeios em doze horas. O Líder Supremo Ali Khamenei foi morto, junto com dezenas de comandantes.

O Irã revidou contra embaixadas, bases militares e instalações de petróleo, e tentou fechar o estreito de Ormuz4. O preço do barril saltou de cerca de 70 para 103 dólares. Houve cessar-fogo em 8 de abril e um memorando assinado em 17 de junho pelo presidente americano Donald Trump e pelo presidente iraniano Masoud Pezeshkian, com sessenta dias para negociar o arquivo nuclear. Ele desabou em 6 e 7 de julho, quando o Irã atacou três navios comerciais.

Por que eles estão brigando hoje? · Cinco motivos, e um deles é a ordem dos fatores numa inspeção

Cinco coisas ao mesmo tempo, e todas com endereço certo.

Primeira: os 440 quilos de urânio. Desde junho de 2025 os inspetores internacionais não entram no Irã. Ninguém de fora sabe onde aquele material está. E a negociação travou num detalhe que parece burocrático e não é: a agência atômica quer inspecionar como parte de um acordo interino, e Teerã só aceita inspeção depois de um acordo final. É literalmente uma disputa sobre a ordem dos fatores, e é por causa dela que ainda cai bomba.

Segunda: os estreitos. Tendo perdido o líder, os generais e os aliados, fechar o caminho do petróleo do mundo é a última carta real que o Irã tem.

Mapa em relevo sombreado: no alto, a costa do Irã, recortada, com uma ilha comprida colada a ela; embaixo, uma península montanhosa apontando para o norte; entre as duas, uma faixa de mar azul estreita, atravessada por linhas tracejadas de rota; ao centro, a legenda em inglês “Strait of Hormuz”
O estreito de Ormuz visto de cima. A faixa de mar entre a costa iraniana, em cima, e a península de Musandam, embaixo, tem cerca de 33 quilômetros no ponto mais apertado, e os canais em que um petroleiro carregado realmente cabe são as linhas tracejadas, muito mais finas que isso. Por esse gargalo passa perto de um quinto do petróleo do mundo, e é ele que o Irã ameaça fechar quando não lhe resta mais nada.
O estreito de Ormuz visto de cima. A faixa de mar entre a costa iraniana, em cima, e a península de Musandam, embaixo, tem cerca de 33 quilômetros no ponto mais apertado, e os canais em que um petroleiro carregado realmente cabe são as linhas tracejadas, muito mais finas que isso. Por esse gargalo passa perto de um quinto do petróleo do mundo, e é ele que o Irã ameaça fechar quando não lhe resta mais nada.OpenStreetMap · CC BY 4.0 · via Wikimedia Commons

Terceira: as armas do Hezbollah. Em 7 de agosto o governo libanês decidiu desarmar todas as milícias do país, e o exército tem até 31 de agosto para entregar o plano. Há negociações em Roma e ataques israelenses continuando ao mesmo tempo, e o Hezbollah pressiona o Líbano a interromper as conversas.

Quarta: quem manda na Síria depois de Assad. E repare na novidade: o primeiro-ministro de Israel, Netanyahu, avisou a Turquia antes de atacar uma base aérea síria. O vácuo deixado pela queda de Assad não está sendo preenchido pelo Irã, e sim disputado por Israel e Turquia, dois aliados de Washington.

Quinta, e por baixo de tudo: a sobrevivência do regime. Um governo que perdeu o Líder Supremo, o alto comando e a rede de milícias precisa provar que ainda existe. Foi por isso que a trégua caiu em julho. Regime que não consegue revidar é regime que cai, e quem está no poder em Teerã sabe disso melhor do que ninguém.

O que pode acontecer, e a quem a conta chega

Tem como ter paz? · Parar de atirar já aconteceu três vezes só este ano

Depende do que se chama de paz. Parar de atirar, sim. Já aconteceu três vezes só este ano, e sempre volta. Paz de verdade é difícil, por três razões.

A primeira é que a briga não é por um pedaço de terra. Terra se divide. Essa briga é sobre se o outro tem direito de existir do jeito que é, e isso não se reparte ao meio.

A segunda é que não existe uma pessoa só para assinar, por causa daquela invenção de lutar com as mãos dos outros. Do que adianta assinar paz com o Hamas, se o inimigo que financia é o Irã? Do que adianta fazer paz com o Irã, se o Hezbollah ainda quer continuar a luta? E por aí vai…

A terceira é a mais amarga e é nova. Depois de fevereiro, o Irã ganhou o melhor argumento da história para construir a bomba. A Líbia entregou o programa nuclear e o regime caiu. A Ucrânia devolveu as ogivas que herdara e foi invadida. A Coreia do Norte ficou com as suas e ninguém a tocou. Os bombardeios atrasaram o programa e, ao mesmo tempo, deram razão a quem, lá dentro, defende terminá-lo.

Mas nem tudo joga contra. Quatro coisas mudaram a favor. O eixo de milícias acabou. O regime perdeu o próprio povo. Os países árabes vizinhos escolheram o comércio em vez da guerra, a ponto de os Emirados Árabes Unidos imporem embargo financeiro a Teerã. E existe precedente: entre 2015 e 2018, sob o acordo nuclear, o Irã assinou e cumpriu, com a agência atômica atestando o cumprimento. Isso não é fé, é histórico.

Minha avaliação sincera: paz abrangente, não. Acordo verificável, sim, e ele é aritmeticamente simples. Inspeção e limite de enriquecimento em troca de alívio de sanções e garantia de que ninguém tentará derrubar o regime. O que falta não é engenharia diplomática. É confiança, e confiança é exatamente o que os dois lados destruíram. O melhor cenário realista não se chama paz. Chama-se hostilidade administrada: guerra fria sem guerra quente, como Israel e Síria viveram por cinquenta anos. É pouco. Mas é a diferença entre gente morrendo e gente não morrendo.

Quem sofre com isso · Adubo caro é frango, ovo e carne caros, e o Brasil importa adubo

O dano já é maior nos vizinhos do que nos dois inimigos. O Líbano teve mais de um sexto da população deslocada. A Síria virou tabuleiro alheio. O Iraque e o Iêmen viraram campo de batalha de terceiros. O Egito perde a receita do canal de Suez toda vez que o mar Vermelho fica perigoso, e é dinheiro que ele não tem como repor. Os países do Golfo que hospedam as bases americanas foram alvo do revide e têm as economias penduradas em Ormuz, como Catar, Emirados e outros.

E chega até aqui, ainda que ninguém faça a conta. Petróleo caro é combustível caro, frete caro e adubo caro. O Brasil importa a maior parte dos fertilizantes que consome. Adubo caro é soja e milho caros, e isso é frango, ovo e carne caros. Uma guerra a 11 mil quilômetros de distância chega ao mercado do bairro em alguns meses, e quase ninguém liga uma coisa à outra.

Fotografia antiga em preto e branco: um navio de passageiros, de casco claro e superestrutura alta, avança por um canal estreito de água calma; nas duas margens, apenas areia e barrancos baixos, sem vegetação nem construções
Um navio atravessando o canal de Suez, em fotografia de 1955. A imagem é antiga e a geografia não mudou: continua sendo esta faixa estreita de água no meio do deserto, e cada armador que a evita porque o mar Vermelho ficou perigoso deixa de pagar a taxa de passagem ao Egito e dá a volta pela África. Frete mais longo é frete mais caro, e é por esse fio que a guerra chega ao preço do frango no Brasil.
Um navio atravessando o canal de Suez, em fotografia de 1955. A imagem é antiga e a geografia não mudou: continua sendo esta faixa estreita de água no meio do deserto, e cada armador que a evita porque o mar Vermelho ficou perigoso deixa de pagar a taxa de passagem ao Egito e dá a volta pela África. Frete mais longo é frete mais caro, e é por esse fio que a guerra chega ao preço do frango no Brasil.Zdravko Pečar · CC BY-SA 4.0 · via Wikimedia Commons

Quem pode fazer alguma coisa · A China tem a maior alavanca, e é exatamente por isso que não vai usá-la

A China tem a maior alavanca do planeta sobre Teerã, porque compra a maior parte do petróleo que o Irã consegue exportar. É o dinheiro que sustenta o regime. Se Pequim parar, a receita evapora em semanas. Só que não vai parar, porque compra com desconto pesado e lucra com a distração americana. As sanções americanas anunciadas este mês, contra “qualquer país que negocie com o Irã”, têm na prática um único destinatário.

Os Estados Unidos são o único ator capaz de castigar e garantir ao mesmo tempo. Só Washington tem o que Teerã de fato quer, que é alívio de sanções e segurança do regime, e só Washington consegue segurar o braço de Israel. Mas “não haverá conversas” não é uma política que produza acordo; é uma política que produz o próximo bombardeio. Omã e Catar são os mediadores de verdade. Todo canal que funcionou desde 2013 passou por Mascate e por Doha. São Estados pequenos cuja única força é serem confiáveis para os dois lados, e por isso valem mais que potências. A Rússia tem influência e não tem interesse: crise no Oriente Médio eleva o preço do petróleo que ela vende e tira o mundo do assunto Ucrânia. A Europa e a agência atômica internacional são o mecanismo técnico. Sem inspetor não existe acordo, existe trégua. E trégua sempre acaba.

E o povo iraniano, que é quem todos esquecem. No longo prazo, é o único ator capaz de encerrar isso em definitivo, porque esta guerra é projeto de um regime e não vocação de uma nação. Regimes mudam.

O que a Bíblia diz sobre a Pérsia, e o que ela não autoriza ninguém a dizer

Contei versículo por versículo · São 152, em 15 livros, e Ester sozinha tem 48

Fiz a varredura completa da Escritura, versículo por versículo, atrás de toda menção à Pérsia, à Média, a Elão, a Susã, aos partos e aos reis persas pelo nome. O resultado: 152 versículos, em 15 livros. Ester tem 48. Esdras tem 39. Daniel tem 19. Depois vêm Neemias, Jeremias, Isaías, Gênesis, Crônicas, Ezequiel, Ageu, Zacarias, 2 Reis e Atos. Ou seja, o território do Irã de hoje é um dos lugares estrangeiros mais citados da Bíblia, e há livros inteiros que se passam lá dentro.

Painel de tijolos vidrados em azul-esverdeado e ocre: dois guardas de perfil caminham para a direita, de barba encaracolada, touca com faixa, túnica longa de padrões geométricos e florais, lança em punho e arco às costas; acima e abaixo, faixas decorativas de palmetas e triângulos
Os arqueiros do palácio de Dario em Susã, em tijolo vidrado, hoje no Louvre. Susã não é cenário secundário na Bíblia: é onde Ester vive, é onde Daniel recebe a visão do carneiro e do bode, e é onde Hamã redige o decreto de extermínio. Guardas como estes estavam nos corredores das duas histórias.
Os arqueiros do palácio de Dario em Susã, em tijolo vidrado, hoje no Louvre. Susã não é cenário secundário na Bíblia: é onde Ester vive, é onde Daniel recebe a visão do carneiro e do bode, e é onde Hamã redige o decreto de extermínio. Guardas como estes estavam nos corredores das duas histórias.Autoria desconhecida · Museu do Louvre · Domínio público · via Wikimedia Commons

Por que a Bíblia não fala em “Irã” · O nome é de 1935, e o chão é exatamente o mesmo

O Irã não aparece com esse nome porque esse nome é de 1935, quando o xá pediu às chancelarias estrangeiras que deixassem de escrever “Pérsia”. Ou seja, nada mudou no território; mudou só o rótulo. Na Escritura aquele chão aparece sob quatro nomes: Pérsia, o império do planalto; Média, dos medos, no noroeste; Elão, no sudoeste, região do atual Khuzistão, cuja capital era Susã; e Partia, uma vez só.

Irã, então, não é nome novo: vem de Ērān, do antigo Aryānām, e já aparece nas inscrições sassânidas do século III, em que os reis se intitulam soberanos do Ērānshahr, o reino do Irã. Os iranianos chamam o próprio país assim há mais de mil e setecentos anos. Pérsia, por sua vez, nasceu de um acidente de perspectiva grega: a dinastia de Ciro vinha da região de Pārsa, a atual província de Fars, e os gregos chamaram o todo pelo nome da parte, como quem chama todo o Reino Unido de Inglaterra. Herdamos o exônimo por Heródoto e pela tradição clássica. Havia, portanto, dois nomes em circulação simultânea por vinte e cinco séculos, Irã por dentro e Pérsia por fora, e em 1935 o xá Reza Pahlavi apenas pediu que o de fora se alinhasse ao de dentro. Somaram-se a isso o nacionalismo modernizador, porque Pérsia evocava império morto e Irã evocava Estado contemporâneo, e a vontade de superar o regionalismo, já que Pérsia privilegiava uma província num país de azeris, curdos, árabes e baluques.

O que isso significa para a leitura bíblica é decisivo: a Escritura não fala do Irã porque o nome não circulava naquelas línguas, e não porque se trate de outro povo. É o mesmo chão e a mesma continuidade histórica.

Gênesis · O primeiro conquistador nomeado na Bíblia era rei de Elão, e era primo dos hebreus

A primeiríssima menção não é de guerra. É de família.

Os filhos de Sem são: Elão, Assur, Arfaxade, Lude e Arã.Gênesis 10.22 (ACF)

Na tábua das nações, Elão é filho de Sem, o mesmo Sem de quem descende Abraão. Genealogicamente, na conta da própria Escritura, os elamitas são semitas, primos dos hebreus. Quatro capítulos depois vem a segunda menção.

E aconteceu nos dias de Anrafel, rei de Sinar, Arioque, rei de Elasar, Quedorlaomer, rei de Elão, e Tidal, rei de Goim…Gênesis 14.1 (ACF)

Quedorlaomer, rei de Elão, é o primeiro conquistador nomeado na Bíblia. Cinco cidades lhe pagavam tributo havia doze anos, e no décimo terceiro se rebelaram. Ele desceu com três reis aliados, venceu, saqueou Sodoma e levou Ló, sobrinho de Abrão, como despojo. Repare no que isso significa. A primeira guerra narrada na Escritura é contra um rei do território que hoje se chama Irã. E é essa guerra que faz Abrão pegar em armas pela única vez na vida: armou trezentos e dezoito homens nascidos na sua casa, perseguiu a coalizão até Dã e resgatou o sobrinho.

Construção maciça de tijolo de barro cor de areia, sob céu azul limpo: uma escadaria larga sobe ao centro, ladeada por muros de fiadas regulares que se escalonam em terraços; no alto, o topo do monumento aparece gasto e arredondado pela erosão; no piso, em primeiro plano, duas fileiras baixas de tijolo delimitam o caminho
O zigurate de Chogha Zanbil, no sudoeste do Irã, erguido pelos elamitas por volta de 1250 antes de Cristo. Elão não é nome vago na Escritura: é o povo de Quedorlaomer, o primeiro conquistador que a Bíblia nomeia, e a região que Isaías, Jeremias e Ezequiel citam pelo nome. Este é o tipo de construção que estava de pé no chão de que esses profetas falavam.
O zigurate de Chogha Zanbil, no sudoeste do Irã, erguido pelos elamitas por volta de 1250 antes de Cristo. Elão não é nome vago na Escritura: é o povo de Quedorlaomer, o primeiro conquistador que a Bíblia nomeia, e a região que Isaías, Jeremias e Ezequiel citam pelo nome. Este é o tipo de construção que estava de pé no chão de que esses profetas falavam.Atsed · CC BY-SA 4.0 · via Wikimedia Commons

A vara na mão de Deus · Parte das tribos perdidas foi deportada para dentro do território iraniano

Passado o Gênesis, aquele território reaparece por séculos como instrumento de juízo. E o juízo cai sobre Israel. O primeiro caso é o mais duro e o mais esquecido. Quando a Assíria destruiu o reino do norte, as dez tribos não foram deportadas apenas para a Assíria:

…e levou Israel cativo para a Assíria; e fê-los habitar em Hala e em Habor junto ao rio de Gozã, e nas cidades dos medos.2 Reis 17.6, repetido em 18.11 (ACF)

Parte do povo de Deus foi levada para dentro do território iraniano (os medos), e ali sumiu da narrativa bíblica. É de lá que sai boa parte das lendas sobre as tribos perdidas, e é também por isso que, séculos depois, ainda havia judeus espalhados por todo aquele império, como o livro de Ester pressupõe.

Depois disso, Elão aparece do lado errado mais de uma vez. Isaías o vê armado contra Jerusalém, “Elão tomou a aljava, juntamente com carros de homens e cavaleiros” (Isaías 22.6). Ezequiel lista os persas entre os mercenários que serviam no exército de Tiro (Ezequiel 27.10). Jeremias inclui “todos os reis de Elão e todos os reis da Média” entre os que hão de beber o cálice da ira (Jeremias 25.25). E Ezequiel os coloca entre as nações derrubadas, “ali está Elão com toda a sua multidão em redor do seu sepulcro” (Ezequiel 32.24). Nada disso é elogio. A Escritura não romantiza aquele povo.

A noite do banquete · A palavra escrita na parede era “dividido” e “persa” ao mesmo tempo

E então vem uma das cenas mais famosas da Bíblia. Belsazar está no banquete, bebendo nos vasos saqueados do templo de Jerusalém, quando uma mão escreve na parede quatro palavras que ninguém consegue ler. Daniel é chamado e traduz:

Pintura escura e dourada: um homem robusto, de turbante branco com coroa e manto bordado de ouro, vira o rosto assustado para a direita e estende o braço; no alto, uma mão sai de uma nuvem e escreve letras hebraicas luminosas em colunas verticais; à volta da mesa, convidados recuam, uma mulher derrama vinho de uma taça e outra leva a mão à boca
Rembrandt pintou a cena por volta de 1635, e resolveu nela um enigma antigo do texto: por que os sábios da Babilônia, que liam aramaico, não conseguiram ler quatro palavras em aramaico. Repare em como as letras estão dispostas, em colunas de cima para baixo, e não em linha. Foi a explicação que um rabino de Amsterdã sugeriu ao pintor, e ela deixa a cena inteira mais inquietante: o problema não era o idioma, era a ordem.
Rembrandt pintou a cena por volta de 1635, e resolveu nela um enigma antigo do texto: por que os sábios da Babilônia, que liam aramaico, não conseguiram ler quatro palavras em aramaico. Repare em como as letras estão dispostas, em colunas de cima para baixo, e não em linha. Foi a explicação que um rabino de Amsterdã sugeriu ao pintor, e ela deixa a cena inteira mais inquietante: o problema não era o idioma, era a ordem.Rembrandt · National Gallery, Londres · Domínio público · via Wikimedia Commons
MENE: Contou Deus o teu reino, e o acabou. TEQUEL: Pesado foste na balança, e foste achado em falta. PERES: Dividido foi o teu reino, e dado aos medos e aos persas.Daniel 5.26–28 (ACF)

Há um trocadilho no original que se perde na tradução: a raiz de PERES, dividir, é a mesma que soa como Paras, Pérsia. A palavra escrita na parede era, ao mesmo tempo, “dividido” e “persa”. E o texto encerra sem rodeio: “naquela noite foi morto Belsazar, rei dos caldeus. E Dario, o medo, ocupou o reino” (Daniel 5.30–31). A profecia e o cumprimento estão separados por quatro versículos. É exatamente a noite em que começa o estudo de Daniel na cova dos leões, que se passa dentro do governo persa recém-instalado.

Só que aquilo já vinha anunciado havia mais de um século. Isaías escrevera: “eis que suscitarei contra eles os medos, que não farão caso da prata” (Isaías 13.17), e antes disso “sobe, ó Elão, sitia, ó Média” (Isaías 21.2). Jeremias repetira que “o Senhor despertou o espírito dos reis da Média, porque o seu intento contra a Babilônia é para a destruir” (Jeremias 51.11 e 51.28).

E então a vara virou escudo · Ciro é o único gentio que a Bíblia chama de ungido

Aqui o tema muda de sinal, e muda de vez. Isaías nomeia o rei persa antes de ele existir, e usa para um gentio duas palavras que a Escritura reserva ao povo da aliança:

Que digo de Ciro: É meu pastor, e cumprirá tudo o que me apraz, dizendo também a Jerusalém: Tu serás edificada; e ao templo: Tu serás fundado.Isaías 44.28 (ACF)
Assim diz o SENHOR ao seu ungido, a Ciro, a quem tomo pela mão direita, para abater as nações diante de sua face…Isaías 45.1 (ACF)

“Ungido” é מָשִׁיחַ, mashiach, messias. Ciro é o único gentio em toda a Bíblia a receber esse título. Não porque fosse crente, e o texto até diz que ele não conhecia o Senhor, mas porque foi o instrumento escolhido. É o mesmo princípio que aparece no estudo de Éfeso, quando autoridades pagãs protegem Paulo sem ter a menor ideia de que estão servindo a um propósito que não é o delas.

Monumento de pedra calcária clara em campo aberto, sob céu azul: uma câmara retangular de telhado de duas águas, sem portas visíveis deste ângulo, assentada sobre uma base de seis degraus largos e irregulares; uma corda baixa de proteção contorna o terreno de cascalho
O túmulo de Ciro, em Pasárgada, de pé há vinte e cinco séculos. É o mesmo Ciro que Isaías chama de pastor e de ungido e que Esdras 1 registra libertando os judeus, e é para cá que iranianos vão até hoje deixar flores. E é a fotografia mais direta do que este tópico afirma: o rei que a Bíblia mais elogia entre os gentios está enterrado no país que hoje aparece no noticiário como o inimigo.
O túmulo de Ciro, em Pasárgada, de pé há vinte e cinco séculos. É o mesmo Ciro que Isaías chama de pastor e de ungido e que Esdras 1 registra libertando os judeus, e é para cá que iranianos vão até hoje deixar flores. E é a fotografia mais direta do que este tópico afirma: o rei que a Bíblia mais elogia entre os gentios está enterrado no país que hoje aparece no noticiário como o inimigo.Truth Seeker · CC BY-SA 3.0 · via Wikimedia Commons

E o cumprimento vem registrado com data e papelada:

No primeiro ano de Ciro, rei da Pérsia, para que se cumprisse a palavra do SENHOR pela boca de Jeremias, despertou o SENHOR o espírito de Ciro…Esdras 1.1 (ACF)

E há um detalhe de arquivo que vale um estudo inteiro. Anos depois, quando inimigos tentaram embargar a obra alegando que não havia autorização, mandou-se procurar o decreto. E ele foi achado:

E em Acmeta, no palácio, que está na província de Média, se achou um rolo, e nele estava escrito um memorial.Esdras 6.2 (ACF)

Acmeta é Ecbátana, a capital de verão dos reis persas. O documento estava guardado no arquivo do Estado, e o decreto mandava mais do que permitir: mandava reconstruir o templo às custas do tesouro real e devolver os utensílios de ouro e prata que Nabucodonosor levara (Esdras 6.3–5).

Cilindro de argila cor de barro, do tamanho de um antebraço, rachado e com um pedaço faltando embaixo, apoiado num suporte transparente dentro de uma vitrine; toda a superfície curva está coberta de escrita cuneiforme em linhas apertadas
O cilindro de Ciro, escrito em cuneiforme logo depois da tomada da Babilônia. Nele o rei persa conta que entrou na cidade sem batalha e mandou os povos deportados voltarem para as suas terras com os seus objetos de culto. É a política de Estado por trás de Esdras 1, escrita pelo próprio vencedor e sem uma linha sobre o Deus de Israel: exatamente o que Isaías previu ao dizer que Ciro serviria ao propósito sem conhecer quem o chamava.
O cilindro de Ciro, escrito em cuneiforme logo depois da tomada da Babilônia. Nele o rei persa conta que entrou na cidade sem batalha e mandou os povos deportados voltarem para as suas terras com os seus objetos de culto. É a política de Estado por trás de Esdras 1, escrita pelo próprio vencedor e sem uma linha sobre o Deus de Israel: exatamente o que Isaías previu ao dizer que Ciro serviria ao propósito sem conhecer quem o chamava.Foto de Mike Peel · Museu Britânico · CC BY-SA 4.0 · via Wikimedia Commons

Ester e Daniel · A lei que nem o rei podia revogar joga um na cova e salva a outra

Dois livros se passam inteiramente naquele chão, e os dois giram em torno da mesma engrenagem jurídica. Daniel está em Susã quando recebe a visão do carneiro e do bode (Daniel 8.2), e é em Susã que Ester vive. E tanto em Daniel quanto em Ester a trama depende de uma peculiaridade do direito persa:

…conforme a lei dos medos e dos persas, que não se pode revogar.Daniel 6.8; a mesma fórmula em Ester 1.19 (ACF)

Em Daniel, é o que joga o profeta na cova dos leões, porque nem o rei, arrependido, pode desfazer o próprio edito. Em Ester, é o que impede a simples anulação do decreto de extermínio, obrigando o rei a emitir um segundo decreto autorizando os judeus a se defenderem. Essa engrenagem, e a razão administrativa por trás dela num império de estradas de meses de viagem, está destrinchada no estudo de Daniel 6.

Sobre fundo bege, à esquerda um pequeno cilindro de pedra acinzentada e translúcida, do tamanho de um dedo; à direita, uma placa retangular de argila avermelhada presa por ganchos, com a impressão em relevo do cilindro: um cavalo, um homem de perfil segurando uma lança comprida e um animal de patas dianteiras levantadas, com sinais cuneiformes no alto
Um selo cilíndrico persa e a marca que ele deixa quando rolado sobre argila mole. É o objeto de que Ester 8.8 fala ao dizer que o decreto selado com o anel do rei não se pode revogar: a autoridade não estava na assinatura, estava na marca, e a marca era impossível de falsificar e impossível de desfazer. A cova dos leões existe por causa de uma dessas.
Um selo cilíndrico persa e a marca que ele deixa quando rolado sobre argila mole. É o objeto de que Ester 8.8 fala ao dizer que o decreto selado com o anel do rei não se pode revogar: a autoridade não estava na assinatura, estava na marca, e a marca era impossível de falsificar e impossível de desfazer. A cova dos leões existe por causa de uma dessas.Zunkir · Museu Britânico · CC BY-SA 4.0 · via Wikimedia Commons

E é ali, em Susã, que Hamã arma o primeiro projeto registrado de exterminar todos os judeus (Ester 3.8–13), no mesmo império que poucas décadas antes os havia libertado. O mesmo território aparece, portanto, como libertador e como carrasco, com poucas décadas de distância. E daí sai um princípio que vale para toda leitura política feita por cristãos: nenhum povo tem essência eterna diante de Deus. Quem quiser ver até onde isso vai, leia Isaías 19.23–25, onde Deus chama o Egito de “meu povo” e a Assíria de “obra das minhas mãos”, os dois maiores opressores históricos de Israel.

Falta ainda a camada que a maioria pula. Em Daniel 10.13 e 10.20, o mensageiro celeste diz ter sido detido vinte e um dias pelo “príncipe do reino da Pérsia”, e que ao sair terá de enfrentar o príncipe da Grécia. É uma das poucas janelas da Escritura para o conflito angelical por trás da geopolítica. Seja qual for a interpretação que se adote, o texto ensina uma coisa sem ambiguidade: o que se vê no noticiário não é tudo o que está acontecendo.

A promessa que ninguém prega · A última palavra sobre aquele chão não é destruição

Chegamos ao fim do arco. A única profecia da Bíblia dirigida especificamente àquele território é Jeremias 49.34–39, datada “no princípio do reinado de Zedequias”, por volta de 597 a.C. O conteúdo é duríssimo: Deus quebrará “o arco de Elão, a fonte do seu poder”, trará “os quatro ventos dos quatro ângulos do céu”, e espalhará os elamitas de tal modo que “não haverá país aonde não venham os fugitivos de Elão”.

E então, no último versículo, o texto vira:

Acontecerá, porém, nos últimos dias, que farei voltar os cativos de Elão, diz o Senhor.Jeremias 49.39 (ACF)

A última palavra da Escritura sobre aquele território não é destruição. É restauração. E não é caso isolado: a mesma estrutura fecha as profecias contra Moabe e contra Amom, no mesmo bloco de Jeremias, o que mostra ser padrão do profeta. Some-se a isso Isaías, que ao listar os lugares de onde Deus recobrará o remanescente inclui aquele chão pelo nome:

…o Senhor tornará a pôr a sua mão para adquirir outra vez o remanescente do seu povo… da Assíria, e do Egito, e de Patros, e da Etiópia, e de Elã, e de Sinar, e de Hamate, e das ilhas do mar.Isaías 11.11 (ACF)

E o primeiro sinal de cumprimento está no dia em que a igreja nasceu. Na lista de quem ouviu o evangelho em Jerusalém, Lucas abre com três povos daquele território e, poucas linhas depois, acrescenta mais um vizinho:

Partos e medos, elamitas e os que habitam na Mesopotâmia… cretenses e árabes: todos nós temos ouvido em nossas próprias línguas falar das grandezas de Deus.Atos 2.9–11 (ACF)

Leia devagar. Persas e árabes estavam na mesma sala, no primeiro dia da igreja, ouvindo a mesma coisa cada um no seu idioma. Seis séculos antes de existir a divisão que hoje os separa, o Espírito Santo já os havia colocado juntos, e sem pedir que nenhum dos dois deixasse de ser o que era. É a cena que abre o livro de Atos, e o estudo de Atos 1 mostra a promessa que a antecede em dez dias.

Gravura em preto e branco, feita de linhas finíssimas: dentro de um salão escuro e alto, um grupo de homens de túnicas longas está em círculo, uns de joelhos, outros de cabeça baixa, um deles no centro com as mãos juntas e o rosto erguido; acima da cabeça de cada um paira uma pequena chama, e no alto uma pomba desce num feixe de luz
Pentecostes na gravura de Gustave Doré. A lista de povos que Lucas registra logo depois desta cena começa por partos, medos e elamitas, os três do território que hoje é o Irã, e poucas linhas adiante inclui os árabes. Não é detalhe de geografia: os dois lados da divisão que ainda não existia estavam naquela sala, ouvindo a mesma coisa em idiomas diferentes.
Pentecostes na gravura de Gustave Doré. A lista de povos que Lucas registra logo depois desta cena começa por partos, medos e elamitas, os três do território que hoje é o Irã, e poucas linhas adiante inclui os árabes. Não é detalhe de geografia: os dois lados da divisão que ainda não existia estavam naquela sala, ouvindo a mesma coisa em idiomas diferentes.Gustave Doré, gravura de Jonnard · The Bible Panorama, 1891 · Domínio público · via Wikimedia Commons

A manchete de verdade · A igreja que mais cresce no mundo está debaixo daquelas bombas

Em 1979, quando a revolução começou, havia poucas centenas de cristãos de origem muçulmana no Irã. Hoje as estimativas vão de centenas de milhares a mais de um milhão, e a organização de pesquisa Operação Mundo aponta a igreja iraniana como o movimento evangélico que mais cresce no mundo. São estimativas frágeis por natureza, porque a igreja é clandestina e a conversão é crime. Mas a direção é inequívoca, e ela aconteceu debaixo do regime mais hostil ao evangelho que aquele país já teve, em igrejas dentro de casas, alimentadas por rádio, satélite e Escritura contrabandeada.

Repare no que isso significa. No país onde a religião pegou em armas e virou governo, a religião oficial é a que mais perde gente. E o evangelho, que ali não tem exército nenhum, é o que mais ganha. Não é coincidência: governo religioso produz ateu e produz convertido, mas nunca produz fé.

E o que a igreja faz, então? · Torcer pela escalada é pedir fogo sobre irmãos

Uma coisa desconfortável precisa ser dita.

Existe uma tentação real em certos púlpitos, e é a de torcer pela escalada, porque a manchete parece confirmar um esquema profético. É preciso nomear o que isso significa: é desejar a morte de pessoas reais para acelerar um calendário que Jesus disse não nos pertencer. E há um detalhe que devia bastar para calar essa torcida. A igreja que mais cresce no mundo está debaixo daquelas bombas. Cristão brasileiro que pede fogo sobre Teerã está pedindo fogo sobre irmãos.

O que resta é menos espetacular e mais bíblico. Paulo manda que se façam “súplicas, orações, intercessões e ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todos os que se acham investidos de autoridade”, e dá a finalidade sem nenhum verniz: “para que tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honestidade” (1 Timóteo 2.1–2). A igreja ora por paz porque paz é o ambiente em que o evangelho corre. Não é pacifismo sentimental, é estratégia missionária.

E as duas ordens não se anulam: Salmo 122.6 manda orar pela paz de Jerusalém, e Mateus 5.44 manda orar pelos inimigos. O regime não é o povo. Quem só sabe torcer, de um lado ou do outro, está tratando como jogo aquilo que é sobrevivência para milhões, e esquecendo que há irmãos dos dois lados da linha de fogo.

Concluo relembrando que esse texto foi escrito para que, diante da verdade, eu e você possamos andar em caminhos retos perante o Senhor. Entendendo onde esse conflito começou, como ele nos influencia e de que forma nós, como igreja, devemos nos portar diante desses eventos.

Graça e Paz.

Notas

1. Na doutrina xiita duodecimana, majoritária no Irã, Muhammad al-Mahdi, o décimo segundo imã, nasceu em 869 d.C. e não morreu: entrou em ghayba (ocultação), primeiro a Menor (874–941), depois a Maior, que dura até hoje. Não se trata de imortalidade por natureza, mas de longevidade concedida por Deus; ao reaparecer (zuhur), ele reinará e depois morrerá. Os sunitas também esperam um Mahdi, mas para eles é figura futura ainda não nascida. Quanto a Jesus, o Alcorão nega a crucificação (4.157), afirma que Deus o elevou a si (4.158) e o chama de sinal da Hora (43.61), mas não descreve um retorno para reinar: essa doutrina (nuzul al-Masih) vem dos hadices, coletâneas de tradições atribuídas a Maomé compiladas nos séculos VIII e IX, e nelas Jesus desce como muçulmano, reza atrás do Mahdi e confirma o islã. O contraste com o texto bíblico é frontal: a cruz não é aparência, mas fundamento (Romanos 5.8; 1 Coríntios 15.17); o retorno é do próprio Cristo, não de um auxiliar (Atos 1.11); e o reino é dele, sem intermediário (Apocalipse 11.15). Filipenses 2.9–11 ilumina a diferença: no islã Jesus se dobra diante do imã; ali, é diante de Jesus que todo joelho se dobra.

2. A Revolução Branca foi um programa de modernização feito de cima para baixo, aprovado por referendo em janeiro de 1963. Começou com seis pontos e chegou a dezenove, incluindo reforma agrária, voto feminino, nacionalização de florestas e pastagens, participação dos trabalhadores nos lucros e o Exército da Alfabetização. A lógica era preventiva: reformar pelo trono antes que a esquerda reformasse contra ele. A oposição de Khomeini tinha motivos distintos. Na reforma agrária, o mais concreto: as instituições religiosas eram grandes proprietárias por meio do waqf, doações perpétuas cuja renda sustentava seminários, mesquitas e a rede assistencial do clero, de modo que atingir a terra era atingir a autonomia financeira do clero. No voto feminino, a objeção de fundo era à fonte da autoridade, isto é, quem pode redefinir o estatuto legal da mulher, o clero ou um monarca secular; sinal disso é que depois de 1979 o regime manteve o voto feminino e mobilizou politicamente as mulheres, mas revogou os tribunais de família. Na secularização estava o núcleo real: educação, justiça de família e registro civil passavam do clero ao Estado, e a troca do calendário islâmico por um calendário imperial pré-islâmico sinalizava um Irã definido como nação persa antiga, não como comunidade muçulmana. Em 1963 Khomeini ainda não defendia o velayat-e faqih, que formularia em Najaf por volta de 1970: falava como aiatolá defendendo a esfera do clero, posição então convencional. Ironia registrada pela reforma: repartida em lotes pequenos e sem crédito, ela provocou êxodo rural para as periferias de Teerã, formando a população urbana pobre que sairia às ruas em 1979. É o padrão que Samuel advertira a Israel ao pedir um rei “como o têm todas as nações”: o rei tomaria dos campos, das vinhas e dos filhos (1 Samuel 8.5; 8.14–17).

3. Escândalo do governo Reagan, revelado em novembro de 1986 pela revista libanesa Ash-Shiraa, que juntou duas operações secretas. Na ponta iraniana, os Estados Unidos mantinham embargo de armas ao Irã e proclamavam não negociar com terroristas, mas entre 1985 e 1986 venderam secretamente mísseis antitanque TOW e peças de mísseis HAWK ao regime de Khomeini, então em guerra contra o Iraque, para que o Irã pressionasse o Hezbollah a libertar reféns americanos no Líbano; Israel serviu de intermediário nas primeiras remessas. Na ponta nicaraguense, o lucro dessas vendas foi desviado para financiar os Contras, guerrilhas que combatiam o governo sandinista, o que era vedado pela Emenda Boland aprovada pelo Congresso. O tenente-coronel Oliver North, do Conselho de Segurança Nacional, apareceu como operador central e destruiu documentos; catorze pessoas foram indiciadas e George H. W. Bush concedeu perdões em 1992. Dois detalhes interessam a esta história. O primeiro é que, seis anos depois da revolução e da crise dos reféns na embaixada, Israel entregava armas americanas ao regime que gritava palavras de ordem contra ele, sinal de que a hostilidade era declarada mas não impedia o negócio. O segundo é que os reféns cuja soltura se negociava estavam nas mãos do Hezbollah, criado três anos antes com instrutores iranianos: a estrutura de procuração servia também como moeda diplomática.

4. Braço de mar entre o Irã, ao norte, e Omã com os Emirados Árabes Unidos, ao sul, ligando o golfo Pérsico ao golfo de Omã e daí ao oceano Índico. É a única saída marítima do golfo, e por ela passa perto de um quinto de todo o petróleo consumido no mundo, além de parcela expressiva do gás natural liquefeito, sobretudo o do Catar. Arábia Saudita, Iraque, Kuwait, Emirados, Catar e o próprio Irã dependem dessa passagem para exportar. A vulnerabilidade está na geografia: o estreito tem cerca de 33 quilômetros na parte mais estreita, e os canais de navegação seguros são muito mais estreitos que isso, com poucos quilômetros em cada sentido, de modo que não há rota alternativa comparável. Alguns oleodutos contornam o golfo, na Arábia Saudita e nos Emirados, mas comportam apenas uma fração do volume. Daí a expressão corrente de que Ormuz é o ponto de estrangulamento mais importante do planeta. Fechá-lo, porém, é arma de duplo fio: o Irã escoa por ali o próprio petróleo, que é sua principal receita, e prejudicaria os vizinhos do Golfo cuja neutralidade lhe é útil, além de provocar resposta militar internacional quase certa. Por isso a ameaça é recorrente na retórica iraniana desde os anos 1980, na chamada guerra dos petroleiros contra o Iraque, e nunca se converteu em bloqueio prolongado. Funciona menos como plano e mais como instrumento de pressão: a simples possibilidade já move o preço do barril, e é isso que explica o salto de cerca de 70 para 103 dólares mencionado acima.

Citar este artigo: Prof. Philippe Ávila. “Entendendo a guerra Israel x Irã: você sabia que Israel e Irã já foram aliados? O que aconteceu em 1979 que mudou isso? Compreenda tudo isso de uma vez.” Bereano, ago. 2026.© Prof. Philippe Ávila. Conteúdo protegido por direitos autorais. A reprodução é permitida apenas de forma parcial, sempre com citação do autor e da fonte (bereano.com).

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